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Da necessidade constatada por Adorno em sua crítica ao hermetismo do conceito absoluto oriundo da dialética tradicional, ou ao sujeito transcendental em Kant, ou ainda à falibilidade do que se chamou “esclarecimento” para o pensamento ocidental, se pode concluir que o desenvolvimento da sociedade nas bases positivistas do que se disse “Ilustração”, pela incapacidade de reconhecimento do objeto enquanto parte constituinte e fundamental da realidade concreta conduziu inexoravelmente a humanidade à barbárie.

Dessa forma diante de tais condições de barbárie vividas, tais como as duas guerras mundiais do século XX, e eminentes, como o retorno a barbárie dos campos de concentração nazistas, a teoria crítica surge com a finalidade, dentre outras, de analisar a formação social, em especial no ocidente, revelando as bases em que esta se formou, comprovando a sua intencionalidade através de seus mecanismos de poder e administração, colocando o sujeito frente a frente com o objeto, diverso e contraditório, para assim interferir de modo real e eficaz na retomada de conscientização de uma sociedade reificada.

Através da mediação entre o eu e o não-eu do conceito, ou seja, partindo da inter-relação entre a diversidade dos sujeitos, Adorno pretende penetrar no campo de força do conceito revelando a tensão e contradição nele existente, a fim de convertê-lo em função de uma experiência formativa. O ponto central dessa experiência está na compreensão do presente como construção histórica e não como resultado de um desencadeamento lógico superior vindo de uma inteligência suprema ou de uma teleologia do absoluto.

Há, portanto a necessidade de escapar do enfoque “subjetivista” da própria subjetividade na sociedade capitalista tardia fazendo com que a consciência já não seja apreendida enquanto produto do plano das

representações quer venham elas do puro materialismo que nada enxerga além do objeto em si, sem as mediações necessárias do sujeito; quer venham elas do abstracionismo absoluto que só considera aquilo que é construído pela racionalidade sem respeitar o objeto, ou por fim, quer venham elas da razão moral, puramente formativa sem reconhecer as particularidades estruturais das diferentes sociedades e de seus contextos históricos. É preciso que se reconheça a importância da experiência formativa, reconhecendo a relevância da elaboração do passado na mediação entre o sujeito e o objeto.

A elaboração do passado como propõe Adorno, reside justamente na reconstrução racional do passado, enquanto experiência formativa, para que haja uma tomada de consciência que capacite o indivíduo a lidar com suas experiências sem recalcá-las, ou o que seria ainda pior, amenizá-las. Como exemplo, Adorno (1995, p.30) se refere à “noite de cristal”4, de novembro de 1938:

No experimento de grupo do Instituto de Pesquisa Social freqüentemente verificamos que a lembrança da deportação e do genocídio se associava à escolha de expressões atenuantes ou de descrições eufemistas, ou configurava um espaço vazio do discurso; o uso consagrado e quase benevolente da versão da “noite de cristal” para designar o pogrom de novembro de 1938 confirma esta tendência.

Ou seja, é necessário encarar o passado sem amenizá-lo para, a partir daí, se construir um presente sólido, calcado na elaboração consciente do passado guardando, inclusive e acima de qualquer coisa, seus elementos contraditórios, ou em outras palavras, respeitando as contingências do outro, o não-eu, aquilo que fugiu ao controle racional da administração social e se apresentou como bom ou mau. Ainda segundo Adorno (1995, p.33), “quando a humanidade se aliena da memória, esgotando-se sem fôlego na adaptação

4 Noite dos Cristais (alemão Reichskristallnacht ou simplesmente Kristallnacht) é o nome popularmente dado aos atos de violência que ocorreram na noite de 9 de novembro de 1938 em diversos locais da Alemanha e da Áustria, então sob o domínio nazista ou Terceiro Reich. Tratou-se de Pogroms, de destruição de sinagogas, de lojas, de habitações e de agressões contra as pessoas identificadas como judias.Para o regime foi a resposta ao assassinato de Ernst von Rath, um diplomata alemão em Paris, por Herschel Grynszpan, um judeu polaco, condenado múltiplas vezes a deportação da França.

ao existente, nisto reflete-se uma lei objetiva de desenvolvimento”, uma falsa idéia de progresso alicerçado no positivismo.

É contra tal condição de esquecimento vazio e frio dos acidentes históricos, entendidos aqui como aquilo que não cabe no conceito, imprevisíveis ao intelecto unificador, que repousa a elaboração do passado.

O apelo de Adorno ao declarar que Auschiwitz não se repita, traz a tônica da discussão sobre a semi-formação em que se encontram as culturas ocidentais enquanto não esclarecem seu passado e os pressupostos que ainda hoje persistem nas formas de perseguição e violência as minorias, sejam elas de qual ordem for, e que podem a qualquer momento retornar, como nos chama a atenção no trecho seguinte:

Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. É isto que apavora. Apesar da não-visibilidade atual dos infortúnios, a pressão social continua se impondo. (ADORNO, 1995, p. 119)

Para que tais atrocidades não se repitam é ainda necessário, segundo o próprio Adorno buscar tratar as causas “nos perseguidores e não nas vítimas” que sob qualquer pretexto infundado são assassinadas – e mesmo não há pretexto tão irremediável que justifique o assassinato de quem quer que seja (ADORNO, 1995, p.121).

A cura para tais males sociais não estaria, segundo Adorno:

[...] em valores eternos, acerca dos quais justamente os responsáveis por tais atos reagiriam com menosprezo; também não acredito que o esclarecimento acerca das qualidades positivas das minorias reprimidas seja de muita valia (ADORNO, 1995, p. 121)

O que Adorno pretende antes é mostrar como, através da educação e de uma formação para a autonomia o sujeito seja capaz de externar-se e em seguida voltar-se para si com a consciência da importância do outro para a construção de uma sociedade verdadeiramente esclarecida e assim libertar- se de uma vez por todas de sua condição menor, de sua condição de heteronomia e passar a pensar por si mesmo, dentro de uma civilização

verdadeiramente emancipada.

A pressão da sociedade administrada, dominante sobre tudo o que é singular, em especial os homens individualmente e as instituições particulares, tem uma inclinação a destruir o particular e individual juntamente com o seu potencial para a resistência.

Através da adaptação forçada pelos imperativos do sistema capitalista tardio, tais como, produção e resultados, as pessoas tendem a perder o que têm de melhor, ou seja, suas qualidades individuais tais como, sua identidade e sua capacidade para negar e resistir. A capacidade de se contrapor ao que, em qualquer momento e de qualquer forma pode levá-las a violência e ao crime obriga os seres humanos a se moldarem ao sistema ordenador que rejeita a diferença e apregoa a todo custo a identificação. Os homens não conseguem mais pensar de outra forma se não determinados pelos ditames de ideologias dominantes, onde aquele que não comunga com a idéia imposta é um corpo estranho a ser extirpado do organismo social.

Quando Adorno (1995) se refere à educação após Auschiwitz, é sobre isto que ele está falando: sobre o desenvolvimento de futuros jovens capazes de dizer não aos imperativos do sistema, que como é apontado por Adorno força a adaptação já nos primeiros anos de vida.

Uma educação para a emancipação, segundo Adorno (1995, p.12), deve partir de dois pontos cruciais:

Primeiro, à educação infantil, sobretudo na primeira infância, onde a criança é mais vulnerável e susceptível a influências externas; e, para, além disso, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não permita tal repetição.

Em outras palavras, a educação deve tornar possível um ambiente social e cultural em que as condições e motivações que conduziram ao terror nazista, por exemplo, não se repita.

No entanto, apesar de reconhecer – como acima foi explicitado – a importância da formação para que não se repitam as barbáries do anti- semitismo, Adorno reconhece que a questão também remete fortemente a questão social, acima mesmo dos casos psicológicos oriundos de uma semi-

formação ou de uma má formação - para não dizer de total ausência - de uma elaboração do passado.

Nesse ponto, em que se trata o problema da barbárie como uma questão primordialmente social Adorno (1995, p.124) adverte que:

A ausência de compromisso das pessoas seria responsável pelo que aconteceu. [...] É plausível para o entendimento humano sadio evocar compromissos que detenham o que é sádico, destrutivo, desagregador, mediante um enfático “não deves”. Ainda assim considero ser uma ilusão imaginar alguma utilidade no apelo a vínculos de compromisso ou até mesmo na exigência de que se reestabeleçam vinculações de compromisso para que o mundo e as pessoas sejam melhores.

Tais compromissos sociais, se não forem experimentados por si mesmos como algo substancial para as pessoas, reverter-se-ão facilmente em falsidade. Eles acabam se tornando mandamentos, que findam, mais uma vez, por conduzir as pessoas à condição heterônoma, criando homens dependentes de normas que não são assumidas livremente pelo indivíduo.

Segundo Adorno (1995, p.127) é preciso evitar os meios e ideologias coletivas que sigam no sentido imperativo e heterônomo, pois “o mais importante para enfrentar o perigo de que tudo se repita é contrapor-se ao poder cego de todos os coletivos, fortalecendo a resistência frente aos mesmos por meio do esclarecimento do problema da coletivização.”

O problema da coletivização está no fato de que os indivíduos se submetem por vários meios, dentre os quais nos interessa citar, a semi- formação a partir da perspectiva de uma sociedade administrada, ou do próprio desenvolvimento do pensamento ocidental que tem levado a uma falsa idéia de razão esclarecedora – que seria mais correto chamar de razão instrumental -, ou ainda o ideal positivista de ciência exata e acabada, que têm levado a transposição do positivismo técnico-científico para o adestramento técnico dos corpos humanos reificando as consciências humanas para os quais segundo Adorno (1995, p. 132) é preciso estar alerta, pois:

Um mundo em que a técnica ocupa uma posição tão decisiva como acontece atualmente gera pessoas tecnológicas, afinadas com a técnica. [...] Os homens inclinam-se a considerar a técnica como

sendo algo em si mesma, um fim em si mesmo, uma força própria, esquecendo que ela é a extensão do braço dos homens.

Os homens vêem-se envolvidos por um “véu tecnológico” onde “os meios – e a técnica forma um conceito de meio dirigido a autoconservação da espécie humana - são fetichizados porque os fins – uma vida humana digna – encontram-se encobertos e desconectados da consciência das pessoas” (ADORNO, 1995, p. 132).

A resistência social, que deve advir dos sujeitos conscientes de seu papel enquanto cidadãos surgem a partir de uma formação política que deve, acima de tudo, evitar que Auschwitz se repita. Tal pretensão é possível na medida em que a educação se ocupe em formar indivíduos capazes de pensar autonomamente sem receio de quaisquer potencias superiores, resistindo e negando uma condição inferior, resistindo e negando uma vida simplesmente adaptada.

É preciso pensar e pensar sem as amarras que conduzem a razão aos círculos fechados do coletivo e do conceito; é preciso pensar para além das condições impostas.

Ao defender que “desbarbarizar tornou-se a questão mais urgente da educação hoje em dia” (ADORNO, 1995, p. 155).

O autorpretende chamar a atenção para a necessidade que por si só já se impõe, qual seja: a de educar para a não-adaptação, para o reconhecimento do outro e a o respeito a esse outro onde quer que ele se encontre. Mas para que a educação aponte para a desbarbarização dos homens é preciso entender o que Adorno (1995, p,155) quer dizer com barbárie:

[...] algo muito simples, ou seja, que estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização – e não apenas por terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda civilização venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza.

Em outras palavras, Adorno quer chamar a atenção para o fato de que em uma civilização dita tão adiantada em termos de progresso técnico- científico e progresso econômico como a que se apresenta hoje no capitalismo industrial tardio5, a violência, por exemplo, não venha mais da

necessidade da luta pela sobrevivência, mas que brote da incapacidade e do fracasso do desenvolvimento da razão ocidental em reconhecer o outro, em sua diferença, como se a civilização ainda estivesse presa aos ditames da natureza mais selvagem a que o homem tenha por ventura experimentada em tempos remotos.

A necessidade de superação da condição heterônoma em que o homem se encontra a fim de solucionar de uma vez por todas o risco do retorno a barbárie chega a ser tão imperativo em Adorno - no que diz respeito ao papel da educação na sociedade administrada do capitalismo tardio - que em entrevista cedida a rádio na década de 1960 em Berlim-Alemanha, o teórico de Frankfurt chega a afirmar que “a tentativa de superar a barbárie é decisiva para a sobrevivência da humanidade” (ADORNO, 1995, p. 156).

A cultura, imersa no positivismo especializado do mundo administrado, não atingiu o fim desejado de emancipação humana, ao contrário, segundo Adorno, dividiu a humanidade em uma bipolaridade perniciosa qual seja: “a divisão [...] entre trabalho físico e mental. Deste modo ela subtraiu aos homens a confiança em si e na própria cultura” (ADORNO, 1995, p. 164).

Dessa forma, a partir da “falência da cultura”, que perpetua de modo inconsciente a barbárie social, se pode perceber como, de várias formas, o processo de barbarização das futuras gerações permanece de maneira tal que, não é mais possível mudar a situação vigente isntataneamente sendo necessário que a razão inicie imediatamente, através especialmente da educação, seu papel esclarecedor.

5

A passagem do capitalismo liberal para o chamado capitalismo monopolista resulta em uma nova configuração do sistema capitalista, que Adorno denomina “capitalismo industrial tardio”, onde uma nova racionalidade do trabalho surge como mecanismo de alienação da consciência do trabalhador em contraposição ao caráter formador do trabalho. Ao mesmo tempo em que apregoa o estado de bem estar social e a democracia, a racionalidade do trabalho no “capitalismo industrial tardio” reifica as consciências dos trabalhadores e mantêm a sociedade sob controle.

É nesse sentido que Adorno (1995, p.164) aponta para a real responsabilidade do esclarecimento que não é de forma alguma a “conversão de todos os homens em seres inofensivos e passivos”, mas ao contrário, posto que: “[...] esta passividade inofensiva constitui ela própria, provavelmente, apenas uma forma de barbárie, na medida em que está pronta para contemplar o horror e se omitir no momento decisivo.”

Com um modelo educacional voltado prioritariamente contra a barbárie Adorno (1995, p.165) pretende:

[...] nada além de que o último adolescente do campo se envergonhe quando, por exemplo, agrida um colega com rudeza ou se comporta de modo brutal contra uma moça; quero que por meio do sistema educacional as pessoas comecem a ser inteiramente tomadas pela aversão á violência física.

Adorno almeja, portanto, que a educação para e emancipação, alcance todas as instâncias sociais penetrando em todas as classes e indo a todos os lugares garantindo a todos os indivíduos a oportunidade de elaborar seu próprio caminho a partir de uma constante reflexão sobre a realidade em que se inserem.

Dessa forma, a emancipação enquanto formação deve ser entendida como uma categoria dinâmica, de uma busca constante e não uma categoria estática - ou mesmo uma condição passiva -, haja vista as constantes mudanças a que estão submetidos sujeito e objeto. Sujeito e objeto são partes constituintes do real e, portanto devem ser vistas e elaboradas como tal, sem que haja o prevalecimento de uma sobre outra, como se tem constatado no desenvolvimento equivocado do que se chamou esclarecimento da razão ocidental.

A sociedade esclarecida ainda é um ideal a ser alcançado, tanto que, antes de falarmos desta forma, ou seja, em sociedade esclarecida, podemos apenas sinalizar que Kant (apud ADORNO, 1995, p.181) tinha razão ao responder em seu ensaio sobre “O que isso: o esclarecimento”, que não vivemos em uma época esclarecida, mas “certamente em uma época de esclarecimento.”

E que ainda assim, prosseguindo com Adorno (1995. p.181):

Se atualmente ainda podemos afirmar que vivemos numa época de esclarecimento, isto tornou-se muito questionável em face da pressão inimaginável exercida sobre as pessoas, seja simplesmente pela própria organização do mundo, seja num sentido mais amplo, pelo controle planificado até mesmo de toda a realidade interior pela indústria cultural.

Se se pretende dar a palavra “emancipação” um sentido real e consistente é necessário começar a ver efetivamente os enormes obstáculos que se apresentam contrários a emancipação humana na atual organização social em que o mundo se encontra.

O maior obstáculo que se evidencia nesse primeiro momento à tentativa de emancipação, é a enorme contradição social a que estão expostos os indivíduos. A organização social como a temos hoje, desde a educação da criança na primeira infância – que vai do zero aos sete anos – ao chão da fábrica, se estendendo ao seu lazer, seja ele diante da televisão na sala de sua casa, ou nas multidões ensandecidas dos estádios, atua como fator de perpetuação da condição de heteronomia do sujeito, ou seja, nenhum cidadão pode existir na sociedade atual conforme suas próprias determinações.

A sociedade administrada vai formando as pessoas através de inúmeros recursos e instâncias mediadoras, de uma forma tal que a tudo absorvem e acatam dentro desta configuração heterônoma que se desviou de si mesma em sua consciência. Ao refletir sobre os mecanismos da sociedade administrada que se impõem ao sujeito ao longo de toda sua vida Adorno não se furta a discussão sobre a sociedade pensada e analisada a luz da ciência, ou seja, a sociedade entendida do seu micro ao seu macrocosmo pelas ciências sociais.

4.2 A ciência social e a compreensão da sociedade administrada e suas