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Museet og markedet: Markedsorientert VS Vitenskapsorientert

Esse autor trabalhou na constituição de uma disciplina científica, cujo objetivo seria a organização dos registros do conhecimento, tendo em vista a sua plena utilização. Buscou, portanto, os fundamentos de uma ciência da informação, propondo, junto com Margareth E.

Egan, aquilo que chamou, na falta de uma denominação mais adequada, segundo ele próprio, de uma “epistemologia social”.

De acordo com Zandonade (2003), que se dedicou numa tese de doutoramento ao estudo do trabalho desse autor, Shera focalizou seus estudos no “modo de comunicação social do conhecimento registrado”, procurando desenvolver uma “teoria da armazenagem e recuperação da informação”, que considerava a questão mais central da CI. O termo epistemologia social emerge no contexto dos debates sobre a classificação como instrumento de controle bibliográfico, reorientando a idéia de um sistema classificatório único, universal, baseado numa ordem natural, chamando a atenção para o fato de que as tentativas de organização do conhecimento estão condicionadas pelo espírito da época.

A psicologia e a sociologia estavam, naquela época, muito mais voltadas para as motivações emocionais e informais que amalgamavam a estrutura social. Shera e Egan, entretanto, focalizaram os aspectos intelectuais, sobretudo os de natureza formal, que modelavam a sociedade, definindo a epistemologia social como “o estudo das formas como a sociedade consegue um relacionamento compreensivo com o seu ambiente” (SHERA, citado por ZANDONADE, 2003, p. 56) ou as “forças intelectuais que modulam as estruturas sociais e as instituições” (SHERA, 1977, p.10).

A nova disciplina que aqui focalizamos (e à qual por falta de melhor nome chamamos de epistemologia social) deveria fornecer uma estrutura para a investigação eficiente de todo complexo problema dos processos intelectuais das sociedades – um estudo pelo qual a sociedade como um todo procura uma relação perceptiva com seu ambiente total. Levantaria o estudo da vida intelectual a partir do escrutínio do indivíduo para uma pesquisa sobre os meios pelos quais uma sociedade, uma nação ou cultura alcança a compreensão da totalidade dos estímulos que atuam sobre ela. O foco dessa nova disciplina seria a produção, fluxo, integração e consumo de todas as formas de pensamento comunicado através de todo o modelo social. De tal disciplina poderia emergir um corpo de conhecimentos e uma nova síntese da interação entre conhecimento e atividade social (SHERA, 1977, p.10).

A informação, nessa perspectiva, seria um elo (mediadora) entre a cultura e o indivíduo e vice-versa e, conseqüentemente, um elemento de manutenção e construção de uma determinada estrutura social. Ao refletir sobre o papel social das bibliotecas, Shera (1977) expressa sua concepção antropológica de informação relacionando-a com a comunicação, nesse caso na forma de “transcrito social”.

A ligação básica através da qual os indivíduos conquistam a unidade numa cultura é através da comunicação da informação. Assim, a informação é o cimento com o qual a estrutura da sociedade é mantida unida. Uma cultura, pelo menos por definição, produz um transcrito, um registro em forma mais ou menos permanente que pode ser transmitido de geração em geração. Em sociedades primitivas não letradas esse registro toma a forma de um ritual verbal, lendas, poemas e cerimoniais (SHERA, citado ZANDONADE, 2003, p.53).

Para o autor, é esse “transcrito social”, na forma de documentos, que caracteriza as sociedades modernas e, multiplicando-se rapidamente, vai gerar um volume crescente de informações, que chamou de “dilúvio de papel”. Ele problematizou essa questão, vendo nela um paradoxo no qual há uma relação direta entre a dificuldade de acesso ao conhecimento transcrito e a necessidade ou dependência dele. Utilizando suas próprias expressões: “o dilúvio de papel pode ameaçar tragar-nos, mas sem ele morreremos de sede intelectual” (SHERA, citado por ZANDONADE, 2003, p.53). A partir daí, identifica e sublinha a importância da sociologia do conhecimento para a prática dos bibliotecários, o que pode ser perfeitamente estendido para o campo da pesquisa e da prática da CI, de uma maneira mais geral.

Com esse autor chega-se à compreensão de que os diversos modos de disseminação e comunicação da informação influenciam o comportamento dos grupos sociais, modelando o seu entendimento cognitivo da realidade. A informação é concebida como um transcrito da cultura que exerce considerável influência naquilo que o homem crê como verdadeiro, na sua imagem de mundo e, conseqüentemente, influencia também seu comportamento individual e social. Nesse sentido, as bibliotecas são tomadas como fenômeno sociológico, pois fazem parte de um sistema de comunicação social.

Também ficam evidenciadas as relações da epistemologia social com a semântica (ou semiótica), pois observa-se que tanto o conhecimento quanto o conhecimento do conhecimento são transmitidos e disseminados através de um meio simbólico. Cassirer é lembrado por Shera, quando diz que “o homem vive num mundo simbólico de sua própria criação coletiva, que possui como uma de suas principais funções a organização e a explicação da experiência” (ZANDONADE, 2003, p.54).

Com sua epistemologia ou cognição social Shera introduz na CI uma discussão bastante ampla. Em busca de uma fundamentação mais sólida para a documentação e a

biblioteconomia, ele volta-se para as ciências sociais e vê aí bases sólidas para uma ciência da informação. Com o tempo, surgem outros autores que procuram consolidar o pensamento na direção dessa epistemologia social.

Aqui, vale lembrar Buckland (1991) que, mesmo reconhecendo as raízes e o sentido do paradigma físico nas atividades clássicas dos bibliotecários e documentalistas (informação como coisa), refere-se a um “valor informativo”, que não é uma coisa, mas um predicado de segunda ordem, algo que o usuário atribui a qualquer coisa, num processo interpretativo demarcado pelos limites sociais da pré-compreensão. Com esse autor têm-se as bases de uma importante aproximação entre a CI e a hermenêutica, que será realizada, na seqüência, por Capurro (2003).

Assim, ao mesmo tempo em que é documento (algo tangível), a informação possui um valor informativo (não tangível), que não é uma coisa ou uma propriedade de uma coisa, mas da ordem da cultura, que lhe é atribuído, dentro de um processo sociohistórico, por um “sujeito cognoscente da informação”.