3. Metode
3.3 Datainnsamling
A vida socioeconómica em Cabo Verde iniciou-se com as plantações de milho, algodão e cana-de-açúcar em Santiago, provavelmente no início do século XVI, vindo o povoamento a estender-se depois pelas restantes ilhas. Devido à dureza do clima e às prolongadas secas, o arquipélago nunca despertou demasiado interesse de Portugal, contrariamente às ilhas de S. Tomé e Príncipe onde as culturas de cana sacarina, café e cacau floresciam abundantemente. Durante muito tempo os portugueses não se interessaram, por exemplo, pelo desenvolvimento da ilha de S. Vicente. Só no século XIX, no período da revolução inglesa, o seu porto das águas profundas (Porto Grande) ganhou importância. Para lá passaram a escalar navios ingleses de grande porte que percorriam o Atlântico à procura de matérias-primas e de mercados de colocação de bens manufacturados16.
Na primeira metade do século XVII, a sociedade cabo-verdiana era caracterizada por um grupo minoritário de europeus, política e economicamente muito poderosos, e uma
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O interesse inglês pelo Porto Grande, que conduziu às intensas actividades portuárias nele desenvolvidas, marcou definitivamente a vida económica e social no arquipélago e constituiu o principal motor de transformação social bem conseguido após o longo período de abandono por Portugal. Mindelo, através das suas crescentes actividades portuárias, passou, então, a ser o centro em torno do qual girava toda a vida económica e social do arquipélago. Para lá foram pessoas doutras ilhas mais próximas trabalhar e viver. Motivado pela sua importância e interesses ingleses, as autoridades coloniais decidiram transferir a capital para Mindelo, onde, ainda hoje, existem desenhos gravados em azulejos representativos dessa actividade naquela época.
esmagadora maioria dos locais que vivia em condições deprimentes. Os primeiros dedicavam- se à exploração e comercialização de algodão, tecidos e outros produtos, com base numa mão- de-obra escrava de origem africana. Esta sociedade conheceu o seu declínio na segunda metade do século XVII, passando os africanos (libertos) a viver de bens de subsistência, pesca e pequeno comércio.
Por essa altura, e durante dois séculos, tanto as ilhas de Cabo Verde como as de S. Tomé e Príncipe estiveram entregues ao abandono por parte de Portugal, que vivia momentos difíceis. Alguns estudiosos admitem que foi durante todo o período de abandono das ilhas até ao surgimento do interesse inglês no século XIX, com o desenvolvimento de actividades portuárias no Mindelo, que se estruturou a identidade cultural própria da população mestiça cabo-verdiana. Uma identidade em que o idioma (crioulo), as canções (mornas, coladeras e dança o ku torno), a literatura, a gastronomia (cachupa) e bebidas (grogue, aguardente) constituem elementos dos seus valores culturais integrantes, presentes na vida dos cabo- verdianos até aos nossos dias, tanto dentro como fora do seu território.
O dinamismo da cidade do Mindelo, que fez renascer o interesse de Portugal pela sua colónia, e a abolição da escravatura na segunda metade do século XIX contribuíram para a formação das estruturas sociais que se mantiveram até à data da independência do território em 1975. Podia-se, então, distinguir três grupos sociais com valores culturais e interesses económicos bem distintos: pequena aristocracia e grande burguesia. Este grupo social representava apenas 1% da população total e vivia conforme o estilo de vida europeu. Eram descendentes dos grandes senhores traficantes de escravos, dos plantadores das ilhas do Fogo e Brava e de proprietários que mais tarde se fixaram nas ilhas de Santo Antão e São Nicolau, bem como grandes comerciantes brancos e mestiços do Mindelo, a partir da segunda metade do século XIX. Este grupo social dispunha de importantes recursos financeiros e facilidades para ocupar altos cargos na administração pública e educar os seus filhos (Lesourd, 1995: 47-8).
A pequena burguesia mestiça constituía a classe média (representava cerca de 9% da população total). Dedicava-se ao pequeno comércio, à agricultura em pequenos tratos de terra e ao artesanato. Dispunha de alguns recursos para financiar estudos dos seus filhos que, assim, puderam, a pouco e pouco, ocupar lugares modestos na administração pública colonial. O desempenho social desta classe é essencial e merece realce na análise da problemática colocada. Como a posse de terras conferia uma posição social de destaque no meio local, empenhava-se para se tornar, igualmente, proprietária de prédios rústicos de maneira a imitar o estilo de vida daqueles da classe alta, rejeitando, assim, os valores culturais africanos.
Admite-se que tenha sido esta classe social que mais contribuiu para que Cabo Verde enveredasse por uma economia tendencialmente liberal na década de 90.
Finalmente, a classe social dos mais pobres representava 90% da população cabo-verdiana e era constituída pelos trabalhadores não qualificados, pescadores, agricultores sem terra, proprietários de pequenos tratos de terra, um grande número de mães chefes de família que praticavam pequeno comércio informal, etc.
Tanto a sociedade cabo-verdiana como a são-tomense foram muito moldadas para responder aos interesses do colonizador, durante a presença portuguesa. Alguns autores afirmam que, em relação a Cabo Verde, os valores culturais africanos foram remetidos para o segundo plano enquanto a língua e a religião e outros aspectos da cultura europeia eram enaltecidos. Contudo, os cabo-verdianos desenvolveram com determinação a sua própria língua crioula que constituía o veículo privilegiado de comunicação entre si durante todo o período colonial. A forma como eles assumiram o idioma crioulo pode levar a questionar sobre se isso não se tratou de uma forma de manifestação de recusa da língua estrangeira, ou a simples valorização daquilo que é o seu principal património cultural17. Seja como for, a verdade é que, desde sempre, é em crioulo que, geralmente, os cabo-verdianos se comunicam entre si tanto dentro como fora do arquipélago.
Em S. Tomé e Príncipe, todos os forros falavam o português, embora com nuances próprias dos seus níveis socioculturais grupais, mas muitos deles revelavam a aversão ao crioulo local, mormente os forros “assimilados”, e ainda hoje uma grande parte recusa-se a comunicar entre si em crioulo forro, sobretudo os mais evoluídos. Forro é a designação dada aos naturais de S. Tomé e Príncipe seja de origem africana ou de cruzamento de pessoas de outras origens desde a formação primitiva da sociedade são-tomense (Espírito Santo, 2009: 39; 197). O termo deriva de português e era empregue de início para referir à condição social de “livre” ou “liberto” para as pessoas nascidas em S. Tomé e Príncipe, de origem africana ou de cruzamento entre europeus e mulheres negras, o qual acabou por ser, posteriormente, apropriado pelos nativos.
Embora o tamanho territorial de S. Tomé e Príncipe (1.000 km2) seja quatro vezes menor do que o de Cabo Verde (4.033 km2), e uma população igualmente mais reduzida (menos de um terço da população cabo-verdiana), tem quatro idiomas autóctones (crioulo forro, crioulo
17 Os especialistas afirmam que a língua constitui, simplesmente, um dos veículos através dos quais se fixam e enunciam a cultua (Mata, 2010: 20).
cabo-verdiano, crioulo lunguyé e idioma angular), enquanto em Cabo Verde existe um único idioma local, falado por todos em toda a parte, embora com algumas nuances entre as ilhas. A estrutura social cabo-verdiana não sofreu alterações significativas no período pós- independência: mantiveram-se os grandes proprietários de terra, a burguesia comercial, os funcionários públicos e trabalhadores rurais, aos quais se acrescenta no novo xadrez social o grupo dos comerciantes do sector informal da economia (os rabidantes) e, mais recentemente, o grupo dos empresários da indústria e turismo. A presença de uma população mais ou menos homogénea (a inexistência de tribos), um único idioma crioulo falado em todo o arquipélago, e a adopção de uma política da não nacionalização do aparelho produtivo parecem ter contribuído para uma evolução normal, sem rupturas, da estrutura socioeconómica em Cabo Verde no período pós-independência.
Há quatro factores que foram determinantes na estruturação da cultura cabo-verdiana: os constrangimentos geográficos que originaram condições de clima muito severas com escassez de recursos naturais, provocaram fomes durante longos períodos e mortes por falta de alimentos; uma população essencialmente homogénea desde a formação primitiva da sociedade cabo-verdiana; uma única língua crioula de comunicação entre todos; o abandono da potência colonial durante cerca de dois séculos e, posteriormente, o contacto com povos de ambientes culturais mais desenvolvidos. A combinação destes factores concorreu para a formação da sua base cultural que ainda hoje caracteriza os valores culturais cabo-verdianos. Face a um tal contexto muito desfavorável, a população teve de inventar formas de vida para encontrar respostas para as difíceis condições em que vivia para a sua sobrevivência. Elegeu “no djunta món”(temos de unir os esforços para vencer os terríveis obstáculos em benefício de todos) a que posteriormente se juntou a expressão “nhõs ajuda nhõs” que significa que uns devem ajudar os outros, para uma vida melhor. Este parece ser o ponto de partida que levou à estruturação da identidade cabo-verdiana, em que predomina o afecto e a comunicação, o que favorece a coesão social entre os ilhéus, levando a que os que partem, em busca de uma vida melhor no estrangeiro, mantêm, de forma muito especial, uma forte ligação com os que ficam no arquipélago.