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Musikkterapeutens rolle i forhold til terapeutisk kontekst

In document To be or not to be (sider 60-65)

5. Drøfting

5.4 Musikkterapeutens rolle i forhold til terapeutisk kontekst

Vimos anteriormente que o ambiente em que se estruturaram os valores culturais em Cabo Verde se caracterizou por um processo de continuidade e homogeneidade em termos de

composição racial da sua população, enquanto em S. Tomé e Príncipe o processo realizou-se com várias rupturas e parece ter influenciado a sua instrução.

As várias rupturas na formação da sociedade são-tomense parecem ter deixado marcas profundas que conduziram a formas de ser e estar que, no período pós-independência, são incompatíveis com o processo de desenvolvimento e diferem claramente dos valores culturais dos cabo-verdianos.

Um desses valores é o “leve-léve” que caracteriza a atitude dos são-tomenses perante o trabalho, o qual exerce uma dinâmica negativa no processo de desenvolvimento do país. A atitude da população são-tomense perante o trabalho é designada nos meios locais por “léve-léve”, e consiste num estilo de vida de desprezo pelo trabalho. De acordo com alguns autores, esta atitude tem origem em acontecimentos históricos de má memória iniciados com o sofrimento cruel imposto aos escravos nas grandes plantações dos canaviais e, mais tarde, dos cafezais, cacauzais e na marginalização económica e social da elite forra, em resultado da profunda transformação social que ocorreu em meados do século XIX, com o regresso dos europeus ao território.

Elementos recolhidos em Nogueira (1885: 414), Tenreiro (1961: 176), Barata (1965-66: 953) e Oliveira (1993: 149), citados em Espírito Santo (2008: 180), mostram que aqueles forros que exerciam actividades noutros sectores, sem a disciplina nem a brutalidade que caracterizavam o trabalho agrícola das grandes plantações, empenhavam-se bem nas suas tarefas. Mas não se pode daí concluir que uma tal atitude laboral de hoje derive exclusivamente da memória da repressão exercida nos trabalhos dos campos, em períodos tão remotos, de uma experiência não vivida. A atitude psicológica de revolta pela posição social que tinham os avós e pais dos forros antes de serem despojados dos seus bens e a subtracção da sua condição social é bem mais recente e parece justificar melhor esse tal comportamento. Por isso, tudo leva a crer que, as mudanças estruturais que ocorreram no território nos anos 50 do século XIX, com a despromoção social da elite forra e a importação de grande número de contratados, com o regresso dos europeus, estejam na origem do comportamento de “leve- léve”.

Com a independência do território, o desprezo dos são-tomenses pelo trabalho assumiu uma proporção maior e tornou-se mais visível na administração pública do que nas empresas do sector privado ou nas instituições fora do âmbito do Estado. A enorme fragilidade institucional que fez aumentar a desordem no aparelho do Estado, sobretudo a partir de 1991, com a introdução do multipartidarismo, contribuiu em muito para esta calamitosa situação.

Muitos funcionários abandonam o seu posto de trabalho, com a cumplicidade dos seus superiores, para realizarem outras actividades geradoras de rendimentos, de maneira a obter um complemento de rendimento para o sustento do seu agregado familiar.

Os baixos salários na função pública, combinados com um relacionamento do tipo informal entre superiores e subordinados, com interesses político-partidários pelo meio, que caracteriza a forma de funcionamento das instituições em S. Tomé e Príncipe, reforçam esta situação (Chabal e Daloz, 1999).

O mau funcionamento da administração pública leva a que cada um, no seu posto de trabalho, tire proveito da função que exerce ou em acumulação com outras actividades do sector informal em período laboral fazendo, assim, aumentar a indisciplina nos serviços do Estado. Mas isso acontece porque a sociedade são-tomense não é uma sociedade unida em torno de um objectivo comum para o seu desenvolvimento. A nova elite local pós-independência não revelou até hoje capacidade para realizar esta tarefa.

Há outros factores que influenciaram a atitude de desprezo pelo trabalho em S. Tomé e Príncipe no período pós-independência:

• Promessas não cumpridas dos políticos logo após a independência;

• Baixo salário pago aos trabalhadores nas plantações nacionalizadas e o enorme atraso no seu pagamento;

• Introdução do neopatrimonialismo logo após a independência e seu aprofundamento no período multipartidário;

• Má governação e corrupção que lhe está associada;

• Comportamentos da elite política contrários aos princípios da liberdade, igualdade e justiça, constantes da Constituição da República;

• Enorme disparidade na repartição da riqueza bem como o agravamento da pobreza; Face a estes comportamentos da elite política, a população trabalhadora reagiu adoptando a atitude do “leve-leve” que, em termos laborais locais, significa trabalhar devagar, devagarinho ou mesmo não fazer nada.

Esta atitude de desprezo pelo trabalho encontrou protecção em dois factores fundamentais: • A boa fertilidade do solo que faz nascer os alimentos indispensáveis à sobrevivência

dos são-tomenses com pouco ou nenhum esforço humano; e

• Baixo nível de escolaridade, comparativamente a dos cabo-verdianos. Um nível de educação baixo parece ter influenciado os forros são-tomenses a não percepcionarem a

importância fulcral do trabalho para a melhoria da sua condição de vida, optando antes por uma vida mais deprimente.

No período pós-independência, a aversão ao trabalho não se limitou, como no passado, às tarefas das roças, mas sim ao trabalho em geral.

Do ponto de vista económico, o “leve-leve”, na medida em que contribui para um baixíssimo nível de produtividade do trabalho, constitui um importante obstáculo ao desenvolvimento do território. Em termos laborais, ele é caracterizado por indisciplina, morosidade excessiva na realização das tarefas, incumprimento do horário de trabalho e dos afazeres, absentismo em exagero, falta de pontualidade e ausência de iniciativa. Trata-se de uma ética laboral que traduz a forma de ser e estar dos forros no período pós-independência.

O “léve-léve” arrasta consigo um outro problema: o furto. Uma vez que o desprezo pelo trabalho provoca baixos rendimentos, a sobrevivência fica dependente de “esquemas” de roubo seja no próprio local de trabalho ou da vizinhança. Aqui, são os bens do sector primário de subsistência que são pilhados.

Interessa aqui referir que, tal como no passado, nem todos os são-tomenses desprezam o trabalho. Os forros que trabalham nas missões diplomáticas, nas representações de organizações internacionais, nos bancos, em certas empresas privadas, sobretudo, geridas por estrangeiros e, de uma maneira geral, nos lugares onde o salário pago é relativamente mais elevado, a disciplina laboral mais exigente e uma organização mais próxima dos padrões ocidentais, a produtividade do trabalho é mais satisfatória.

O rompimento do “léve-léve” constitui, a nosso ver, um imperativo ao desenvolvimento do país mas depende da verificação de quatro condições essenciais: em primeiro lugar, é preciso investir na educação e formação para todos, a todos os níveis, de modo que os são-tomenses passem a encarar o trabalho como uma condição essencial para uma sobrevivência com dignidade e valorização pessoal; credibilizar as instituições públicas; introduzir princípios morais na classe política; e combater a pobreza para reduzir ou mesmo eliminar as privações das populações. Mas a alavanca para a transformação social para o desenvolvimento do país pode estar nas pessoas que operam no sector informal urbano, como veremos no capítulo 4 deste trabalho.

Ao contrário do “léve-léve”, adoptado pelos são-tomenses, os cabo-verdianos rapidamente elegeram o “no djunta món” (vamos juntar as mãos) como estratégia de grupo para realizarem as tarefas laborais locais.

“No djunta món” é uma expressão crioula usual em Cabo Verde que significa unir os esforços de todos para levar por diante uma tarefa em conjunto, com sucesso, para o bem da comunidade ou do país. Não vamos aqui teorizar sobre as motivações deste importante valor cultural cabo-verdiano. Todavia, interessa lembrar que ele deriva, provavelmente, das duras condições de clima de Cabo Verde e, em certa medida, do seu enquadramento geográfico e da repressão do regime colonial, e do abandono a que Cabo Verde esteve votado durante cerca de dois séculos (séculos XVII-XIX).

Um tal ambiente hostil terá exercido uma influência decisiva no comportamento dos cabo- verdianos que, para sobreviverem às adversidades climáticas e de outros constrangimentos, anteriormente referidos, tiveram que unir os esforços para realizar as tarefas laborais do dia-a- dia. Uma população essencialmente homogénea, falando uma única língua nativa em todo o arquipélago, foi, igualmente, decisiva na formação dos seus valores culturais. Posteriormente, o contacto com a população dos navios estrangeiros que escalavam as ilhas do arquipélago, no século XIX, provavelmente terá contribuído, de alguma forma, para o reforço dos valores culturais cabo-verdianos, nomeadamente pelo estilo de vida que exibiam e os trabalhos que lhes eram prestados pelos cabo-verdianos.

Embora a nível da disciplina laboral nem tudo são rosas em Cabo Verde, nada tem a ver com a situação de indisciplina geral em S. Tomé e Príncipe. Com um nível de educação relativamente mais elevado e em processo de consolidação e uma maior experiência na gestão de serviços de administração pública, os cabo-verdianos têm sabido gerir com normalidade a oferta dos seus serviços aos demais utentes. Por outro lado, eles têm um nível de educação, instrução, e cultura de trabalho relativamente mais desenvolvido do que os forros são- tomenses. E com a independência, confrontados com a velha questão de escassez de recursos naturais, as autoridades cabo-verdianas elegeram o recurso humano local como o principal factor de desenvolvimento e, partir daí, decidiram investir maciçamente na educação e formação da população com vista à redução da distância social entre os cabo-verdianos e reforçar a coesão social, contrariamente ao individualismo dominante em S. Tomé e Príncipe.

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