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No final do século XIX e início do século XX presenciou-se a chegada de muitos imigrantes espanhóis para se inserirem na agricultura paraense, os quais participaram de uma experiência positiva de colonização como responsáveis pela produção de alimentos por um bom tempo para parte do estado. Sua importância também esteve no povoamento da região, pois uma significativa parte do território paraense (núcleos coloniais) se consolidou em cidades como Monte Alegre, Igarapé-Açu e outras, graças a esse contingente de pessoas que o povoou, além de uma integração com a cultura nortista.
Segundo Santos (1980, p. 93), “combinado a outros fatos, parece significar também que os portugueses dessa leva migratória preferiram permanecer nos centros urbanos, longe dos trabalhos agrícolas, uma vez que a população estrangeira das colônias era quase totalmente composta de espanhóis (97%)”.
Os imigrantes espanhóis trabalharam na agricultura dos núcleos coloniais do Pará, no entanto nem todos tinham essa atividade como a única forma de trabalho. Alguns que se deslocaram para cidades próximas ou para a capital paraense se dedicaram ao comércio, à hotelaria e a atividades como pedreiro, jornaleiro, marceneiro, alfaiate, cantor, dentre outras. Esses imigrantes deixaram parte de sua existência registrada na história de migração do estado, compartilharam momentos importantes, como conquistas políticas e reivindicações sociais17. Ajudaram a construir e desenvolver uma região que necessitava não só de mão-de- obra para a agricultura, mas também para aperfeiçoar técnicas agrícolas e desenvolver outras atividades do campo. Os imigrantes espanhóis deram sua parcela de contribuição, sua vivência nos núcleos coloniais é revelada pela memória de seus descendentes que ajudam a remontar essa história do passado do estado.
As colônias agrícolas no interior do estado possibilitaram desenvolver suas regiões, principalmente a região Nordeste do Pará. O percurso da estrada de ferro de Belém-Bragança permitiu o surgimento de algumas cidades como Bragança, Igarapé-Açu, Castanhal, Capanema e Marapanim.
17 As reivindicações sociais estão nas informações de ofícios dos núcleos coloniais do Pará, encontrados no Arquivo Público do Estado.
Ainda que a ideia de incentivar a vinda de imigrantes espanhóis para trabalhar nas colônias agrícolas não tenha alcançado visibilidade ou nem tenha demonstrado fortalecimento da agricultura da região, é importante observar a validade da participação dos espanhóis não só no contexto econômico, mas também no aspecto social de todo o nordeste do estado. Os espanhóis, assim como outros europeus, foram solidários, e souberam manter laços com seus parentes na Espanha. Muitos buscaram seus parentes e os integraram ao trabalho no estado do Pará, criou nas colônias e na capital paraense uma infraestrutura que beneficiava não só os espanhóis, mas também outros imigrantes e nativos, dentre elas estão escolas e hospitais, como as escolas de Benjamin Constant e Monte Alegre e a União Espanhola de Socorros Mútuos.
Nos núcleos coloniais do Pará a principal atividade econômica exercida pelos espanhóis foi na agricultura, principalmente nas plantações de milho, cana-de-açúcar e mandioca. Mas será que todos os imigrantes espanhóis se dedicaram apenas a exercer trabalhos na agricultura?
Diante do que foi exposto, verifica-se que no comércio, na política e em outras profissões como a marcenaria e a hotelaria, esses imigrantes também tiveram sua parcela de contribuição. No caso do núcleo colonial de Benjamin Constant, comerciantes como Manoel Lhamas Veiga, Marcelino Castanho, Antonio Risuenho Castanho, são alguns nomes que aliaram suas atividades agrícolas ao comércio. Eles tiveram uma participação ativa na sociedade bragantina, o que lhes rendeu até lugares na administração pública, como foi caso de Manoel Lhamas e Marcelino Castanho.
O núcleo Benjamin Constant se destacou pelo significativo número de imigrantes espanhóis que acabaram permanecendo na colônia. Havia uma população que mesmo após a emancipação da mesma, não a abandonou. No momento em que isso ocorreu, alguns se direcionaram para a cidade vizinha de Bragança. O povoamento por parte dos espanhóis favoreceu bastante a miscigenação com os nativos da zona bragantina e com outros imigrantes oriundos de diferentes regiões do Brasil, como os cearenses. Os “espanhóis de Bragança” pareceram realmente criar sua própria história, se permitindo a ficar na região e tentar uma vida nova.
Um exemplo de contribuição e riqueza deixada por famílias de imigrantes espanhóis por todo o estado do Pará, na cidade de Bragança, região nordeste do Pará, se vê a herança de prédios residenciais e comerciais deixados por antepassados espanhóis que até hoje ainda estão preservados, além de uma herança étnica e cultural que parece já estar assimilada pela cultura bragantina.
Atualmente, a cidade de Bragança ainda vive das lembranças de sua herança espanhola marcada na memória de seus descendentes. Há uma renovação das gerações de descendentes espanhóis, mas a história não parece ter sido esquecida pelos mais velhos. Os descendentes entrevistados manifestaram saudade do tempo de seus avós, e das histórias da estrada de ferro, relembram o período da imigração no início do século XX como um momento de conquistas e construções pessoais e familiares – as famílias estavam se estabelecendo no local e formando suas primeiras relações sociais. Houve descendentes de espanhóis que não pareciam lembrar ou não se permitiram falar do passado ou relembrar o passado. Alguns por não terem muitas lembranças, outros por não terem mais quaisquer documentos de família que pudessem comprovar essa história de migração.
Além dos espanhóis de Benjamin Constant, outros imigrantes espanhóis tiveram sua parcela de participação na história das migrações no Pará, como foi o caso do núcleo de Ferreira Pena. Alguns possuíam engenhos e se tornaram fabricantes de cachaça e outros fabricavam a farinha de mandioca, se destacaram na agricultura por saber lidar com a terra. Também utilizaram seus terrenos para plantar hortas e cultivar frutos de diferentes tipos.
O núcleo de Jambu-Açu teve seus colonos espanhóis envolvidos na plantação de cana- de-açúcar e fabricação de cachaça, além disso, nas duas colônias, eles souberam se integrar a população nativa. O povoamento foi uma das grandes contribuições que os imigrantes espanhóis de Jambu-Açu deixaram para o Nordeste Paraense. A presença desses imigrantes é numericamente marcante quando se contabiliza o contingente de imigrantes espanhóis alojados na hospedaria do Outeiro e que foram enviados às colônias do interior do Pará, como Benjamin Constant, Jambu-Açu, Ferreira Pena, Marapanim, Santa Rosa e Monte Alegre.
A colônia de Marapanim se destacou pela abundância de madeira de lei, possuía árvores de valor para comercialização no ramo da madeireira. Além disso, foi um núcleo que soube se organizar na agricultura, possuía seu próprio regimento de casa de campo da experiência e realizava constantes atividades de limpeza e roçagem. Houve destaque para o povoamento, pois o núcleo recebeu um contingente significativo que deu condições de fortalecer a população de Marapanim, dando a ela condições de se tornar o atual município. No que diz respeito ao povoamento, não se pode deixar de ressaltar a importância também dos núcleos coloniais de Ferreira Pena e Santa Rosa.
Outro núcleo que merece destaque é o de Monte Alegre, que apesar de não fazer parte do trajeto da estrada de ferro de Bragança, foi uma colônia que também recebeu um número significativo de espanhóis para trabalhar nos campos de plantação. As plantações mais
comuns em Monte Alegre eram de algodão, mandioca, feijão, milho, cana-de-açúcar, legumes e frutas, o que mostra a diversidade de produtos alimentícios que o núcleo comercializava.
Além da intensa participação nos núcleos agrícolas, os imigrantes espanhóis tiveram importante participação no desenvolvimento econômico e social da cidade de Belém. A capital paraense foi uma das cidades que atraiu muitos estrangeiros, devido os “ares de modernidade” que herdara da economia da borracha. Muitos imigrantes espanhóis que decidiram não ir para os núcleos coloniais acabaram se instalando na capital para trabalhar em qualquer ramo que pudesse lhes garantir sobrevivência. A população espanhola em Belém soube integrar-se facilmente aos outros estrangeiros, principalmente aos portugueses, isso ocorreu por ser um povo com característica linguística muito próxima. Outro fator importante de adaptação foi o religioso, pois muitos eram católicos, assim como a maioria portuguesa, e também compartilhavam das mesmas festas e celebrações da igreja católica, o que dava ao imigrante certa sensação de proximidade já que grande parte da população de imigrantes espanhóis era católica.
Dentre os benefícios que a comunidade espanhola deixou para a capital paraense, um deles foi a criação da União Espanhola de Socorros Mútuos18, local destinado a tratar dos espanhóis e seus descendentes que se encontrassem enfermos e sem o apoio familiar.
Em Belém os imigrantes espanhóis criaram formas para não se sentir tão distante da cultura espanhola, faziam eventos no Teatro da Paz e organizavam touradas em praça pública. Os eventos agitavam toda a cidade, eram entretenimentos que passavam a fazer parte dos acontecimentos sociais da capital. A população de Belém era atraída para ver as touradas, muitos espanhóis, portugueses e paraenses, enfim tratava-se de um evento social que tinha como objetivo integrar a comunidade e fazê-la participar de atividades que unissem a todos, enfim, fosse o espaço físico das colônias ou das cidades, os imigrantes espanhóis faziam do espaço um lugar de realizações circunstanciais e conjuntas, provando que dificilmente se pode observar a ação migratória a partir de apenas um método disciplinar. Como afirma Sayad (1998, p. 15), “o espaço dos deslocamentos não é apenas um espaço físico, ele é também um espaço qualificado em muitos sentidos, socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente (sobretudo através das duas realizações culturais que são a língua e a religião).”
Diante de tantas contribuições de caráter socioeconômico, é necessário refletir a respeito da representatividade do imigrante espanhol para o estado do Pará, pois é importante observar que existe uma vivência, uma existência desses imigrantes na memória dos seus
descendentes e também na memória coletiva do estado. Foi um sujeito que esteve presente no cotidiano dos núcleos colônias e soube fazer parte da experiência agrícola e comercial do nordeste paraense. Sendo assim, acredita-se que a falta de importância dada muitas vezes a esse imigrante espanhol no Pará, no que diz respeito a suas contribuições, compromete a sua visibilidade, não permitindo reconhecer que esse contingente populacional de espanhóis tenha sido fundamental para o desenvolvimento desta parte do Estado Paraense no final do século XIX e no início do século XX.
6.9 A EMANCIPAÇÃO DAS COLÔNIAS AGRÍCOLAS: PARA ONDE FORAM OS