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2. TEORI OG RELEVANT LITTERATUR

2.5 Narrativ terapi

A tentativa de romper epistemologicamente com os conceitos de Segurança Pública, para que eles continuassem presentes no estudo de forma suspensa e deixassem de ser axiomas para se tornarem objeto de análise, foi um processo significativo do ponto de vista existencial. Depois de dez anos trabalhando como gestora e consultora de políticas públicas de segurança municipais, absorvi e me protegi, inconscientemente, atrás de conceitos e paradigmas do Estado, da ideia de criminalidade, de prevenção, Direitos Humanos, entre tantas outras. Desenhar novos caminhos teóricos e suspender antigos foi o primeiro desafio desta pesquisa, sendo que o primeiro impulso foi o de excluir, diante da dificuldade de remanejar hipóteses e mudar o foco da investigação.

A paisagem se modificou quando compreendi que, para realizar a interlocução das pesquisas sociológicas com a elaboração de diagnósticos e com o planejamento e execução de ações do Estado, eu usava uma lente que limitava o meu foco ao olhar de dentro, colocando barreiras à produção de conhecimento sociológico. Eu realmente acreditada que tinha um

olhar “completamente” de fora, ledo engano. Este processo de transformação e de

reconhecimento da relevância do nacionalismo metodológico para a pesquisa sociológica foi essencial para o desenvolvimento da pesquisa, e aparece em todo o percurso do estudo.

A segunda fronteira presente de forma soberana nos bastidores deste estudo é a que se dá entre um o olhar de dentro da fronteira e de fora, sendo este trabalho um exercício de análise da Fronteira, como um espaço onde formas de socialização são vivenciadas a partir das características político-geográficas das cidades-gêmeas de Sant’Ana do Livramento e Rivera. A reflexão proposta se dá sob o desafio constante de desenhar e compreender este

(2001, p.88). Explico: nasci em Rivera, sou doble-chapa212, filha de mãe uruguaia e pai brasileiro, meu parto foi feito por um médico colombiano, sou neta de contrabandistas de couro uruguaios e de tropeiros de gado brasileiros. Fui alfabetizada em um colégio brasileiro e na minha casa só o meu pai falava português, ninguém falava portuñol. Tinha aulas de inglês em uma escola uruguaia, todo meu material escolar era uruguaio, caderno com foto do Artigas213, o primeiro livro que li foi em espanhol. A casa dos meus pais era do lado brasileiro, mas nela só se comia comida uruguaia como guizo, fainá, milanesas puchero, pasqualinas, pastafrolas, ñoquis todo dia 29 e raviólis aos domingos. Nunca comi “porquerias” de brasileiros em casa, como leite condensado, biscoito recheado e salgadinhos.

Conforme a fonte da minha mesada, a moeda era em cruzeiros (cruzados) ou pesos uruguaios, que eu trocava com os cambistas da linha divisória para pegar o ônibus do lado brasileiro que não aceitava pesos. O que sobrava era trocado por dólar, mesmo que fosse um só, os fronteiriços têm em mente que só o dólar se salva das oscilações cambiais. Todos esses trâmites eram feitos por uma criança de dez anos, no final dos anos oitenta.

A primeira vez que viajei sozinha, aos dez anos, foi em um ônibus saído da Terminal de Rivera para Montevidéu. Na Terminal passei os maiores frios214 e alegrias da minha infância e adolescência, esperando a chegada de familiares queridos, amigos, cartas, presentes, etc. Era a conexão direta com Montevidéu, com a vida que para mim era cosmopolita, adulta.

Fiquei dezessete anos longe da Fronteira, quando retornei, a Terminal continuou fazendo parte da vida de todos, lá eu envio roupas usadas para uma prima vender na feira de domingo em Montevideo, envio presentes para minhas sobrinhas e primos. Quando estava fazendo pesquisa de campo em Montevidéu era o mesmo esquema, ia quase todos os dias à Terminal de lá, para buscar café, dinheiro, mimos de toda ordem.

Faço este breve relato na tentativa de aclarar do que estou falando quando digo que sou nativa, para, a partir daí, mostrar alguns recursos que utilizei para sintonizar este olhar doble- chapa, apropriado dos sistemas simbólicos (GEERTZ, 2001), com o da pesquisa acadêmica e os seus conceitos de experiências-distantes. O exercício de estar inevitavelmente envolvida por experiências afetivas, muitas delas inconscientes, e ter isso presente, tanto para aproximar-se quanto para distanciar-se do campo, não é tarefa simples.

212

Nasci em um hospital no Uruguai e fui registrada primeiro como brasileira, depois como uruguaia.

213

General José Gervasio Artigas, político, militar e herói uruguaio.

214

Geertz (2001) trabalha esta questão a partir dos conceitos de “experiência-próxima” e de “experiência-distante”215. A primeira é fruto da vivência do interlocutor e por isso é transmitida de forma natural, com familiaridade sobre o que está falando, enquanto a segunda se refere a uma construção utilizada pelo pesquisador para atingir seus objetivos científicos. Nas palavras do autor:

A verdadeira questão – a que Malinowski levantou ao demonstrar que, no caso de

“nativos”, não é necessário ser um deles para conhecer um – relaciona-se com os

papéis que os dois tipos de conceitos desempenham na análise antropológica. Ou, mais exatamente, como devem estes ser empregados, em cada caso, para produzir o modus vivendi de um povo que não fique limitado pelos horizontes mentais daquele povo – uma etnografia sobre bruxaria escrita por uma bruxa – nem que fique sistematicamente surda às tonalidades de sua existência – uma etnografia sobre bruxaria escrita por um geômetra. (GEERTZ, 2001, p.88).

Utilizando o exemplo do autor, no caso da bruxa, de que estratégias pode se armar o pesquisador, que também é nativo, para que as experiências próximas e distantes possam dialogar ao realizar pesquisa?

Acredito que estar atenta para não perder de vista o que “o objeto de análise” quer saber, e manter, a partir daí, um olhar distanciado (MAGNANI, 2002) seja um instrumento fundamental, reconhecendo os arranjos nativos e jamais negando a sua existência.

Ao mesmo tempo em que sou “de dentro”, a distância geográfica e a formação pessoal

e acadêmica criam um outro lugar, hoje também “sou de fora”. Se por um lado, no meu

imaginário, os municípios de Livramento e Rivera sempre foram uma cidade só, que se chama Fronteira da Paz e que é vista por “todos” com o orgulho, afinal, se vive uma integração, uma das únicas no mundo. Por outro, sempre visualizei um romantismo e uma opção por não olhar este espaço na sua heterogeneidade e diversas formas de sociabilidades. Nunca, antes da pesquisa de campo, havia cogitado a possibilidade de alguém (Estado) conceber a fronteira como um ponto de passagem, uma ficção.

Acredita-se, hoje, que o olhar acadêmico de fora e de longe (MAGNANI, 2002) pode investigar o que há dentro deste objeto precioso da região de fronteira, que é a mesma razão que faz os turistas irem até lá fazer compras: as assimetrias complementares. Da mesma forma, quando o olhar é de perto e de dentro (MAGNANI, 2002), mesmo em pesquisas acadêmicas, a história nostálgica entre mocinhos e os bandidos tende a se repetir, é a Fronteira da Paz entendida como uma totalidade a priori, uma comunidade em que os membros se conhecem e estão ligados por padrões de troca interpessoais harmônicas.

215

É o que Georg Simmel (2005) descreve como cidade pequena em seu trabalho As grandes cidades e a vida do espírito (1903); fechada em si mesma, onde os habitantes estão baseados no ânimo entre as pessoas, nas suas individualidades e nas relações pautadas pelo sentimento. Assim tem sido analisada a fronteira, como um território onde os indivíduos agem de acordo com suas emoções e de forma a limitar a expansão da racionalidade e do

individualismo, ou como categoriza o autor: “(...) na qual se conhece quase toda pessoa que se

encontra e se tem uma reação positiva com todos”.(SIMMEL, 2005, p. 582).

A ideia deste estudo foi olhar para a fronteira por um olhar inverso, como a cidade grande de Simmel (2005), onde as relações e oportunidades dos habitantes costumam ser variadas, complicadas e mediante a acumulação de homens com interesses diferenciados. Nas palavras do autor:

Com isso as cidades grandes obtêm um lugar absolutamente único, prenhe de significações ilimitadas, no desenvolvimento da existência anímica; elas se mostram como uma daquelas grandes formações históricas em que as correntes opostas que circunscrevem a vida se juntam e se desdobram com os mesmos direitos. (SIMMEL, 2005, p. 589)

Mesmo sendo um aglomerado pequeno, meu objetivo, nesse sentido, foi evidenciar as diferentes fronteiras e centralidades nesse espaço fronteiriço, com dinâmicas e alteridades que nelas e delas decorrem, e que o indivíduo é a possibilidade vital de integração destas diferentes esferas, tendo em vista que o cruzam consciente e inconscientemente.

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