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O encontro temático da Ciranda de Aprendizagem e Pesquisa traz a provocação: O que vemos nessa caminhada?

A cirandeira Beth Silva é a primeira a se manifestar:

É inegável a contribuição da trilha Cirandas nas Escolas. É uma oportunidade de quebrar barreiras de fazer algo diferente de construir algo junto (em grupo) e partilhar saberes, de valorizar pessoas e

trabalhar os talentos (das crianças, adolescentes e artistas-educadores). [...] As crianças querem brincar, mas elas estão ali para a oficina de teatro. Fazem teatro o tempo todo. Fazem espetáculo que é apreciado por todos por que são verdadeiras nas expressões, no jeito, na maneira de responder naquele ambiente que é só delas. Ao mesmo tempo quando falamos em violência, são tomadas como cúmplices de uma situação que elas não têm culpa nenhuma.

Alguns resultados refletem-se em outros processos como o Projeto Saúde na Escola (PSE) em Fortaleza, que articula políticas e atores institucionais e cuja construção metodológica foi inspirada nessa proposta.

A caminhada, segundo o cirandeiro Ray Lima,

Evidenciou a necessidade de rediscutir a proposta com o conjunto dos atores na perspectiva de maior apoio da escola e inserção no projeto político pedagógico, assim como fortalecer a interface com a unidade de saúde e com outros setores que potencializem a inclusão de outras ações e de outras políticas sociais para o contexto da comunidade.

Com singularidades e desafios regionais, o processo caminhou no sentido de experimentar a riqueza da construção coletiva, onde os vários atores e atrizes/sujeitos, (comunitários e institucionais), implicados no processo puderam, em alguma medida, constituir- se sujeitos históricos em todos os momentos da sua formulação (FORTALEZA, 2008a).

Outros desafios, no entanto, são apontados pelos cirandeiros como inacabamentos do percurso. A interface saúde-educação no contexto do território é ainda um devir, pelo menos na perspectiva não instrumental entre os dois setores.

Considerar as potencialidades e os grandes problemas dos territórios que circundam as escolas, os centros de saúde, como base da organização de processos de trabalho intersetoriais e interdisciplinares, são situações-limite a serem enfrentadas. Mesmo considerando os avanços, ainda percebemos, como médica e atriz implicada, tímido o crescimento da educação como processo emancipatório e de formação permanente para práticas do diálogo, da interação, do abraço solidário e das aprendizagens mútuas no contexto das práticas e serviços de saúde.

O cirandeiro Ray Lima retoma outra dimensão importante a ser olhada e repensada: a questão cultural. Essa parece ser uma provocação do cirandeiro ao processo:

[...] a questão cultural deve ser revista, repensada e melhor cuidada no contexto escolar. [...]. Se sonhamos em ser alguma coisa, o somos pela cultura. É por ela que nos movimentamos. É com ela que somos capazes de lidar com as certezas e incertezas da vida. E é por meio dela que nos transportamos para outras dimensões fora do que entendemos por real para compreender e transformar a própria realidade [...]. Por isso tudo a cultura, mais que um tema importante, é uma dimensão da educação escolar que indispensavelmente deve ser tratada como política pública em caráter permanente (LIMA, 2008).

Ao propor a cultura como dimensão fundamental da política educacional na escola, trazemos, para dialogar com as proposições do cirandeiro, Arroyo (2004), ao nos lembrar que a cultura não é referencial destacado na formação dos educadores. Diz ele: “Não vamos à escola nem à nossa docência com esse olhar da cultura”. Ao mesmo tempo Freire (2000, p. 62), nos diz: “O mundo da cultura que se alonga em um mundo da história é um mundo de liberdade, de opção, de decisão, mundo de possibilidade em que a decência pode ser negada, a liberdade ofendida e recusada”. Dessa forma, o autor nos lembra sobre a importância de respeitar a “alma da cultura”, mas insiste: “uma coisa é respeitar; a outra é manter e encorajar alguma coisa que não tem nada a ver com a visão do educador”.

Nessa perspectiva, o cirandeiro lembra que há muito a ser transformado na cultura que atualmente orienta a prática educativa, e, nas palavras de Freire, diz que, se é cultural e histórico, pode ser mudado. Assim refere-se à necessidade de repensar a gestão da escola em uma perspectiva da gestão compartilhada: Precisamos encontrar forma de trabalhar o respeito e a inclusão dos estudantes como sujeitos legítimos da gestão escolar, desde sua participação na tomada de decisões sobre os destinos de sua educação aos processos de aprendizagens cotidianos.

Partindo da compreensão de que as políticas se efetivam na realidade concreta pelo envolvimento dos seus diversos atores, o Sistema Municipal de Saúde Escola de Fortaleza elaborou uma proposta de integração das políticas de saúde e educação, no âmbito do Município, na perspectiva de constituir o percurso orientador do Programa Saúde na Escola, recentemente lançado pelos Ministérios da Educação e da Saúde.

Pensar a caminhada e a articulação das políticas de saúde e educação nos remete a refletir a integração entre dois campos que estão próximos no cotidiano, mas distantes na compreensão de um em relação ao outro. Assim é que os cirandeiros se envolveram na formulação metodológica, que incluiu também outros atores das secretarias de saúde e de educação e contempla a metodologia elaborada pelas Cirandas para a reconstituição da história de luta e resistência da escola, como um dos passos do planejamento integrado entre os dois setores e a comunidade.

Segundo relatório da gestão (FORTALEZA, 2008), nessa proposta, o território é expresso como base para a constituição das interfaces necessárias entre escolas e unidades de saúde situadas nos respectivos territórios e aponta para o respeito à experiência prévia e os saberes dos diversos atores e atrizes envolvidos, o que não significa limitar o ato educativo, mas dialogar com ele, problematizá-lo, elaborar um saber relacional, como síntese

articuladora entre os saberes apreendidos na escola da vida e aqueles proclamados na vida da escola (FREIRE, 2000).

Entre os desafios postos à interação das duas políticas está a compreensão de que esses campos estão interconectados com a vida em sua complexidade, e a ousadia de assumir, em conjunto, a gestão e a responsabilidade sobre estes movimentos, não necessariamente no plano da “medicalização”, conformando dimensões sociais, culturais, espirituais e também pedagógicas.

Portanto nos cabe perguntar: como pensar a interface saúde e educação, buscando a superação do olhar fragmentado e reducionista do paradigma biomédico que “medicaliza” a atuação dos profissionais de saúde em sua atuação na escola? Como engendrar com a comunidade escolar um olhar ampliado sobre os processos de adoecimento e as possibilidades de intervir nesse processo com base nas dimensões sociais, culturais, espirituais e também pedagógicas? O que produz bons encontros, os que ativam potências, paixões alegres no dizer de Spinoza, entre os sujeitos da saúde e da educação?

Respaldados nessas reflexões, a contribuição das Cirandas para esse percurso metodológico se dá fundamentalmente, tendo como âncora a educação popular como proposta dialógica e problematizadora, incorporada a permanente aprendizagem, que se pretende possa ser assumida também institucionalmente por meio dos projetos políticos pedagógicos das escolas. Ao mesmo tempo as Cirandas, ao trazerem experiências que envolvem dimensões criativas, tais como as diversas linguagens da arte, os jogos, as narrativas, apontam caminhos participativos para a abordagem das temáticas de saúde nas escolas e a configuração de processos pedagógicos que apontem para a superação do modelo da Biomedicina na saúde e da pedagogia da transmissão na educação, promovendo a inclusão dos vários atores e atrizes que compõem a comunidade escolar como sujeitos protagonistas dessas ações.

Apesar da proposta, no âmbito mais geral do Município, não ter sido ainda efetivada, articulações envolvendo as Cirandas da Vida, unidades de saúde e escolas de alguns territórios onde as Cirandas atuam, constituem movimentos no sentido de torná-la real. Esses movimentos vão desde a realização do planejamento integrado entre escolas, unidades de saúde e atores comunitários, como está a acontecer no Barroso II; na elaboração do projeto político-pedagógico da escola no Alagadiço Novo; ou na produção de produtos pedagógicos que discutam com os estudantes o que pensam sobre saúde e educação envolvendo a escola e a unidade como no Tasso Jereissati, todos eles, territórios da região VI da cidade.

Assim a experiência das Cirandas nas Escolas aponta para a possibilidade de se pensar a incorporação, ao projeto político pedagógico da escola, das dimensões da arte, da cultura e da saúde. No dizer do cirandeiro Ray Lima, com base na experiência da “Escola Zumbi” é como se criássemos na escola:

[...] uma política pública de arte e cultura, na perspectiva não apenas da inovação, do olhar lúdico, ou do fortalecimento da auto-estima, mas de multiplicar desejos, olhares e possibilidades pedagógicas capazes de tornar o ambiente da escola mais prazeroso, participativo, problematizador, acolhedor e significativo para as pessoas. (LIMA, 2008).

Nessa perspectiva, é possível pensar a escola como espaço onde a identidade cultural é considerada base do processo educativo, o que nos remete à compreensão de que “só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros.” (FREIRE, 1987).

Nesse contexto, a título de arremate dessa sinfonia, ficamos com o cirandeiro Ray Lima:

Enfim, mesmo que tudo isso pareça distante de sua efetividade, algo se fez concreto neste exercício das Cirandas nas Escolas. Se não foi possível imprimir mudanças definitivas na relação saúde/educação; escola/comunidade; educador/educando, etc. algumas pontes significativas foram criadas entre esses atores, fortalecendo a todos em suas singularidades, enquanto experiência pedagógica de promoção da saúde e da vida, sacando mão da diversidade criativa e de seus potentes recursos de linguagens, de acordo com a vocação ou tendência própria de cada região.Marchemos nesta sonhação, pois sonhar é lutar com os desejos tocando o infinito e os pés servindo de base para o caminhar largo e esperançoso da utopia.

3.4 Quarta Sinfonia: caminhos de inclusão na vivência com a juventude vida loka