O retorno da tutoria na educação indubitavelmente passa pelo contexto europeu. De acordo com García Níeto (2008) a incorporação da tutoria no espaço universitário espanhol é recente em se comparando com as universidades anglo-saxônicas, americanas e britânicas.O mesmo ocorre com a tutoria nas Instituições de Ensino Superior em Portugal.
As mudanças ocorridas durante o século XX impulsionaram as universidades européias a incorporarem o Espaço Europeu do Ensino Superior (E.E.E.S.) e a repensarem sobre as novas configurações que essas instituições deveriam aderir para atender às demandas atuais. Seria necessário rever questões de ensino, de aprendizagem, de metodologias, de
avaliação, de gestão etc. e, junto com isso, forçar a universidade a repensar a tutoria como aliada.
García Nieto (2008) enumera alguns dos fatores que levam a considerar a dimensão tutorial como um elemento essencial para a universidade atual na Espanha. Entretanto, acreditamos que se adequam a todo o cenário europeu:
a) A ampliação do número de alunos nas universidades levou à uma despersonalização do aluno que sente a sua identidade perdida em meio à massa, assim, o aluno precisa de um tutor representante da instituição a quem dirigida seus problemas e necessidades.
b) A universidade foi se configurando como uma instituição complexa em todos os sentidos, no que diz respeito à sua estrutura e funcionamento, aos cursos ofertados, aos currículos, dentre outros aspectos e o estudante se sente um pouco perdido em tudo isso e precisam de alguém para orientar e ajudar a entender, a ser localizado no ambiente universitário e convenientemente escolher.
c) O currículo universitário atual é um pouco aberto e suscetível a percursos educativos alternativos (multi-core, obrigatório, opcional, livre escolha, genérico) diante do qual devemos escolher e escolher corretamente e de forma rigorosa, o que é muito difícil sem aconselhamento especializado e tutela.
d) São muitos os fatores que levam os estudantes a desistirem dos estudos ou não concluírem no prazo previsto, mudarem de carreira, ao aumento dos índices de repetência; em geral, os universitários não são orientados corretamente na escolha dos seus cursos. Um bom regime tutorial poderia aliviar esta situação.
e) Os jovens que ingressam cada vez mais jovens na universidade, necessitam de desenvolver o nível de maturidade e autonomia.
f) A lógica de competitividade da sociedade atual exige das Instituições de Ensino Superior um certo nível de qualidade, entendida não apenas como eficaz, mas também a eficiência e funcionalidade.
g) Dificilmente A função tutorial da Universidade no contexto atual do ensino superior uma organização pode ser merecedor de qualidade se não satisfação é contemplado e estima do cliente, neste caso, o estudante universitário, coisa difícil, se não existe relações interpessoais e adequados proximidade, boa acolhida, apoio e comunicação. Ele pode ser função fundamental de um tutorial bem realizado. h) A universidade atual, como um filho fiel de seu tempo, está sujeita a sérios riscos e problemas do que ou os mesmos adultos são livres: abuso de drogas, AIDS, estresse e família abandono, dificuldades em encontrar trabalho, crises emocionais e (...) resposta emocional, novos canais de comunicação e a existência de profissionais que em um ponto trazer o bom conselho, ajuda oportuna e perto da empresa pode ser necessária.
i) Outro fator lembrado foi uma mudança no perfil da média do estudante universitário espanhol, o que ocorre também em Portugal, como o aumento no número de mulheres que entram na universidade e com a incorporação de alunos mais velhos, no caso português, cabe lembrar aqui do acesso dos alunos Maiores de 23, dos alunos trabalhadores, dos imigrantes, enfim, de todos alunos que ingressam na educação superior por acesso especial. Esta diversidade aumenta à medida que a Aprendizagem ao Longo da Vida (LLL) e a mobilidade estudantil no EEES se tornam realidade a cada dia, assim, os processos de ensino e de aprendizagem assumem características diferenciadas e necessitam de tutoria.
j) O conceito de crédito europeu ECTS (European Credits Transfer do System) como um tipo de unidade de avaliação ou medida do trabalho total do aluno, teórico e prático, o apoio a procura de aprendizagem que em grande parte tem que ser autónomo e que, sem a devida orientação, por parte dos professores, pode levar ao desperdício ou a falta de estudo de otimização do tempo (GARCIA NIETO, 2008, p. 29).
Todos esses fatores são apontados por Garcia Nieto (2008) como suficientes para justificar a existência da ação tutorial na educação superior e Zabalza (2011) considera que “todos esses aspectos têm [...] importantes repercussões no desenvolvimento da docência universitária” (ZABALZA, 2011, p. 26).
Embora essas considerações estejam se referindo ao contexto europeu, acreditamos que mudanças sofridas pelas universidades não ocorrem de modo isolado, quando se fala tanto em globalização, sistema, conexão, intercâmbio, troca de experiências, dentre outros termos que retratam o quadro mundial contemporâneo. Isto se dá devido às mudanças provocadas pela revolução informacional – que tem a internet como vedete, possibilitando a quebra de fronteiras – e pelas transformações científicas, que refletem no campo econômico, político, educacional, cultural etc. Portanto, as razões que trouxeram a tutoria de volta para as universidades européias não são idênticas às do Brasil. De todo modo, há algo em comum. O fato é que a sociedade capitalista é muito dinâmica, as coisas ocorrem muito rápido e as Instituições de Ensino Superior precisam refletir constantemente sobre a sua função social e de como sobreviver diante das contradições sociais e dos desafios que se lhe apresentam.
Sobre esse quadro Zabalza (2011) assinala que nos encontramos em meio à mudanças profundas tanto em relação à estrutura do ensino na universidade quanto no que se refere à sua posição e sentido social. O autor afirma que a universidade sempre esteve em processo de mudança de sua orientação e de sua projeção social, contudo,
essa dinâmica de adaptação constante essa dinâmica de adaptação constante às circunstâncias e às demandas da sociedade acelerou-se tanto [...] que é impossível um ajuste adequado sem uma transformação profunda das próprias estruturas internas das universidades. Estamos incorporando, em ritmo de marcha forçada, mudanças na estrutura, nos conteúdos e nas dinâmicas de funcionamento das instituições universitárias com o objetivo de colocá-las em condição de enfrentar os novos desafios que as forças sociais lhes obrigam a assumir (ZABALZA, 2011, p. 18).
Um dos maiores desafios que recaem sobre as IES do mundo inteiro é o desenvolvimento da qualidade dos seus cursos de graduação. No Brasil, esta inquietação cresceu principalmente em função da “ampliação das políticas governamentais de avaliação e acompanhamento dessas instituições” (MASETTO, 2010, p. 11)51, que exigem referenciais mínimos de qualidade como “a organização do currículo de um curso em suas diversas
51 O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), Lei n° 10.861, de 14 de abril de 2004,
analisa as instituições, os cursos e o desempenho dos estudantes. O processo de avaliação leva em consideração aspectos como ensino, pesquisa, extensão, responsabilidade social, gestão da instituição e corpo docente.
dimensões, assim como o desempenho docente competente se apresentam como indicadores fundamentais de qualidade” (Idem).
As IES precisam ter uma nova face sem perder de vista a qualidade do seu projeto de formação, que passa, sobretudo, pelo currículo, pelos processos de ensino e de aprendizagem, pela formação e pela prática docente, pela inserção da ação tutorial como prática pedagógica de suporte para este novo aluno. Se por um lado, nesse processo, percebemos a necessidade de que o aluno seja mais autônomo, por outro, observamos as exigências que se impõe ao professor da educação superior. De acordo com García Nieto (2008),
Dada a importância e a magnitude destas forças impressionantes presentes na sociedade de hoje, a Universidade deve saber enfrentá-los e manter-se à altura das circunstâncias, sabendo confrontá-los com uma espécie de novo currículo, com um tipo de aprendizagem diferente do que está acostumada ou até então, o uso da ação tutorial, no contexto atual de professor so ensino superior que deve caminhar no ritmo das mudanças, assimilando novos papéis. Ou seja, há necessidade de dotar os professores com um novo perfil profissional e humano, uma vez que lhes vão exigir competências, tarefas e funções diferentes, para as quais não pode haver improvisação ou boa vontade, quase sempre necessário, mas nunca o suficiente na educação. (GARCÍA NIETO, 2008, p. 37).
Dessa forma, a docência no ensino superior tem sido submetida a constantes transformações nos seus fundamentos teórico-metodológicos. Nesse contexto, a formação pedagógica assume um papel relevante e inquestionável para a aquisição de saberes e práticas indispensáveis à ação docente, principalmente para assumir novas atribuições, como a de ser tutor, que é o que discutiremos a seguir.