2. TEORI OG RELEVANT LITTERATUR
2.3 Låtskriving
As mudanças corporais não podem ser tomadas apenas como signos das mudanças de identidade social, mas como seus correlatos necessários, e mesmo mais: elas são ao mesmo tempo a causa e o instrumento de transformação das relações sociais. Isso significa que não é possível fazer uma distinção entre processos fisiológicos e processos sociológicos; transformações do corpo, das relações sociais e dos estatutos que condensam são uma coisa só. Assim, a natureza humana é literalmente fabricada ou configurada pela cultura. O corpo é imaginado, em todos os sentidos possíveis da palavra pela sociedade. (...) O social não se deposita sobre o corpo como um suporte inerte, mas o constitui. (CASTRO, 2011, p.72)
É evidente que o objeto dos fluxos de mercadorias diferenciam também a relação entre o Estado e o indivíduo. No mercado das moralidades, os produtos “importados” por brasileiros são considerados fúteis, especialmente se comparados às mercadorias consideradas de subsistência consumidas pelos uruguaios no Brasil. A moral, segundo Brito (2013), no seu estudo sobre a Sociologia das Moralidades, apesar do seu ascetismo e violência implícitos, remete a discussão para o terreno do conflito social e da disputa acerca do que é bom e justo, criando uma relação de tensão entre o comportamento particular do indivíduo e o todo universal que se lhe impõe.
206
Implementada na Fronteira do Uruguai com a Argentina, conforme analisado no Capítulo IV.
207 Reportagem do Diário “El pueblo de Salto”. Disponível em: http://www.elentrerios.com/politica/tabare-
quotvamos-a-ver-si-sacamos-el-0-kiloquot.htm. Acesso em: 17 dez. 2014.
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A concepção de fronteira como um espaço integrado, “a mais irmã de todas”, onde tudo se mistura na língua, nos casamentos binacionais e no comércios, corresponde, segundo Brito (2013), a um dos pilares da Sociologia que é a ideia de que os valores morais são socialmente cosntruídos e têm uma natureza histórica, interessada e contigencial. Para a autora, a ideia de que mesmo as tentativas de universalização acabam por obedecer a algum interessse situacional é limitada, tendo em vista que a ideologia da universalização da moralidade é também um jogo social. Nesse caminho, coloca-se o problema na natureza específica dos valores morais em oposição à ideia de construção social de valores, que fundamenta a Sociologia como disciplina. Sobre essa discussão, provoca a autora:
Segundo – e esse argumento, apesar de mais importante, talvez apresente-se com mais dificuldades de ser aceito – o que está em jogo é a moralidade da própria análise sociológica. Se a moralidade é compreendida como apenas mais um aspecto da vida social e, consequentemente, aplica-se a todos os valores a noção de que estes
são verdadeiros porque foram ‘socialmente construídos’, não há como rejeitar a imoralidade. Aplicar a ideia de ‘construção social’ também às praticas da ética e
moralidade retira destas o que as caracteriza primordialmente: a fundamental diferença de valores. Sem o reconhecimento da irredutibilidade dos valores, as relações morais se tornam equivalentes a quaisquer outros jogos sociais. (BRITO, 2013, p. 4)
Na análise do “lugar” da moralidade no pensamento sociológico, defende a autora que
foi o trabalho de Durkheim que abriu possibilidades de novas questões sobre o pensamento da moral, especialmente ao revelar os processos que se desenvolvem a partir da tensão entre particular versus universal, indivíduo versus sociedade. A sociologia durkheimiana, nesse sentido, apesar de ser criticada por apresentar o mundo das regras sociais como externo ao indivíduo, seria a descrição mais fiel da experiência moral, tendo o Clássico dado um passo adiante dos filósofos morais ao demonstrar que as escolhas morais não são apenas processos mentais, mas que estão imbricadas no mundo da coerção social. (BRITO, 2013) 209
Trazendo para o tema das moralidades nas fronteiras, entende-se que a experiência social da moralidade forma um contexto, um mercado de práticas e concepções que se reúnem
de forma vital no universo de cada indivíduo. As “outras” fronteiras, como desdobramentos
produzidos a partir da fronteira entre as duas soberanias, só existem em razão das pessoas e de
suas “vidas em comum”. No sentido proposto por Todorov (2014), as soberanias, para
existirem, anulam a vontade do indivíduo:
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Acredita-se que a análise da fronteira por meio das discussões acerca da “Sociologia das Moralidades” pode ser um tema para outra tese, especialmente a partir das construções teóricas de Elias (1990, 1993), acerca das relações entre o indivíduo e a civilização.
Um termo, particularmente importante, que caracteriza o polo da violência do homem, é a soberania. Os reis dos povos antigos eram soberanos, no sentido em que nenhum obstáculo limitava seu poder. (...)No entanto, o desenvolvimento da soberania de um sujeito implica a anulação de todos os outros, seu desaparecimento ou sua redução à escravidão: uma isntrumentalização que aliena sua vontade. Para o soberano, os outros se dividem em duas categorias: por um lado, libertinos semelhantes a ele; por outro, vítimas submissas. Qualquer reconhecimento destas vítimas, por ele, limitaria a soberania. (TODOROV, 2014, p.62).
As limitações soberanas, assim como as dinâmicas sociais das margens, se traduzem por um mercado de moralidades não contingenciais ao indivíduo “fronteiriço”, criando paradoxos e integrações entre sociabilidade e experiência única, intransponível de cada pessoa real. Nesse caminho, explica Todorov (2014) o homem é um ser duplo (assim como as margens na fronteira). Entende o autor, citando Bataille:
A vida humana é constituída de duas partes heterogêneas que nunca se unem. Uma racional, cujo sentido provém das finalidades úteis, consequentemente, subordinadas: esta é a parte que se revela à consciência. A outra é soberana, se ocultando, de qualquer maneira, à consciência. (BATAILLE, 1979 apud TODOROV, 2014, p. 61).
Seguindo o raciocínio do autor, é o comportamento social do homem o terreno sobre o qual a moral é contruída e, portanto, onde pode existir de fato uma integração de culturas e sociabilidades entre dois países. Nas “fronteiras vivas” de Sant’Ana do Livramento e Rivera, o encontro se dá em uma cosmologia que não pode ser traduzida racionalmente, pois envolve o aparelho psíquico e o corpo de cada Self, na perspectiva desenvolvida por Winnicott:
(...) o self, que não é ego, é a pessoa que eu sou, que é somente eu, que possui uma totalidade baseada na operação do processo maturativo. Ao mesmo tempo, o self tem partes e é, na verdade, constituído destas partes. Tais partes se aglutinam, num sentido interior-exterior no curso da operação do processo maturativo, auxiliado, como deve sê-lo (principalmente no início) pelo ambiente humano que o contém, que cuida dele e que de certa forma ativa facilita-o (...). (WINNICOTT, 1982, p. 49).
Entende-se que é no Self onde todas as fronteiras, decorrentes dos limites estatais, interagem e operam nas representações sociais dos sujeitos em relação ao que pode ser compreendido como fronteira.210 Em cada universo individual, a fronteira possui um significado, que não necessariamente se expressa nas práticas e sociabilidades, objeto de observação da Sociologia, podendo estar escondido em outras respresentações, menos
210
Outros desdobramentos desta análise podem ser pensados a partir da Teoria das Representações Sociais, desenvolvida por Moscovici (2005).
acessíveis em um estudo sobre a presença do Estado nas suas margens, como ensina Winnicott:
Toda a experiência é tanto física quanto não-física. As ideias acompanham e enriquecem a função corporal e o funcionamento corporal acompanha e realiza a ideação. Também deve-se dizer da soma de ideias e recordações que elas gradualmente se separam no que é acessível à consciência, no que só é acessível à consciência em certas circunstâncias e no que fica no inconsciente reprimido, inacessível à consciência devido ao afeto intolerável. (WINNICOTT, 1982, p. 356).
Nesse caminho, considera-se que o Self Fronteiriço é o produto de relações e dinâmicas sociais que estão vivas tanto nos processos psíquicos, que envolvem identidades, reconhecimento e afetos, quanto no que é externo ao indivíduo, transformando-o em “criador
e criatura” do que se propõe ser: um mercado fronteiriço de moralidades.
Dessa forma, desdobrando a análise em outras fronteiras/encontros disciplinares, como com a Psicologia, a Antropologia e a História, chega-se ao “local” onde todas essas linhas se cruzam. Acredita-se que é neste emaranhado de processos conscientes e inconscientes do que seja viver em um lugar transnacional, onde há a possibilidade de uma experiência de níveis de integração, é no que está por trás da “vida em comum” de cada fronteiriço.
Assim, em que pese o encontro destes dois municípios/países não possa ser conhecido de forma exaustiva em uma tese, onde os atores e as regras sociais criam e são criadas pelo espaço/cenário, simultaneamente. Diante do percurso analítico deste estudo, entende-se que as cidades de Sant’Ana do Livramento e Rivera são cidades-gêmeas somente no que diz respeito às Soberanias dos Estados, da vida que nasce junta em um mesmo território. Entretanto, não são univitelinas, são formadas por “óvulos” distintos e os indivíduos identificam esta distância, na mesma medida que identificam o limite divisório e a linha, cuja demarcação, imutável cartograficamente, se movimenta em redes e fluxos, redesenhando o espaço em torno dass assimetrias complementárias de uma economia de fronteira, a qual faz parte de uma rede que envolve outras fronteiras, legais e morais, de continuidades e desconstinuidades. Um processo que começa e termina em um mesmo território, geograficamente contínuo, formando o que se pode chamar de Mercado Fronteiriço, alicerçado nesses cruzamentos de relações materias e imateriais.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS