4. RESULTAT
4.2 Musikk for følelsar
Com o intuito de esclarecer algumas questões relacionadas à maneira como as famílias tupi guarani compreendem seus deslocamentos territoriais, as relações que guardam com o território que ocupam, e com os parentes que nele vivem é preciso apresentar duas noções frequentemente presentes nas etnografias sobre os povos guarani, a saber, a noção de tekoha (tekoa) e teko ou nhandereko. Para tanto, retomarei algumas discussões que emergiram durante minha pesquisa de mestrado (ALMEIDA 2011) que teve como foco as “práticas de territorialidade” tupi guarani (GALLOIS 2004). Ressalto, no entanto, que há inúmeros
36Sobre a noção de “multilocalidade”, Pissolato (2004) afirma que há uma tendência entre os Guarani a uma
fragmentação política e territorial, e por isso existem múltiplas localidades articuladas por laços consanguíneos, de casamentos e também de alianças. E é a “[...] movimentação de pessoas entre localidades, às vezes muito distantes, que confere ao sistema seu dinamismo: aproxima ou afasta grupos familiares, funda novas localidades; cria áreas de maior ou menor densidade de alianças” (PISSOLATO 2004: 69). Dessa forma, segundo a autora, o universo social Guarani se estende “[...] na medida da memória de seu grupo familiar e de seu acesso à rede de trocas/visitas entre as diversas áreas” (PISSOLATO 2004: 71). E essa prática de caminhar, sua mobilidade, é que coloca o parentesco em funcionamento, bem como, a sociedade, que nas palavras da autora, “[...]se realiza simultaneamente em múltiplos locais” (PISSOLATO 2004: 72).
trabalhos que discutem acerca do termo tekoha, entretanto, minha intenção aqui não é retomar esses debates, mas apenas pontuar os usos locais desse conceito. 37
Durante os trabalhos do Grupo Técnico (GT) da FUNAI, tekoha era um termo constantemente acionado, tanto pelas famílias tupi guarani que residem em Barão de Antonina quanto por aquelas residentes em Itaporanga, para se referir ao território que ocupam e que se encontra em processo de regularização fundiária: o tekoha dos antepassados, nosso território tradicional. Porém, em muitos contextos, o termo tekoha também era apresentado como sinônimo de aldeia38 e, por isso, mencionavam a existência naquele momento de dois diferentes tekoha: a aldeia Tekoa Porã e a aldeia Ywy Pyhaú, os quais faziam questão de enfatizar, eram guiados por diferentes lideranças. Nas reuniões com a FUNAI, era comum ouvir de meus interlocutores, frases como: Precisamos demarcar com urgência esse nosso tekoha! ou Os fazendeiros não entendem que tekoha não é o mesmo que terra deles, do jeito que eles pensam! Em outros momentos, ouvia-se: é preciso que haja assistência para todos os tekoha daqui de Barão e os de Itaporanga (ALMEIDA 2011: 63).
Uma mesma Terra Indígena pode constituir-se por múltiplos tekoha, como pude perceber, por exemplo, através da maneira como explicam a composição atual da T.I. Barão
37 Há inúmeros trabalhos sobre os povos guarani que tratam dessa noção, dentre eles: Pereira (1999, 2004, 2007),
Mura (2006), Mello (2006) e Pissolato (2007). Pereira (2004), por exemplo, aborda tekoha enquanto uma categoria relacional a ser construída, e que ainda que possa ser definido como uma rede de alianças que se
levanta a partir da figura de uma liderança, o autor afirma que “[...] ele continua a ser o lugar onde se realiza o modo de ser guarani” (PEREIRA 2004: 230); “unidades politico-religiosas”, que articulam diferentes parentelas (PEREIRA 1999: 94-95). Mura (2006), em contraposição a Pereira (2004), considera tekoha como uma unidade política, religiosa, mas também territorial, “[...] onde este último aspecto deve ser visto em virtude das características efetivas – materiais e imateriais – de acessibilidade ao espaço geográfico, e não de mera projeção de concepções filosóficas pré-constituídas” (MURA 2006: 121). Já Mello (2006: 98) associa a noção de aldeia ao tekoha, afirmando que se constituem por uma “família extensa” que se mantêm, de forma prolongada, em uma dada localidade, em virtude de suas relações próximas com o território e com a região. Proximidade essa que é expressa nas referências aos antigos que ali residiram, aos lugares que permitem, tal qual os antigos, que “vivam sua forma tradicional de vida”. Pissolato (2007), para além de uma dimensão espacial, define o tekoa enquanto a realização de um modo de vida , do teko, segundo a autora é preciso “[...] que o tekoa seja relativizado enquanto categoria espacial” (PISSOLATO 2007: 122), ainda que a realização do teko implique um uma dimensão espaciotemporal, o tekoa não se define apenas por ela, estando o foco na busca por lugares, “no caminhar em si”.
38 Importante destacar as reflexões de Testa (2014) a respeito das traduções realizada por seus interlocutores
guarani ao utilizarem tekoa enquanto sinônimo de aldeia, o que segundo a autora trata-se de uma simplificação na comunicação com pessoas não guarani. De acordo com Testa (2014) a “[...] palavra aldeia pode facilmente levar a um entendimento que enfatiza e reifica os limites espaciais de um lugar, deixando de lado aspectos fundamentais dos tekoa [...] Inclusive, é possível perceber que os Mbya frequentemente usam os termos tekoa ou aldeia para se referirem à organização social de um espaço que é compartilhado por diferentes núcleos de famílias mbya, nhandeva e kaingang.” (TESTA 2014: 12). A autora aponta que “[...] é preciso enfatizar que um lugar não é apenas um espaço físico. Fazer um lugar, como é o caso dos tekoa mbya, é um processo que exige cuidar continuamente para que ele não se desfaça” (TESTA 2014: 13). O que vai ao encontro do que afirmam meus interlocutores tupi guarani, que indicam, ao utilizar o termo aldeia, que se trata dos locais onde constroem suas casas, escola e outros espaços de convivência, e mesmo que em alguns contextos possam se referir a elas como tekoha, o contrário não seria possível, visto que tekoha, para além de um espaço físico diz respeito, também, às relações constituídas entre aqueles que vivem juntos.
de Antonina, afirmando que ela é composta de dois distintos tekoha: Ywy Pyhaú e Karugwá. Observei que tais diferenças são enfatizadas, sobretudo, nas relações que as famílias tupi guarani tecem com a Secretaria de Educação de Itararé, que não compreende a necessidade de haver duas escolas na T.I., dado a proximidade entre as aldeias e o transito fácil entre elas. Tais diferenças também são marcadas na maneira como cada aldeia organiza suas lideranças. Ywy Pyhaú conta com um cacique e um vice-cacique e durante a tomada de decisões, o mais comum é que todos se reúnam no pátio da escola ou no quintal de uma das casas para expor suas opiniões sobre determinada questão. Já em Karugwá, além do cacique e do vice-cacique, os jovens professores também atuam como lideranças, o que, de certa forma, facilita a comunicação com todos os moradores da aldeia, que têm o triplo de habitantes de Ywy Pyhaú. Explicam que apesar de serem todos parentes, cada tekoha tem suas particularidades e suas decisões devem ser respeitadas, de modo que não há qualquer possibilidade de lideranças de um determinado tekoha querer impor suas decisões sobre os demais. Como bem explica Marcílio: as pessoas que vivem juntas é que sabem o que é melhor para elas, e por isso cabe a elas decidir os rumos que irão tomar, aqui é assim, um cuida do outro.
Com relação ao termo teko ou nhandereko, foram poucas as referências de meus interlocutores a ele, restringindo-se em geral, à interlocução com instituições como a FUNAI, SESAI ou Secretaria de Educação. Ao mencionarem esse termo era comum traduzirem-no, para o português como modos de ser. Lembrando que esses modos de ser, não remetem apenas à maneira como viviam seus antepassados, à forma como se alimentavam com aquilo que plantavam, suas vivências na casa de rezas a escuta de Nhanderu, ou às relações de cuidados com os parentes, mas atualmente também se referem, como apontou o vice-cacique Marcílio, às relações, as formas de comunicação com os juruá, isto é, os não indígenas.
Na literatura etnográfica sobre os povos guarani, tekoha aparece frequentemente como uma referência ao espaço social, político, econômico e territorial no qual se funda as aldeias Guarani, ao passo que teko é traduzido como “modo de ser guarani”. Todavia, como apontou Pissolato (2007), e como apresentei em minha dissertação de mestrado (ALMEIDA 2011), tais conceitos e suas traduções devem ser relativizados, pois podem assumir significados diversos a depender do contexto, não sendo, portanto, categorias fixas, mas em constante transformação. A partir de seu trabalho junto a alguns Mbya no Rio de Janeiro, Pissolato (2007) compreende o tekoha enquanto uma manifestação do teko, o qual, por sua vez, não existe enquanto um dado, mas se configura enquanto a busca em si: por lugares, saberes, alegria, dentre outras coisas que possibilitam aos Guarani-Mbya viverem bem. Nesses termos, cada pessoa tem seu teko, seu jeito, seu costume e uma multiplicidade de caminhos para
mudar sua própria condição de vida. Porém é preciso também, considerar que “[...] esta dimensão não anula, mas pelo contrário, inclui aquela outra de seguir uma determinada orientação, ou estar atento ao que contam os antigos” (PISSOLATO 2007: 120).
De minha parte, o que pude notar através das explicações de meus interlocutores tupi guarani, é que tekoha se constitui enquanto um lugar onde podem viver juntos, mas que só adquire sentindo quando se compreende que viver juntos não implica para as famílias tupi guarani apenas em estar junto, isto é, em companhia uns dos outros em determinado lugar, mas, acima de tudo, envolve cuidados recíprocos. O foco encontra-se, assim, menos no espaço físico e mais nas relações entre as pessoas, entre elas e os locais que Nhanderu lhes revela e os parentes que outrora ocuparam esses lugares. A isto se soma outros fatores que, em conjunto, exprimem aquilo que essas famílias tupi guarani afirmam ser uma terra boa, como: áreas grandes o suficiente onde seja possível construírem suas casas a uma boa distância uma das outras e abrirem suas roças; e que sejam envoltas por cursos d´água, mata, bichos, dentre outras coisas. Dessa forma, otekoha vai muito além de um espaço que pode ser compartilhado por diferentes núcleos familiares39, não sendo ele apenas um espaço físico, mas como bem apontou Testa (2014), é preciso constantemente fazer um tekoha, e se atentar para que ele não se desfaça, por meio de cuidados mútuos entre aqueles que vivem juntos.
O foco é tanto nas relações que fundamentam um tekoha que o seu próprio nome tem como referência pessoas específicas e suas relações. O nome Ywy Pyhaú, por exemplo, e conforme apresentado no início deste capítulo, foi revelado a D. Juventina em sonho e fazia referência à aldeia que seria fundada por D. Juraci. Quando ocorreu a mudança da T.I. Araribá para Barão de Antonina, D. Juraci não só guiou sua família em direção ao referido local, como também levou consigo o nome da aldeia. Mais tarde, com a cisão em duas aldeias e, em consequência disso, sua mudança para a área norte do município, o nome Ywy Pyhaú também a acompanhou. Já a aldeia nova que se formou a partir daqueles que não seguiram com ela denominou-se, como apresentei anteriormente, de Karugwá. Em 2013, com o retorno de D. Juraci e seus familiares para as proximidades da aldeia Karugwá, aliada à maneira segmentada com tal mudança foi realizada, pois primeiro veio D. Juraci e depois seus filhos e netos, explicaram meus interlocutores que não se podia dizer naquele momento que existia ali um tekoha. Somente quando todos estavam reunidos novamente é que se voltou a falar em
39 De acordo com Pereira (1999) o tekoha é composto pela reunião e cooperação entre várias parentelas aliadas
ou aparentadas, e dessa maneira se constitui enquanto uma associação de unidades supralocais, que se mantêm coesas por motivos religiosos e políticos em torno de um líder de prestígio. Entretanto, é a cooperação entre parentelas e a periodicidade variável de permanência em um tekoha um dos fatores que contribui para seu dinamismo.
Ywy Pyhaú, antes disso, esse local, onde ergueram a estrutura da aldeia, era referenciado como o lugar onde estamos construindo nossas novas casas. Vale notar que D. Juraci quando fala sobre suas tristezas e a vontade de deixar determinado lugar, alguns de seus filhos costumam interrompê-la para dizer: se a mãe for embora daqui, a aldeia acaba, não vai mais existir! Isso ocorreria mesmo que seus filhos e outros parentes continuassem morando nessa mesma localidade.
As famílias tupi guarani com as quais trabalhei, explicam, que os nomes dos lugares são como os nomes dados as crianças, ou seja, não podem ser inventados, mas sim revelados por Nhanderu. Aqueles que o recebem devem carregá-los e mantê-los, o que justifica o empenho de D. Juraci em manter seus filhos próximos a ela e suas sucessivas tentativas de apaziguar conflitos entre eles. Suponho, a partir disso, que os nomes não estão circunscritos apenas a uma determinada localidade, visto que os lugares que ocupam são variáveis, mas fazem referências às relações entre aqueles que ali vivem e viveram, e que necessitam ser cuidadas e refeitas constantemente. E por essa razão, não é qualquer lugar que lhes interessa. Ao discorrer sobre o território que hoje ocupam as famílias tupi guarani sempre remetem aos parentes que outrora o ocuparam, fazendo referências a esse lugar enquanto uma possibilidade de se fazer Ywy Marãe’y, nossa Terra sem Males. É o que nos aponta o relato de Marcílio sobre a chegada de sua família no município de Barão de Antonina:
[...] Uma coisa que eu fiquei assim quando nós chegamos lá, minha mãe, minha avó, elas fizeram acompanhamento pra nós entrar lá dentro né? A vó Júlia quando ela chegou lá, ela falou pra nós: aqui onde vocês vão entrar, aqui é terra de índio, aqui morou nossos antepassados, porque eu sinto isso[...] (ALMEIDA 2011: 40).
Nota-se em sua fala que a ligação com o território vai além de sua compreensão enquanto um espaço destinado à subsistência e reprodução física dessas famílias; é preciso sentir-se parte dele. Além do mais, como verificou Garlet (1997) entre alguns Guarani-Mbya, o tekoha ideal é o tekoha sonhado, e é a busca pelos lugares revelados em sonhos que move as famílias tupi guarani, sempre à procura por locais onde possam viver bem. São esses os lugares que possibilitam que atinjam aguyjé, a perfeição (CADOGAN [1959] 1997) ou, como apontou Pierri (2013a), sua “maturação corporal” e também espiritual, constatação esta, que
vai ao encontro do que indicam meus interlocutores, ao afirmarem que aguyjé, é ter muita força. 40
1.5. Os esforços para permanecer nesta Terra: fazendo e refazendo tekoha,