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E LEMENTS OF EXTERNAL PRESSURE IN 2015

In document Adaptive Acquiescence? (sider 51-54)

O terrorismo, especialmente presente em quatro crónicas, atravessa em várias outras a temática recorrente da cronista Inês Pedrosa.

Com a coragem que lhe é peculiar, a cronista, em “A sedução terrorista”, des- mistifica, em 17 de Agosto de 2002, o terrorismo nacionalista basco da ETA, bem como todos os bárbaros nacionalismos. A “mitificação extasiada das diferenças” (Ib.: 107), em contraste com “a globalização opressora”, numa complexa gama de opções e imposições políticas, que escapa ao “verdadeiro cristal da humanidade”, a que “podemos chamar bom senso” (Ib.), é o panorama que rege as sociedades:

Os massacres fratricidas dos últimos anos, no coração da Europa, curaram-me rapidamente da doença do nacionalismo. Os bombistas suicidas – jovens, sempre extremamente jovens, o que diz tudo o que há para dizer sobre os ideais dos seus líderes velhos, astutamente velhos – e as bom- bas aleatórias da ETA, mesmo aqui ao lado, rebentaram-me com as últimas réstias de fascínio pelas singularidades territoriais (Ib.: 108).

Se bem que defenda o referendo da independência basca, a cronista não deixa de colocar reservas à “liberdade efectiva” desse eventual acto político, citando do jornal El País a “reportagem aterradora sobre as ameaças que impendem, diaria- mente, sobre todos os que se manifestam publicamente contra a ETA” (Ib.) e a notícia do Público, segundo a qual “dez por cento dos jornalistas bascos confes- sam já ter sido ameaçados” (Ib.). É a gestão do medo, nas palavras de Florencio Dominguez (in Dentro de ETA – la vida diaria de los terroristas, Aguilar, 2002), que põe em causa “o romantismo aventureiro e revolucionário atribuído a esta organização” (Ib.): “Dosear o medo – internamente, através de um jogo cruel de doces e castigos; externamente, através, por exemplo, do «imposto revolucio- nário» – ou seja, extorsões” (Ib.). Desmentindo a visão de Portugal como “um Euskadi bem sucedido” (Ib.: 109), a cronista condena a ideologia da violência: “a um discurso que se escreve com o sangue dos outros, só pode chamar-se cobardia” (Ib.):

Matar por uma Pátria. O que é isso, uma pátria, num mundo cada vez mais interdependente? Percebo que se lute pela manutenção de uma língua – mas essa devia ser uma luta de palavras, escolas, leis. Percebo que se lute pela continuidade das pataniscas de bacalhau, do fado, da memória. Mas não percebo a ferocidade dos nacionalismos. Não percebo porque não há-de a Europa ser uma efectiva federação de Estados, capaz de enfatizar o melhor da sua herança comum. Não percebo nem perdoo o assassínio da menina que brincava, no sul de Espanha, não quero entender [. . . ] nenhum massacre indiscriminado a favor de pátria, religião ou ideologia alguma (Ib.: 110).

Um ano depois do 11 de Setembro de 2001, a crónica “O jogo dos escrúpulos”, de 9 de Setembro de 2002, imaginando, com Paul Beatty (“Cartas para Nova Iorque”, in Libération, de 21 de Dezembro de 2001), “como seria a Nova Iorque

talibanizada e dominada pelas forças da Al-Qaeda”, contrapõe à destruição das Torres Gémeas a não destruição do “nosso mundo” (Ib.: 119):

O que ruiu com as torres foi a nossa capacidade de alheamento do mundo. Como se, até ao dia 11 de Setembro, vivêssemos num simpático e des- comprometido jogo de escrúpulos, numa realidade virtual confortavelmente especulativa, que se resolvia através de uma contradança de princípios e da eloquência das palavras. O 11 de Setembro acabou com esse mundo ado- lescente e vago das afinidades estético-lúdicas, obrigou-nos a tomar partido (Ib.: 120).

A interpelação política é fruto da marca terrorista: “Voltámos a perceber que a política marca tudo o que fazemos e o que somos, não é um lugar exterior, não tem exterior” (Ib.). A relativização dos valores deixa de pautar a nossa vida: “O hediondo ataque terrorista de Bin Laden simplificou dramaticamente o mundo: deixou de ser possível relativizar tudo, afirmar a equivalência de todos os valo- res, justificar o injustificável através de injustificáveis semelhantes” (Ib.). Mas, como em todas as coisas humanas, os problemas subsistem: a impossibilidade de esquecer os mortos, “gente civil do mundo inteiro, incluindo islâmicos, – as- sassinada a sangue frio por homens para os quais a morte dos outros não tem qualquer valor” (Ib.: 121); a onda de popularidade que este crime trouxe a Bush, “de um ponto de vista estritamente político” (Ib.); o “fundamentalismo islâmico de que Al Qaeda se fez braço armado não quer, ao contrário do que insistem em acreditar certos vencidos do marxismo, substituir o capitalismo selvagem por uma sociedade sem classes” (Ib.):

Quer, sim, fazer do mundo um imenso Afeganistão taliban – dirigido pela elite dos mullahs, claro, para que possam reinar, em despotismo absoluto, de origem supostamente divina, sobre um mundo de escravos sem direitos. Não se trata, portanto, de uma guerra de civilizações, perante a qual possamos dissertar longamente e aduzir razões e Histórias de um lado e de outro; trata-se, friamente, de uma guerra entre a História e a Não-História, a possibilidade de dissertação e a impossibilidade de, sequer, escolher (Ib.).

Os atentados criminosos dos Islâmicos em Bali e em Moscovo, sob invocação do nome de Deus, dão origem à crónica “Chamem-me Deus”, de 1 de Novembro do mesmo ano. A “violência dos que se julgam [. . . ] mordomos privilegiados do Todo-Poderoso” (Ib.: 140) leva a cronista “a questionar, à escala universal, a ideia de Forças Armadas”:

Durante séculos, a igreja e a tropa foram utilizadas pelo poder para anes- tesiar as almas: distantes e omnipresentes, o Céu e o Inimigo apagavam as

inquietações individuais e garantiam ao Poder rebanhos infinitos de gente obediente, sem cabeça para interrogar os superiores desígnios dos que tudo decidiam. [. . . ] O fundamentalismo é parte constitutiva de todos os sistemas totalitários, de toda a apologia do inquestionável – e é sobre isso que é urgente reflectirmos, de cada vez que ele rebenta em actos de terror massivo (Ib.: 141).

Na crónica “As mil bandeiras de Nova Iorque”, de 29 de Março de 2003, paradoxalmente, a guerra do Iraque não transparece na cidade que foi vítima do 11 de Setembro, a cidade que “foi construída pelo optimismo inabalável dos sobreviventes – sobreviventes de múltiplos holocaustos” (Ib.: 194). O “mar do consumismo ou da melancolia – enfim, da desistência” (Ib.: 193) mostra um “mundo que está a tornar-se menos óbvio”, tendo como “vantagem imediata” a “pluralidade de pontos de vista” e como “desvantagem” a “pulverização” e o “individualismo” (Ib.):

Não, não vivemos no fim do doce império dos valores. Vivemos, sim, o fim do ciclo dos impérios, a madrugada da era dos valores – e só não somos capazes de o ver porque não conseguimos habituar-nos a largar o pelo lustroso do pessimismo chique que sempre dá umas aparências de inteligência. [. . . ] É mais fácil decidir, contra a História, que o mundo nunca esteve tão mal, do que assumir o peso do compromisso ético a que o optimismo nos obriga (Ib.: 194).

A questão do terrorismo em Portugal, a propósito da condenação dos “ar- rependidos” das FP-25 e da absolvição dos “outros membros da organização”, “pela impossibilidade de prova quanto à efectiva autoria material dos crimes” (Ib.: 273) é perspectivada, na crónica “Dogville, Portugal”, de 4 de Outubro, do mesmo ano, a partir do romance Ressurreição, de Tolstoi – “Uma existência é um espaço demasiado curto e intenso para a ressurreição” (Ib.: 271) – e do filme de Lars Von Triers, Dogville, “um monumento estético-filosófico de análise do mundo contemporâneo” (Ib.: 273):

Não, a solução não está em explicar às criancinhas que somos todos igual- mente bons e maus, consoante as circunstâncias, e que enquanto se mantiver a desigualdade de oportunidades em que nascemos não nos resta mais do que tentar passar entre os maços de dinamite. O terrorismo pode e deve ser evidentemente explicado e, ao nível singular do caso humano, pode até ser compreendido – mas nunca ficar impune. E da pior maneira, que é a de arranjar uns bodes expiatórios entre a arraia-miúda, que pagam a dobrar pelos cabecilhas, os tais Grandes que se safam sempre. O desenlace do caso FP-25 define-nos como um país sem Palavra. E esse é um dos primeiros passos para entrarmos no inferno de Dogville (Ib.: 274).

O “tenebroso 11 de Março” de 2004, data do ataque da Al Qaeda a Madrid é o motivo da crónica “O medo vai ter tudo”, de 20 de Março de 2004. Apesar da oposição do partido vencedor das eleições espanholas (PSOE) à guerra do Ira- que, a cronista entende a declaração da retirada imediata das tropas espanholas daquele país, “três dias depois da bárbara matança da Al Qaeda” (Ib.: 352), como uma cedência “ao terrorismo islâmico”: “um líder político, independentemente da sua posição quanto aos acordos vigentes, não o pode dizer assim – porque, por um lado, minimiza a diferença do seu projecto político e, por outro, pactua, ainda que involuntariamente, com as forças do terror” (Ib.: 352). A crítica à ferocidade da Al Qaeda tem o valor amargo da “inocência das crianças” e dos “desvalidos da sociedade”:

A análise e tentativa de cura das “causas” do terror não basta para o es- tancar. A sua força é exactamente a da cegueira: a Al Qaeda não pára um segundo para pensar na inocência das crianças nem dos desvalidos da socie- dade que toma por alvos da sua chacina [. . . ]. Pouco importa: são “infiéis” (Ib.: 353).

In document Adaptive Acquiescence? (sider 51-54)