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N ORDIC D EFENCE C OOPERATION (NORDEFCO)

In document Adaptive Acquiescence? (sider 64-67)

As crónicas especificamente dedicadas aos estrangeiros revelam uma aber- tura cosmopolita singular, como as duas dedicadas ao Brasil, as quatro aos Estados Unidos da América e uma aos Húngaros.

“Para que serve um hino” dá o título à crónica de 13 de Setembro de 2003, na qual se compara os hinos do Brasil e de Portugal. O contraste entre o “bélico hino” (Ib.: 263) português e a doçura do brasileiro, no qual “a palavra «amor» surge diversas vezes”, como “esperança”, “sonho”, “futuro”, céu “risonho e limpo”, “sol da liberdade” (Ib.), é notório: “Salta ao ouvido, acima de tudo, a insistência no refrão «Pátria amada, Brasil»” (Ib.). A relativização da polémica em torno do hino nacional, a propósito da sugestão de o mudar, por António Alçada Bap- tista, que esbarrou com a reacção dos “puritaneiros do status-quo” (Ib.: 264) e a indiferença dos intelectuais, é feita a partir da concessão de que “as crianci- nhas não se tornam mais agressivas ou cruéis por gritarem às armas e contra os canhões” (Ib.) e “que uma colher diária de fanfarronice e pugilato torna as crian- ças bastante mais calmas” (Ib.), já que “só quem nunca educou uma criança pode acreditar que a total ausência de imagens violentas [. . . ] as tornaria uns anjos” (Ib.). Mas, para além do anacronismo de uma luta contra os espanhóis, porque “contra os mouros já não está na moda lutar” (Ib.: 265), “a letra do nosso Hino, em termos práticos, não serve para nada do que é suposto servir: não galvaniza, não entusiasma, não comove, não une” (Ib.). A energia que se desprendia dos milhares de brasileiros, repetindo “em uníssono «Pátria amada, Brasil», debaixo de uma tenda de circo [. . . ] na sessão inaugural dessas jornadas literárias, cujo tema central era «a arte de inclusão»”, foi inesquecível para a cronista. Tal como o hino, que promove “tónicos tão básicos”, como “esperança, sonho, riso, sol. E, sobretudo, amor. Prazer de amar, de fazer do mundo uma imensa pátria amada” (Ib.: 266), evoca-se a energia da organizadora Tania Rössing, e Sérgio Vieira de Mello, “que representava o melhor do Brasil em forma de pessoa”, bem como “o infinito do sonho” como emblema do “melhor do Brasil” (Ib.).

Na semana seguinte, a crónica de 20 de Setembro, “Cinema Brasil” reduz as eventuais reacções ao Brasil em termos antitéticos de amor e ódio, não admi- tindo a indiferença. No caso da cronista, desde a adolescência, é a de paixão absoluta, “através da figura Clarissa (de Veríssimo) e das iluminações de Clarice (Lispector), das canções de Chico e de Caetano, dos poemas de Drummond e da matemática narrativa de Machado de Assis”:

que essa foi uma das aprendizagens essenciais da minha vida. Porque o choro, no Brasil, faz-se com o molde do riso, sobras de sal, cinzas de sol – matérias de ressurreição, como a música (Ib.: 267).

Até a gigantesca São Paulo encanta a cronista, fazendo dela, como a Eduardo Prado Coelho, em relação ao Rio de Janeiro, “gato-sapato” (in Tudo O Que Não Escrevi, vol. II): “A má-língua tem, mais vezes do que se pensa, este efeito perverso de sedução inesperada; o frustrar da expectativa de desilusão vale mais do que uma ilusão inteira” (Ib.: 268). O que a fascinou, como primeiro traço, “foi a marca arquitectural intensa e intensamente desarrumada da cidade, o animado bate-papo entre acaso e planificação, beleza a esquadro e safadeza descarada” (Ib.). A “descoberta de dois jovens cineastas brasileiros de imenso talento: Jorge Furtado, realizador de O Homem Que Copiava e Guel Arraes” (Ib.: 269), com a comédia Lisbela e o Prisioneiro, permite comparar o cinema brasileiro com o português: “os dois filmes acabam por convergir na felicidade final – uma felicidade estranhíssima para quem chega deste país da inteligência da infelicidade que é Portugal” (Ib.: 269-270). A “má desculpa” para a ditadura não cabe no Brasil, já que “teve ditadores bem mais musculados do que os nossos e nem por isso desistiu” (Ib.: 270). Uma vez que “nos viciámos na sedosa volúpia da infelicidade” (Ib.), “precisamos deste novo cinema brasileiro como de música para o corpo” (Ib.).

“Enquanto os cães correm” é a primeira crónica dedicada aos Estados Unidos da América, com data de 29 de Março de 2003. A proibição de os cães andarem na rua sem trela leva os nova-iorquinos a encontrarem como alternativa o dog run, no parque de Tompkins Square. A “clássica moda americana de enriquecer através da culpa alheia” (Ib.: 195) é agora favorecida pela recessão. Por isso, “há que prevenir um eventual processo” (Ib.) por causa da mordedura dos cães. É um “frenesi processual”: “contra as multinacionais do tabaco ou da comida de plástico” (Ib.); contra a Câmara, por causa de um buraco na rua; contra “a vizinha se nos oferecer um pudim de ovos com salmonelas” (Ib.) . . . Num país “onde o conceito de segurança social não existe”, a segurança é “a grande obsessão do dia-a-dia americano”; “já era mesmo antes do apocalíptico 11 de Setembro” (Ib.: 196): “Quem não tem dinheiro para pagar um seguro de saúde não pode dar-se ao luxo de adoecer” (Ib.). Em contraste com a leitura silenciosa dos “jornais que cheiram a pólvora fúnebre” (Ib.: 197), “quem se alista nas Forças Armadas tem direito a estudos universitários gratuitos, o que faz da tropa dos Estados Unidos a incarnação derradeira do sonho americano: luta por esta terra e esta terra recompensar-te-á” (Ib.). Tudo isto faz com que a percentagem de ‘pacifistas’ seja pequena, enquanto os candidatos actores da Broadway “partilham este sonho –

mas só uma percentagem ínfima o atingirá” (Ib.) e se espetam agulhas à vontade no “Voodoo George”, “um boneco de pano com o rosto de George Bush”).

Nova Iorque volta na semana seguinte, com crónica “Lucro marginal”, de 12 de Abril. A amizade com Jorge Colombo e as conversas sobre o objecto estético e político da arte ou sobre o “eterno duelo Eça-Camilo, o Benfica-Spor- ting da cultura portuguesa” (Ib.: 199) permitem descobrir uma outra cidade, “independente do encanto de Woody Allen” (Ib.: 200), a da “idade adulta”, com “o teatro, mais ou menos bem encenado, da sua superação” (Ib.), e com o filme The Royal Tennenbaums, de Wes Anderson, “uma sonata de engate entre a inteligência e a melancolia” (Ib.). O “microcapitalismo em todo o seu esplendor ecológico: nada se perde, como tudo se ganha, tudo se transforma” (Ib.: 201) faz- -se notar na venda de “revistas do mês passado a menos de metade do preço de capa” (Ib.), de “guiões de filmes célebres em bancas de rua” (Ib.) e de livros com “quase todas as novidades da estação a preços de saldo”, na “gigantesca Strand ” (Ib.). Os menus económicos sucedem-se de acordo com “o espírito criativo dos pobres aspirantes a ricos de comedouro em comedouro” (Ib.), esporeado pela crise. Os bares e cafés, com gente da classe média, sempre cheios, são sinal de que “não abandonar os nossos vinte anos é também um acto político [. . . ] – saber persistir nesse olhar transparente, disponível para o outro. E conservar o dom das lágrimas, em cuja cintilação se encontra, intermitentemente, o sentido do mundo” (Ib.: 202).

Inês regressa a esta cidade com a crónica “De Nova Iorque ao fim da noite”, de 23 de Outubro de 2004. O talento dos artistas jovens e as suas dificuldades de sobrevivência, acentuadas pela crise, como Alexis Karl e Orly Cogan, merece o olhar admirativo da cronista:

Mas sei que há uma verdade nestes retratos das amigas de Alexis. A espes- sura do óleo agarrou os resíduos das conversas entre pintora e modelos ao longo das horas de pose. A cintilação da amizade, oxigénio essencial neste mundo de jovens artistas sem dinheiro, comunica-se naquelas pinturas. Não sei se são boas se não. Sei que me comovem (Ib.: 436).

A luta “por aquilo em que se acredita” anima estes e outros jovens talentos: “Sabem que o tempo é de crise e que o território das artes visuais nunca será fácil – exige muito mais tempo e dinheiro do que aquele que dá em troca” (Ib.: 436-437). A dependência do “mutante gosto dos sempre poucos colecionadores” atinge também os artistas “com uma obra consolidada e que expõem nas gale- rias de Nova Iorque” (Ib.: 437). A energia “que está entranhada na respiração da cidade”, “sempre mais forte do que tudo”, impede que nela se encontre “a melancolia lânguida da nossa afável Lisboa, o choro da crítica que não vem ou pela exposição adiada” (Ib.). A luta dos apoiantes de Kerry contra a abstenção

nas eleições presidenciais de Novembro, lembrando que “a reeleição de Bush representaria um retrocesso concreto nos direitos das mulheres”, “não atenua a torrente de famílias que invade as galerias de Chelsea, aos fins de semana, nem os rios contínuos de turistas que enchem todos os museus e espectáculos da cidade” (Ib.: 437-438). Por fim, a descoberta em Lisboa de Noite Escura, “a obra-prima de João Canijo, um filme feminista [. . . ] que é mais do que uma viagem ao fim da noite dos bares de alterne, um retrato do país, traçado no fio da faca” deixa na cronista a “alegria de encontrar o filme em estreia – e a tristeza de encontrar o país um pouco mais apimbalhado e lúgubre do que o deixara, perigosamente parecido com a desesperada espelunca de negociatas e terrores de que este filme prodigiosamente fala” (Ib.: 438).

O arquétipo da Cinderela é utilizado na crónica “Monica, a indelével”, de 3 de Maio de 2003, a propósito de Monica Lewinski, a qual, “com um simples bacharelato em Psicologia, conseguiu fazer substituir o presidente dos Estados Unidos” (Ib.: 207). Utilizando a “sugestiva metáfora com que [. . . ] Madonna se autodefiniu (“Sou como as baratas, sobrevivo sempre”)” (Ib.: 207), a cronista regista com ironia a metamorfose de Monica: “ganha agora o estatuto de uma Maria-ajuda-as-outras – depois de, nos primeiros tempos post-clintonianos, se ter transformado numa Maria-vai-com-as-outras” (Ib.: 208). Isto é, depois de “ajudar uma rapariga a escolher o namorado ideal entre vinte candidatos” (Ib.: 207) mascarados, “fez-se militante da magreza e pôs-se a propagandear dietas” (Ib.: 208). Assim, “por dinheiro”, “vendeu a alma ao quilo porque, como explicava então à Vogue americana, arranjar um emprego era «demasiado caótico»” (Ib.). O “mais clássico dos modelos: a Cinderela”, no seu caso, em vez do “solitário sapatinho de cristal, [. . . ] recorreu à ousadia: agarrou o príncipe pela braguilha” (Ib.): “Monica apresentou-se a Clinton como uma saboreadora da vida, e a gula dessa frescura enfeitiçou-o” (Ib.: 209). Vendendo “esse sonho de diferença que a celebrizara”, “tornou-se igual a Hillary, a mulher que se adapta a todos os cânones de um universo hostil pela pura ambição de poder” (Ib.): “o arquétipo de Cinderela ainda rege a ambição das mulheres” (Ib.).

“Navegar em Budapeste” é o título da crónica de 20 de Novembro de 2004. A sobrevivência das palavras, a sua impureza e a identificação de cada país com a sua língua são motivos de reflexão a propósito da língua húngara, “língua sem parentes próximos conhecidos, suave e impenetrável” (Ib.: 444), “que fez com que o corpo da Hungria resistisse, e a dignidade esplendorosa de Budapeste se afirmasse sobre as múltiplas usurpações que teve” (Ib.: 444-445), como, no século XX, os “dois totalitarismos” que a esventraram: “ao holocausto nazi seguiu-se o extermínio comunista” (Ib.: 445). A meditação de Nuno Júdice, no romance O Anjo da Tempestade, sobre “esta treva das ideologias”, é evocada a propósito das “celas de tortura” no Museu A Casa do Terror :

Essa reflexão solitária sobre a morte, e o peso da angústia que recai sobre os ombros do indivíduo quando confrontado com o seu destino final, reduzem-se a nada quando o que está em causa é o sonho colectivo, do qual cada um de nós faz parte, embora não seja mais do que uma peça que pode ser eliminada a qualquer momento, sem prejuízo para o conjunto (Ib.).

A guarda da “memória do Terror”, preservada em museus, é a “mensagem” transmitida pela Europa de hoje, “esta terra magoada que foi capaz de ressuscitar das chacinas decretadas em nome dos paraísos da pureza eterna” (Ib.: 446), para que esse terror se não repita. Ao contrário de Portugal, onde os museus “são só coisa de arte” e “a sede da PIDE [. . . ] é hoje uma casa abandonada” (Ib.). A transcrição testemunhal de Sándor Márai, em As Confissões de um Burguês, o escritor que, “poucos meses antes da queda do muro de Berlim” se suicidara nos Estados Unidos, para onde fugira em 1948, documenta bem o drama dessa Europa dilacerada:

Enquanto me deixarem escrever, esforçar-me-ei por mostrar que houve uma época em que acreditávamos na vitória da moral sobre os instintos, na força do espírito e na sua capacidade de dominar as pulsões assassinas da horda. Objectivo bem modesto, certamente, mas é o único que posso cumprir. Vi a Europa, escutei os seus clamores, assisti à eclosão de uma cultura. . . que mais posso pedir à vida? (Ib.).

2.13. Os escritores, os livros e as leituras

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