A pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo (2001) com 2.502 mulheres brasileiras, revela que um terço delas admite já ter sido vítima de alguma forma de violência física, 27% já sofreram violência psíquica e 11% afirmam já ter sofrido assédio sexual. A projeção da taxa de espancamento dessa pesquisa indica que 2,1 milhões de mulheres são espancadas por ano no país, ou seja, uma mulher a cada 15 segundos. Dentre as formas de violência mais comuns destacam-se a agressão física mais branda, sob a forma de tapas e empurrões e a violência psíquica, como xingamentos com ofensa à conduta moral da mulher e a ameaça através de objetos quebrados e atirados, roupas rasgadas
e outras formas indiretas de agressão. A responsabilidade do marido, ou parceiro, como principal agressor varia entre 53% e 70% das ocorrências de violência em qualquer das modalidades investigadas, excetuando-se o assédio. Outros agressores comumente citados são o ex-marido, o ex-companheiro e o ex- namorado, que somados ao marido ou parceiro constituem a grande maioria em todos os casos. O ciúme e o alcoolismo despontam como as principais causas aparentes da violência.
Em quase todos os casos de violência, mais da metade das mulheres não pede ajuda. Somente em casos considerados mais graves, como ameaças com armas de fogo e espancamento com marcas, cortes ou fraturas, pouco mais da metade das vítimas recorre a alguém para ajudá-las. Em todos os casos de violência, o pedido de ajuda recai principalmente sobre outra mulher da família da vítima, dentre elas mãe, irmã, ou a alguma amiga próxima. Os casos de denúncia pública são bem mais raros, ocorrendo, principalmente, diante de ameaça à integridade física por armas de fogo, espancamento com marcas, fraturas ou cortes e ameaças de espancamento à própria mulher ou aos filhos. O órgão público mais utilizado para denúncias é a delegacia de polícia. A delegacia da mulher é mais utilizada nos casos de espancamento com marcas, fraturas ou cortes, mas, ainda assim, por um pequeno índice de mulheres, apenas 5% (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 2001).
Essas estatísticas revelam a gravidade da situação da violência. Percebemos claramente que se trata de um problema social, uma questão de saúde pública. Mesmo com os recentes avanços políticos parece ser uma questão que merece uma exploração mais urgente e detalhada para haver verdadeiras mudanças comportamentais. As pesquisas seguintes trazem caracterizações da violência em vários estados do Brasil.
Foram encontradas evidências de violência contra mulheres grávidas em três estudos. Entre as gestantes entrevistadas por Schraiber et al. (2002) em uma unidade básica de saúde da cidade de São Paulo (SP), 21,3% delas sofreram agressão física no último mês de gestação.
Porto e Luz (2004) investigaram dez mulheres as quais buscaram ajuda em uma organização feminista de Porto Alegre (RS). A infância dessas mulheres foi marcada por violência doméstica. Quando adultas, a história de violência que permaneceu na memória, concretizou-se no papel de vítimas da violência exercida pelos seus parceiros. A maioria delas disse ter um início de relacionamento afetivo tranquilo, mas o marco da mudança ocorreu no momento da gravidez ou no nascimento do primeiro filho. As autoras concluem que também é preciso acolher e ouvir esses homens, pois a violência doméstica é um problema relacional em que o casal necessita da ajuda.
Kronbauer e Meneghel (2005) ressaltam elevada prevalência de violência durante a gestação em sua pesquisa em uma unidade básica de saúde também no município de Porto Alegre (RS). Os autores demonstram a necessidade de abordar o tema na assistência pré-natal.
Todas as pesquisas trazem a situação econômica como relevante para os casos de violência. Deslandes, Gomes e Silva (2000) revelam a predominância do número de mulheres agredidas com renda familiar de um a três salários mínimos ou desempregadas. Porto e Luz (2004) percebem em seu estudo que todas as mulheres violentadas se encontravam em situação de pobreza e de exclusão social. Além disso, a maioria dos parceiros não se comprometia com as contas do lar. O estudo de Galvão e Andrade (2004) revela que mulheres de camadas de baixa renda foram agredidas; entretanto a dependência econômica não é o único fator que leva essas mulheres a permanecer no convívio com homens agressores. Na investigação de Kronbauer e Meneghel (2005) as mulheres que moravam em condições de favela sofreram mais violência do que aquelas que moravam em situações regulares. Quanto à classe social, os níveis de violência entre as mulheres que pertenciam às classes menos favorecidas (D e E) foram maiores do que entre as das classes mais favorecidas. Porém há que se considerar que mulheres com melhor posição social e econômica raramente buscam serviços de atendimento público, local onde foram realizadas as pesquisas acima.
O estudo de Mota, Vasconcelos e Assis (2007) trouxe dados diversos. As autoras realizaram relações com as condições sóciodemográficas da vítima e
do agressor a fim de traçar grupos que apresentam determinado perfil de violência. Foram investigadas 684 mulheres atendidas em um centro especializado em violência contra a mulher no município do Rio de Janeiro (RJ). Os resultados revelam que lesões graves de origem sexual, foram referidas por mulheres com o ensino médio incompleto e declaradas como não chefes de família. Contrariamente em relação à escolaridade da vítima, foi observado que as lesões graves de origem física e psicológica ocorreram mais em mulheres com ensino superior ou pós-graduação e que se referem como chefes de família. As autoras sugerem que tais mulheres provavelmente não aceitam a violência e revidam a agressão, o que gera um conflito de maiores proporções e agressões físicas mais graves. Já o grupo das mulheres com lesões leves de origem física e psicológica foi associado, prioritariamente, à união entre vítima e agressor de até cinco anos, em mulheres com ensino médio completo e agressores trabalhadores. De acordo com as observações das autoras, essas últimas relações revelam menor tempo de relacionamento e existência de trabalho remunerado, o que provavelmente possibilite a diminuição da gravidade da violência.
Quanto à caracterização das agressões, os estudos em diversas regiões do país revelam dados significativos. Deslandes, Gomes e Silva (2000) descreveram 72 casos de violência contra mulher ao pesquisarem dois hospitais públicos no Rio de Janeiro (RJ). A grande maioria das agressões aconteceu dentro do domicílio, os autores relatam que esse espaço possui a legitimação de privacidade o que evita uma possível interrupção da violência por outras pessoas. O marido foi o principal agressor, o espancamento foi a prática mais realizada. Pela gravidade e circunstância dos fatos, os pesquisadores supõem que sete casos se configuram como tentativa de homicídio.
Schraiber et al. (2002) entrevistaram 322 usuárias de uma unidade básica de saúde na cidade de São Paulo (SP). Descobriram que uma a cada três usuárias do local estudado já foi violentada em sua vida, quase metade delas declarou que a violência doméstica ocorre frequentemente, a grande maioria relatou casos de violência física severa. Contudo, 44% das mulheres não consideram a agressão sofrida como atos de violência. Os autores sugerem que talvez as mulheres não associem a agressão vivenciada em casa com o termo “violência”.
Galvão e Andrade (2004) caracterizaram 470 mulheres atendidas no centro de atendimento à mulher, em Londrina (PR). Nesses casos prevaleceu a violência emocional, quase a totalidade dos casos ocorreu no ambiente doméstico e os principais agressores foram os atuais companheiros.
Kronbauer e Meneghel (2005) investigaram a prevalência e o perfil da violência de gênero em 251 usuárias de uma unidade básica de saúde no município de Porto Alegre (RS). Houve prevalência da violência psicológica, seguida da física e sexual em menor número. A maioria delas sofreu mais de um tipo de violência. As mulheres mais velhas referiram prevalência de violência psicológica e aquelas que apresentaram menos anos de estudo tiveram maior prevalência de violência. Além disso, prevaleceram casos de violência nas mulheres com mais de dez anos de união conjugal, com as que tiveram maior número de gestações e as com maior número de filhos vivos. Mulheres cujos parceiros se recusavam a usar preservativos e mulheres com história de aborto relataram mais episódios de violência física. As mulheres que iniciaram a vida sexual antes dos 15 anos tiveram maiores índices de violência física do que aquelas que iniciaram mais tarde. Homens mais velhos, com menos escolaridade, desocupados ou aposentados, foram os que praticaram mais violências. Além disso, mulheres com maior propensão a apresentar distúrbios psiquiátricos referiram sofrer mais violência do que as demais. As mulheres que declararam possuir ideação suicida revelaram um alto índice de violência.
Os dados apresentados justificam a relevância em aprofundar o estudo da dinâmica da violência. Muitas mulheres, de todas as partes do país, chegam até os profissionais de saúde. Esses profissionais merecem atenção, pois parecem lidar com tensão e trauma durante os atendimentos. No entanto, foram encontrados escassos estudos que apresentam a complexidade dessa relação terapêutica. Dessa forma, a observação da contratransferência pretende contribuir para o enriquecimento no tratamento dessas mulheres.
5.1 Objetivo.
Observar a contratransferência de psicólogas na clínica com mulheres em situação de violência conjugal.
5.2 Local de coleta.
Os dados foram coletados nos centros de referência e atendimento à mulher de uma metrópole brasileira.
Os centros de referência e atendimento à mulher têm como proposta prestar atendimento público psicológico, social e jurídico a mulheres com idade superior a 18 anos, que se encontram em situação de violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral tanto no âmbito doméstico como no âmbito público. Dentre os objetivos desses centros estão a contribuição para o fortalecimento da autoestima e da autonomia da mulher, a promoção de reflexão e discussão da problemática enfrentada e o fornecimento de subsídios para a reconstrução de relações sociais.
O serviço público da metrópole pesquisada oferece nove centros de referência e atendimento à mulher. A pesquisa foi realizada em sete desses centros, sendo um localizado na zona norte, outro na zona sul, outro na zona oeste, dois na zona leste e dois no centro. Desse modo foram abrangidas todas as regiões, levando-se em conta as regiões mais populosas (leste e centro) onde foram pesquisados dois centros em cada.
5.3 Sujeitos.
Psicólogas que trabalham especificamente com a clínica de violência contra a mulher em uma metrópole brasileira.
O estudo foi realizado com dez psicólogas que trabalham nos centros de referência e atendimento à mulher, representando uma amostra de 62,5% do número total de psicólogas que trabalham nos nove centros dessa metrópole.
5.4 Instrumentos.
Entrevista semidirigida com as psicólogas (o roteiro da entrevista encontra-se em anexo – ANEXO C). Registro semiestruturado, descritos pelas psicólogas (o roteiro do registro encontra-se em anexo – ANEXO D).
5.5 Procedimentos.
Inicialmente foi solicitada a autorização da pesquisa à coordenadora municipal da mulher. Com a pesquisa autorizada, as coordenadoras de cada centro de referência e atendimento à mulher foram contatadas, via telefone, para apresentação da pesquisadora e agendamento de encontro no próprio local de trabalho das psicólogas. Nesse encontro foi fornecida a carta de apresentação do projeto (ANEXO A) à coordenadora da instituição e foram expostos o objetivo e procedimentos da pesquisa. Caso a psicóloga aceitasse participar do estudo e concordasse em iniciar sua participação, a entrevista ocorreria nesse mesmo dia. Foi respeitada sua escolha pela não participação do estudo. Caso a psicóloga não concordasse em realizar a entrevista no mesmo dia, ela seria agendada em outro momento.
A coleta de dados aconteceu em duas ocasiões. Na primeira ocasião, foram realizadas entrevistas semidirigidas com essas profissionais no local de trabalho das mesmas, com duração de aproximadamente uma hora. Ao término da entrevista, a psicóloga recebia orientação da pesquisadora a respeito da segunda ocasião da coleta de dados, a qual se trata de registros semiestruturados, descritos pelas próprias psicólogas, imediatamente após um atendimento de uma mulher em situação de violência conjugal. Tais registros seriam buscados pela pesquisadora, no local de trabalho das psicólogas, dez dias após a orientação.
As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas. Os registros foram digitados. A avaliação dos dados das entrevistas e dos registros foi baseada a partir do método qualitativo, através da categorização, do
cruzamento de dados significativos e da análise de conteúdo. A discussão dos dados foi realizada a partir do referencial teórico da psicologia analítica.
5.6 Cuidados Éticos.
Os cuidados éticos estão de acordo com as determinações da resolução 196 de dez de outubro de 1996 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde.
O presente estudo foi submetido à aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Somente após o parecer favorável houve início da coleta de dados. Foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (ANEXO B) aos sujeitos; a entrevista poderia ser interrompida em qualquer momento que a pesquisadora percebesse prejuízos à saúde do sujeito ou se ele mesmo solicitasse sua interrupção; o anonimato das psicólogas manteve-se preservado no sigilo de características que eventualmente pudessem identificá-las; os resultados finais da pesquisa serão entregues, posteriormente, aos sujeitos a fim de que eles se apropriem do material estudado.
No decorrer da coleta dos dados, foram encontradas algumas dificuldades. A começar pelo acesso em três centros de referência e atendimento à mulher, os quais se situam em bairros bastante periféricos. Surgiram também eventualidades para a realização da pesquisa. Duas psicólogas não compareceram no dia da apresentação da pesquisa por motivo de doença. Nenhuma dessas duas psicólogas desmarcou o encontro. Outra psicóloga após conhecer a pesquisa, preferiu iniciá-la no retorno de suas férias, pois estava cansada para falar sobre seu trabalho e outra psicóloga telefonou para a pesquisadora para remarcar a data da entrevista, pois havia assumido outro compromisso na data agendada.
Com relação aos registros preenchidos pelas próprias psicólogas, duas se esqueceram de preenchê-los e quatro disseram que não tiveram tempo de entregá-los na data combinada. Por conta disso, foi solicitado para cinco dessas psicólogas que enviassem os registros por fax ou e-mail na semana seguinte. Duas delas enviaram por fax conforme combinado. As outras três, enviaram por e-mail com semanas e até meses de atraso.
Apenas três psicólogas realizaram a entrevista e entregaram o registro na data combinada. Dessa forma, além da programação inicial houve necessidade de acrescentar quatro retornos aos locais de coleta de dados. Houve também falha técnica do gravador em uma entrevista, a qual precisou ser inteiramente descartada. Assim, os resultados expostos das entrevistas são de nove sujeitos, o que continua representando uma amostra significativa, 56,25 % do número total de psicólogas que trabalham nos centros de referência e atendimento à mulher da metrópole pesquisada. Os resultados expostos dos registros continuam sendo de dez sujeitos, já que foi considerado o registro da psicóloga cuja entrevista foi eliminada.