A análise dos textos dos expositores do Painel Específico indicou que a inserção nas discussões políticas da 2ª CNST, sobre as questões do adoecimento mental no trabalho, ocorreu basicamente por duas vias: pela academia e pelos sindicados.
A discussão sobre as repercussões do trabalho na saúde mental dos trabalhadores pela via da academia, segundo a coordenadora do Painel, ocorreu, no Brasil, quando “pesquisadores da área de saúde mental inseriram e tiveram também inseridas suas contribuições no campo da saúde do trabalhador, enriquecendo e ampliando o leque de objetos de ação dos serviços públicos e sindicatos”. (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p.77). Assim, os estudos sobre a Saúde Mental no Trabalho foram importantes elementos para a consolidação do campo da Saúde do Trabalhador. Foram citados estudos desenvolvidos na década de 1980, em parceira com sindicatos. Embora, como foi assinalado na apresentação da coordenadora do Painel, existiam outros estudos antes desse período, mas que “talvez por não contar com outros segmentos da sociedade preocupados com a questão, não se inseriam
no âmbito da discussão de saúde do trabalhador”. (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p.77). Nessa medida, fica claro que a discussão sobre o trabalho como fator importante no processo saúde-doença, no contexto da 2ª CNST, estava ancorada em certos setores da sociedade que participaram da construção desse campo.
A análise aponta para os sindicatos como um desses elementos., Por meio das discussões e estudos realizados pelo DIESAT, Leny Sato explicou que, por solicitação de alguns sindicatos, foram realizados estudos sobre a forma como o trabalho se organizava e também de como a atividade automatizada repercutia na Saúde Mental dos trabalhadores. Dentre as categorias pesquisadas pelos sindicatos em parceira com o DIESAT, foram destacados os estudos sobre o trabalho dos bancários, de 1985, e dos metroviários de 198650.
É interessante destacar que, tanto pelo texto da coordenadora do Painel, como pelo de Pérsio Dutra, as atenções sindicais para o assunto da Saúde Mental no ambiente de trabalho foram trazidas por uma categoria em particular: a dos prestadores de serviços. De acordo com o documento da 2ª CNST, predominavam nessa categoria questões não apenas de ordem física, e, por isso, o assunto da Saúde Mental pôde ser considerado.
Assim, diante da possibilidade de considerar a subjetividade dos trabalhadores nos estudos, favorecida pelo novo conceito de saúde que se iniciou na 1ª CNST, segundo Luiz Henrique Borges, foi que se pôde entender o surgimento de outros problemas de saúde, entre eles, alguns tipos de doenças mentais entre os digitadores, as manifestações das LER e os “altos índices de suicídio, uso de bebidas alcoólicas e drogas, vício pelo trabalho (workholics), mortes e adoecimento por estafa e estresse mental, distúrbios psicossomáticos, etc.” (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p.82).
Esse novo olhar para a Saúde Mental, por parte dos sindicatos, segundo a coordenadora do Painel, foi possível porque após a 1ª CNST, ocorreram mudanças dentro dos sindicatos, que criaram setores específicos para cuidar da saúde e melhorias das condições de trabalho, com interesses também em “aprofundar o conhecimento técnico desses agravos - incorporando o conhecimento dos
50
Esses dois estudos tiveram como responsáveis, as pesquisadoras Edith Seligmann Silva, Leny Sato e Adga Aparecida de Lia, mas esta informação não consta do documento analisado.
trabalhadores” (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p.77) na realização das ações em saúde do trabalhador.
A introdução de novas tecnologias nos processos de trabalho foi apontada como responsável pela transformação na maneira de controlar e executar o trabalho, sendo entendida como as causadoras dos problemas de saúde dos trabalhadores. Dentre esses problemas, Pérsio Dutra elencou a auto-estima diminuída, o sentimento de impotência frente a questão da produção e os quadros depressivos. Principalmente, na categoria dos digitadores, as repercussões na saúde dos trabalhadores decorriam da natureza da própria atividade, por ela envolver a diminuição da capacidade de pensar desses trabalhadores, sobre o que eles executavam. e, Por isso, foi considerada como causadora de
angústia e depressão por se sentir "burro" e despreparado para adquirir novos conhecimentos. (...) Em suma, eles estarão sempre premidos pelo tempo, proibidos de errar, oprimidos pela responsabilidade, sem terem reconhecimento de seu esforço e capacidade [ que geram] suicídios, violência (por exemplo, destruição de computadores), dificuldades no relacionamento familiar e social, bem como os sintomas orgânicos já referidos e mesmo outros mais graves como enfarte, esclerose, derrame, etc. Casos como esses já foram relatados e comprovados. (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p.79).
Pérsio Dutra apontou ainda que tais problemas ligados à Saúde Mental podiam ser observados também em outras categorias profissionais, além dos digitadores. Pois para ele, havia “grande coincidência do perfil de sofrimento mental com o ritmo e o objetivo do serviço e a introdução de tecnologias de controle (automação). Isto remete a uma questão emergente e fundamental que é a do controle do processo produtivo, seu objetivo e a tecnologia aplicada a ele”. (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p.79). Ou seja, foi considerado que, a partir da introdução de novas tecnologias nas diversas práticas cotidianas, que resultaram na transferência para as diferentes máquinas, do controle sobre o ritmo de trabalho e da forma de executar as tarefas, que fez com que fossem modificados os dispositivos de controle do trabalhador sobre o seu trabalho, tornando mais sutis esses dispositivos. “Assim, não há contra quem se revoltar. O algoz não está perceptível e não há como revidar. O objeto da revolta passa a ser o próprio trabalhador e/ou usuário”. (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p 80).
Portanto, foram indicadas pelos participantes do Painel, como fatores importantes no aparecimento de problemas mentais nos trabalhadores, as condições de trabalho, e em particular, os efeitos das novas formas de organização do trabalho, diante dos usos tecnológicos na racionalização do trabalho, que passaram a compor o cenário produtivo nas décadas de 1980 e 1990. (ANTUNES, 1999, 2000; LEITE, 2003).