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4.3 Multivariate SARMA model and Cross-Correlation

A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dilecto pessoal e intransmixível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam percepção da menina. Quando lembrava as palavras esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava a língua que nem há nesta actual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação. E era tão tocante que havia quem chorasse. (Mia Couto, 2013)

A discussão em torno do DSM trazida para referendar a construção clínica e cultural do TDAH é uma escolha de caminho, uma escolha contra hegemônica e que ainda circula entre poucos, por isso escolhemos traçar um perfil das produções em livros e periódicos com os quais tivemos contato ao longo da jornada do mestrado e da escrita desta dissertação. Acreditando que esse processo é experiencial, não pretendemos fazer um traçado minucioso de tudo o que se produziu sobre o tema em um dado período, nem em um dado banco de periódicos, mas queremos a exemplo de Guatarri e Rolnik (2013) em

Micropolítica: Cartografias do desejo, compartilhar nosso encontro com indivíduos, grupos e também com intensidades e desejos, diferentemente deles nossos encontros se fizeram por meio de textos. 

Como trazido no item anterior deste capítulo o status do saber médico é inegável e quando se busca por TDAH na literatura, grande parte das produções sobre o tema tem um viés biomédico, reconhecível principalmente pela linguagem e pela redução do indivíduo a doença. Esse status da visão biomédica no meio acadêmico nos impactou, quando ao buscarmos periódicos para publicação de artigos, consultamos o sistema brasileiro de avaliação de periódicos (Qualis) mantido pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior)5

. Constatamos que dos aproximadamente 400 periódicos avaliados pela CAPES, na área de psicologia, com classificação A1 ou A2 (hierarquias máximas na estratificação qualitativa) 170 são – por seus nomes – referentes a periódicos exclusivamente médicos; tratam de alguma doença ou especialidade da medicina, como a psiquiatria; tratam do cérebro especificamente; estão ligadas à neurociência unicamente;

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Referência necessária para pesquisadores brasileiros, pois define a garantia da obtenção e manutenção de financiamento e outros benefícios, além de incentivos como maiores notas em avaliações nacionais, para universidades e seus departamentos. 

referem-se à farmacologia; ou são exclusivamente da biologia. Desse modo, aproximadamente 40% dos periódicos para publicação, avaliados com o maior nível hierárquico de classificação da CAPES, estão ligadas a um entendimento biomédico de ser humano. 

Isso nos permite perceber a força da visão biomédica na produção hegemônica em psicologia, levando-nos a refletir sobre o modo como tem sido discutido o diagnóstico de TDAH nessa área, uma vez que quanto melhor classificado um periódico e quanto mais consultado, melhor será sua classificação. Ressaltamos que esse critério não é o único utilizado pela CAPES, mas se constitui como um dos mais importantes, pois está ligado, por exemplo, ao reconhecimento da área por meio de citações; ao impacto internacional para a psicologia como área de conhecimento, por meio do número de consultas feitas ao periódico, e a alguns outros itens. De modo geral essas consultas se dão pela internet e a consulta aos artigos por ferramentas de busca. Essas podem facilitar o rastreamento, mas também manipular o acesso, se considerarmos estudos que demonstram que a maioria dos usuários da internet “não lê além dos vinte primeiros resultados da pesquisa de busca” (SAGE, 2014). Sabemos também que a colocação dos itens de uma busca, pela ferramenta de pesquisa, nas primeiras páginas pode ser paga ou favorecida por truques na escrita.

Uma segunda olhada no Qualis da CAPES, nos revela, algo que também é percebido na consulta a artigos sobre TDAH. Além do viés biomédico, nos deparamos com um predomínio do viés comportamental em psicologia, que parte de uma epistemologia positivista para estudo do ser humano. Ou seja, estão com classificação máxima os periódicos em psicologia que referendam o viés biomédico. Nas práticas cotidianas se pode perceber esse alinhamento entre medicina e uma linha da psicologia, quando ao encaminharem crianças com TDAH ou transtornos de mesma ordem, neuropediatras e psiquiatras infantis, recomentam terapias comportamentais como único encaminhamento para a área de psicologia.

Felizmente, ainda existem diversos periódicos6

que problematizam, diagnósticos, epistemologias, e temas próximos dos que temos abordado neste trabalho, além de tantos outros temas que não abordamos, mas não podemos deixar de entendê-los como contra

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Não cabe no escopo desse trabalho citar quais os periódicos a que me refiro, até porque isso requereria um trabalho mais detalhado com o devido cuidado ético. Seria cabível na produção de artigo ou estudos futuros.   

hegemônicos e por isso com menor visibilidade tanto da população em geral quanto das diversas instituições ligadas ao meio acadêmico, resultando por exemplo em maior dificuldade de financiamento de pesquisas. 

É preciso destacar que o caráter contra hegemônico dessas publicações que pode oferecer benefícios para a prática da psicologia, como por exemplo, reconhecer na criança suas potencialidades, sem reduzir o olhar apenas a sua eventual doença ou dificuldade. Mais ainda, tais publicações podem oferecer uma perspectiva politizada, base para mudanças concretas no cotidiano das escolas, das famílias e da sociedade.