No Brasil e no mundo todo, o Estado sempre esteve presente na agricultura, de uma forma ou de outra, com mais ou menos intensidade. Para Nojimoto (1987), nos Estados Unidos a Lei de Ajustamento Agrícola (A.A.A), de 1933, marcou a atuação mais significativa do Estado ao indenizar o agricultor pela redução da área cultivada. Cinco anos depois, uma nova Lei de Ajustamento Agrícola reduziria ainda mais a área, continuando o Estado a intervir nos anos seguintes na política agrícola do país. Porém, a atuação mais marcante do Estado fica com o Japão, com o amplo programa de mecanização, incluindo políticas tecnológicas, assistência técnica, problemáticas sócias de manutenção da renda e da população.
Para Nicholls (1975), no Brasil dos anos 50, a política governamental estava mais preocupada em explorar a agricultura para financiar o crescimento industrial do que em fomentar a produção agrícola e o bem-estar rural.A intenção principal do Governo durante a década foi a exploração de seu excedente agrícola exportável, como o café, algodão e cacau, para financiar o desenvolvimento industrial por meio de um sistema elaborado de taxas de câmbio múltiplas, que discriminavam as exportações tradicionais e favoreciam a importação de equipamentos industriais e bens de produção. As culturas mais beneficiadas, em São Paulo, pelo crédito de custeio concedido pelo Banco do Brasil e pelo Banco do Estado, em 1958, foram o café, algodão, arroz, cana-de-açúcar e amendoim, sendo o café favorecido oficialmente mais de uma vez indevidamente(NICHOLLS 1975).
A presença do Estado no processo de mecanização é apontada por Nojimoto (1987) em três setores: produção nacional de máquinas agrícolas, crédito e desenvolvimento tecnológico. Os beneficiados preferenciais eram grandes produtores e os recursos eram destinados à compra de máquinas, sementes e insumos modernos e culturas de exportação, que logo se expandiram rapidamente (MARTINE, 1987). Os subsídios beneficiaram, sobretudo, os produtores de São Paulo, considerando ser eles os únicos que dispunham de tecnologia de produção capaz de aproveitá-los (SCHUH, 1975
).
Sem dúvida, a década de 1960 marcou profundas transformações socioeconômicas no modelo agrícola do país, embalado por políticas internacionais favoráveis, pelo pacote tecnológico conhecido como “Revolução Verde” e pelo processo de fabricação e industrialização de máquinas agrícolas que começam a ser produzidas em território nacional. Porém, a crise de alimentos enfrentada pelo país no período de 1960 a 1964, fez com que o Governo brasileiro apoiasse ainda mais o crédito agrícola subsidiado, que vai multiplicar o montante de recursos na segunda metade da década de 60.
[...] a modernização da agricultura brasileira teve seu inicio fortemente direcionado e estimulado pelo Estado, através de medidas de políticas econômicas. As idéias oriundas da Revolução Verde criaram a expectativa de superação do subdesenvolvimento através de transformações no setor agropecuário. Com isso o setor agrícola se dinamizaria e geraria um aumento de produção através do qual acabaria com a fome da população e, com excedente, poderia incrementar suas exportações e gerar divisas, promovendo um progresso generalizado e autosuficiente. (FLEISCHFRESSER, 1998, p. 12).
O crédito rural, instituído no Brasil por lei, em 1965, teve quatro objetivos, conforme descreve Nojimoto (1987): o de estimular o incremento dos investimentos rurais; favorecer o custeio oportuno e adequado da produção e comercialização de produtos agropecuários;
possibilitar o fortalecimento econômico dos produtores rurais, além de incentivar a introdução de métodos racionais de produção, visando ao aumento da produtividade, à melhoria do padrão de vida das populações rurais e à adequada defesa do solo. O crédito rural foi sem dúvida a principal ferramenta que fez com que o novo modelo agrícola decolasse rumo à tecnificação, à exportação de produtos agrícolas e à utilização em larga escala de insumos industriais, que levou a transformação da sociedade rural, mesmo onde não foram observados significativos avanços tecnológicos. Martine (1987) o credencia como peça essencial do projeto de modernização tecnológica e do processo de consolidação do complexo agroindustrial. Assim, o crédito rural, que era composto por três linhas, custeio, investimento e comercialização, passa a ser um interlocutor entre os vários personagens, os grandes detentores de terra, o capital, interesses do setor produtivo, financiadores e o próprio Estado. As regiões Sul e Sudeste foram as mais privilegiadas com o crédito rural, devido a uma série de fatores burocráticos, agravando as desigualdades regionais. Porém, não foi só a política de crédito a incentivada na década de 60. Destacaram-se também as políticas de preços mínimos, instituídas no país em 1951, mas pouco usadas, o seguro rural e as políticas de subsídio fiscais.
Mas não só as culturas foram beneficiadas com as taxas de juros favoráveis. A importação de caminhões, tratores e combustíveis, também foi favorecida. Nicholls (1975) lembra que no período de 1955 a 1960, a importação de caminhões pesados elevou o estoque no país em mais de cinco vezes em relação ao ano de 1946. Com o crescimento da indústria de caminhões, as importações reduziram-se a um nível negligenciável por volta de 1962. Mas em meados da década de 70, o governo de Ernesto Geisel orientou a indústria de equipamentos para agricultura, como tratores, colheitadeiras e implementos, a aumentar a capacidade de produção. Isso ocorreu através do incentivo do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), que foi lançado no final de 1974 para estimular a produção de insumos básicos, bens de capital, alimentos e energia. Kageyama (1987) descreve que o plano econômico brasileiro previa crescimento da demanda de tratores de 44 para 89 mil entre o período de 1974 a 1979.
Os bancos de desenvolvimento regionais desempenharam papel relevante nos grandes empréstimos disponibilizados aos agricultores para aplicação prioritária em investimentos fixos, instalações, equipamentos, modernização de linhas nos anos de 1975 e 1976. Recursos da ordem de 84 bilhões de cruzeiros (preços de 1985) foram liberados por meio da aprovação de 19 projetos relacionados à área de equipamentos para a agricultura, sendo destinados destes 64% para tratores, 16% para colheitadeiras e 20% para implementos diversos. Os
projetos foram aprovados no período de 1974 a 1978 pelo Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI), que regulou a política de incentivo à industrialização. Com essas medidas, no final de 70, a capacidade de produção da indústria aumentou para próximo de 100 mil tratores ao ano, enquanto a de colheitadeiras chegava a 11 mil unidades, considerando apenas a operação em um turno de trabalho. Fatores como manutenção da suspensão de cobrança de ICM, mantido desde 1970, e isenção do IPI, de 1974, contribuíram significativamente para reduzir custos e preços finais. Outro fator importante a ser considerado refere-se às taxas nominais de juros do crédito rural que, durante toda a década de 70, estiveram abaixo da taxa de inflação, isso sem contar outro benefício que durou até 1975: taxa de juro zero, com três anos de carência e cinco anos para pagar para os empréstimos contraídos.
Com o incentivo do crédito agrícola, ocorreu na década de 70 o maior boom na adoção de tratores, atingindo um aumento de 220% no período de 70 a 80 e, se concentrando a aquisição de máquinas novamente na região Centro–Sul do país. O Sul registrou aquisição acelerada de máquinas e liderou o processo de mecanização agrícola regional a partir de 1975. São Paulo, em 1970, absorvia 33,4% dos recursos do crédito rural oficial. No Estado paulista, em 5 de agosto de 1985, a Caixa Econômica Estadual lançou o programa Consórcio Rural – Nossa Caixa, que visava estimular a prática do cooperativismo e associativismo entre produtores rurais, a fim de solucionar problemas comuns, garantindo recursos para a modernização de tratores, máquinas, implementos, entre outros, de pequenas propriedades, e considerando que um produtor sozinho não tinha condições econômicas de suportar os gastos com estes investimentos. Os recursos eram da ordem de Cr$ 30,00 bilhões e eram destinados a agricultores com no máximo 100 ha. Mas os recursos não eram restritos apenas para a aquisição de máquinas agrícolas modernas; o mesmo ocorreu para obtenção de animais de serviço, chegando a ser, para estes, 60 vezes menor que o crédito destinado a máquinas. Enquanto que para tratores o financiamento chegava, em 1977, a Cr$ 6, 15 bilhões, para a aquisição de animais de serviço, o valor era de Cr$ 102 milhões (NOJIMOTO,1987). Mas para Nicholls (1975), o desempenho da agricultura ocorreu muito mais pelo esforço dos agricultores do que pelas medidas de política agrícola adotadas pelo Governo.
Porém, depois de tanto incentivo, o quadro muda drasticamente no país, a partir de 1976, com a forte retração do crédito rural e a queda dos preços das culturas, afetando a exportação brasileira de produtos como, soja, algodão, amendoim, café e laranja, considerados os maiores absorvedores das máquinas, implementos e insumos industriais utilizados pela agricultura. A redução direta do crédito subsidiado teve como consequência a elevação dos custos financeiros e preço da terra, e sobretudo, o aumento dos custos industriais
que subiram rapidamente, mais do que os preços recebidos pelos agricultores (KAGEYAMA, 1987). As implicações deste período afetaram o mercado de máquinas e implementos mecânicos para a agricultura no período de 1977 a 1983, com reflexos no emprego. A autora lembra que algumas empresas no Rio Grande do Sul chegaram a operar com mais de 50% de capacidade ociosa e, que a indústria entrou em processo de recessão no início da década de 80, com queda vertiginosa das vendas. O juro zero que era concedido aos empréstimos até 1975 passou para 15% ao ano em 1976, com uma taxa anual de inflação superior a 40%. Mas, a recuperação das vendas, a partir do segundo semestre de 1983 pode ser atribuída a dois fatores, às boas safras registradas no ano e à definição de uma política de preços favorável, restabelecendo o poder de compra e a confiança necessária à expansão dos investimentos agrícolas.
Consideradas ferramentas poderosas para a segurança, as políticas de subsídios precisam ser aferidas quanto ao custo e benefício, diante das reais alternativas existentes e quanto ao período de tempo de seu impacto. Os estudos mostram que a transferência de subsídios para a alimentação proporciona um aumento de 15 a 20% na renda real das famílias de baixa renda (PINSTRUP-ANDERSEN, 1988). Mas se a indústria de tratores contou com grande apoio governamental, o mesmo não ocorreu com a indústria de implementos. Kageyama (1987) atribui o seu desenvolvimento a um lento processo de evolução de firmas a partir de mercados regionais, o que levou essas indústrias a manter fortes laços com regiões e com aspectos culturais, adaptando-se às formas da organização agrícola existentes, influenciando decisivamente padrões de concorrência e condutas empresariais.