Ao focalizar o conhecimento social ou o conhecimento nascido da prática cotidiana das pessoas que, ao reunirem-se em grupos mais ou menos organizados, tentam encontrar, pelo debate, pela discussão e com auxílio da informação, soluções para seus problemas, a antropologia da informação, inspirada no conceito de “construção compartilhada do conhecimento”, nascido nos movimentos de educação popular dos anos 60, elabora a noção de “terceiro conhecimento” como base teórica e metodológica para abordar as questões informacionais (MARTELETO; VALLA, 2003).
O terceiro conhecimento aproxima-se também das noções de “mediação” e “sistematização”, utilizadas no campo da comunicação social, e podem ser entendidas, respectivamente: como o lugar e/ou tempo nos quais são conferidos significados à comunicação/informação e como processo de gestão do saber social no esforço de interpretar/transformar a realidade.
Ao desenvolver esse construto teórico-metodológico, Marteleto (1998, 2000) teve na sociologia da cultura e do conhecimento de Bourdieu uma importante referência, pois sua teoria permite abordar as tensões que se estabelecem entre diferentes atores - teóricos (produtores), mediadores (educadores, gestores, cientistas) e práticos (usuários-receptores) - da informação, nas suas trocas informacionais. Assim, as diferenças entre os conhecimentos ou entre as formas de conhecer, manifestadas nas diferentes linguagens e discursos, ganham dimensões políticas, históricas e culturais, pois são determinadas pelo lugar social dos indivíduos e grupos, gerando disputas de natureza simbólica.
As formas de conhecimento em geral têm caráter social e enraizamento histórico, contextual e político. O senso comum, saber derivado do mundo vivido, das práticas, da experiência, do convívio, toma parte nas disputas simbólicas que se travam na sociedade em torno do poder de enunciar, classificar e nomear a realidade, tanto quanto outras formas mais sistematizadas de saber como a ciência, a arte, a literatura, a política e o direito. É o que Bourdieu denomina de “lutas pelo poder simbólico” (MARTELETO, 2002, p.79).
Entende-se que na atual sociedade da informação é de fundamental importância re- discutir e re-colocar o papel do conhecimento popular, razão pela qual os movimentos sociais e comunitários, como movimentos de luta por cidadania, constituem-se como locais privilegiados de pesquisa empírica. Marteleto (2003) observa que os movimentos sociais na área da saúde vêm demonstrando o valor de se compartilhar o conhecimento técnico-científico e a prática cotidiana. De acordo com suas pesquisas, “as ONGs desenvolveram formas de trato e transferência de informação e promovem elos de comunicação inovadores se comparados às práticas vigentes nos espaços institucionais tradicionais” (MARTELETO, 2000, p. 71).
De fato, se entendemos que a informação é uma construção social e, portanto, que a CI se situa no âmbito das ciências sociais, ela deve e pode buscar sua inserção nas tradições desse campo, caracterizadas por Santos (2001), pela preocupação com a “questão social”, ou seja, com as desigualdades, as opressões e a ordem/desordem autoritária que parecem acompanhar o desenvolvimento do capitalismo e, em contrapartida, com “a participação social e política dos cidadãos e dos grupos sociais, com o desenvolvimento comunitário e a ação coletiva, com os movimentos sociais” (p.18).
Considerando ainda que a ciência moderna, ao construir-se, até por necessidade e circunstâncias históricas, em oposição ao senso comum, acabou por subtrair ao cidadão comum algumas possibilidades de participação cívica na construção de um entendimento do mundo e de regras efetivas de (boa) convivência social, Santos (2001) vê os movimentos organizados da sociedade civil como espaços/tempos de estranhamento e composição entre diferentes formas de conhecimento visando à transformação social. A importância dessas “comunidades interpretativas” para as ciências sociais e, particularmente para a CI, aumenta quando se admite que “a rapidez, a profundidade e a imprevisibilidade de algumas transformações recentes conferem ao tempo presente uma característica nova: a realidade parece ter tomado definitivamente a dianteira sobre a teoria” (p.18).
No contexto de um duplo reconhecimento, dos limites da ciência moderna frente à complexidade da realidade social, por um lado, e da importância do acesso à informação e aos saberes constituídos para resolução de problemas cotidianos, de outro, a antropologia da informação busca no trabalho de campo verificar como o encontro das diversas formas de conhecimento cria embates e barreiras entre os atores, mas também pergunta: como instaurar ações de entendimento entre essas duas formas de conhecimento sem que uma se submeta à lógica da outra?
Esse reconhecimento de uma arena de disputas simbólicas, na qual se fazem presentes diferentes discursos - Estado, ciência, mercado, entidades civis, grupos comunitários, lideranças dos movimentos sociais - muitas vezes conflitantes entre si, numa polifonia de vozes, é importante porque, um pouco paradoxalmente, abre um espaço para a superação das dificuldades de convivência política e informacional no campo das práticas sociais. Nesse contexto configura-se a necessidade de um novo e desafiador trabalho de mediação que, baseado na identificação/constituição de interesses comuns, busca estabelecer novas categorias e formas de diálogo com a população, caracterizadas por uma atitude de abertura, tanto para ensinar quanto para aprender, mas, sobretudo, para construir conhecimentos em conjunto.
Lembrando Foucault, quando escreveu que os intelectuais descobriram que “as massas não têm necessidade deles para saber”, embora exista “um sistema de poder que obstaculiza, que proíbe, que invalida este discurso e este saber”, Marteleto e Valla (2003) referem-se a uma crise de interpretação que tende a dificultar os processos de mediação e a uma postura comum entre os profissionais do campo da saúde que dificulta o processo de mediação.
Os problemas são resultado, principalmente, da dificuldade de se aceitar e compreender como útil e válido um conhecimento produzido, organizado e sistematizado no âmbito da experiência de pessoas humildes e excluídas do sistema formal de ensino, um ambiente tão diferente daquele em que foram formados esses profissionais. A tendência é que se julguem inferiores saberes que são apenas diferentes, elaborados por meio da experiência concreta (p.17).
Foi assim, na prática da pesquisa em ONG que tinham como objetivo assessorar os movimentos sociais no campo da saúde, que a noção de “terceiro conhecimento” surgiu, como produto da observação de que o conhecimento científico, por um processo de transferência informacional, ao entrar em contato com o conhecimento prático e cotidiano do senso comum,
que possui uma lógica (própria) da experiência vivida, pode adquirir um novo sentido, tornando-se contextualizado.
Não se deve, entretanto, conceber o “terceiro conhecimento” como um produto, mas como um construto de ordem prática e simbólica que propicia aos agentes destreza para lidar com questões concretas do cotidiano ou resolução de problemas. Trata-se de um meio de valorização e fortalecimento de elos de apoio social e de capacidades inventivas que “têm como correlato a formação de uma rede de sentidos tecida nas relações contraditórias entre diferentes formas de apropriação e expressão do conhecimento” (NÓBREGA, 2002, p.71). Na verdade, é um construto que permite enfocar o trabalho coletivo como forma de superação do isolamento e fragmentação do conhecimento, na qual novos sentidos são criados para as situações concretas de vida.
Por isso, pode-se dizer que o terceiro conhecimento é complexo, ou seja, não pode ser entendido de uma só vez. Vai sendo construído em facetas, em caráter provisório, mutável, relacional, em rede e em movimento constante, sendo o lugar/momento da mescla, do estranhamento, da informação-difusão, mas, sobretudo, da invenção criativa que aproxima conhecimento e ação social, constituindo-se muito mais como elaboração crítica da realidade vivida (experiência) do que como recuperação histórica (memória) e organização de informações.
Marteleto (2000) explica que foi em função das demandas no campo da saúde pública que ocorreram as primeiras interações entre especialistas/acadêmicos e grupos populares. Com o tempo, por aproximações sucessivas, redes de contatos formaram-se entre essas pessoas que, inserindo-se de muitas maneiras no espaço social, detinham diferentes visões e conhecimentos sobre a saúde e também diferentes informações sobre as doenças. A luta por melhores condições de vida e saúde no bairro constituía o objetivo comum que fortalecia os laços e estruturava a rede de informação e práticas geradoras do “terceiro conhecimento”, um construto que se configurou durante o processo de pesquisa, do qual podem ser retirados alguns pressupostos teóricos.
Em primeiro lugar, a informação não é uma entidade ou corpo fechado em si mesmo ou ainda simples registro de um evento, ação ou reflexão. Em segundo lugar, diferentemente disso, ela encontra-se na imbricação dos atos, falas, relações e representações dos agentes sociais. E, por último, como um corolário das proposições anteriores, tem-se que a busca de
questões informacionais relevantes (objetos de estudo) precisa levar em conta o modo como se organizam os grupos sociais e suas configurações individuais ou coletivas.
A informação e o conhecimento são construídos sobre uma base que pressupõe uma subjetividade capaz de produzir sentidos. Essa subjetividade sustenta-se, por sua vez, sobre necessidades e problemas concretos do cotidiano (no campo da saúde, de educação, do transporte, da segurança pública, etc.), sobre estruturas organizativas comunitárias (como grupos, associações, conselhos, ONGs, etc.) e também sobre a vontade, a determinação, a persistência e a sabedoria de lideranças, de cientistas, de profissionais e de membros das comunidades locais, afetados, de diferentes formas, por determinadas condições de vida, na qualidade de mediadores da comunicação.
Muitas vezes o que se tem é o encontro de três eixos do saber: (a) o conhecimento produzido e controlado pelos órgãos oficiais, sobre as condições de vida dos moradores; (b) o conhecimento acadêmico, com suas análises e perspectivas teórico-metodológicas; (c) o conhecimento das pessoas que vivem no lugar, assumindo as condições de vida objeto dos estudos e discussões. São, portanto, três instâncias em interação: Estado, ciência e comunidade (NÓBREGA, 2002).
2.12 Concluindo: O usuário-receptor como intérprete da informação, outros saberes,