Time Series
5.4 Multivariate Seasonal Kalman Filter
6.1.1 Energy Surplus
Lhe concordo, doutor: sou eu que invento minhas doenças. Mas eu, velho e sozinho, o que posso fazer? Estar doente é minha única maneira de provar que estou vivo. É por isso que frequento o hospital, vezes e vezes, a exibir minhas maleitas. Só nesses momentos, doutor, eu sou atendido. Mal atendido, quase sempre. Mas nessa infinita fila de espera, me vem a ilusão de me vizinhar do mundo. Os doentes são a minha família, o hospital é o meu teto e o senhor é o meu pai, pai de todos meus pais. (Mia Couto, 2009)
Reconhecer que os indivíduos em seus devires-criança ultrapassam constantemente os limites da definição de normalidade, nos faz compreender que estes limites precisam ser redefinidos a todo momento para poder abarcar novas forma de ser humano. No entanto, se desejarmos construir uma definição de normal rígida e que se caracterize por universalidade e transcendência, precisaremos não mais adaptar a definição de normal e sim precisaremos ampliá-la para que comporte todas as formas de existência, todos os devires que não caibam naquela normalidade estabelecida.
Tendo acompanhado a jornada teórica, proposta nesta fundamentação, identificamos que a escolha hegemônica tem sido estabelecer uma conceituação de normal rígida, que é sustentada pela atualização da lista de formas de existência ilegítimas, materializadas nos DSMs. Assim, a eleição da saúde mental como algo que delimita as formas de existência legítimas e ilegítimas, aponta para o conjunto discursivo deste momento histórico, em que se entende o sujeito humano como corpo biológico. Esse discurso parece ter sua origem na epistemologia cartesiana, que visa desmembrar seu objeto de estudo e reduzí-lo a uma única característica, passível de ser manipulada e definida de modo objetivo. Aplicado ao ser humano, esse método impõe defini-lo como biológico, pois é sua característica isolável, menos complexa e mais objetiva.
Caliman (2013), ao analisar as falas de Eric Kandel, austríaco que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2000, esclarece que a psiquiatria não tem conseguido exercer suas práticas independentemente da fala do sujeito que sofre, uma vez que, os psiquiatras não têm à sua disposição, os chamados, “marcadores biológicos”, das doenças mentais. Fato que coloca em questão a psiquiatria e seus construtos, pois não consegue apontar a localização biológica dos distúrbios que apresenta. Esta área do conhecimento para não colocar em questão o resto da medicina é obrigada a criar uma outra forma de fazê-la, em que ao invés de se falar em doença cria-se o termo transtorno. A psiquiatria, para não ficar desacreditada, emprega termos da medicina como sintoma, exame, tratamento e medicamento, apoiada na crença de que em breve os marcadores biológicos serão revelados. Caliman (2013) afirma:
E esta é somente uma crença pontual no âmbito mais geral de uma cultura marcada pela ênfase no corpo, ou melhor, no cérebro, como sendo a sede da alma, da identidade, da política, da religião, do sentimento moral, do sofrimento mental. Para a biopsiquiatria hoje em voga, um sofrimento só é sofrimento, uma doença só é doença, um diagnóstico só é diagnóstico quando for um biodiagnóstico, tudo mais é
apenas psicológico ou social e, portanto, menos real. Uma patologia só é realmente real quando sua existência biológica é comprovada (p.110).
A autora diz que essa crença da biopsiquiatria na prática diagnóstica, não se limita aos psiquiatras, está difundida socialmente, na centralidade que a prática diagnóstica assume. Podendo oferecer produção de sentido e garantia de direitos, fazendo com que os biodiagnósticos tornem-se entidades necessárias, almejadas, desejadas:
Ou seja, eles atuam na constituição de novas identidades e sociabilidades desejadas pelos sujeitos diagnosticados. Ao mesmo tempo, nas cidadanias biológicas muitas vezes ter um biodiagnóstico é a única possibilidade de acesso a todo um sistema de direitos e possibilidades. Ainda podemos dizer que nas cidadanias biológicas nem sempre está em questão uma desresponsabilização do sujeito diagnosticado por seus atos, mas uma nova forma de responsabilidade é exigida (Caliman, 2013, pp. 111 e 112).
O termo “cidadanias biológicas” é empregado, por Caliman, a partir da concepção de Rose e Nova, os quais, segundo a autora, utilizam-nos para descrever projetos políticos que basearam suas concepções de cidadania na existência biológica dos seres humanos, desde o século XIX. Trata-se “do efeito identitário dos biodiagnósticos. Nikolas Rose (2007) afirma: as biocidadanias contemporâneas são individualizantes, pois modelam as individualidades interferindo diretamente na forma através da qual o indivíduo se vê, (...) atua sobre si e sobre o mundo” (Caliman, 2013, p. 114).
Frente à descrição de Caliman e Rose podemos afirmar que estamos diante da atuação de duas tecnologias de poder, que são descritas por Foucault, como a tecnologia regulamentadora da vida e a tecnologia disciplinar do corpo. Essas duas tecnologias de poder são introduzidas em nossa sociedade com certa defasagem cronológica e são sobrepostas. Desse modo:
Uma técnica que é, pois, disciplinar: é centrada no corpo, produz efeitos individualizantes, manipula o corpo como foco de forças que é preciso tornar úteis e dóceis ao mesmo tempo. E, de outro lado, temos uma tecnologia que, por sua vez, é centrada não no corpo, mas na vida; uma tecnologia que agrupa os efeitos de massa próprio de uma população, que procura controlar a série de eventos fortuitos que podem ocorrer numa massa viva; uma tecnologia que procura controlar (eventualmente modificar) a probabilidade desses eventos, em todo caso, em compensar seus efeitos. É uma tecnologia que visa portanto não o treinamento individual, mas, pelo equilíbrio global, algo como uma homeostase: a segurança do conjunto em relação aos seus perigos internos. Logo, uma tecnologia de
treinamento oposta a, distinta de, uma tecnologia de previdência; uma tecnologia disciplinar que se distingue de uma tecnologia previdenciária ou regulamentadora; uma tecnologia que é mesmo, em ambos os casos, tecnologia do corpo, mas, num caso, trata-se de uma tecnologia em que o corpo é individualizado como organismo dotado de capacidade e, no outro, de uma tecnologia em que os corpos são recolocados nos processos biológicos de conjuntos (Foucault, 2010, pp. 209 e 210).
Essa descrição corresponde aos efeitos exatos do diagnóstico, ou como prefere Caliman, do biodiagnostico de TDAH, pois se por um lado “oferece ou forja uma narrativa de vida que passa a ter em seu centro o próprio diagnóstico. Por outro, “sofrem inicialmente o impacto da segregação, (...) mas ao mesmo tempo eles são unificados entre si, na medida em que as diferenças internas ao grupo dos sujeitos diagnosticados com TDAH são eliminadas pela classificação” (Caliman, 2013, p.116).
Não pretendemos apresentar uma forma pessimista de ver o mundo, pelo contrário é por uma crença na potência humana e na criatividade que escolhemos problematizar temas tão centrais na estruturação de nossa sociedade. Descobrimos, por exemplo, que existem escolas em que nenhuma criança tem diagnóstico de TDAH. Por meio de leituras, conversas e participação em eventos começamos a suspeitar que estas escolas se diferenciam das outras não apenas por seu modo de funcionamento, que as faz serem chamadas de democráticas, alternativas, livres; mas nos parece que, principalmente por suas concepções de infância, de mundo, de ciência, de conhecimento e de educação. Nessas escolas, o rótulo não se fixa, porque interessa aos educadores/tutores ver a criança para além do rótulo. Este entendimento encontramos em nossa pesquisa ao analisar os prontuários do CAEP – Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos da Universidade de Brasília.