4.2 Utstillingene
4.3.2 Hauglagt, Vikingenes gravskikk på Gulli
Foi nesse solo de reflexões que se deu o encontro com a antropologia da informação, um campo da CI que centra suas questões na problemática da produção, distribuição e organização da informação, entendidas como meios para o exercício da cidadania, e que toma a chamada sociedade da informação como pano de fundo das discussões. Com a noção de “cultura informacional”, pretende referir-se ao modelo de conhecimento, no qual se podem distinguir produtores, mediadores e receptores de informações, agindo num mercado de bens simbólicos (culturais), no qual os conhecimentos e as informações (bens culturais) têm pesos diferenciados.
Para estudar as questões informacionais, a antropologia da informação olha, então, para o mundo social, pois é nele que estas se fazem presentes nos mais diferentes discursos, expressando diferentes visões (representações) da realidade, em disputa pelo reconhecimento como verdade. O terreno empírico das pesquisas privilegia a sociedade civil organizada, os movimentos populares, o saber local e aquilo que tem sido caracterizado como terceiro setor, em oposição ao Estado e ao mercado. Por isso pode-se dizer que, na antropologia da informação, encontra-se presente uma preocupação com a cidadania. Marteleto (2002), observa que essa perspectiva
procura centrar suas questões na problemática do conhecimento, sua produção, distribuição e organização na sociedade, como meios para a formação e o exercício da cidadania no ambiente cultural das chamadas sociedades da informação e comunicação (p.104).
Pode-se traçar o seguinte quadro contendo os pressupostos contextuais, empíricos e teórico-metodológicos da antropologia da informação:
Quadro 1 - Pressupostos da antropologia da informação
Contextuais
Conhecimento como produto social, dotado de valor para produtores, mediadores e receptores. Existência de uma cultura informacional inserida no cenário da reestruturação do capitalismo globalizado e excludente. Deslocamento das políticas de informação do público para o privado e do coletivo para o individual. Existência de um mercado de bens simbólicos marcado por disputas entre diferentes práticas e discursos.
Empíricos
A sociedade civil e o terceiro setor e suas interfaces informacionais com os ambientes formais do conhecimento. As composições de conhecimentos teóricos, históricos e práticos nos movimentos da sociedade civil.
A ação social local envolvendo especialistas, lideranças comunitárias e intervenções mediadas por informações. A informação na sociedade: dos ambientes formais ou oficiais à informação produzida na informalidade das comunidades. Teóricos e metodológicos A construção e apropriação do conhecimento na sociedade como forma
política e compartilhada de criar entendimento e encaminhar soluções. O conhecimento e a informação na cultura local e sua inter- dependência com o global: os elementos narrativos, da memória e do esquecimento nos modos de falar e escutar. O conhecimento como produto social e sua apropriação, como matéria informacional, pelos movimentos da sociedade civil.
Emprego crítico da noção de rede: teórico, metodológico e como estratégia de ação.
Fonte: MARTELETO, Regina Maria. Conhecimento e sociedade: pressupostos da antropologia da informação. In: AQUINO, Mirian de Albuquerque. Campo da ciência da informação: gênese, conexões e especificidades. João Pessoa, v.11, n.1, 2002.
Sustentando-se na sociologia da cultura e do conhecimento de Bourdieu, Marteleto (2002) parte do pressuposto de que toda forma de conhecimento é sociohistórica e considera, em cada situação social determinada, a emergência, nos discursos e pontos de vista, de significados que entram em disputa, na tentativa de ganhar a posse da palavra e da verdade. São as lutas simbólicas entre formas de conhecer e nomear a realidade, tão diversas quanto as condições sociais, econômicas e culturais de seus porta-vozes (p.108)
Entre a informação, como elemento estruturador das vivências/experiências dos sujeitos sociais, e a cultura fica, então, estabelecida uma relação tão íntima quanto profunda. Entretanto, ao se falar de cultura (informacional) não se fala num todo homogêneo, pois admite-se a existência de um embate de diversas formas de conhecimento, produzidas por diferentes tipos de vivência/experiência com a realidade. Pensa-se em circularidade da cultura e em hibridização de conhecimentos.
Ao voltar-se para o estudo da informação na sociedade civil organizada e no terceiro setor e suas interfaces com os ambientes formais do conhecimento, a antropologia da informação focaliza o senso comum (conhecimento social), procurando formas de abordá-lo.
Chama, então, a atenção para a necessidade de considerá-lo não como uma apreensão casual da realidade mas como “uma sabedoria coloquial que julga e avalia essa realidade” e, com base na antropologia interpretativa proposta por Geertz, assume que o senso comum elabora discursos, sentidos e informações “que conformam um sistema cultural”. Este, mesmo não sendo muito bem integrado, tem valor e legitima-se pela experiência concreta da vida, da mesma forma como fazem, entre outros, a ciência, pela metodologia; a arte, pela estética; a religião, pela revelação, e a ideologia, pela paixão moral (MARTELETO, 2002, p.111).
Por outro lado, observa também que a ideologia tem se tornado um poderoso meio de produção de sentidos consensuais, sobretudo nas sociedades de massa, onde não se podem mais distinguir com clareza as diferenças culturais (ligadas aos diferentes modos de vida). Salienta, portanto, que, no contexto da disputa simbólica, é importante ter como estratégia das ações coletivas a produção de conhecimentos que sejam capazes de ver além daquilo que a ideologia tende a obscurecer.
Marteleto (2002) lembra Gramsci, para quem “se não formos críticos e conscientes seremos massa e, nesse caso, a subjetividade não se expressa”, e observa que a presença maciça da tecnologia trouxe a abundância da informação, sobretudo naquilo que tem sido chamado de realidade virtual, mas não superou, de um ponto de vista político, uma permanente redundância, o que deve ser entendido como uma referência ao discurso hegemônico e ideológico do neoliberalismo. Isso quer dizer que a sociedade passou a absorver muita informação, porém sem gerar respostas, e o indivíduo, atomizado, só alcança expressão no domínio privado, individual e, portanto, como consumidor. Porém, expressar-se como consumidor não é a mesma coisa que se expressar como cidadão.
Ocorre que a informação passou a ser dominada pela referência a uma performance quase que exclusivamente tecnológica e empresarial. Bem entendido, a autora observa que não se trata de dar à discussão uma conotação moral, pois isso faz perder a criatividade, a capacidade de representar e de mudar, mas de chamar a atenção para o sujeito, tomado como fonte e, portanto, como eixo central da problemática informacional.
Reside aqui uma das principais afinidades desta investigação com a antropologia da informação, que pode ser contextualizada no âmbito dos estudos de usuários da informação, pois atenta para as práticas dos sujeitos utilizando, construindo e apropriando-se de conhecimentos e informações com a finalidade de resolver seus problemas cotidianos.
Outras afinidades importantes residem nos pressupostos básicos que orientam a construção de objetos na antropologia da informação: a informação está ligada a processos de elaboração de sentidos e também à organização da memória, sendo uma disciplina do campo das ciências sociais (MARTELETO, 2002, p.101). Referindo-se a esse segundo pressuposto, a autora esclarece que vai além de uma questão de classificação dessa ciência nesse ou naquele campo, mas de um fundamento constitutivo do objeto de estudo. Reafirma o entendimento de que vivemos em sociedades que constroem instituições cujo objetivo é a produção, processamento e disseminação da informação, que, nesse contexto, se torna um “artefato cultural”, ou seja, uma representação e uma expressão simbólica materializada em instituições, discursos e práticas, nos quais a razão é utilizada para a resolução de problemas.
Nessa perspectiva, o objeto de estudo da CI deixa de ser apenas a informação contida em suportes físicos e eletrônicos, apenas a cultura/informação douta, científica e oficial, mas também o mundo cotidiano, a vida social real, onde um sujeito põe a “informação em movimento” pela comunicação, ao mesmo tempo em que aprende a viver e organizar cognitivamente sua própria realidade, gerando novos problemas, sínteses, descobertas e maneiras de ver o mundo, as situações e as outras pessoas (MARTELETO; RIBEIRO; GUIMARÃES, 2002). Na verdade, a antropologia da informação discute as condições sociais (políticas, econômicas e culturais) de produção, disseminação e uso da informação.
Faz-se um aprofundamento que atende àquela necessidade de politizar as discussões no campo da CI. São identificadas duas faces da informação, correspondentes a diferentes modos de criação e recepção: uma mais “estática”, ligada à cultura douta, formal, registrada, e outra mais “dinâmica”, mais ligada à cultura popular, ao senso comum, à prática. Pode-se falar, também, em “pólos informacionais”, como o Estado, a mídia, a academia e a sociedade (comunidade e grupos sociais organizados). Cada um deles tem sua forma de produzir e utilizar a informação. Pode-se pensar, ainda, em diferentes modos de falar: discurso (mais institucionalizado e erudito) e narrativa (mais vivencial e popular).
A importância de tratar a informação como documento ou conjunto de documentos, coisas, como diz Buckland, não é negada, mas uma outra perspectiva é também reconhecida e constituiu uma trajetória na direção da subjetividade, que se dá, por exemplo, quando trabalha com os conceitos de “excedente informacional” e “reserva simbólica”, recolhidos no terreno
empírico, onde os receptores/usuários realizavam suas próprias leituras sobre os conteúdos e as formas de gerenciamento das informações.
Com o termo “excedente informacional”, a antropologia da informação refere-se à incompletude e à insuficiência da informação, ou seja, ao fato de que ela nunca preenche o desejo de conhecimento e de entendimento da realidade. A cada nova descoberta, a cada nova informação, novos problemas e questões de ordem prática se colocam, num processo que altera as prioridades e instaura mudanças no foco de atenção. São informações adquiridas dentro dos campos sociais formais, mas por processos informais (conversas informais, por exemplo), que têm utilidade para lidar com as situações imprevistas do cotidiano (MARTELETO, 1995, p. 20). Com o termo “reserva simbólica”, quer referir-se ao fato de que, mesmo sendo informado de acordo com uma determinada perspectiva, pois são muitas as maneiras de ver uma questão, o sujeito nunca absorve plenamente a informação recebida. Ele, como receptor ativo, a re-elabora à sua própria maneira e de acordo com sua própria história. Nessa perspectiva, o processo de ensino e aprendizagem é sempre uma promessa de inventividade e de renovação dos conhecimentos.
Também é nessa perspectiva que a antropologia da informação, ao tratar de questões de organização e uso da informação, vai preferir a noção de “rede” à noção de “sistema” de informação, tal como tem sido usada nesse campo. Com a metáfora da rede, além de se evitar a idéia de linearidade, faz-se jus à idéia de que a informação não está dissociada do contexto em que ela acontece (MARTELETO, 1998; 2000; 2001).
Quando o intuito é ir aos usuários da informação, concebidos como sujeitos, os enfoques funcionalistas que, como já foi visto, consideram a informação apenas como um elemento de redução de incertezas, como recurso para tomada de decisões e/ou como elemento modificador da estrutura cognitiva do receptor, muito pouco têm a dizer sobre esse ponto da recepção ou sobre o trabalho interpretativo que ali é feito, com e a partir da informação (MARTELETO, 1987). Daí a relevância da noção de “terceiro conhecimento”, uma maneira peculiar de ver o uso da informação que dá ao pesquisador uma referência para interpretar as práticas informacionais que têm lugar no mundo social real.
De certa forma, abandona-se a abordagem linear dos sistemas de informação e aceita- se a complexidade da questão informacional. Busca-se, não simplificar, mas distinguir fenômenos e questioná-los, na tentativa de descobrir novas possibilidades e ângulos de
abordagem da informação. O interesse está mais no processo (subjetivo) do que no produto ou resultado, em perceber o que os sujeitos experimentam, como interpretam suas experiências e o modo como estruturam o mundo social, fazendo uso da informação. Portanto, o mais importante é o modo como diferentes pessoas, ou atores, dão sentido aos acontecimentos e aos fenômenos pesquisados, de acordo com sua própria experiência e/ou perspectiva, concebida dentro de um processo de natureza sociohistórica.