Jesus é o sinal libertador de Deus. Enviado pelo Pai e ungido pelo Espírito, ele vem instaurar o Reino de Deus, reino de amor e de vida. Esse reino é pregado por Jesus por meio de suas palavras e atos. A vida de Cristo é um referencial do Reino.
A partir dos evangelhos, vemos claramente a opção de Jesus pelos pobres e pecadores. O Jesus histórico não é imparcial. Ele assume a causa dos oprimidos para devolver-lhes a esperança da luta e da conquista que o Reino veio trazer. Com sua opção, Jesus mostra radicalmente que a verdadeira prática da religião não é o culto, a lei ou o sacrifício, mas a prática da justiça e da solidariedade para com aquele que mais necessita.
Jesus fez-se pobre, assumindo nossa pobreza e nossa pequenez, a fim de que pudéssemos participar da sua vida e assim restituir nossa dignidade (Fl 2, 7).
É certo que “Jesus Cristo, existindo na condição divina, não ficou esperando que o ser humano dele se aproximasse; ele tomou a iniciativa de vir ao nosso encontro, tornando-se um dos nossos, um homem entre os homens e um homem servidor”214.
O Senhor veio ao nosso encontro e fez-se pobre por causa de nós, a fim de que fôssemos enriquecidos mediante sua pobreza (cf. 2 Cor 8,9). Por isso, podemos afirmar que,
212 CEC 1380.
213 ALDAZÁBAL, José. A Eucaristia. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 375.
214 RUBIO, Alfonso Garcia. O Encontro com Jesus Cristo Vivo: Um ensaio de cristologia para nossos dias. São Paulo: Vozes, 2007, p. 181.
na pobreza, nós encontramos o Senhor, e que, no pobre, reconhecemos a nossa verdadeira missão.
Essa atitude de Jesus também deve ser a atitude de todos aqueles que decidem segui- lo, ou seja, a permanecer com Ele. A atitude de Jesus é a atitude do serviço e esse serviço de amor ele ofereceu aos seus discípulos (Mc 10,35-45; Jo 13, 12-17) e oferece a cada um de nós que queremos estabelecer um encontro vivo e permanente com Ele. “Claro está que, se Jesus assumisse um messianismo de dominação, estaria traindo a revelação desse Deus”215. Pois, se Deus se revelou aos pobres que estavam desiludidos e sem mais esperança de encontrarem uma terra para se viver. Mas Deus lhes dá uma terra, um sustento.
Portanto, Jesus Cristo ensinou-nos que o desprendimento, o sair de si próprio para ir ao encontro do outro que necessita, a fim de ajudá-lo, é a maior expressão de amor e de doação. Nisso, podemos ter a certeza de que o amor de Deus e o amor ao próximo não são dissociados, mas constituem um único mandamento. No encontro com Jesus Cristo, é que descobrimos esse verdadeiro amor. “No desenrolar desse encontro, revela-se, com clareza, que o amor não é um sentimento apenas. Os sentimentos vão e vêm. O sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor”216.
Portanto, o verdadeiro amor deixado por Cristo é aquele que está encarnado na vida da humanidade e que nos integra verdadeiramente como homens de bem e comprometidos com o outro.
O próprio Jesus quis identificar-se com os pobres. Ele assumiu o rosto sofrido e excluído da humanidade. “Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses mais pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25, 45). Jesus concretamente ensina por meio de sua palavra e de sua vida a forma de amar concretamente os pobres deste mundo.
Jesus nasce pobre entre os pobres, num estábulo de animais, e as primeiras testemunhas do evento são gente simples do povo, isto é, pastores. Era um primeiro sinal da missão e da mensagem futura de Jesus. Ele seria uma boa notícia primeiro para os pobres, os pequenos, os fracos, os que não tinham honra nem força na sociedade humana217.
215 Ibidem,p. 182.
216 BENTO XVI. Deus caritas est. Carta Encíclica, 2005. São Paulo: Paulinas, 2005, 17.
217 HUMMES, Cardeal Cláudio. Sempre discípulos de Cristo: Retiro Espiritual do Papa e da Cúria Romana. São Paulo: Paulus, 2002, p. 167.
Vemos claramente que a opção de Jesus é pobres. Ele ama-os e dedica-se de modo particular a eles, curando suas enfermidades, defendendo-os dos poderosos prepotentes, devolvendo-lhes a dignidade e pregando o anúncio de que todos se sentarão à mesa eterna que o Pai preparou.
A pregação de Jesus acerca do Reino mostra claramente qual é a opção de Deus para com a humanidade e, conseqüentemente, qual deve ser a opção de todos que desejam segui-lo. “Os preferidos de Deus, os que definitivamente se sentam à sua mesa, para alegrar-se com ele, no Reino, são todos os pobres e marginalizados de Israel, apesar de serem pecadores”218. Em todas as parábolas contadas por Jesus, ele mostra que o pobre e o pecador são reconduzidos à libertação, são chamados filhos de Deus, são incluídos, na sociedade, recebem uma dignidade, são recompensados. O Reino foi instaurado no meio de nós, logo, de todos; porém os excluídos são os preferidos de Deus que quer devolver a cada um a dignidade deformada pela opressão.
Em muitas passagens da Escritura, percebemos, nitidamente, que Jesus tem uma atitude frente ao povo sofrido que vem ao seu encontro. A multiplicação dos pães (Mc 6, 30- 44; 8, 1-9) é sinal da presença de Deus entre os famintos, os que morrem porque não têm o que comer. A parábola do rico epulão e o pobre Lázaro (Lc 16, 19-30) o rico vai para o inferno e o pobre, à comunhão no seio de Abraão. Vemos também, no encontro com o jovem rico (Mt 19, 21-26), uma proposta de amor que o Senhor faz para ele segui-lo e abraçar a verdadeira riqueza e partilhar com o outro o que lhe pertence. As curas realizadas visam devolver, a cada doente, a dignidade perdida pela enfermidade, pelo peso ideológico do pecado, pela pobreza e pela miséria. Jesus vai ao encontro de todos e os toca devolvendo a oportunidade de se viver em sociedade e comunitariamente. E, ainda, concedendo a dignidade de pessoa humana, amada e querida por Deus. Ele restitui essas pessoas a fim de que elas participem novamente da vida da comunidade.
Portanto, a missão da Igreja é ir ao encontro do Senhor, sobretudo presente nos pobres e excluídos, e permanecer com ele seguindo seus ensinamentos.
Se essa opção está implícita na fé cristológica, os cristãos, como discípulos e missionários, são chamados a contemplar, nos rostos sofredores de nossos
irmãos, o rosto de Cristo que nos chama a servi-lo neles: Os rostos sofredores dos pobres são rostos sofredores de Cristo219.
A nossa fé e nossa adesão a Jesus Cristo nasce de nosso encontro com ele, da sensibilidade para com as realidades do mundo onde Ele está presente. A concretude desse encontro acontece, nas opções que fazemos e dos gestos que assumimos que devem ser os mesmos gestos e as mesmas atitudes daquele a quem seguimos: Jesus Cristo.
Dessa forma, ao estabelecermos um encontro com Jesus Cristo, somos chamados a ter os meus sentimentos do Mestre, ou seja, defender a vida sobremaneira, desde seu início até seu declínio natural, promover e defender os direitos dos mais vulneráveis e excluídos. A Igreja de Jesus Cristo que fez um encontro com Ele e optou por segui-lo não pode deixar de concretizar, na sociedade, muitas vezes, desigual e injusta, os valores do Reino que são a justiça, a igualdade, o sustento e a promoção da vida. “A Igreja está convocada a ser advogada da justiça e defensora dos pobres diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas, que clamam ao céu”220.
Deus quer estabelecer um encontro pleno de vida com cada um de nós. Esse encontro é real e concreto. Nele, somos inseridos na eterna comunhão de amor com Deus e com os irmãos. A preferência pelos pobres se dá precisamente porque se encontram em uma situação injusta, contrária ao amor e à vontade de vida de Deus.
A pessoa que não encontrou ainda Cristo no testemunho histórico explícito e em sua transmissão pode, contudo, encontrá-lo no seu irmão e no seu amor para com ele, no qual Jesus se faz encontrar como que anonimamente, pois ele mesmo vive sua vida nos pobres, nos famintos, nos encarcerados e nos moribundos221.
Jesus compadece-se dos menos favorecidos, dos pobres, excluídos, daqueles que perderam sua dignidade e esperam pelo Reino da Justiça e do amor. No encontro com Jesus Cristo, a Igreja deve ser sinal dessa libertação, desse Reino que foi inserido no mundo. O Reino já está entre nós, porém é missão da Igreja, como discípula e missionária, fazer chegar a todos, principalmente aos mais pobres, os valores desse Reino.
219 DA 393. 220 DA 395.
Jesus anuncia que os pobres terão o Reino, os famintos serão saciados, os que choram, consolados. A sua compaixão é como que a força que lhe dá energia para empreender a grande caminhada, que também é uma grande luta pela libertação do seu povo de todas as suas misérias. Não considera a miséria como inevitável, sem remédio, a não ser por milagres individuais. Ele vem trazer a libertação de todos os males222.
Faz-se necessário assumir a santidade da pobreza, ou seja, optar por anunciar Jesus Cristo a todos aqueles que ainda não entenderam o significado da partilha e de buscar os verdadeiros tesouros e, ao mesmo tempo, ser sinal de esperança e de justiça para aqueles que sofrem a exploração de sua cultura, sua dignidade: os pobres.
Jesus optou pela pobreza e simplicidade a fim de que todos pudessem participar de sua missão. O fato de se fazer pobre não excluiu aqueles que possuíam bens materiais, mas manifestou claramente sua opção pelos pobres, exigindo de seus seguidores o total desapego dos bens e a partilha como condição essencial para segui-lo. Essa é a verdadeira caridade de Cristo e daqueles que fizeram um encontro pessoal com Ele.
A caridade supera a justiça, porque amar e dar, oferecer ao outro do que é meu... nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é dele, o que lhe pertence sem razão do seu ser e do seu agir. Não posso dar ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça223.
Somente quando tomarmos a consciência de que o mundo não é de alguns, mas de todos, onde todos têm os mesmos direitos e as mesmas obrigações e que a prática da justiça e da dignidade humana é de direito universal, independente de cultura, raça ou religião, seremos felizes e o Reino de Deus vai acontecer no meio de nós.
Os pobres são lugar de conversão, porque questionam o nosso modo de ser e de viver, e lugar de evangelização, porque testemunham os valores evangélicos do amor, da alegria e da esperança. Por serem os preferidos de
222 COMBLIN, José. O Caminho: ensaio sobre o seguimento de Jesus. São Paulo: Paulus, 2004, p. 166. 223 BENTO XVI. Caritas in veritate. Carta Encíclica, 2009. São Paulo: Paulinas, 2009, 6.
Deus, os pobres são lugar da experiência espiritual, eles nos levam ao encontro profundo com o Senhor224.
O fruto da santidade da pobreza nos leva a assumirmos a nossa missão e, a exemplo de Jesus, assumir a causa do pobre e a entregarmos a vida se for preciso em favor da justiça. Essa é a expressão mais concreta da santidade do amor.
A exigência do discipulado em Jesus Cristo implica sobretudo nas suas atitudes, gestos, palavras, opções. Para Jesus a situação de dominação e opressão era a causa de destruição do Povo de Deus e de sua vocação.
Aqueles que oprimem os pobres e tiram o que lhes pertence por direito são destruidores do Povo de Deus, os destruidores do plano de Deus para a humanidade. Cabe, pois, ao Povo de Deus começar a criação de uma nova humanidade sem dominação, onde todos seriam irmãos225.
A opção pelo pobre se situa no espaço da fé. Na verdade é pela fé que os discípulos também corresponderam ao chamado de Jesus e fizeram uma opção por Ele e por sua obra. A opção pelo pobre é um componente fundamental do seguimento a Jesus. Aquele que fez uma opção por Cristo para se tornar seu discípulo não pode ignorar esta verdade.