O termo Imã (aquele que fica à frente de sua congregação; o líder) é comumente utilizado para personificar as lideranças que sucederam ao profeta Mohammad, e, devido a isso, transformou-se em um conceito fundamental do xiismo, ou seja, o instituto do Imamato. Entretanto, somente a partir do século X, quando a ocultação67 já tinha ocorrido, foi que os clérigos xiitas passaram a elaborar o conceito de “Imamato do Duodécimo”. (HALM, 2004, p. 38)
Para o entendimento da magnitude desta instituição cabe, primeiramente, lembrar que já havia o conceito de shi‟at „Ali (seguidores de Ali) mesmo antes do processo de cisão no mundo muçulmano. (MOMEN, 1985) Junto aos seguidores de Mohammad, subsistia
claramente uma linhagem da família do profeta e uma segunda, de seus companheiros. Esse fato tornou-se mais evidente com o processo sucessório em curso, como pôde ser percebido no primeiro capítulo.
Assim, conforme foram sendo escolhidos os primeiros califas (chefe do estado e líder da nação islâmica), gradualmente a percepção de liderança, dentro da ummah, foi se distanciando. Se, por um lado os sunitas passaram a entender que o sucessor seria uma pessoa imbuída de conhecimento e retidão, porém, falível, por outro, os xiitas apostaram na infalibilidade do Imã, além de outras características reconhecíveis nele,
[...] o Imam, tal como o profeta, destaca-se pela sua excelência entre todos os homens, e os supera em bravura, generosidade, castidade, amor à verdade, justiça, prudência, sabedoria e moral. Ele herda estes conhecimentos do Profeta ou do Imam que lhe antecedeu. Para qualquer questão que seja suscitada, ele sabe a resposta por inspiração divina, e, se ele se debruça sobre algum assunto, obterá o mais perfeito conhecimento dessa matéria, porque os Imames não recebem a sua sabedoria somente do raciocínio e do conhecimento humano, embora a sua sabedoria aumente com a experiência de vida. (ISLAMSHIA, s.d.)
A partir dessa opção de liderança, as tradições dos Imãs foram sendo mais bem estruturadas e minuciosamente expostas através dos ahadith. Da mesma maneira, os locais onde os Imãs foram sepultados passaram a receber uma atenção especial das cidades e mesmo dos próprios religiosos. Dessa forma, a construção de uma tradição foi de grande importância para referendar a autoridade dos Imãs. Festivais e peregrinações aos túmulos dos doze Imãs passaram a incorporar uma obrigação extra ao fiel, haja vista o Islã tradicional apenas impor o hajj (peregrinação) à Meca.
No que tange à doutrina, a explicação para o imamato se justifica pela necessidade de que a última mensagem divina revelada por Mohammad continue como foi exposta, ou seja, os Imãs deveriam divulgar, proteger e ensinar os fundamentos do Islã para a humanidade. Devido a essa altíssima obrigação, os xiitas entendem que não poderia ser qualquer pessoa com essa incumbência, recairia, por conseguinte, àquele que gozasse da mais alta autoridade e respeito. Porém, conforme Halm (2004, p. 29) expõe, a percepção de hereditariedade, que iria ganhar força posteriormente, ainda no período do sexto Imã, Ja‟af al-Sadiq (702-765), era debatida e havia correntes que entendiam que a transmissão poderia ocorrer de irmão para irmão (como no caso de Hassan e Hussein) e não somente de pai para filho. Entretanto, para o Duodécimo e Ismaelita, essa questão foi resolvida e o caso dos irmãos se tornou uma exceção à regra.
Ainda, com base nesse arcabouço de exigências para o desempenho do papel de Imã, a transmissão se daria diretamente de Deus para o profeta e, desse, para o Imã (a sucessão
ocorrera até a ocultação do Décimo segundo imã, ghayba). Nesse contexto, o imamato assumiria a característica e necessidade de preservar a hereditariedade, haja vista ser a mesma vontade de Allah sendo replicada aos fiéis. Também, os xiitas são categóricos ao afirmar que, por se tratar da vontade de Allah, não caberia a escolha de sua liderança através de votação popular, tampouco aquele que fosse escolhido teria sua legitimidade questionada (crítica direta aos primeiros três califas), ou seja, o Imã recebe uma função vitalícia.
A vontade divina, expressando o pedido de Allah para que os muçulmanos seguissem os Imãs, segundo a interpretação xiita, estaria fundamentada no próprio Corão.
Ó vós que credes! Obedecei a Allah e obedecei ao Mensageiro e às autoridades68 [para os xiitas, na conotação de “autoridade” caberia a interpretação de que estaria legitimando o governo dos Imãs], dentre vós. E, se disputais por algo, levai-o a Allah e ao Mensageiro, se sois crentes em Allah e no Derradeiro Dia. Isso é melhor e mais belo, em interpretação. (4:59)
[...]
E dizem: “O Misericordioso tomou para Si um filho.” Glorificado seja Ele! Mas eles [anjos] são seus servos honrados. (21:26)
Não O antecipam no dito e atuam por Sua ordem. (21:27)
68 Este versículo é o fundamento primeiro da constituição do estado islâmico e determina a base da religião e da
Contudo, de acordo com Momen, aos olhos dos ulemás xiitas, as provas racionais da necessidade do imamato são igualmente, senão mais importantes, de aquelas derivadas da Tradição, para tanto, expõe as linhas principais de raciocínio que são utilizadas para chegar a ratificar a necessidade do Imã frente à ummah:
i. Since there are verses in the Qur‟an that are not clear and guidance is needed to understand these passages, God could not have caused the Qur‟an to be revealed without also providing someone to explain it.
ii. Since there are many possible interpretations of the sacred law (the Shari’a), the Imam is needed to give authoritative guidance on the application of the law. Otherwise the people would err in applying the sacred law and a just God could not hold a people responsible for their breaking the law if they had been properly guided in it.
iii. Since a perfectly just ruler is necessary to maintain order in the world, God, who is beneficent and does not wish to see tyranny and anarchy in the world, must of necessity provide such a ruler – the Imam. The analogy is made with the human body: the mind is needed to control and co-ordinate the body as well as to make sense of the incoming sensory data. In human society, the Imam fulfils the same role.
iv. It is proved from the above that the leader is needed for the Muslims to rule
and guide them. If God had left it to the choice of the people, them they might
have chosen someone who was not adequate for the task and this would have made God‟s favour to making incomplete. Since the best course then is for God to choose and designate the leader, and since God is beneficent and all-wise and would always choose the best and most expedient course, this must result in God‟s provision of an Imam. (MOMEN, 1985, p. 159)
Tomando por base a importância dos aspectos racionais para a construção da doutrina xiita, a partir do momento em que o Mahdi entrou em estado de ocultação um questionamento logo se impôs, qual seja, como lidar com a ausência de liderança. Quem teria a prerrogativa para conduzir os xiitas até seu retorno, haja vista essa ser uma crença basilar do xiismo? E mais: haveria a necessidade de a comunidade ser tutelada por alguém?
As interpretações acerca do procedimento a ser adotado levaram os xiitas a criarem linhas de pensamento que coadunassem com necessidades específicas de grupos locais (fortalecendo os mullahs), ou seja, não havendo uma liderança central, debatia-se sobre quem teria a prerrogativa para guiar a comunidade a partir dos desafios que surgiam. Assim abria-se o caminho para a interpretação do livro Sagrado, e, consequentemente, fortalecia o valor da jurisprudência69 na condução da ummah.
Se havia a necessidade de buscar o entendimento sobre os desígnios do profeta, por sua vez, os xiitas tinham certa liberdade para escolher que mullahs deveriam seguir, entretanto, esses clérigos não possuíam as mesmas características dos Imãs. O dom da infalibilidade, ou mesmo a ausência de maldade em sua constituição, fazem do Imã uma
69 A questão acerca da jurisprudência xiita é tratada em 2.5 desse capítulo e, os desdobramentos da percepção de
figura que transcenda todos os patamares da humanidade. Em alguns aspectos, a imagem do Imã guarda semelhanças como os santos da igreja católica.
Assim, com base no entendimento dos clérigos, o instituto do Imamato foi sendo fortalecido e a figura dos Imãs, por conseguinte, cada vez mais veneradas. Sheik Muhammad Husayn Na'ini, um respeitado clérigo iraniano que teve grande participação na Revolução Constitucional, no início do século XX, também justifica a necessidade da existência de um líder a guiar a comunidade xiita,
They argue that every portion of the human community, in whatever corner of this world, is in need of a ruler. A ruler is indispensable to establish peace, justice, and order, and to protect his subjects from foreign attacks and aggression. Another point which the fuqaha (jurista xiita) stress that, since having a ruler is normal and indispensable, reason demands that the Islamic community should not be left without any instructions regarding rulership. Consequently, the Prophet could not, by any means, have died without appointing a ruler as his successor. From this reasoning emerges the Shi‟i doctrine of Imamah and the Imam‟s function as ruler.
(HAIRI, 1977, p. 165)
De certa maneira, a fundamentação racional com a qual os xiitas buscam justificar a existência do imamato, ao mesmo tempo em que unifica seus princípios – pois seriam estabelecidos por apenas um líder –, fortalece a estrutura hierárquica da religião. Por conseguinte, fere o princípio de igualdade dentre os muçulmanos. No entanto, essa distinção que é criada dentre os fiéis acaba não sendo um fator completamente negativo, haja vista a ação de outros elementos relacionados à Tradição fazerem com que a figura de um aiatolá seja referendada e aceita. Ou seja, ao mesmo tempo em que os xiitas se reconhecem como seres iguais entre si, aceitam que outros são mais “capacitados” por deterem algumas características que admiram.
De acordo com Algar, a questão da liderança está ligada diretamente à doutrina usulita, ou seja,
The usulis believe that in the absence of the Imam, the entirety of the community is divided into those who are either mujahids or who are not mujahids. If they are not
mujahids, that is if they do not have the necessary power of comprehension of the
law and the independent reasoning to attain that state, they must of necessity follow the guidance of one who is and this following of the guidance is known as taqlid. (ALGAR, 1983, p. 17)
Com isso, a escolha do “guia para a comunidade” acaba sendo algo facilmente incorporado à estrutura social, bastando, para tanto, estabelecer as regras para sua escolha. E, nesse sentido, mais uma vez a perspectiva weberiana do “carisma hereditário” encontra eco nos procedimentos adotados pelos xiitas, pois
[...] a fé já não se põe então só na pessoa enquanto tal, mas no “legítimo” herdeiro da dinastia: o carácter só imediato e extraordinário do carisma é transformado de um modo muito fortemente tradicionalizante e altera-se também de todo, no seu sentido, o conceito da “graça de Deus” (= senhor por pleno direito próprio, não em virtude do carisma pessoal reconhecido pelos governados). A pretensão dos senhores é, em seguida, totalmente independente das qualidades pessoais. (WEBER, s/d)
Assim, se o processo de transmissão do poder guarda relação próxima com uma perspectiva dinástica, o entendimento acerca da ocultação ganha uma dimensão ainda maior e serve como um divisor de águas. A partir dessa perspectiva, a próxima etapa desse estudo será analisar o simbolismo da ocultação.