6.2 Experiments and Results
6.2.4 Manifold subsampling
Segundo Cruz (1955), a colônia de Marapanim foi uma das mais procuradas dentro do percurso da estrada de ferro de Belém-Bragança, isto devido à abundância de madeiras de lei encontradas na região. É possível que esse tenha sido um dos motivos para atrair muitos colonos para o núcleo, já que a derrubada de árvores para comercialização era um ramo em expansão no final do século XIX. A colônia foi criada em 1893 e foi um dos quatro núcleos mais populosos da região, perdendo apenas para Benjamin Constant, Jambu-Açu e Santa Rosa. Seu movimento migratório foi predominantemente de brasileiros oriundos do Ceará e do Rio Grande do Norte.
De acordo com Muniz (1916, p. 75/78), a colônia de Marapanim localizava-se em uma área compreendida entre os rios Salgado ou Moura e Caranã, até as confluências com o rio Marapanim. Fundada às margens da estrada de ferro de Bragança, a colônia era constituída de 307 lotes, cada um com 25 ha. Segundo Penteado (1967), Marapanim era um núcleo que possuia cerca de 200 lotes, em 1899, todos com 25 ha, distribuídos ao longo de duas travessas, perfeitamente simétricas e cortadas transversalmente pela estrada de rodagem que foi aberta em 1898, ligando Castanhal a Curuçá.
O governo nele gastara cerca de 330:000$000, mais da metade despendida com o núcleo de Marapanim, e foram concedidos em 1902, aos colonos que ali viviam, títulos de posses definitiva dos lotes, desde que os ocupassem há mais de um ano e neles tivessem morada habitual e com cultura efetiva de uma parte apreciável da área do lote; também se exigia que o colono “tivesse bom comportamento, fôsse de bons costumes e vivesse em pax com os vizinhos, o que, sem dúvida, eram consequências das crises enfrentadas pelas administrações anteriores em outras áreas coloniais do estado, onde o elemento nacional causára uma série de pertubações na ordem pública (PENTEADO, 1967, p. 156).
Figura 3 - Planta do núcleo de Marapanim (1899)
Fonte: Penteado (1967)
Com destaque, os imigrantes espanhóis foram os estrangeiros que mais migraram para o núcleo entre os anos de 1897 e 1898. Presume-se que quase 600 imigrantes espanhóis saíram da hospedaria dos imigrantes do Outeiro com destino à colônia de Marapanim.
Tabela 25 – Saída de espanhóis da hospedaria do outeiro para o núcleo de Marapanim (1897-1898)
Período + 12 a
idade - 12 a idade Sem registro de idade imigrantes ao mês Total de
2 de março de 1897 54 26 00 80 3 a 7 de maio de 1897 21 06 00 27 4 a 17 de maio de 1897 07 03 00 10 3 de junho de 1897 13 15 01 29 5 a 18 de junho de 1897 19 06 00 25 6 de julho de 1897 27 11 00 38 7 a 25setembro de 1897 16 17 01 34 8 a 24 de dezembro de 1897 26 16 00 42 7 de janeiro de 1898 02 00 00 02 15 de fevereiro de 1898 25 11 00 36 Março de 1898 04 04 00 08 14 de abril de 1898 64 45 01 110 20 a 25 de junho de 1898 70 41 00 111 10 a 18 de outubro de 1898 30 09 00 39 TOTAL DE IMIGRANTES 378 210 03 591
Fonte: Arquivo Público do Pará, Seção: Obras Públicas, Fundo: Repartição de Obras Públicas Terras e Colonização, Série: Imigração (Hospedaria), Anos: 1896-1898, Caixa: 31. Tabela do autor.
Os dados da Tabela 25 apresentam a saída de pelo menos 591 imigrantes espanhóis da hospedaria do Outeiro para a colônia de Marapanim. Fazem parte de um levantamento que foram retirados de documentos do Arquivo Público, Repartição de Obras Públicas Terras e Colonização. São informações de espanhóis que vieram para se instalar e residir diretamente na colônia para se dedicar ao trabalho agrícola. Observa-se que em todos os períodos, dirigiram-se à colônia de Marapanim imigrantes numa faixa etária de maiores de 12 anos, dentre eles incluem-se os adultos já aptos ao trabalho. Somente no período de 6 dias há uma chegada expressiva de 221 imigrantes, entre os meses de abril a junho, representando quase 50% do total apresentado nos períodos que foram analisados. Isso comprova que a atração da colônia era de destaque e que os dados devem ser bem maiores já que não houve um levantamento completo de todas as entradas de imigrantes espanhóis na colônia.
Mesmo sabendo da importância documental das informações, esses dados não constroem a realidade total do número de imigrantes que saíram em direção à colônia, haja vista que muitos documentos se perderam e outros foram corroídos pelo tempo, não permitindo uma análise mais detalhada da real situação dos imigrantes espanhóis no Pará. No entanto, são dados importantes, pois compõem amostra significativa do panorama
populacional da colônia de Marapanim no final do século XIX. Esses são dados reveladores que possibilitam construir o perfil do imigrante da colônia.
O número de imigrantes passou a ser expressivo, as listas de rações do período de agosto e outubro de 1897, encontradas no Arquivo Público do Pará mostram, respectivamente, 46 e 50 chefes de família recebendo alimentação do governo. Dentre os produtos oferecidos estavam farinha, feijão, pão, vinagre, arroz, açúcar e café. Muitos desses alimentos faltavam e não eram suficientes para o abastecimento da colônia, passando a ser comum os ofícios do administrador da colônia solicitando reposição de alimentos.
No ano de 1898 a colônia de Marapanim apresentou um levantamento de permanência e saída de imigrantes espanhóis. De acordo com os dados analisados, percebe-se que o número de imigrantes adultos persiste, bem como desejava a política migratória paraense, mas no conjunto dos números de entrada há uma redução de permanência dos indivíduos na colônia, de 337 espanhóis na colônia no mês de junho ocorreu uma redução para 276 em outubro do mesmo ano, apresentando uma saída de 61 colonos espanhóis.
Tabela 26 – Permanência e saída de espanhóis no núcleo de Marapanim (jun. a out. 1898)
Meses Adultos - 12 anos Saída Total
Junho 223 114 _ 337
Julho 193 114 30 347
Setembro 193 114 06 313
Outubro 190 111 25 326
Fonte: Arquivo Público do Pará, Seção: Obras Públicas, Fundo: Repartição de Obras Públicas Terras e Colonização, Série: Ofícios, Ano 1900, Caixa: 16. Tabela do autor.
No ano seguinte, 1899, a colônia de Marapanim dava passos para sua organização administrativa. Apresentou seu primeiro regimento da casa de campo da experiência (Anexo G). Tratava-se de um documento com as regras criadas pelo governo paraense às quais o colono deveria seguir. Essas regras iam desde os cuidados e o manuseio com as ferramentas que foram cedidas pelo governo até o tempo da jornada de trabalho dos colonos.
O regimento da colônia de Marapanim exigia que o trabalhador tivesse boa conduta moral, caso contrário, perderia todo o ganho do seu trabalho, e também seria decretada sua expulsão da colônia. A alimentação do trabalhador que não fosse colono era de responsabilidade do agrônomo, que a forneceria por condescendência ou não. Como o campo da experiência era o local de trabalho, este deveria estar preparado com o mínimo de conforto para sua permanência na casa da experiência, munido de sua rede e manter-se com o máximo
de asseio e higiene. Quanto à jornada de trabalho, a mesma deveria ser realizada em 10 horas diárias, sendo obedecido o horário de seis horas às onze horas da manhã, sendo retomado de uma às seis horas da tarde.
Em 1900 o administrador do núcleo de Marapanim enviou ao inspetor de Terras e Colonização um memorando de colonos matriculados que apresentava um número expressivo de imigrantes nacionais e estrangeiros já instalados na colônia. Havia 455 colonos estrangeiros matriculados, sendo 262 imigrantes do sexo masculino e os 193 do sexo feminino (Anexo H).
Segundo Muniz (1916), o recenseamento feito dos colonos em outubro do ano de 1900 apresentava um número de 405 espanhóis residentes na colônia. Distribuídos em 68 famílias, sendo 205 adultos e 200 menores de 12 anos. Havia 225 pessoas do sexo masculino e 180 do sexo feminino. Percebe-se que a maioria era composta por adultos do sexo masculino. Eram os braços mais fortes que garantiriam o futuro da colônia de Marapanim. Outra interessante observação é perceber a validade das informações, pois há uma aproximação entre os números que foram apresentados no texto de Palma Muniz e no ofício enviado pelo administrador do núcleo em 1900. São dados numéricos que confirmam a chegada e a permanência de muitos imigrantes espanhóis na colônia desenvolvendo atividades, principalmente voltadas para a agricultura. Segundo Muniz (1916, p. 97), “todos os núcleos dedicavam-se à indústria agrícola, produzindo, farinha de mandioca, arroz, milho, feijão, cana de açúcar, legumes e frutas”. De acordo com o engenheiro, foi no ramo de madeira que a colônia de Marapanim realmente alcançou destaque. Muniz (1916) diz que a existência de uma importante serraria a vapor no lugar Pau Amarello, ocupando 32 km quadrados da colônia possibilitou destaque no ramo madeireiro. É possível que problemas ambientais tenham sido causados ao núcleo, devido à exploração sem limite das matas virgens da região.
Penteado (1967) também afirma que a colônia de Marapanim inicialmente foi um núcleo agrícola com bons resultados. Por se localizar em um terreno alto e seco, isso favoreceu a atração de muitos imigrantes nordestinos e centenas de espanhóis. Sua mata virgem era detentora de excelentes madeiras, com bom preço de mercado, o que fez com que muitos espanhóis saíssem das suas atividades agrícolas de plantação de cana-de-açúcar e mandioca e se dedicassem ao extrativismo madeireiro. Segundo Siqueira (2008), a região era reconhecida pela riqueza em madeira de lei. Árvores gigantescas e de grande valor comercial compunham a floresta à sua volta, provocando uma verdadeira corrida em busca de uma nova fonte de lucros, transformando o povoado em um dos mais procurados.
A colônia de Marapanim era organizada e próspera, possuía dinâmica de serviços, que iam desde a sua conservação com a limpeza e a roçagem do mato, até o controle de matrículas de imigrantes para o recebimento de rações de alimentação das famílias. Esse senso de organização permitiu ao núcleo grande destaque, devido à boa administração. Com isso aumentou a procura de imigrantes pelo local, principalmente os de outras regiões do Brasil.
O ritmo de consumo da colônia era acelerado e havia fornecedores de diversos artigos que se encarregavam em abastecer a colônia com produtos específicos, de acordo com os pedidos feitos pelo administrador, conforme as necessidades locais. Assim, A. J. Ramos e Ribeiro da Silva (Anexo I) responsabilizava-se por utensílios e ferramentas, como caldeiras, terrinas, colheres, conchas, pratos e assadeiras de ferro. Vicente Ferreira de Hollanda, Lobato Pereira e Bentes e irmão (Anexo J) se incumbiam de fornecer a farinha de trigo, farinha seca, pimenta moída, farinha d’água, vinagre, banha, bebidas, azeite, sal, manteiga, sabão, açúcar, arroz, batata, café em grão, pimenta em grão, carne seca, feijão preto, farelo, bacalhau, milhos, alho e fósforo, enquanto Cézar Santos e Viúva Bahia forneciam vários medicamentos como sulfato de magnésio, tintura de iodo, ácido de zinco, farinha de linhaça, algodão absorvente, alfazema, glicerina, vinho ferruginoso, sal amargo, álcool, enxofre, tintura de bella dona e sabão medicinal (Anexo K).
A colônia de Marapanim foi tão próspera que em 1897 houve a necessidade de criar um segundo núcleo destinado a receber apenas imigrantes cearenses, foi nominada como José de Alencar. Segundo Muniz (1916), essa nova colônia chegou a apresentar em seu recenseamento de outubro de 1900, um número de 13 imigrantes espanhóis e 3 famílias.
O crescimento da colônia tinha despesas com valores significativos, custos com limpeza e manutenção. A folha de pagamento de 1899 chegou a atingir o valor de cinquenta mil réis, incluía principalmente gastos com os salários dos trabalhadores responsáveis pela manutenção da colônia. No mês de abril desse mesmo ano havia sido registrado o número de 21 funcionários realizando trabalhos de limpeza e roçagem de terrenos da colônia.
Segundo o relatório do governador Augusto Montenegro, de 7 de setembro de 1902, a colônia de Marapanim foi emancipada com 99 espanhóis instalados, e foi a quinta colônia com o maior número de espanhóis no Estado, em 1902. Com o passar dos anos, esse número foi diminuindo por razões diversas – uma delas a diminuição da derrubada de madeira e a baixa safra de cana de açúcar – fazendo com que houvesse saída de muitos imigrantes espanhóis para outras áreas do Estado ou até mesmo o retorno para o país de origem.