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Hva betyr dette i forhold til teori og litteratur?

Analisar um evento da magnitude que se configura, para os xiitas, o martírio do Imã Hussein significa vislumbrar a essência da religiosidade de seu povo. Contudo, conforme Momen (1985) ressalta, há uma grande diferença ao referir-se aos xiitas do período dos Imãs e dos dias de hoje. Sem a contextualização e a correta aplicação dos conceitos que se inter- relacionam com o momento, a ocorrência de equívocos torna-se iminente. Assim, para efeito de referendar tal fato, há de se estabelecer a distinção inicial acerca do que poderíamos classificar como Xiismo Político, ou seja, indica a crença de que os membros da Casa de Hashim64 são as pessoas mais dignas a deterem a autoridade política na comunidade islâmica, mas não creem que deva haver qualquer cargo religioso para eles; e o Xiismo Religioso, que englobaria aqueles que creem que alguns membros da Casa de Hashim recebem a inspiração divina e, assim, são o canal de orientação de Deus para os homens. Por isso, podem, ou não, deter a autoridade política de fato. (MOMEN, 1985, p. 63)

À luz dessa primeira distinção, caberia entender a visão xiita acerca do martírio de seu terceiro Imã, Hussein ibn „Ali (imamato, 680). De acordo com a interpretação da maioria dos ideólogos xiitas, o martírio seria um ato de auto-sacrifício resultante do desejo de mexer com a consciência dos muçulmanos e reverter o ethos da comunidade islâmica que tendia a subjugar-se diante das arbitrariedades – esse aspecto foi ressaltado durante a apresentação do surgimento do xiismo e do breve período em que tiveram governantes desse segmento religioso, os Buídas.

Assim, o ato heroico de Hussein honrava os procedimentos do profeta frente a todos aqueles que repudiaram sua palavra e a justiça. Isso porque, entendia-se que a incisiva ação da

64 Título concedido ao bisavô de Mohammad, fundador do clã Banu Hashim, de Meca. Muito comumente

casa dos Omíadas para manter o poder no Islã configurava-se num ato de usurpação e que violava a legitimidade dos descendentes do profeta. Desse modo, o retorno ao ethos muçulmano já iniciara com a designação de Ali à liderança, mas correu o risco de retroagir caso Hussein não reafirmasse os princípios do profeta através do martírio.

Aos olhos de analistas ocidentais, Hussein teria cometido dois equívocos ao se deslocar a Kufa, primeiramente ter acreditado no apoio da população local na luta contra os Omíadas para o restabelecimento de seu poder; em segundo lugar, ter superestimado o fato de ser neto de Mohammad e que isso poderia lhe dar proteção ilimitada. Com relação ao segundo equívoco, corroboraria a razão pela qual Hussein não formou um exército que pudesse auxiliá-lo e optou, apenas, por deslocar-se com poucas pessoas em sua caravana.

Por outro lado, a não formação de um exército para enfrentar os Omíadas referenda a perspectiva de que Hussein já partira para Kufa no sentido de “encontrar seu destino” e que não tinha a intenção de levar um exército, pois apenas a partir de gestos heroicos poderia expor a situação que seu povo vivenciava perante o domínio dos usurpadores. Uma visão de martírio como salvação e, novamente, de mudança do ethos.

Shahid é a palavra, em árabe, que comumente é traduzida como mártir, contudo, seu significado literal seria “aquele que está presente como testemunha”. Devido à maneira com que o termo foi utilizado no Corão e nos primórdio da história islâmica, passou a ser entendido como “aquele que testemunha a verdade”. A partir dessa definição estabelece-se quem está qualificado a ser mártir. Para atingir o status de mártir é necessário morrer ou ser morto na defesa dos princípios do Corão, contudo, o martírio só torna-se válido em circunstâncias específicas. Muitas vezes justificadas apenas por fatwas que guardam legitimidade restrita, tendo em vista que a própria autoridade religiosa pode ser questionada.

O grande paradigma da fé xiita encontra-se no entendimento da magnitude do ato de martírio do Imã Hussein. A demonstração de sua fé abriu a possibilidade para que os xiitas se entregassem a ela na certeza de que estariam agindo em nome de Deus, e mais, que esse deveria ser o “verdadeiro caminho” em sua direção. Assim, a partir dessa perspectiva, a “revolução de Hussein” teria alcançados os objetivos esperados. Sheik Taleb Hussein al- Khazraji, ao analisar os resultados do martírio de Hussein, entende que “sua revolução” tenha alcançado todos os aspectos, sejam eles educativos, políticos, sociais, etc. Para tanto, Al- Khazraji assim elenca os objetivos alcançados:

1 – A liberdade da vontade da nação, antes aprisionada pelos tiranos.

2 – Tirar a legitimidade do governo Omíada, que foi construído com base na opressão e matança.

3 – Inspirar os significados islâmicos, os quais estavam sendo apagados pelo Omíadas.

4 – Desmascarar os Omíadas e mostrar a verdadeira face deles para o povo. Esta revolução destruiu a falsa imagem religiosa que os Omíadas mantinham. Eles não se importavam com a religião, apenas buscavam a vingança pelo assassinato dos avôs de Yazid na batalha de Badr, e demonstravam isso de uma forma muito clara. 5 – Espalhar o ódio das pessoas contra os Omíadas, os quais eram os inimigos do Islam e da mensagem do profeta Mohammad (S.A.A.S.), e fazer que a nação se sentisse culpada por não ter apoiado o Imam al-Hussein (A.S.) em sua revolução contra o tirano Yazid.

6 – Quebrar as barreiras de medo e receio que as pessoas possuíam em relação aos tiranos opressores, substituindo o medo pela resistência e a Jihad contra os opressores e tiranos.

7 – A derrota dos Omíadas. Pois o Imam al-Hussein (A.S.) venceu com o seu sacrifício. Os historiadores e os estudiosos dizem: “O que Mu‟awiyah construiu para seu partido e seu filho Yazid durante anos, Hussein destruiu em questão de dias”.

8 – Demonstrar a verdadeira face dos Ahlul Bait (A.S.) e o papel fundamental deles nos assuntos da nação, já que eles são os maiores exemplos para esta nação.

9 – Firmar o xiismo, o qual representa o verdadeiro Islam de Mohammad, e unir os muçulmanos, fazendo-os uníssonos ao declarar que o Califado é um direito justo dos Ahlul Bait (A.S.), não dos tiranos e opressores da nação.

10 – Descobrir o potencial da nação, a qual, na época, estava adormecido e sem rumo. O sangue do Imam al-Hussein (A.S.) fez com que o que era oculto se manifestasse, e as pessoas se descobrissem.

11 – Espalhar os ensinamentos do Imam al-Hussein (A.S), suas lições e as razões da sua revolução. Este é um dos frutos da revolução do Imam al-Hussein (A.S.). Todos os locais por onde os Ahlul Bait (A.S.) passaram se transformaram em santuários e locais sagrados, onde os fiéis e muçulmanos se unem anualmente para saldar os Ahlul Bait (A.S.) e amaldiçoar os tiranos que lutaram contra o Islam e seus representantes por direito.

12 – Criar um sentimento de responsabilidade social, que levou ao povo o espírito revolucionário exuberante. Dessa forma, surgiram as revoluções e as manifestações populares que se espalharam na causa do Imam al-Hussein (A.S.), o senhor dos mártires, que tinha sacrificado sua alma, seu corpo e sua família.

13 – Reconhecer a legitimidade e importância da resistência contra o opressor. 14 – Despertar a visão política entre a nação, fazendo de todos observadores e fiscais da política de seus governantes.

15 – Corrigir o desvio que atingiu o Islam, colocando em prática as suas leis de forma integral e correta. (AL-KHAZRAJI, 2008, p. 154-156)

Cada um dos 15 itens mencionados por al-Khazraji faz parte de uma leitura que foi sendo construída gradualmente pelos ideólogos do xiismo. Historicamente os Omíadas e, mais particularmente, Yazid, se transformaram nos algozes dos xiitas, e, por analogia, sempre que houve algum momento de opressão ao grupo, retomava-se ao posicionamento que o Imã Hussein assumira e estabelecia uma linha de atuação que a contemplasse. Acima de tudo, “[…] the martyrdom of Husayn has given to Shi‟i Islam a whole ethos of sanctification through martyrdom.” (MOMEN, 1985, p. 33)

E, na condução da doutrina, interpretações acerca do martírio foram surgindo no intuito de não estabelecer limites para lutar contra a injustiça e arbitrariedade, inclusive, se fosse o caso, doando a própria vida (martírio). Grande parte dessa construção advinha do legado xiita que referendava o sofrimento, uma vez que o igualava à opção de Hussein

quando serviu de vítima de Yazid. Demant ainda salienta outro aspecto de grande relevância, qual seja,

Although Hussein‟s voluntary sacrifice seemed futile at the time, it actually saved the Shiism, for it racked his surviving sympathizers with guilt and shame, and made them vow to never again betray [referindo-se aos habitantes de Kufa que teriam se comprometido em auxiliar Ali, mas desistiram e, parte dessa “traição” teria provocado o massacre em Karbala] „Ali‟s just case. (DEMANT, 2006, p. 110)

Tal é a força mitológica da batalha de Karbala que, de acordo com a tradição xiita, pouco antes de ser assassinado, o Imã Hussein reiterara os valores da tradição, hereditariedade e religião ao dizer:

“Sou Hussein, filho de Ali; Jurei que jamais me submeteria;

Protejo a família de meu pai; E sigo a religião do meu profeta”65

Quanto à força simbólica do martírio – não somente de Hussein, mas de todos os demais Imãs –, Momen ressalta que “[…] the essence of this Shi‟i attitude is summed up in the word mazlumiyyat which means the patience endurance of suffering caused by tyrannical actions of those who have Power over you.” (1985, p. 236)

Assim, a rudeza com que é percebida à violência impetrada contra Hussein reverbera em toda a comunidade xiita; para ela,

A revolução de Hussein difere de tudo isso [refere-se ao fato de que as revoluções iniciariam com ideais nobres, contudo, quando os grupos vencedores galgam o poder, deixariam de lado os objetivos iniciais em prol de interesses pessoais]. Ela foi pura em seus objetivos e meios, sã em suas posições, séria em sua conduta com o amigo e o inimigo. Ela primou na prática da conduta nobre até durante a luta sangrenta e o combate doloroso. Destaca-se a profundidade desse lado iluminado da revolução de Hussein, seu esplendor e grandeza, quando avaliamos a crueldade e o horror que o exército omíada de Kufa praticou. Esse exército cometeu contra o Imam Hussein (AS) e seus aliados, mulheres e filhos, o que nenhum exército cometeu contra inimigo algum. A sua conduta é considerada, quanto à crueldade e ao horror, um novo método de tratamento do inimigo, assumindo a condição de marco inicial dos crimes hediondos que foram cometidos, ao longo da história, contra a comunidade islâmica e não islâmica. É uma questão que merece ser longamente avaliada. (CENTRO ISLÂMICO NO BRASIL, s.d.)

Apesar da idolatria construída em cima de um mito, é inegável que um paradoxo se configura. Enquanto os Imãs têm suas atitudes de vida elogiadas e louvadas por manterem a paciência ao serem submetidos ao sofrimento imposto por aqueles que detinham o poder político, inclusive, lançando mão da taqiyyah (dissimulação religiosa) para preservar a vida; ao mesmo tempo, o maior exemplo dentre os Imãs, Hussein, tem suas características também

exaltadas e louvadas por não ter se submetido à tirania e lutado até a morte. Essas posturas tão díspares, contudo, louvadas de maneira similar, dão uma gama de possibilidades de ação incrível para os xiitas. E todas elas são justificadas pela doutrina. (MOMEN, 1985, p. 236) Viabiliza-se, assim, a opção de lutar até o fim, ou esconder-se para preservar a vida.

Ainda, de acordo com William F. McCants66, a posição central do martírio de Hussein na formação da identidade xiita encontra paralelo na descrição da Paixão de Jesus de Nazaré. Ambos foram traídos por seus seguidores, deixados para morrer sozinhos e abandonados. Contudo, a morte, nas narrativas, servira apenas como uma ferramenta para a vitória. A narrativa principal de traição, abandono, sofrimento e martírio constituem a base emocional do cristianismo e do islamismo xiita.

Como resultado da enorme devoção ao mito de Hussein e Karbala – local em que ocorrera o

martírio –, a comunidade xiita passou a celebrar a Ashura (10º dia do mês de Muharram, do calendário islâmico), ou seja, uma peregrinação à Najaf (proximidade de Karbala, onde o corpo de Hussein fora enterrado, mas a celebração também é realizada em outras localidades onde há grande concentração de xiitas) no intuito de manter vivo o estigma de sofrimento e superação. Proibida ou controlada pelos governantes sunitas, a Ashura nunca foi aceita tranquilamente, haja vista levar os fiéis ao extremo da devoção. Tal a força e o simbolismo da celebração que líderes despóticos, como Saddam Hussein, primeiramente restringiram sua execução, e depois a proibiram no país.

66 Especialista em assuntos do Oriente Médio e Segurança. Perspectiva sobre Imã Hussein exposta em: “The

Durante a celebração da Ashura, muitos xiitas se autoflagelavam para sentirem a mesma dor que o Imã Hussein sofrera e, com isso, demonstrarem sua fidelidade a ele. Contudo, as imagens de pessoas se ferindo com lâminas ou espadas, além de a ocorrência de muito sangue escorrendo por seus corpos, gera certa preocupação aos adversários do xiismo quanto aos limites da fé. Por outro lado, a prática do uso de lâminas na celebração é proibida pelos aiatolás iranianos, mas em outras localidades é comum, mesmo não sendo aconselhável.

No que tange aos supostos excessos dos fiéis durante a Ashura, conforme é veiculado pela mídia internacional, al-Khazrajj é enfático ao afirmar que não passa de um equívoco doutrinário. De acordo com o Sheik,

[...] algumas vezes [a Ashura é] erroneamente representad[a] ou interpretad[a] por pessoas desviadas ou ignorantes que não sabem como devem demonstrar seu amor e sua fidelidade ao Imam al-Hussein (A.S.). Entre estes estão aqueles que se cortam com lâminas ou batem com espadas em sua cabeça até que sangrem, e até mesmo aqueles que cortam o próprio abdômen ou andam sobre o fogo até chegar ao santuário do Imam (A.S.). Enfim, o objetivo destes indivíduos é de alguma forma sofrer e sangrar como se fossem o próprio Imam al-Hussein (A.S.), dessa forma eles desejam demonstrar o seu amor e fidelidade ao Imam (A.S.).

Porém, todos os sábios, eruditos e líderes religiosos islâmicos decretaram a condenação e proibição destas atitudes que ferem a crença islâmica e ofendem ao Imam (A.S.). Além do fato destas atitudes mancharem tão bela e grandiosa manifestação de amor e fidelidade ao Imam al-Hussein (A.S.) realizadas por milhares de pessoas, de forma pacífica e exemplar. (AL-KHAZRAJJ, 2008, p. 239)

Alheia à perspectiva pacifista apresentada por Khazrajj, muitas vezes o poder de trazer à tona o mito de Karbala serve para sublimar outros atos de violência sofridos por xiitas e reiterar a necessidade de continuar uma luta. Tamanha é a força de seu uso que Sayyed Hassan Nasrallah, secretário-geral da organização xiita libanesa, Hezbollah, após assumir este posto – com o assassinato do ex-secretário-geral, Sayyed Abbas Mussawi (1952-1992) –, proferiu um discurso impregnado da figura de Hussein e Karbala.

In the name of God the Merciful, the Compassionate. I had to write this down to be able to summarize the feelings and attitude on the day of your journey to heaven where God Almighty is awaiting, a journey that started as you wished and chose

with enthusiasm; a death that epitomized the events at Karbala. You were [Mussawi] just like al-Hussein, a body without a head; just like al-Abbas, with your hands severed; and just like the greatest Ali, with your torn flesh. It is as if

your infant son Hussein is the sucking child of Karbala, who did not die from a severed vein, but whose body parts mingled with your own. It is as if your spouse and life‟s companion Um Yasser, as if Zenaib [irmã de Hussein que foi obrigada a marchar até Damasco após a batalha de Karbala e foi proibida de usar véu] is screaming in revolution not through words or tears, but with her blood that speaks even louder at a time when words have lost their value. As if your bombed and

destroyed cortège were Hussein‟s tents burning the desert, as if you were that same Hussein, the commander on the battlefield, Hussein the rebel in the face of oppression and despotism, and Hussein who rejected humiliation and shame.

Just like the committed and faithful Abbas [meio-irmão de Hussein que também foi martirizado em Karbala], loyal to the revolution ant the leader, You, My Master,

epitomize all that Karbala represented, from resistance to enthusiasm, to the path, to the tragedy. (NASRALLAH, 18/02/1992 apud NOE, 2007, p. 52)(grifos nossos)

A manutenção do mito, segundo Hobsbawm (2002) serve para fortalecer o sentimento de pertencer a um grupo. A possibilidade de vivenciá-lo como ocorre na Ashura faz com que a identidade seja reafirmada a cada momento.

Desde a utilização do mito na vida cotidiana (como a exposição da imagem do

Imã Hussein numa

barbearia, foto ao lado) até seu uso como elemento gerador de transformações, a classe dos ulemás sempre teve ciência desse poder e o cultivou.

Daí a importância de utilizar os signos de Karbala nos discursos e cerimônias públicas. Quanto mais se vive o mito, mais se aproxima dele. Assim, busca-se o entendimento de que a racionalidade se funde à fé, gerando experimentações particulares, como a elaborada pelo xiismo.

Nesse sentido, a liderança construída pelo aiatolá Khomeini, mais fortemente a partir da década de 1960, nunca deixou de pautar-se pelo exemplo do Imã Hussein. E, para subsidiá- la, toda uma estrutura organizativa foi constituída. Daí retoma-se a mais um conceito fundamental do xiismo, a hierarquia. Uma vez que houve o reconhecimento da liderança estabelecida por Khomeini, a grande maioria dos clérigos se alinhou à sua proposta de

governo e transformação do sistema político. Weber nos lembra de que para o poder carismático ser efetivado é fundamental que toda uma estrutura se forme em torno dele. Assim, Khomeini conseguiu, ao mesmo tempo, utilizar a linguagem religiosa para fortalecer e legitimar sua liderança junto à população xiita e contar com o apoio dos ulemás para ratificá- la.

A existência da maior parte das relações de poder, legais segundo o seu carácter básico, assenta, tanto quanto na sua estabilidade se expressa a fé legitimadora, em fundamentos mistos. O costume tradicional e o “prestígio” (carisma) coadunam-se com a fé - em última análise, também implantada - no significado da legalidade formal: o abalo de um deles por exigências inabituais, em face da tradição, feitas aos governados, por um infortúnio extraordinário que aniquila o prestígio, ou pela infracção da correcção legal formal habitual, faz vacilar em igual medida a fé legitimadora. Mas em todas as relações de poder é decisivo, para a consistência incessante da obediência efectiva dos governados, sobretudo o facto da existência do corpo administrativo e da sua acção incessante, dirigida à execução dos regulamentos e à coacção (directa ou indirecta) da sujeição à autoridade. A garantia desta acção, que leva a cabo o domínio, é o que se pretende dizer com a expressão “organização”. Por seu turno, para a lealdade ao senhor, tão importante em

toda a parte, do corpo administrativo é decisiva a sua solidariedade de interesses com o senhor - tanto do ponto de vista ideal como material. (WEBER,

s/d, 11-12) (grifos nossos)

Os discursos que Khomeini viria a proferir em Najaf, no início da década de 1970, traziam todos os elementos apontados por Weber para a legitimação do poder. No capítulo quarto, analisaremos esses discursos para entendermos suas implicações na construção do movimento revolucionário que levou à Revolução Islâmica. A seguir passaremos a analisar o processo hierárquico do xiismo e a base racional que legitimaria o imamato.