Em Columbia, dois professores que ministravam aulas no Teacher's College da Universidade tiveram grande importância na formação de Anísio Teixeira e Isaías Alves. São eles Edward Thorndike, diretor do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade, e John Dewey, que ocupava a cadeira de filosofia educacional da Universidade. Para entendê-los, a análise de Warde117 configura-se um importante ponto de partida, uma vez que ela resgata a importância de Thorndike nesse contexto em contraposição a Dewey. Segundo a autora, apesar das ideias de Dewey terem sido bastante estudadas no Brasil, é preciso dizer que Thorndike também teve um papel significativo nos estudos sobre aprendizagem, apesar de ser pouco explorado nos trabalhos sobre história da educação.
116 GOULD. Op. cit. p.219. 117 WARDE, Miriam. Op. cit.
Stephen Tomlinson, ao comparar as concepções científicas de Thorndike e Dewey sobre a educação, ressalta que:
“Enquanto críticos populares, historiadores e filósofos analisaram e debateram a visão de John Dewey de uma educação progressista, notavelmente pouca atenção foi dada ao pensamento e a influência de Edward Lee Thorndike, principal teórico do Teacher's College da Universidade de Columbia – a mais influente faculdade americana de educação. Ainda assim, mais do que qualquer outra pessoa, foi Edward Lee Thorndike que, com base nesse poder institucional, modelou o currículo, a pedagogia e a organização estrutural da escola americana”.118
Deste modo, Dewey marcou a teoria educacional a partir de suas concepções progressistas, enquanto a importância de Thorndike parece estar em sua contribuição metodológica, ao valorizar critérios quantitativos para a organização escolar. Foi a partir de seus inquéritos escolares e suas investigações sobre eficiência do ensino que o currículo das escolas norte-americanas foi repensado. 119
No Brasil, o trabalho de Ivanete Santos120 ressalta o papel que Thorndike teve no estabelecimento de parâmetros para o ensino da matemática. Ele demonstrou a importância da padronização de testes pedagógicos (estes, de verificação de aprendizagem) e utilizou a psicologia escolar para buscar caminhos que ajudassem a facilitar o ensino desta disciplina. Ainda segundo a autora, o ponto de maior controvérsia de seu trabalho foi a afirmação, após as experiências com os testes Alfa utilizados no exército, “que alunos com QI abaixo de 100 eram incapazes de entender o simbolismo, a generalização e as provas de teoremas utilizando conteúdos algébricos”.121
Assim, além de utilizar a psicologia em aspectos metodológicos do ensino, Thorndike também acreditava que os testes de QI podiam identificar as potencialidades e incapacidades inatas dos indivíduos. Essa ideia seria de grande importância ao sistema escolar, pois selecionaria os alunos mais capazes para o trabalho intelectual enquanto direcionaria os alunos menos inteligentes a profissões que iriam inseri-los no sistema
118 Tomlinson, Stephen. Edward Lee Thorndike and John Dewey on the science of education. In: Oxford
Review of Education; Sep97, Vol. 23 Issue 3. Disponível em: http://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&db=aph&AN=9710072218&lang=pt-
br&site=ehost-live. Acessado em: 09/03/2010.
119 NUNES, Clarice. op. cit. p.117.
120 SANTOS, Ivanete Batista dos. Edward Thorndike e a conformação de um novo padrão pedagógico
para o ensino da matemática. [tese de doutorado]. São Paulo, PUC, 2006.
produtivo sem, no entanto, exigir-lhe esforço incompatível com sua baixa inteligência, posição já defendida por outros psicólogos norte-americanos como Lewis Terman.
O elo entre Dewey e Thorndike, sugerido por Warde, além da Universidade de Columbia, é a influência teórica de William James. John Dewey declarava ter sido influenciado pelo pragmatismo presente nos livros de William James122 e o considerava um dos fundadores deste movimento. Suas críticas recaíam principalmente no dualismo existente entre teoria e prática, que Dewey adotou na sua crítica às questões educacionais, principalmente no artificialismo das classes escolares, que ignorava a experiência prévia da criança e não associava as lições à vida prática. Para Dewey, o sistema educacional deveria se concentrar na aproximação das aulas com a vida cotidiana, onde a ideia consistia em valorizar a experiência do aluno como elemento fundamental para que o processo de aprendizagem tivesse sucesso.
Essa visão dualista também tinha como reflexo, a existência de uma hierarquia estabelecida entre especialistas e trabalhadores, os primeiros destinados ao trabalho intelectual e os segundos ao trabalho manual, sem que pudesse haver um diálogo entre as duas funções. Essa divisão era valorizada por Thorndike, fato que podemos presumir ao analisar seus argumentos em defesa dos testes, uma vez que o direcionamento para funções especializadas ou não deveria ser feito já na escola primária a partir da capacidade intelectual de cada aluno.
Thorndike foi orientado por William James em seu mestrado em Harvard e foi indicado por ele e James Cattell (seu orientador de doutorado na Universidade de Columbia), para ensinar no Teacher’s College. Para compreender mais claramente a influência de James, seu artigo, publicado em resposta às críticas feitas por George T. Ladd ao seu livro Os princípios da psicologia, é útil. Nele, William James argumenta que seria interessante deixar os aspectos mais metafísicos da consciência humana para os especialistas em filosofia e concentrar os estudos da psicologia nos problemas ligados às ciências naturais. Segundo ele:
“uma psicologia assim entendida poderia seguramente ser delegada aos cuidados dos homens interessados em fatos, dos experimentadores de laboratório e dos biólogos. Nós certamente precisamos de algo mais radical do que a velha divisão entre "psicologia racional' e "psicologia empírica", ambas tratadas pelo mesmo autor nas faces opostas do mesmo livro. Da parte
122 William James (1842-1910) formou-se em medicina e é considerado um dos pioneiros da psicologia
norte-americana. Também ficou conhecido como um dos fundadores do pragmatismo americano, ao lado de John Dewey e Charles Pierce. Foi professor de psicologia e filosofia em Harvard. Publicou Princípios de psicologia em 1890.
do homem prático, nós precisamos de um honesto, completo e explícito abandono de questões tais como a alma, o ego transcendental, a fusão das ideias ou das partículas de estofo mental etc.; e, pela parte dos filósofos, de uma honesta e completa determinação em manter tais questões fora da psicologia, e tratá-las somente em suas mais amplas conexões possíveis, entre os objetos de uma revisão crítica de todos os elementos do mundo ”.123
Assim, Thorndike parece ter colocado em prática o apelo de James por uma psicologia mais “científica”, que focasse em questões práticas e renunciasse às especulações filosóficas. Seu intenso trabalho, centrado no laboratório de psicologia experimental da Universidade, buscava atender a esse pressuposto. Foi também “à memória de William James” que Thorndike dedicou um de seus livros, The original nature of man124, em cujo prefácio declarou ter sido fortemente influenciado por James e por Cattell, seus orientadores. Segundo Warde, Thorndike filiou-se ao empirismo radical acreditando que só através da experimentação era possível conhecer a natureza humana.
Warde125 também afirma que o conexionismo de Thorndike “se distancia plenamente do postulado da prevalência do biológico” uma vez que
“Thorndike centrou sua atenção em questões cognitivas, tais como as operações mentais efetuadas pelos indivíduos para adquirir determinada habilidade, para reter determinadas informações, para solucionar problemas, etc. Por meio de seus experimentos, princípios pedagógicos pautados no suposto da transferibilidade genética dos conhecimentos foram rebatidos. Essa afirmação é ainda precária se a ela não se agregar que Thorndike potencializou seus experimentos incluindo sujeitos de diversas etnias: asiáticos, europeus de diversas regiões, negros e assim por diante, para patentear que as habilidades cognitivas dos indivíduos não são determinadas biologicamente, porque são aprendidas.” 126
De fato, em The original nature of man127, Thorndike declarou que, ao nascer, o homem já carrega consigo tendências bem definidas de seu futuro comportamento, determinados pela “natureza de seu embrião”, mas admitiu que o que o homem faz depende tanto da sua “natureza original” quanto do meio em que vive. Ainda segundo
123JAMES, William. Apelo para que a psicologia seja uma "ciência natural". Sci. stud., São Paulo, v. 7, n.
2, June 2009 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678- 31662009000200010&lng=en&nrm=iso. Acessado em 09/03/2010.
124 THORNDIKE, E. The original nature of man. New York, Teachers College – Columbia University,
1913.
125 WARDE, Mirian. “Lourenço Filho e Anísio Teixeira: um tema e uma circunstância.” In: Revista
Brasileira de História da Educação. n° 5, jan./jun. 2003. p. 147 (em nota)
126 Idem, Ibdem.
ele: “Nesse sentido nada na natureza humana se deve exclusivamente a um ou outro desses fatores”.128
Ainda que não tenha como única base os fatores biológicos (e, portanto, inatos) em suas análises, é possível afirmar que Thorndike posicionou-se a favor da ideia de que os testes de inteligência poderiam prever o potencial de aprendizagem de uma criança, como Ivanete Santos129 já havia demonstrado no caso dos testes Alfa. Entretanto, seu trabalho foi além e concentrou-se em entender os mecanismos da aprendizagem infantil, principalmente da matemática, transformando-o num dos principais estudiosos da psicologia educacional de sua época.130 Os trabalhos de Thorndike e seus discípulos com testes de inteligência em Columbia vão ser bastante explorados por Isaías Alves em seu relatório de viagem.
Dewey também trabalhou com psicologia no começo de sua carreira. Em 1886, enquanto dava aulas de filosofia e psicologia em Michigan publicou Psicologia, que serviu de base para muitas aulas sobre a disciplina até o lançamento do livro de William James, Princípios de Psicologia em 1890.131 Enquanto ministrou aulas na Universidade de Chicago, Dewey trabalhou no departamento de filosofia da universidade que incluía, além dos estudos filosóficos, o trabalho com psicologia e pedagogia. Seu trabalho, intitulado O conceito do arco reflexo em psicologia132 (publicado em 1896), criticava a visão dos fisiologistas do conceito, que separava o fenômeno em três componentes complementares: o estímulo (que produz a sensação), o processamento central (que produz a ideia) e o ato ou reação motora. Dewey acreditava que essa era uma separação artificial e sugeriu uma análise funcional do reflexo, que se preocupava em definir a finalidade do fenômeno ao invés de suas causas, preocupação dos fisiologistas.
O mesmo tipo de raciocínio foi desenvolvido por ele ao analisar a relação entre vida e educação. Para Dewey, essa era uma separação artificial uma vez que a educação era parte da vida de cada indivíduo. Ele ganhou cada vez mais espaço no pensamento educacional através do movimento progressista, no qual é considerado um dos pioneiros ao lado de James Pierce e William James. Seus livros defendiam a igualdade de oportunidades na educação como caminho para superar os entraves à democracia norte-
128 Idem, Ibdem.
129 SANTOS, Ivanete. Op. cit. P.229
130WARDE, Mirian. “Estudantes Brasileiros no Teacher’s College ...”
131 GOODWIN, James. História da psicologia moderna. São Paulo, Cultrix, 2010. p.231 132Idem. p.231-232.
americana bem como a valorização da experiência do aluno, que devia estar em permanente diálogo com os conteúdos escolares. Esta visão vai ter especial importância no pensamento de Anísio Teixeira, como veremos a seguir.
2.5 Conhecendo a democracia americana: dois brasileiros no Teacher’s College de