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Em 1923, o Teacher’s College da Universidade de Columbia, Nova Iorque, criou o Instituto Internacional. Financiado pela Fundação Rockefeller, esse instituto incentivou a presença de alunos estrangeiros oferecendo-lhes bolsas de estudo. Segundo Warde, o Teacher's College “estava especialmente interessado em que muitos estudantes estrangeiros chegassem para estudar o que de melhor aquele College tinha a oferecer da educação e da pedagogia norte-americana, estimulando, ao mesmo tempo, que eles fizessem da situação educacional dos seus países objetos de pesquisa”.133 Assim, como contrapartida, a instituição pretendia levantar informações a respeito dos sistemas de ensino de outros países, possibilitando um trabalho comparativo em educação, ao mesmo tempo em que se colocava como principal interlocutora nesse processo.

Foi dentro desse contexto que Isaías Alves e Anísio Teixeira ingressaram nesta instituição para especializarem-se na área educacional. Em 1928 Anísio Teixeira ganhou uma bolsa do Macy Student Fund, do Instituto Internacional, e lá permaneceu durante 10 meses. Anísio já havia visitado os Estados Unidos no ano anterior, comissionado pelo governo da Bahia, para estudar o sistema de educação americano. Foi em 1927 que ele visitou o Teacher’s College pela primeira vez, onde fez cursos de verão. Isaías Alves também contou com bolsa de estudos, esta do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, e entre junho de 1930 e maio de 1931 especializou-se em Psicologia Educacional no Teacher’s College.

Tanto Anísio quanto Isaías escreveram relatórios de viagem que, apesar de fruto de uma obrigação protocolar em decorrência do recebimento da bolsa,134 foram

133 WARDE, Mirian. “Estudantes Brasileiros no Teacher’s College ...”

134 No relatório de Anísio Teixeira consta que ele foi “apresentado ao Governo do Estado da Bahia pelo

Diretor Geral de Instrução, comissionado em estudos na América do Norte” e o de Isaías Alves possui carta de apresentação ao “Sr. Ministro da Educação e Saúde Pública” em que diz: “cumpro o dever de

publicados como livro posteriormente. O primeiro relatório, de 1928, é Aspectos Americanos de Educação, escrito por Anísio Teixeira e o segundo, de 1931, intitulado Da Educação nos Estados Unidos135 foi escrito por Isaías Alves. Esses relatórios foram tomados aqui como ponto de partida da nossa análise.

Cabe salientar que como um relatório, as informações fornecidas são de um tipo específico uma vez que têm caráter oficial. De acordo com Gondra e Mignot, “o relator ocupa a posição daquele que observa, examina uma realidade, seleciona o que vale ser registrado, fixado, tornado visível”.136 Essa seleção é credenciada tanto pela instituição que recebe o redator, que como já vimos, pretendia ser o centro do pensamento educacional internacional, quanto pela própria pessoa que escreve o relatório.

Para Gondra e Mignot, no caso do relatório de Anísio, “a partir do que foi tornado visível é que as instâncias de governo vão pensar políticas em torno da pedagogia, da forma escolar da educação, gestão, financiamento e da profissão docente, dentre outros aspectos”.137 O mesmo podemos dizer do relatório de Isaías Alves, elaborado sob condições semelhantes. Assim, cabe pensar tanto o que foi salientado por esses autores em seus relatórios quanto o que foi “esquecido”.

Podemos dizer que a primeira parte do relatório de Anísio Teixeira é marcada pela filosofia de Dewey, que pretendia aplicar no Brasil, enquanto Isaías Alves ressaltou no primeiro capítulo as teorias psicológicas que procurou se aprofundar em Columbia. Os interesses dos dois autores também eram diferentes, uma vez que Anísio Teixeira foi à Columbia como Diretor de Instrução e teve como foco os aspectos administrativos que envolviam a educação escolar norte-americana. Já Isaías Alves procurou se especializar em psicologia escolar, área em que já desenvolvia atividades no Brasil, e saiu de Columbia com o certificado de “Instructor em Psychology” além do Master of Arts, título que ambos receberam. Essa diferença de foco vai ser importante para entender as particularidades de cada relatório.

O primeiro exemplo é a abordagem feita sobre o problema racial estadunidense que restringia os direitos civis dos negros no país. De acordo com D’avila, enquanto

apresentar a V. Excia o relatório dos principais trabalhos que realizei na minha viagem aos Estados Unidos”.

135ALVES, Isaías. Da educação nos Estados Unidos: relatório de uma viagem de estudos. Rio de Janeiro,

Imprensa Nacional, 1933.

136 GONDRA e MIGNOT. “A descoberta da América”. In: TEIXEIRA, Anísio. Aspectos Americanos de

educação & Anotações de Viagens aos Estados Unidos. Rio de Janeiro, UFRJ, 2006. p. 14.

estavam em Columbia, tanto Anísio Teixeira quanto Isaias Alves “excursionaram por escolas segregadas no Sul dos Estados Unidos, algumas delas se desenvolviam sob os diretos auspícios do Teacher’s College”.138 Entretanto, enquanto Isaías Alves dedica um capítulo à “educação dos negros norte-americanos”, Anísio Teixeira apenas menciona a separação de escolas para negros e para brancos, sem se aprofundar na questão, apesar de explorar a iniciativa do Instituto Hampton, como veremos a seguir. A ênfase nos estudos psicológicos, que encontrava na questão racial um dos seus pontos críticos, talvez explique por que Alves explorou melhor esse aspecto em seu relatório.

Em capítulo intitulado “educação dos negros americanos”, Alves começava demonstrando a queda do nível de analfabetismo que entre eles, que havia passado de 90% em 1875 para 23% em 1930, mas ressaltava a persistência da segregação ao afirmar que “ainda é imprudente no Sul expender opiniões em favor dos negros”.139 Em seguida, fala do esforço do Norte de garantir os direitos dos negros e das instituições que se dedicam à educação destes, como a Universidade de Howard e o Instituto Tuskegee. Para ele, o governo brasileiro deveria mandar para estas instituições “alguns educadores brancos e pretos a fim de verem como se realiza a elevação da raça preta, pelo trabalho manual e eficiência industrial”.140

É interessante notar que, contrariando os índices e tabelas que afirmam a inferioridade de inteligência dos negros presentes nos trabalhos sobre testes psicológicos da época, nesta parte do relatório Alves afirma que, nos estudos de experimentação científica, “professores e estudantes negros se mostram perfeitamente iguais em técnica, habilidade e perseverança, aos experimentadores brancos”,141 reconhecendo assim a existência de aptidão dos negros para o trabalho intelectual. Entretanto, o ensino agrícola era, em sua opinião, mais adequado aos negros norte- americanos uma vez que a maior parte deles concentrava-se no Sul do país, onde essa atividade era predominante. O ensino agrícola ajudaria esses indivíduos a produzir mais e melhor, além de fornecer os professores necessários para esse tipo de ensino.

O relatório de Anísio Teixeira dedica um capítulo ao Instituto Hampton, na Virgínia, que foi criado após a guerra civil americana para educar os negros recém- libertos. Ao contrário de Alves, Anísio não aborda o problema da “regeneração dos

138 DAVILA, Jerry. Diploma de Brancura. São Paulo, UNESP, 2006. p.195 139 ALVES, Isaías. Da educação nos Estados Unidos. p.161.

140 Idem, p. 162. 141 Idem, p.163.

negros”,142 mas procura entender o funcionamento do sistema de educação do Instituto, utilizando o mesmo tipo de abordagem que vinha adotando nos capítulos anteriores. Ele afirma que “a contribuição educacional de Hampton não consiste somente em uma contribuição para a educação dos negros, mas em uma contribuição para a educação em geral”.143 Assim, encara Hampton como mais um exemplo de administração escolar, ênfase que adota na segunda parte do documento.

Já no caso de Isaías Alves, o capítulo sobre educação dos negros não podia deixar de abordar a questão no âmbito psicológico. Segundo ele, “há grande discussão acerca da capacidade intelectual dos negros. A questão do ambiente e da herança é ainda aberta e os resultados experimentais psicológicos se estão ainda analisando”.144 Entretanto, acredita que é possível afirmar que “os brancos, como um grupo, apresentam QI mais alto que os pretos”. 145 Ressalta que estes resultados não impossibilitam a existência de meninos negros que sejam gênios, coisa que já havia sido verificada por alguns psicólogos. Mais adiante, a inteligência continua sendo por ele associada aos pressupostos que hierarquizam as raças uma vez que afirma que “alguns trabalhos comparativos chegam à conclusão, talvez provisória, de que a porcentagem de sangue branco é correlativo com o aumento da capacidade intelectual, de modo que os meninos pardos estão acima dos pretos”. 146

Esta visão foi expressa de forma mais explícita no trecho em que ele afirma ter recebido incentivo do professor Pintner para continuar os trabalhos com testes de inteligência no Brasil.147 Ao reunir e organizar os dados coletados durante suas experiências em Salvador, Alves ressaltou a diferença que encontrou “nos resultados em relação à cor” 148 que foi expresso na seguinte tabela:

Teste de Binet Teste de Ballard

Brancos – QI médio – 86,6 Brancos – QI médio – 79,7 Pardos – QI médio – 73,6 Pardos – QI médio – 71,1 Negros – QI médio – 66,1 Negros – QI médio – 63,9

142 Idem, p. 162.

143 TEIXEIRA, Anísio. Aspectos Americanos de educação & Anotações de Viagens aos Estados Unidos.

Rio de Janeiro, UFRJ, 2006. p.126.

144 ALVES, Isaías. Da educação nos Estados Unidos. p.172. 145 Idem. Ibdem.

146 Idem. p.173. 147 Idem, p. 16. 148 Idem, p.18.

ALVES, Isaías. Da educação nos Estados Unidos. p.18.

Aqui, vale explorar duas implicações dessas afirmativas que foram destacadas pelo próprio Alves em seu relatório: a primeira diz respeito à associação entre degeneração moral e falta de inteligência, vínculo já feito por Goddard, para quem “a inteligência é, regularmente, correlata com o equilíbrio moral”.149 De acordo com Goddard, é possível inferir que o grupo negro, uma vez que é estatisticamente menos inteligente, é também mais propenso à imoralidade. A segunda é a reflexão sobre o tipo de educação a ser ministrada a esses grupos, pois para Alves esse assunto era “conexo com a organização dos cursos e dos programas, se quisermos educar os meninos para serem eficientes economicamente e felizes na sua profissão”.150 O autor, no entanto, prefere não se aprofundar nessas questões alegando que o espaço do relatório não era adequado para um exame mais detalhado das mesmas.

Na sua viagem aos EUA, além do objetivo específico de se especializar em psicologia, Isaías Alves recebeu do ministro do interior a incumbência de “estudar a organização do ensino nos centros de imigração”.151 Essa missão complementar dada pelo ministro do interior sugere, já no começo dos anos 30, uma preocupação em relação à nacionalização do ensino, que ganhará mais atenção com o advento do Estado Novo e a eclosão da Segunda Guerra. Neste ponto do relatório, o autor ressalta uma diferença que considera essencial entre o problema da nacionalização para os norte- americanos e para os brasileiros. Enquanto os Estados Unidos possuem um país estruturado, em iguais ou melhores condições que os países europeus, o Brasil seria desprezado pelos imigrantes que aqui chegam, uma vez que eles conseguem estabelecer melhores condições de vida e melhor estrutura dentro de suas comunidades que os próprios brasileiros. Para Alves, melhorar as condições de vida dos brasileiros era condição fundamental para impor os padrões de vida nacionais.

Alves dá especial atenção aos cursos para adultos, nos quais o ensino elementar da língua inglesa é ministrado, além de cursos mais aprofundados organizados de forma a incentivar a frequência com horários flexíveis e métodos que ressaltam a evolução do aluno, bem como os centros de integração social, que procuram familiarizar o imigrante

149 Idem, Ibdem. 150 Idem. p.173. 151 Idem. p.175.

com os costumes norte-americanos. Também ressalta a intensa propaganda nacionalista como caminhos que o Brasil pode seguir.

Quanto à questão dos testes de inteligência, sabemos que eles eram utilizados como forma de admissão na Universidade. Em 1921, Gilberto Freyre menciona o uso destes em passagens de seu diário,152 escrito quando também estudava na Universidade de Columbia. Ainda que não estivesse envolvido com as questões educacionais – como Isaías Alves e Anísio Teixeira – Freyre fez breves reflexões sobre o uso de testes, ora declarando que os “tests são coisas muito mecânicas”153, ora reconhecendo a atitude da Universidade como uma “inovação audaciosa”. 154 Mais do perceber a opinião de Freyre sobre os testes, o que importa é demonstrar que esse fenômeno era percebido por outros intelectuais que não estavam empenhados em trazer esse método para o Brasil ou diretamente envolvidos no assunto.

No caso do relatório de Anísio Teixeira, o uso de testes de inteligência aparece na admissão de alunos para os cursos da Escola Normal. Aqui, não interessa descobrir gênios, mas descobrir se o aluno possui “qualidade de inteligência exigida para o trabalho escolar” numa tentativa de “elevar o nível intelectual dos estudantes das escolas normais”.155 Também no currículo das escolas normais, no caso específico o Colégio Normal de Farmville (Virgínia), os alunos aprendiam noções de psicologia tendo dentre suas matérias “psicologia das diferenças individuais” e “medidas educacionais (testes)”.156 Deste modo, o autor não menciona a admissão de gênios na Universidade de Columbia, mas trata a utilização dos testes mentais como mais um elemento de seleção utilizado pelo departamento de matrícula norte-americano.

Já Isaías Alves explora o uso de testes durante seus estudos em Columbia, em especial no curso de “medidas da inteligência”, onde os estudantes aplicaram “exames nas escolas de New York e cidades próximas do Estado de New Jersey”,157 mas também registra a existência de objeções ao uso de testes mentais. Os educadores norte-

152 FREYRE, Gilberto. Tempo morto e outros tempos. São Paulo, Global, 2006. Em apresentação ao livro,

Pallares Burke ressalta que o “diário” é marcado pelo esforço de reconstrução do autor, conferindo-lhe um caráter autobiográfico marcante. Ao que tudo indica, algumas passagens de seus escritos foram alteradas para publicação. Isso não invalida, entretanto o testemunho da existência de alunos gênios em Columbia.

153 Idem, p. 92. 154 Idem. p.107.

155 TEIXEIRA, Anísio. Op. Cit.p.102. 156 Idem. p. 159.

americanos que fizeram oposição aos testes, como William Kilpatrick,158 apoiado pelo Diretor da Horace Man School, Dr. Reynolds, além de apontar falhas técnicas decorrentes da aplicação dos testes, tinham na homogeneidade das classes justamente seu ponto de crítica. Para eles, classes homogêneas eram artificiais e não ensinavam à criança um lado cotidiano da vida que era a convivência entre fracos e fortes.159

Alves respondeu às críticas com resultados obtidos nas escolas dos EUA, demonstrando que o índice de repetência caía significativamente com a adoção da homogeneização. Também ressaltou que o diretor da Horace Mann tinha como base uma escola aristocrática, que já possuía alunos de alto QI, e, portanto, semelhantes em potencial de aprendizagem, ao contrário das escolas brasileiras. Por fim, reafirma a utilidade de testes de inteligência para organizar o ensino no Brasil.160

Mais que uma diferença de foco, Anísio Teixeira e Isaías Alves parecem ter tido experiências bastante diferentes no Teacher's College em virtude do objetivo que os levou a Columbia, como já dito anteriormente. Segundo Clarice Nunes, Anísio Teixeira foi influenciado tanto pela “orientação filosófica e social” de Dewey, quanto pela “concepção quantitativista” de Thorndike161, o que pode indicar que, embora pudessem ocorrer disputas entre esses dois professores, suas visões sobre educação não eram inconciliáveis. Thorndike parece ter sido importante para aperfeiçoar sua visão sobre administração escolar, que precisava das pesquisas e da fiscalização para controlar os resultados do ensino. Partindo dessa visão, compreende-se a primeira aproximação entre Anísio Teixeira e o método dos testes utilizados por ele como ferramenta organizacional posteriormente durante sua gestão na DGIP-DF.

Na filosofia de Dewey, Anísio Teixeira acreditou ter encontrado a chave para o progresso brasileiro. Em Aspectos americanos de educação162, relatório de viagem elaborado para o governo baiano, ficou registrado o impacto causado pelo contato com essas ideias. Teixeira abriu seu relatório declarando a centralidade do pensamento de Dewey na “sistematização da teoria moderna de educação”. Para ele,

158

William Kilpatrick (1871-1965) é provavelmente, a seguir a John Dewey, o grande filósofo do movimento educacional e curricular progressista ‘norte-americano’ na primeira metade do séc.XX. Foi professor do Ensino Básico, de Matemática e Latim, e veio a mergulhar no campo da educação e dos estudos do currículo, profundamente influenciado por Spencer, Froebel, Pestalozzi e Parker, sendo muitas vezes identificado como o pai do movimento progressista educacional e curricular ‘norte-americano’.

159 ALVES, Isaías. Da Educação nos Estados Unidos. p.20-21. 160 Idem, Ibdem.

161 NUNES, Clarice. Op. cit. p.117. 162TEIXEIRA, Anísio. Op. Cit.

“A educação, compreendida assim como a suprema função social, tende a ser não somente a agência conservadora da sociedade, mas a agência do seu constante desenvolvimento e progresso”.163

Foi com base na filosofia progressista de Dewey que Anísio Teixeira pretendia mudar os parâmetros do sistema educacional brasileiro, ainda em construção. Ao explorar o conceito de inteligência de Dewey, Teixeira faz um paralelo com a concepção de Thorndike, em que a inteligência deve ser “treinada ou modelada”.164 De fato, alguns estudos de Thorndike tentaram medir os efeitos que o ensino de uma disciplina tinha no sistema cognitivo da criança. Assim, ele tentava entender se o ensino de latim facilitava o aprendizado de outra disciplina, como a matemática.

Ao contrário, Dewey considerava a inteligência como um processo de reação reconstrutora do estímulo e do ambiente. A partir daí entende-se porque a educação não se concentraria no “treino” e, sim, na reconstrução da experiência, onde o indivíduo aprende a lidar com a vida. Em seu relatório de viagem, Teixeira declarou ainda que

“Essa concepção [escolástica] julga que a inteligência tem uma faculdade de conhecimento isolada de qualquer outra atividade, com estados mentais e operações próprias e independentes. A mente reage sobre as coisas e as coisas reagem sobre a mente e daí provém o conhecimento. A psicologia americana está convencida de que tal processo não existe. Inteligência é uma pura ideia formal sem uma perfeita realidade objetiva. Não há inteligência, mas ação inteligente se poderia dizer. Inteligência ou mente representa somente a habilidade de responder a certos estímulos presentes, com uma visão de suas futuras consequências, que procuramos modificar ou controlar tanto quanto nos seja possível. Não há, pois, em todo o processo mental, nenhuma coisa que se possa considerar puro ato de conhecimento”.165

Já neste relatório, podemos perceber como Teixeira articula suas ideias sobre inteligência e seu papel no aprendizado, que ganhará uma dimensão diferente da que Alves irá defender e que tem como resultado a diferença encontrada na importância dada aos testes de inteligência entre esses dois autores.

A convergência apontada por Patrícia Fass entre educação de massas e valorização do indivíduo no contexto americano, que propicia o debate sobre uso dos testes padronizados, também é explorada por Nunes ao falar sobre o interesse de Anísio Teixeira nesses testes. Segundo a autora,

163 Idem, p. 50.

164 CPDOC, Arquivo Anísio Teixeira, AT pi Teixeira, A. 1928/1935.00.00. 165 TEIXEIRA, Anísio. Op. Cit. p. 58-59.

“Anísio via na aplicação dos famosos testes (de capacidade mental, de aquisição educativa, de situação econômica e social, de saúde e capacidade física) um instrumento capaz de individualizar o processo educativo, levando pessoas com diferentes níveis de capacidade a se empenhar no processo de aprendizagem. Eram também indispensáveis para organizar o trabalho do professor, inspecionar a execução do programa e evitar julgamentos extravagantes dos alunos”.166

Dessa forma, mais que um instrumento administrativo, os testes (de inteligência e de aproveitamento) eram uma ferramenta para aproximar a expansão do sistema educacional com o objetivo de atender às necessidades individuais de cada criança. Nesta perspectiva é que entendemos a tentativa de incorporar as medições ao sistema público de educação carioca e o trabalho desenvolvido com Isaías Alves.

Em Columbia, Isaías foi aluno de alguns dos principais nomes da psicologia educacional norte-americana como Edward Thorndike, que ministrou o curso sobre “Psicologia das matérias do ensino primário”. Neste curso, Thorndike concentrou-se na metodologia de ensino, nos problemas que envolviam a aprendizagem da leitura e da