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Conforme discutido anteriormente, ao longo da era Geisel observa-se um aprofundamento da percepção que negava a conveniência de um alinhamento aos norte- americanos e paralelamente fomentava o conceito de autonomia no leito diplomático nacional. Os motivos e questões que tendem a explicar esse cenário são diversos. Evidentemente, num primeiro momento, o que mais chama a atenção é o desgaste e a crise que permeou a relação Brasil / Estados Unidos ao longo do período.

O fosso que se abria entre a política externa pragmática e responsável brasileira e os postulados essenciais da política internacional norte-americana tendia a ampliar-se na mesma proporção em que se diversificavam os interesses econômicos e aumentava a margem de independência política do Brasil no sistema internacional (GONÇALVES e MIYAMOTO, 1993, p.23).

Em palestra proferida aos estagiários da Escola Superior de Guerra, em Washington (junho de 1975), Araújo Castro (1982a, p.316-317) abre seu discurso afirmando o quão ótima é a relação do Brasil com os EUA, para em seguida situar essa “boa relação” em parâmetros pragmáticos, apontando a completa marginalização do conceito de

alinhamento em detrimento à supervalorização do ideal de autonomia.

Não poderiam ser mais estreitas nem mais cordiais as relações que hoje prevalecem entre o Brasil e os Estados Unidos da

América. Como tenho procurado dizer, atingimos mesmo em nosso relacionamento um ponto quase ideal de naturalidade, quando já não temos nem a preocupação de concordar, para demonstrar fidelidade a uma amizade tradicional, nem preocupação em discordar, para demonstrar independência de atitudes e de julgamento. O Brasil toma hoje a sua amizade com os Estados Unidos e sua absoluta independência de julgamento como fenômenos políticos perfeitamente naturais, que não estão a necessitar de provas ou de confirmação em casos específicos. E, como tem sido expresso pelo Ministro das Relações Exteriores, Embaixador Antonio Azeredo da Silveira, não aceita a idéia de “alinhamentos automáticos”.

Mais adiante, Araújo Castro (1982a, p.316-317) pontua os diversos temas litigiosos envolvendo Brasil e Estados Unidos nos foros internacionais, tais como o Direito do Mar, Proteção ao Meio Ambiente, problemas de população, comércio internacional, Política Nuclear, revisão da Carta das Nações Unidas, entre outros. A tese do congelamento do poder mundial é apontada como pano de fundo e fator elucidativo dessas lides. Por fim, o célebre diplomata reconhece as dificuldades presentes nas relações Brasil – Estados Unidos: “Existem problemas sérios em nosso relacionamento, mas todos esses problemas são solúveis [...]”.

Evidentemente, os EUA não foram os únicos a travar embates com a diplomacia brasileira, todavia, os diversos choques e divergências merecem destaque. Nos dois primeiros anos de governo Geisel, assistiu-se a um agravamento das já debilitadas relações comerciais e políticas com os Estados Unidos. O ponto mais crítico das tensões Brasil/EUA ocorreu no plano político. Tanto no governo Nixon quanto na era Carter, pouquíssima importância foi dada a América Latina, sendo priorizadas as questões européias e asiáticas. Nesse contexto, “o reconhecimento e apoio do Brasil ao governo marxista de Luanda e o acordo e cooperação nuclear com a RFA [...] foram dois principais pontos de fricção durante esse período” (MAIOR, 1996, p. 353-356).

Analisando mais de perto a questão nuclear supra mencionada, constata-se que, em 1974, o governo norte-americano ignorou o acordo de fornecimento de urânio, firmado dois anos antes, e decidiu suspender de maneira abrupta o abastecimento da usina de Angra dos Reis22.

O resultado era o agravamento da dependência energética brasileira, que obrigou Geisel a rever a política nuclear nacional, e assim, apesar de fortes pressões norte- americanas23, firmou um acordo nuclear com a Alemanha em 27 de junho de 1975. Em 1976 as duras críticas de Carter com relação ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil provocou uma nova celeuma entre Brasil e EUA24. Por fim, vale lembrar que, mesmo convidado em 1975, Geisel nunca se dispôs a visitar os Estados Unidos.

Nota-se que, o princípio da não-intervenção e a tese do congelamento do poder mundial continuavam a orientar a ação diplomática brasileira em grande parte de suas estratégias. No caso específico do Acordo nuclear, a postura adotada demonstrava a insatisfação brasileira com relação ao que interpretava ser uma ação no sentido de congelar o poder mundial. Refletia a busca da “autonomia pela distância”, na medida em que negava enquadrar-se na pauta e nas condutas desejadas por EUA e URSS, como já havia feito, por exemplo, ao recusar-se a assinar o Tratado de Não Proliferação de armas nucleares na década anterior.

Se no campo político as relações Brasil / Estados Unidos não eram as melhores, no âmbito econômico a situação era semelhante. Na medida em que o Brasil avança em seu processo de industrialização, os produtos brasileiros, que antes guardavam caráter de complementaridade aos produtos não só norte-americanos, mas de outros países também, passam a figurar como concorrentes ao penetrarem no mercado dos EUA. Paralelamente, tal processo, ao invés de afastar aproximou o Brasil do Japão e da Europa Ocidental, contribuindo para o universalismo (como pretende-se demonstrar no próximo tópico) (GONÇALVES e MIYAMOTO, 1993, p.25).

No mais, o déficit comercial brasileiro que já era elevado (1,8 bilhões de dólares), com a nova lei de comércio norte-americana25, saltou para 3,7 bilhões no biênio 1974 -75,

23 Tanto Nixon quanto Carter empenharam-se em impedir o acordo entre Brasil e Alemanha. “Washington procurava manter as tecnologias do enriquecimento e do reprocessamento do urânio como monopólio dos países que já as possuíam, alegadamente porque os dois processos dariam a quem os dominasse a possibilidade de produzir armas nucleares” (MAIOR, 1996, p. 352). Bueno (1994, p. 171) também tece considerações no mesmo sentido.

24 Para maior aprofundamento sobre essa questão, vide Bueno (1994, p. 171-172).

25 Entre as determinações da nova lei de comercio norte-americana, destaca-se as severas “restrições às importações dos países em desenvolvimento e o congelamento das estruturas internacionais do poder econômico” (CERVO e BUENO, 2002, p. 410).

colocando em risco a balança comercial brasileira, já debilitada pelos efeitos da crise do petróleo (CERVO e BUENO, 2002, p. 402-411).

O discurso liberal norte-americano – que acabava por defender instituições como o GATT e o FMI - contrastava com as medidas de salvaguardas de interesses setoriais internos. O Brasil por sua vez, ainda dentro da tese do congelamento do poder mundial, percebia a ordem econômica internacional, consagrada em instituições como as supra citadas, como desfavorável aos países em desenvolvimento.

Analisando de modo comparativo a Política Externa Independente de Quadros e Goulart e o Pragmatismo Responsável de Geisel, Fonseca Jr (1996, p. 329-30) afirma que, com relação à formulação doutrinária, ambas pautaram a busca da autonomia “pelo contraste com o que preconizam os hegemônicos”. Dito em outras palavras, a diplomacia brasileira distanciava-se dos embates de cunho ideológico da esfera Leste-Oeste e pleiteava propostas reformistas da ordem mundial.

Em resumo, constata-se a manutenção da teoria do congelamento do poder mundial como um dos pilares centrais da postura brasileira nas questões internacionais. Paralelamente, mantém-se o entendimento de que qualquer tipo de alinhamento deveria ser descartado, restando dois caminhos complementares: a busca da autonomia pela

distância, constatada por Fonseca Jr. (1998) e, o incremento do universalismo na postura diplomática nacional26.

Em outras palavras, percebe-se na era Geisel uma forte complementaridade entre os três conceitos centrais utilizados para a elaboração da presente análise. A discussão específica a respeito do conceito de universalismo pode qualificar melhor essa interpretação.