A política paraense de imigração e colonização com imigrantes iniciada pelos governadores de província do período imperial e que teve prosseguimento no início do período republicano, nos governos de Lauro Sodré (1889-1906) e Paes de Carvalho (1897- 1901), vai sofrer significativa mudança de rumo a partir do governo de Augusto Montenegro (1901-1909).
Uma das primeiras medidas do novo governo foi a rescisão dos contratos com os agentes de imigrantes, alegando que eles não cumpriam todas as cláusulas do contrato, além do que o governador considerava que os gastos com a imigração eram vultuosos e os resultados esperados não apareciam. O ponto mais marcante de sua mensagem de setembro de 1901, é o que finaliza o texto quando trata do assunto da imigração como um “mal” que necessita de remédio. E a cura proposta seria a rescisão dos contratos de agentes, mesmo diante de números expressivos de imigrantes estrangeiros no Estado. Montenegro avaliava que a imigração estrangeira era um equívoco de seus antecessores. Considerava que os gastos eram grandes e os resultados não apareciam, isso justificaria a rescisão dos contratos.
E eis com que bases se pretendeu construir o nosso serviço de immigração estrangeira: os resultados só podiam ser os constatados, todos atribuíveis a quem fez tão vexatórios e extraordinários contractos. Para tão grandes males só há um remédio: a rescisão. (Trecho da mensagem de Augusto Montenegro em 10 setembro de 1901. http://www.crl.edu/brazil/provincial/par%C3%A1).
Em 7 de setembro de 1902, o governador Augusto Montenegro enviou mensagem ao poder Legislativo dando prenúncios de como seria seu novo projeto de colonização. Comunica sua decisão de interromper o serviço de imigração. Deixa clara sua discordância com a política migratória de seus antecessores:
A imigração estrangeira, do modo por que foi tentada entre nós, constituiu o maior dos erros de que a iniciou, por meio de onerosíssimos contratos então assinados. Dela pouco resta e com certeza cada vez mais se apagarão os seus vestígios, ficando somente para atestá-la os enormes dispêndios do Tesouro. (Trecho da mensagem de Augusto Montenegro em 7 setembro de 1902. http://www.crl.edu/brazil/provincial/par%C3%A1).
Conclui a mensagem informando a decisão de emancipar todas as colônias agrícolas. O estado se retira da administração e os lotes são concedidos aos colonos que os ocupavam e a migrantes nacionais que viessem a ocupá-los.
O governador Augusto Montenegro não via a migração estrangeira como algo positivo, se manifestou várias vezes contra a forma na qual havia sido iniciada a imigração estrangeira no estado do Pará. Acreditava que os contratos de imigração eram caros aos cofres públicos do estado e que o peso da migração não se justificava, haja vista que o estado parecia não obter nenhum retorno do investimento feito nesse projeto.
Tabela 30 – População de imigrantes espanhóis dos núcleos coloniais emancipados (1902)
Núcleos coloniais Imigrantes espanhóis
Jose de Alencar 09 Anita Garibaldi 42 Santa Rosa 63 Marapanim 99 Ferreira Pena 128 Monte Alegre 201 Jambu-Açu 532 Benjamin Constant 711 TOTAL 1.785
Fonte: site do Center for Research Libraries. Relatório do Governador Augusto Montenegro de 7 de setembro de 1902. Adaptado pelo autor.
Observa-se que no ano da emancipação, o número de espanhóis era bastante significativo, sobretudo nas colônias de Benjamin Constant, Jambu-Açu e Monte Alegre. Com a emancipação vai aumentar nas colônias o número de nordestinos, sobretudo cearenses e potiguares que já partilhavam essa ocupação com os espanhóis e outros colonos europeus. Segundo Penteado (1967, p. 118), “a substituição do colono estrangeiro pelo nacional processara-se gradativamente e, já na década 1910-1920, os núcleos coloniais eram ocupados quase que somente por nordestinos; só o de Benjamin Constant continuava a ter colonos
brasileiros e espanhóis”. A resistência desses imigrantes espanhóis em abandonar a região se diferenciou de outras colônias. Talvez por já existir um “sentimento” de pertencer a terra, em que o imigrante já se sentia participante da comunidade e já havia construído sua vivência social no lugar que o recebeu, o que parece não ter ocorrido em outros núcleos do estado do Pará.
Uma das medidas que atingiu duramente os colonos de Benjamin Constant foi tomada em 1901, pelo governador Augusto Montenegro quando decidiu cancelar o contrato firmado com a empresa responsável pela construção da via férrea de Decauville que ligava a sede do núcleo ao município de Bragança, posteriormente a obra foi retomada e concluída em 1904, encontrando-se atualmente desativada. Apesar dos problemas decorrentes da situação de emancipados, os núcleos continuaram se desenvolvendo pela iniciativa dos colonos. Em 1908, o núcleo Benjamin Constant possuía 559 lotes ocupados (PALMA MUNIZ, 1916, p. 76).
A colônia de Benjamin Constant apesar de sua crescente produção foi atingida como as outras colônias pelos cortes dos incentivos do governo do Estado. O núcleo passou a ter dificuldades em realizar o transporte de sua produção agrícola. Com isso, muitos imigrantes, dentre eles os espanhóis, passaram a optar pela emigração para cidades maiores, como Bragança e Belém para dedicar-se a outros setores econômicos, como o comércio e o serviço público. Esse deslocamento dos espanhóis em direção a Belém é mostrado nos dados do censo de 1920.
Tabela 31 - Cidades com maior população espanhola no estado do Pará (1920)
Cidades Homens Mulheres Total
Belém 1.658 1.245 2.903
Bragança 74 73 147
Igarapé-Açu 54 46 100
Monte Alegre 35 32 67
Fonte: Elaborada pelo autor com base no Censo de 1920
Segundo o censo de 1920 havia em todo o estado do Pará 3.355 espanhóis, desses 1.924 eram homens e 1.431 mulheres. Somente em Belém havia 2.903 espanhóis instalados na cidade, sendo 1.658 homens e 1.245 mulheres. Ou seja, Belém era naquele momento a maior comunidade espanhola do estado. Muitos desses moradores tiveram em Belém o seu primeiro destino do percurso migratório. Mas boa parte deles deve ter procurado a capital
motivada pelas dificuldades resultantes da emancipação das colônias agrícolas. Dirigiram-se a Belém para trabalhar no comércio e no setor de serviços.
Para Bragança deslocaram-se muitos descendentes dos antigos moradores da colônia de Benjamin Constant. Em viagem de campo, visitou-se o cemitério da sede da colônia que embora desativado encontrava-se em bom estado de conservação. Verificou-se entre os nomes grafados nos túmulos, um significativo número de espanhóis cujos sobrenomes podem ser encontrados nas listas de passageiros trazidos por Emilio Martins no final do século XIX, como Turiel, Castanho, Arias, Gardunho e Lhamas. Por outro lado, descendentes dessas famílias ainda são moradores de Bragança e outros deslocaram-se para Belém.
As dificuldades encontradas pelos espanhóis nas colônias agrícolas fizeram com que muitos se deslocassem para outros estados brasileiros ou para a Argentina e alguns fizessem a migração de retorno para a Espanha.
Em 1912, visitou o Pará um inspetor espanhol de emigração, Leopoldo D’Ouzouville, que relatou ter a quase totalidade dos espanhóis abandonado as terras porque não haviam conseguido encontrar comprador para elas. Um grande número saiu do estado rumo ao Rio de Janeiro, São Paulo ou Buenos Aires, alguns regressaram à Espanha e o restante permaneceu em Belém (MARTÍNEZ, 2000, p. 247).
Não há dúvida de que Belém se tornou a preferência de muitos imigrantes espanhóis. Isso explica a existência de muitas famílias descendentes de espanhóis na capital paraense que hoje se misturam a outros grupos, nacionais e estrangeiros, para formar uma população com uma identidade mais amazônica.
Sendo assim, é importante mostrar que a população paraense se fortaleceu com a chegada dos imigrantes estrangeiros. Os espanhóis, dentro desse contexto de crescimento demográfico, foram importantes por terem sido a segunda nacionalidade que mais povoou o estado, sendo suplantada apenas pelos portugueses, colaboraram na formação social de muitas cidades do Pará, dentre elas Bragança, Igarapé-Açu, Castanhal, Marapanim e outros municípios próximos aos antigos núcleos coloniais. Isso deu aos espanhóis uma participação positiva dentro da história da imigração no Pará, o que vai de encontro ao que foi apontada como um projeto migratório “fracassado” como foi referido nos trabalhos de Penteado (1967) e Muniz (1916). Há razões para se considerar que a contribuição dos espanhóis das colônias agrícolas do Pará vinha sendo avaliada de um ponto de vista que privilegiava exclusivamente o caráter econômico de sua participação para o desenvolvimento do estado do Pará, deixando de observar outros quesitos que são fundamentais para entender uma sociedade, como sua formação linguística, cultural, religiosa, política e social.