2.1 Politiet og beredskapsprinsippene
2.1.4 Å gi et dødsbudskap
Os movimentos que fizeram com que Mossadegh chegasse ao poder podem ser entendidos a partir de variáveis distintas. Primeiramente, deve-se destacar sua crescente base de apoio junto à classe média – muito interessada nos processos de modernização, mas avessa à atuação das potências no país, enfim uma classe que prezava o modelo liberal-nacionalista que se desenhava. Também, de certa maneira, Mossadegh representava os valores que o iraniano tradicional prezava, inclusive, sua respeitabilidade era ainda maior devido à sua idade (quase setenta anos). Nesse sentido, a percepção do conhecimento relacionado à idade está firmemente imbuída na tradição persa40 e, com isso, mesmo Mossadegh não sendo um clérigo, sua voz tinha grande repercussão.
No entanto, algumas vertentes mais críticas viam Mossadegh como um homem pragmático; ao mesmo tempo em que se considerava o detentor do título de “Leão de Ouro”,
40 Que incorporou essa percepção a partir do Islã que foi transmitido por árabes, onde esse modelo prevalecia na
como o Imã Ali, também aceitava fazer concessões aos comunistas e, em certas situações iria aliar-se a eles.
For his many admirers Mossadegh was unquestionably a Lion of God and a hero like Rostam41, the son of Zal. But for all Iranians – admirers and deprecators – He
was more: He was the lodestone, the magnetic field, the lightning rod that lay both chronologically and intellectually at the center of Iranian politics of the twentieth century. Nearly everyone was pulled or pushed, attracted into or repelled out of his orbit. Virtually no one passed through the period of his influence unaffected by his presence. He was among both the first student and the first Iranian professors at the new Iranian School of Political Science, a specialist in European political institutions who, forty years after graduation, would take over mid-twentieth-century Iran to teach his slightly idiosyncratic interpretation of the constitution he had loved in his youth. He, the aristocrat, the descendent of the Qajar dynasty, would come closer than anyone else ever came before 1978 to ending the Iranian tradition of monarchy. A man whose intellectual formation had been completed well before Reza Shah, Mossadegh was the ultimate product, the last and the most
impressive of the liberal and nationalistic tradition of the nineteenth-century reformers. (MOTTAHEDEH, 2004, p, 115-116) (grifos nossos)
Outro aspecto fundamental diz respeito ao crescimento do nacionalismo naquele período. Notoriamente a mudança de direcionamento político proposto por Mossadegh não era algo que atendesse aos interesses das potências que estavam instaladas no país e controlavam grande parte de suas riquezas minerais. “O principal dilema do país era seu relacionamento com os poderes estrangeiros, particularmente a Grã-Bretanha, e muito particularmente a Anglo-Iranian Oil Company. Muitos iranianos se curvaram às imposições dessas forças; Mossadegh jamais.” (KINZER, 2004, p. 76)
Do acordo de 1933 – firmado com o xá – a AIOC já mantinha uma postura de não cumpri-lo e, mais de uma década após, quando a situação dos funcionários da empresa estava extremamente precária e havia fortes indícios de que os royalties pagos ao Irã eram muito inferiores aos que deveriam, os dirigentes da petrolífera se mantinham impassíveis.
O estopim para a crise de governabilidade do xá veio com a aceitação em firmar o Acordo Complementar com a AIOC, nele havia alguns ganhos financeiros ao Irã, redução da área de exploração da companhia e promessa de que mais iranianos seriam treinados para o desempenho de atividades técnicas, contudo, nada versava sobre a participação na administração da companhia. Mesmo com essas características pouco atrativas, o xá resolveu impor o Acordo ao país, mas necessitava da aprovação do Majlis, no entanto, muitos parlamentares se puseram contra a proposta do Acordo e outros preferiram não se envolver
41 Herói místico da antiga Pérsia que foi imortalizado pela obra de Ferdowsi, Shāhnāma, ou “Épico dos Reis” no
diretamente no processo, assim, apenas protelaram a votação do acordo para a próxima legislatura – essa estava em seus últimos meses.
No intuito de conseguir formar uma base parlamentar que desse sustentação ao Acordo com a AIOC, o xá utilizou de todos os expedientes ilegais possíveis para eleger seus novos correligionários, entretanto, a voz de Mossadegh se levantou contra essa arbitrariedade e ele marchou para a frente do palácio do xá clamando por novas eleições, e limpas. De fato, alcançou seus objetivos e mudou o panorama político interno do país.
A união de partidos políticos, sindicatos trabalhistas e outras organizações cívicas contra as arbitrariedades do xá fez com que surgisse uma nova força política no Irã, a Frente Nacional. Mais bem estruturada, surgia uma real oposição ao governo do xá, e, pautando seu projeto na limitação da ação estrangeira no país, escolheu Mossadegh como líder.
O cenário político iraniano, de extrema instabilidade, podia ser resumido da seguinte maneira: de um lado os britânicos pressionando para que o Acordo Complementar fosse aceito, porém, não cediam em nada; por outro, cada vez mais a Frente Nacional ganhava simpatizantes ao seu projeto nacional. Inclusive grande parcela dos clérigos se alinhou a Mossadegh contra a interferência estrangeira, exceção feita ao aiatolá Khomeini que via com reservas os posicionamentos de Mossadegh e acreditava que ele estaria se afastando do Islã. Khomeini alinhava-se ao pensamento do aiatolá Borujerdi, ambos percebiam que o nacionalismo proposto por Mossadegh vinha impregnado de futuras mudanças que afastariam o país do xiismo. De certa maneira, entre as arbitrariedades da monarquia, que atendiam aos interesses das potências, e o nacionalismo da Frente Nacional, que poderia desencadear a secularização do Estado, alguns clérigos preferiram manter uma postura quietista ou simplesmente não apoiar o projeto de Mossadegh.
Mas como não havia uma voz que controlasse os ulemás xiitas e determinasse o posicionamento oficial da classe42, outros religiosos de expressão, apesar de não concordarem em sua plenitude com o projeto de governo de Mossadegh e terem certas reservas sobre sua perspectiva acerca de um estado religioso, preferiram, naquele momento, entender que o menos danoso para o Irã seria dar apoio a Mossadegh. E, como porta-voz dos clérigos alinhados à Frente Nacional, outra liderança religiosa, não tão erudita quanto Khomeini, mas de grande destaque, aiatolá Abol-Ghasem Kashani, conseguiu fortalecer o movimento nacionalista. (MILANI, 2011)
42 Esse fato, de certa maneira, ilustra a ausência da liderança una na comunidade xiita – como sugeriram alguns
aiatolás iranianos que foram entrevistados para essa pesquisa, em Qom –, o que contribui para a discussão acerca da existência do wilayat al-faqih “informal”. Contudo, a perspectiva desses religiosos merece melhor atenção e será objeto de abordagem mais específica no capítulo quarto.
Kashani havia sido exilado no Líbano, após a tentativa de assassinato do xá, em 1949, porém, de lá continuou sua campanha contra os Pahlavi e conseguiu eleger- se para o Majlis. Em seu retorno ao Irã foi ovacionado pela multidão e referendou Mossadegh e a Frente Nacional como os verdadeiros defensores do Islã.
O caso de Kashani merece melhor atenção. Efetivamente, não pode ser
considerado um líder
nacionalista, no entanto, entendia que o país deveria se libertar da órbita da Grã-Bretanha e trilhar seu caminho pautado pelas leis islâmicas. Seguindo o modelo de atuação que vinha se confirmando dentro da política iraniana do século XX, o ulemá não mais podia permanecer alheio à influência estrangeira no país. Assim, Kashani, que estava muito longe de ter pretensões democráticas para o país – como a Frente Nacional sinalizava –, tampouco aceitar princípios seculares para a sociedade iraniana – era um ardoroso defensor da sharia –, usou sua influência religiosa para congregar a população no apoio a Mossadegh. Aparentemente, não havia interesse particular seu nessa atitude que visasse ser alçado ao poder, mas sim, naquele momento buscava fortalecer os princípios islâmicos na sociedade. “O Islã adverte seus seguidores para que não se submetam ao jugo estrangeiro”. (KASHANI apud KINZER, 2004, p. 94) Em mais de um momento, dentro do Majlis, Kashani suscitou a fatwa do aiatolá Shirazi para justificar a necessidade de lutar contra as potências estrangeiras. Claramente, para Kashani, a função dos religiosos não devia restringir-se ao âmbito espiritual.
Desse modo, o processo que levou Mossadegh a assumir o cargo de primeiro-ministro teve fases distintas e perpassou, primeiramente, pela campanha que comandava no Majlis para que a AIOC fosse nacionalizada. Quem, por sua vez, assumiu o papel de lutar contra essa proposta foi o então primeiro-ministro fiel ao xá, general Ali Razmara. Do Majlis os protestos
foram para as ruas e o sentimento anti-imperialista britânico estava generalizado, no entanto, mesmo com o alerta de Razmara de que haveria a necessidade de flexibilizar o Acordo Complementar para que ele fosse aceito pelos parlamentares, os britânicos continuavam inflexíveis. A postura britânica, muito mais do que ser explicada pela arrogância, estava fundamentada na lógica imperialista que perdurava e, aventar a possibilidade de fazer concessões, era algo imponderável para uma Potência que estabelecera a estrutura do sistema internacional e assumiu o papel de protagonista por anos.
Assim, frente ao impasse, o fim caótico dessa situação se deu com o assassinato do primeiro-ministro Razmara pelo militante da organização religiosa chamada Fedayeen-I- Islam. Khali Tahmasibi, quem cometeu o crime, alegou que a morte de Razmara seria um serviço a Deus, pois salvava os iranianos da opressão estrangeira43.
Sem condições para suportar a oposição das ruas, dos políticos e dos religiosos, a AIOC foi nacionalizada em 15 de março de 1951 pelo Majlis. Na sequência, com Mossadegh fortalecido, sua indicação para primeiro-ministro se deu devido a uma manobra equivocada dos parlamentares que apoiavam o xá. Ainda, de acordo com Milani (2011, p. 154), apesar de o aiatolá Kashani ter participado do processo que levou Mossadegh ao poder, sua fidelidade aos pressupostos religiosos pode ser questionado, haja vista a clérigo ter mantido “suas possibilidades abertas” ao negociar com o xá e com os britânicos – secretamente – outras possibilidades de desfecho para o caso.
Convinced that he [Kashani] had restored Mossadeq to power, in the months after July 21, Kashani became even more brazen in dictating policy to the government. He wanted women to be forced to wear Islamic covering when entering government offices; he demanded the right to name certain ministers and veto others; finally, he wanted the government to increase pressure on the Baha‟i – a nineteenth century faith that emerged from Iran and whose followers became the bane of Shiite clergy. (MILANI, 2011, p. 154)
O posicionamento de Mossadegh diante dos fatos se, por um lado, fez com que ele obtivesse o apoio que pretendia para iniciar seu projeto de governo, por outro, chamou a atenção dos clérigos para um risco ainda maior de secularização do Estado. Ou seja, para assumir o cargo de primeiro-ministro, Mossadegh exigiu que o Majlis lhe concedesse poderes extras, inclusive com a sujeição das forças armadas a ele. Era uma concessão perigosa para parte dos clérigos que via com receio o posicionamento político de Mossadegh, contudo, a conjuntura favorável ao futuro primeiro-ministro silenciou temporariamente os religiosos. O
43 Apesar de essa ser a versão oficial para os fatos, muitas suspeitas foram levantadas, inclusive de que o crime
teria sido premeditado pelo xá e que ele teria levado Razmara à mesquita onde ocorreu o assassinato para criar um clima de instabilidade nacional e, diante disso, pudesse tratar a situação do Acordo Complementar sem interferência do Majlis. No entanto, nada foi efetivamente provado.
panorama político era tão favorável a Mossadegh que a demanda apresentada pelo aiatolá Kashani foi rejeitada quase que completamente, fato esse que propiciou a progressiva perda de apoio dos clérigos.
Assim, a partir de uma manobra política muito bem articulada, Mossadegh se tornou o homem mais poderoso do Irã e o xá passou a ser uma figura decorativa na estrutura de governo, recolhendo-se, posteriormente, em seu castelo na iminência de que seria destituído.
Na sequência, durante o processo de nacionalização da AIOC, os britânicos tentaram boicotar os planos de Mossadegh e três movimentos distintos passaram a pautar os acontecimentos seguintes. Primeiramente, os iranianos não tinham know-how para manter as refinarias e a extração de petróleo em funcionamento, uma vez que todas as atividades técnicas sempre foram executadas por funcionários britânicos, e, esses, ao deixarem o país simplesmente abandonaram as estruturas. (AXWORTHY, 2007) Segundo, os britânicos passaram a liderar um boicote internacional ao pouco petróleo iraniano que era extraído, e, como resultado, os trabalhadores não tinham como receber seus salários; também, o pouco dinheiro dos royalties que anteriormente era pago pela AIOC e fazia a econômica iraniana funcionar, escasseou. Terceiro, os britânicos, no intuito de reaverem suas perdas, inseriram os Estados Unidos no imbróglio.
Inicialmente o governo estadunidense sentia-se inclinado a reiterar o direito soberano dos iranianos sobre o petróleo e pretendia não se envolver nos problemas do país – tanto que não aceitou fornecer auxílio financeiro ao Irã, mesmo com a viagem de Mossadegh aos EUA para esse fim – entretanto, o posicionamento de Truman passou a mudar quando os britânicos moveram navios de guerra para o Irã e reafirmaram o direito sobre o petróleo. Automaticamente o risco de ocorrer uma guerra e a União Soviética intervir fez com que todo o panorama se alterasse44, mas a ação contundente dos Estados Unidos somente viria com a política mais severa de intervenção do sucessor de Truman, Eisenhower. (FISK, 2007)
44 A estratégia estadunidense para a atuação no Irã está inserida na lógica da Guerra Fria e na Doutrina Truman,
uma vez que “depois da guerra [Segunda Guerra Mundial], a União Soviética procurou estender o seu perímetro de segurança para o sul. Desde a metade do séc. XIX, que a Rússia prosseguia uma política de penetração para o Cáucaso e a Ásia Central, na tentativa de alcançar os “mares quentes”. Depois da II Guerra, a U.R.S.S. conseguiu obter uma presença militar no Médio Oriente, considerado uma zona de grande importância estratégica. Um dos aspectos que pesava na equação de poder soviética eram as vias marítimas de passagem. A liberdade de circulação nessas águas era um interesse vital da U.R.S.S. e dos seus aliados do Pacto de Varsóvia. A II Guerra veio aumentar o interesse soviético no Médio Oriente e facilitou a estratégia de penetração na área. O Kremlin declarou „a área a sul de Batum e Baku, na direção do Golfo Pérsico, é reconhecida como o centro das aspirações da União Soviética‟. Face a esta demonstração de interesse, a principal preocupação de Washington passou a ser conter o expansionismo soviético no mundo árabe [incluindo os persas do Irã]. [...] No Médio Oriente, a necessidade de contenção da penetração russa combinava-se com o interesse americano em obter uma presença estratégica e obter acesso aos recursos petrolíferos.” (PINTO, 2003, p.48-49)
O novo cenário que se instalara no Irã, de longe lembrava o momento de esperança que levou Mossadegh ao governo. Com o país passando por problemas financeiros, os comerciantes deixaram de acreditar na proposta do primeiro-ministro. O aiatolá Kashani, que fora a voz mais importante, dentre os ulemás, a apoiar Mossadegh, mudou sua maneira de pensar devido aos atos de centralização do poder nas mãos do primeiro-ministro e o receio de que o país estivesse trilhando um caminho muito distante daquele que projetara, ou seja, segundo os discursos proferidos por Kashani, a cada ato de Mossadegh, menos se percebiam os valores islâmicos presentes no Estado.
O conceito de estado de Mossadeq viera do Ocidente, o de Kashani da religião. Kashani exigia a restauração da lei islâmica como núcleo do governo iraniano. Mossadeq insistiu na lei por intermédio do homem, da escrita por representantes eleitos sob as regras da Constituição. Enquanto Mossadeq vira o Irã em termos de nacionalismo secular, Kashani via-o como uma nação de crentes. Como o primeiro- ministro uniu poderes extraordinários em si próprio e permitiu ao partido Tudeh fluir de maneira desenfreada, Kashani uniu-se à instituição do Islã xiita em oposição a Mossadeq. (MACKEY, 2008, p. 204)
Do mesmo modo que Kashani utilizou os elementos da doutrina religiosa para referendar seu apoio a Mossadegh, apropriou-se da mesma linguagem – de amplo e fácil entendimento pelos xiitas – e transformou o primeiro-ministro em um traidor do Islã. A retórica de Kashani teve grande importância nesse evento, contudo, a possibilidade de uma liderança religiosa moldar sua massa de seguidores é um fator significativo para entender o processo que levou à deslegitimação do governo de Mossadegh. Kashani, assim como Shirazi (na Revolta do Tabaco), conseguiram minar um projeto de governo ao direcionarem a população contra ele.
Nesse caso, a utilização da liderança religiosa foi o elemento primordial, pois a ela não cabem questionamentos – ela se autolegitima –, haja vista o xiismo referendar tal modelo. A necessidade de ter um jurisconsulto para guiar a vida do seguidor do xiismo é fato pacífico e inquestionável e, Kashani, que gozava de grande prestígio junto aos fiéis, soube utilizar esse elemento para romper com um lado sem cair em contradição e perder a cumplicidade de seus seguidores.
Diante desse panorama, ou seja, sem uma base religiosa para dar apoio e com a crise econômica cada vez mais acentuada, Mossadegh já não tinha condições para preservar o governo. Assim, o partido comunista Tudeh viu a possibilidade de ampliar sua atuação no país e, para tanto, começou a executar atentados contra seus adversários ideológicos.
O risco de o Irã entrar para a órbita do comunismo fez com que o presidente estadunidense Eisenhower desse a ordem para que fosse propagada uma ação para derrubar
Mossadegh do poder. O Golpe de Estado seria executado pelos homens da CIA, de dentro do Irã. Isso porque, apesar de os EUA não terem apoiado financeiramente o governo de Mossadegh, a imagem do país não havia mudado substancialmente. Os Estados Unidos ainda gozavam de respeito dos iranianos, pois não eram entendidos como uma potência colonizadora – no molde britânico.
Inicialmente havia a proposta dos Estados Unidos de minar qualquer apoio popular a Mossadegh e, para tanto, o agente da CIA, Kermit Roosevelt, obteve os contatos de antigos colaboradores britânicos e passou a financiar pequenos movimentos e passeatas contra Mossadegh e em favor do xá – a ação do golpe de estado passaria a ser conhecida por “Operação Ajax”. Também, uma questão estratégica e que faria diferença no embate pelo poder diz respeito ao alinhamento das Forças Armadas. Gradualmente houve a ruptura com o governo de Mossadegh e retorno da lealdade ao xá. (KINZER, 2004; FISK, 2007)
Entretanto, como em uma tragédia grega, o drama se desencadeou em vários atos e reviravoltas. Primeiramente, apesar de o xá ter sido informado de que Mossadegh seria deposto, preferiu recolher-se em seu castelo e esperar o fato ter-se consumado para retornar a Teerã de modo triunfal. Nesse ínterim, o Coronel Nassiri – sob ordem dos conspiradores da agência estadunidense CIA – dirigiu-se à casa de Mossadegh para informá-lo de que havia
sido deposto do cargo de primeiro-ministro. Mas a situação sofreu uma grande reviravolta porque Mossadegh, além de não acatar a ordem, prendeu o militar.
Como o xá não conseguiu obter notícias acerca da deposição de Mossadegh, resolveu deixar o país com receio de que fosse capturado e responsabilizado pela tentativa de golpe. Assim, pilotando seu avião, fugiu com sua esposa para o Iraque e, na sequência, foi para o exílio temporário na Itália.
A manutenção de Mossadegh no poder não durou muito mais, pois a CIA programou seu ato final para por fim ao breve período em que o Irã viveu o afã de caminhar com suas próprias pernas e ver-se livre da ação estrangeira. Segundo Hiro (1985), a ação final ainda contou com a participação dos aiatolás Karashi e Behbahani – apoiadores do regime monárquico –, que juntaram seus seguidores aos populares que foram cooptados para participarem das passeatas – essas pessoas eram pagas pelos agentes da CIA.
Sem condições para sustentar-se no poder e, para evitar que o massacre pelas ruas ampliasse, Mossadegh deixou o poder. Esse ato “[…] destroyed any chance that Iran had of evolving as a Western-style democracy.” (HIRO, 1985, p. 36)
Futuramente, Christopher Woodhouse – agente britânico que auxiliou no Golpe a Mossadegh – daria uma entrevista a Robert Fisk (2007) reconhecendo que a atuação estadunidense e britânica no Irã teria aberto as portas para os acontecimentos que ocorreriam em 1978. Um risco que foi inebriado pela lógica da Guerra Fria e pela visão defasada de “potência colonizadora” dos britânicos, a qual não abriu mão de seu lucro com a exploração