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6.3 Comparing Models

O primeiro desafio como aprendiz-cartógrafa se deu com a submissão do projeto de pesquisa, esboço inicial desta dissertação, ao Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília (CEP/IH). Desafio que se mostrou complexo e repleto de paradoxos. Isso porque, fazer pesquisa com seres humanos, utilizando técnicas qualitativas, não é natural para a ciência cartesiana, visão hegemônica no trabalho acadêmico. Para melhor entender o que isso significa e seus desdobramentos, discutirei o texto da página principal do CEP/IH na internet: 

O Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília é um dos três comitês ativos da universidade. O mais antigo é da Faculdade de Ciências da Saúde, CEP/FS, e o segundo comitê é o da Faculdade de Medicina, CEP/FM. O CEP/IH foi o primeiro comitê especializado na pesquisa social criado no Brasil. Foi registrado na CONEP em 2007 e está em pleno funcionamento (CEP/IH, 2015).

Encontra-se no trecho acima uma busca por igualar este comitê aos outros (é um

dos três comitês ativos da universidade), reconhecendo sua singularidade (apesar de ser o último a ser criado, foi o primeiro comitê especializado na pesquisa social criado no

Brasil). Singularidade justificada no parágrafo seguinte da página principal do CEP/IH:  A pesquisa social traz desafios particulares ao atual sistema de revisão ética instituído no Brasil, o Sistema CEP/CONEP. A missão do CEP/IH é pensar esse sistema à luz das particularidades da pesquisa social. Por isso, restringimos nosso trabalho de revisão aos estudos que utilizem técnicas qualitativas de levantamento de dados ou análise dos dados, tais como entrevistas, observação, survey ou questionários.

Reconhece-se a defesa de uma diferenciação da pesquisa em ciências humanas das demais, que no texto está caracterizada pela técnica de pesquisa qualitativa empregada. À luz da discussão trazida na fundamentação teórica, em que se falava da tendência à crítica a algo superficial, ou seja, assumir que a pesquisa em ciências humanas se diferencia apenas pelo uso de instrumentos qualitativos, parece um mecanismo para evitar a discussão epistemológica e uma possível revolução cientifica. Percebe-se no discurso do CEP/IH um desejo de ruptura, mas não por completo. O que aparece de forma clara no momento em que cada pesquisador submete sua pesquisa. Pois apesar de querer diferenciar-se dos demais comitês o CEP/IH permanece vinculado diretamente ao Ministério da saúde, tendo como procedimento para submissão de projetos a mesma plataforma dos outros comitês. Deste modo, o CEP/IH diz acreditar em um modo diferenciado de se fazer pesquisa das ciências humanas, mas não consegue sustentar esta posição.

Depois de um ano vivenciando o mestrado foi chegada a hora de submeter meu projeto ao referido comitê. Já vinha ouvindo comentários sobre o sofrido processo de se submeter um projeto de pesquisa aos comitês de ética em pesquisa tanto por colegas de laboratório como de departamento. Descobri que precisava preencher um cadastro na plataforma do ministério da saúde brasileiro para ser enviado a um dos comitês de ética da universidade, escolhido de acordo com critérios próprios da plataforma. Efetuei o preenchimento das fichas em diversas etapas. Surgiram dúvidas, pois as fichas estão todas preparadas para as pesquisas positivistas e que envolvam a biologia humana. Não foi uma grande surpresa, pois desde a graduação tenho vivenciado a dualidade da psicologia que mesmo desejando diferenciar-se da medicina, a todo momento reivindica assemelhar-se a ela.

No entanto, apesar de não ser uma surpresa, a estruturação da plataforma obrigou a reconstrução de partes do projeto para que pudesse caber em seu formato predefinido. Vencida toda a burocracia e depois de vários dias preenchendo e adequando o projeto para completar os espaços exigidos submeti o projeto que foi encaminhado ao CEP/IH. Estava satisfeita com a possibilidade de submeter o projeto a um comitê que mostrava alinhar-se a minha visão de ciência. Passado o desconforto por ter tido que adequar o projeto a um cadastro tendencioso e restritivo, recusando-me a modificar certos aspectos da pesquisa, como forma de resistência, sentia-me satisfeita por ter uma avaliação ética por um comitê que ele mesmo resistia como eu havia feito.

Resistência que se via na precariedade do funcionamento deste comitê em comparação com os outros, pois não possuía telefone ou espaço físico, apenas um e-mail para se fazer contato, diferentemente dos comitês mais antigos e que aparentemente possuíam mais verbas e pessoal. A cada palavra que escrevo sobre esta experiência fico em dúvida se deveria expor o acontecido pensando que pode significar a condenação do CEP/IH, por seu caráter contra hegemônico. Mas não posso ignorar o que esta etapa significou na construção e desconstrução de minha pesquisa e no estabelecimento dos parâmetros éticos que me orientaram.

Esse percurso inicial, mas não o primeiro da pesquisa me colocou, como aprendiz- cartógrafa, em desalinho com a cartografia que desejei fazer, e me implicou no desafio de cartografar essa ambiguidade que acompanhou a pesquisa em sua avaliação ética em uma instituição acadêmica e que certamente acompanhará a pesquisa em toda sua caminhada, pois o desejo de se cartografar e a implicação, que para Passos e Barros (2009a), pode ser definida a partir de Lourau, “diz respeito menos à vontade consciente ou intenção dos indivíduos do que às forças inconscientes (o inconsciente institucional) que se atravessam constituindo valores, interesses, expectativas, compromissos, desejos, crenças, isto é, as formas que se instituem como dada realidade” (pp.19 e 20).

Não significa que cedi e que daquele momento em diante a pesquisa assumiria um caráter mais hegemônico e menos contra hegemônico, mas é preciso reconhecer que em meu devir-cartógrafa essas forças continuariam a aparecer como parte das redes de intercalações, que estabelecem relações entre relações, por meio das instituições que participaram nessa etapa e permanecerão, por seus atravessamentos em meu devir- mestranda, devir-pesquisadora, devir-universitária que coexistem ao meu devir-cartógrafa.

Retomando o caráter de prestação de contas, esta pesquisa, teve seu projeto devidamente submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências Humanas (CEP/IH) da Universidade de Brasília. Respeitou todas as Diretrizes e Normas de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos, instituídas pela Resolução 196/96 do Conselho de Saúde do Ministério da Saúde. Durante a pesquisa os procedimentos éticos, como a apresentação da pesquisa, a garantia de sigilo e a assinatura de consentimento livre esclarecido pelos participantes (anexo 1), foram cuidadosamente obedecidos. Além do cuidado de respeito às normativas éticas da psicologia como profissão de minha escolha e que acredito exercitar em diversos momentos da pesquisa.