3: Metode
4.1 Del 1: Hva kjennetegner gode endringsprosesser og hvilken betydning har
4.1.5 Motiverende
Getulio Vargas ascende ao poder por meio da Revolução de , e dá início ao processo de formação do Estado brasileiro “state building” , mediante a promoção de reformas profundas na estrutura político‐institucional, que influenciaram diretamente a dinâmica da relação Estado‐sociedade no Brasil DINIZ, , p. .
No Livro A gramática política do Brasil , Edson Nunes analisa como ascensão de Vargas ao poder e a condução do seu projeto nacional‐desenvolvimentista promoveram três gramáticas políticas no Brasil, isto é, três padrões que estruturam as relações entre Estado e sociedade no País. Para Nunes, as três gramáticas – o universalismo de procedimentos, o insulamento burocrático e o corporativismo – conviveram com o clientelismo, identificado pelo autor como uma quarta gramática política, que já estava fortemente enraizada no sistema político brasileiro.
No que tange à incorporação do universalismo de procedimentos, Vargas promove a primeira significativa reforma de Estado ocorrida no Brasil, buscando romper com o modelo de Estado patrimonial conduzido pela elite agrário exportadora, que dominou o cenário político da República Velha. As práticas clientelistas e patrimonialistas – em que cargos públicos serviam como moeda de troca para garantir apoio e favores políticos – representavam verdadeiros obstáculos ao ímpeto nacional‐desenvolvimentista de Getulio Vargas. De fato, considerando seu projeto de state building, fazia‐se primordial ter como alicerce uma estrutura administrativa competente, capaz de implementar e
conduzir as diretrizes de modernização econômica e desenvolvimento industrial almejadas REZENDE, , p. .
Assim, tão logo ascende ao poder, Vargas dá início à construção de um aparato institucional visando centralizar o poder e ampliar a capacidade de intervenção estatal, a partir da adoção de medidas em prol da racionalização do serviço público e do universalismo de procedimentos. É neste contexto que, em , o Departamento Administrativo do Serviço Público DASP é criado. O DASP era o órgão central do sistema de controle da administração pública brasileira e a peça‐chave para a constituição de uma burocracia profissional, aos moldes weberianos. O insulamento burocrático é introduzido justamente para a condução de seu projeto político: para que o DASP pudesse dar prosseguimento aos ímpetos reformadores, era necessário protegê‐ lo das práticas políticas e administrativas até então vigentes. Tornar‐se uma agência insulada da Presidência foi a arma utilizada por Getulio para que o DASP sobrevivesse e, conseqüentemente, para que Getulio conduzisse seu plano de governo NUNES, . Já o corporativismo representa a gramática política vinculada ao modelo de intermediação de interesses inaugurado com Vargas que irá influenciar a dinâmica das relações Estado‐sociedade no Brasil nos anos subseqüentes ao seu governo. Em linhas gerais, o corporativismo se refere a um sistema de representação de interesses em que os interesses da sociedade civil são organizados em torno de associações de classe – sejam sindicatos de trabalhadores, sejam sindicatos patronais – reconhecidas oficialmente pelo Estado e que detém o monopólio de representar seus interesses de classe junto a este na formulação e gestão de políticas públicas SCHMITTER, , pp. ‐ . Dadas as diferentes manifestações do corporativismo nas sociedades capitalistas modernas, Schmitter propõe a existência de dois subtipos de corporativismo: o de Estado e o Social.
O Corporativismo de Estado representa as corporações criadas e mantidas como órgãos dependentes e auxiliares do Estado. Está fortemente associado à necessidade de manutenção da paz social , mas não por meio da incorporação e inclusão, mas sim pela repressão e exclusão de articulações autônomas criadas em torno de demandas sociais. Já no segundo subtipo de Corporativismo, o Social, a legitimidade das ações do Estado está vinculada à incorporação democrática das associações de representação de
interesses – que são autonomamente criadas – nos processos de decisão de Estado. Neste último tipo, busca‐se a harmonização dos múltiplos e autônomos interesses da sociedade, a partir da coordenação do Estado. O primeiro modelo é próprio dos países autoritários como casos emblemáticos pode‐se citar a Itália fascista de Mussolini e a Alemanha nazista de Hitler e o segundo tipo está presente em regimes democráticos, tais como Suécia, Áustria e Alemanha.
Muitos autores, como Cawson , Graziano e Melo referem‐se ao Corporativismo Social como o Neocorporativismo , justamente pela intenção de distanciar esse tipo de sistema de mediação e representação de interesses do clássico corporativismo, ao qual Schmitter denominou Corporativismo de Estado .
O modelo corporativista introduzido por Vargas caracterizava‐se pela organização das relações entre patrões e operários por meio da obrigatoriedade de filiação em sindicatos sob controle do governo. Ou seja, assumia contornos do Corporativismo de Estado. Como descreve José Murilo de Carvalho, tudo se passava dentro de uma visão que rejeitava o conflito social e insistia na cooperação entre trabalhadores e patrões, supervisionada pelo Estado CARVALHO, , p. .
A estrutura corporativa criada por Getulio Vargas constituía‐se, de um lado, por sindicatos trabalhistas organizados por ramos setoriais e, por outro, pelos sindicatos patronais, mais precisamente pelas federações, que representavam, em cada Estado, suas indústrias. Esta estrutura era subordinada a uma legislação específica a mesma da Consolidação das Leis de Trabalho – CLT, também introduzida por Vargas e se pautava na garantia do monopólio de representação dos interesses de cada categoria funcional DINIZ, , p. . Neste modelo foram incorporados os empregados urbanos da indústria e dos serviços, a quem lhes foi garantido os direitos sociais básicos, tais quais salário mínimo, férias, contrato de trabalho, previdência social. Note‐se, no entanto, que a grande maioria dos trabalhadores, os que atuavam na agricultura, foram deixados de lado e excluídos dos benefícios desta política social TAVARES DE ALMEIDA, , p.
.
Vale lembrar que a revolução de se dá com base na articulação do apoio popular, em especial do operariado urbano, e de outros segmentos da sociedade, como os grupos industriais, os militares e os profissionais da classe média. Assim, para Getulio conduzir
seu projeto de formação do Estado nacional era fundamental contentar os diferentes interesses destas classes. Todavia, como estratégia de controle político, o projeto de Vargas não se afastou dos interesses da oligarquia agrária DRAIBE, , p. .
É perante, portanto, essa estratégia de sustentação política que alguns autores identificaram a configuração do Estado de compromisso , como uma forma de compatibilizar, sob o controle do Estado, os múltiplos interesses das classes que o apoiaram. Para Draibe o estado de compromisso :
... expressa a ausência de hegemonia de qualquer um dos grupos dominantes e exerce o papel de árbitro entre estes interesses, respondendo por uma solução de compromisso e equilíbrio. A fonte de sua legitimidade são as massas populares urbanas e a elas se estabelece por mecanismos especificamente políticos de manipulação e auto‐ esforço que configuram, ao final, uma democracia de massas cujo traço distintivo, em última instância, é o Estado mostrar‐se de forma direta, sem mediações, a todos os cidadãos e de, numa dinâmica própria, absorver e concentrar em si as possibilidades de mudanças estruturais
DRAIBE, , p. .
Desse modo, a estrutura corporativa atuou como o principal canal de inclusão dos interesses empresariais e dos operários no processo de decisão estatal e, vale reforçar, sempre sob o controle do Estado: no caso das associações dos operários, que haviam sido autonomamente constituídas nos primeiros anos do século XX, elas forçosamente deixaram de existir; as associações empresariais, por sua vez, tiveram que se adaptar ao modelo varguista, porém puderam manter parte da estrutura previamente existente.
Na prática, o modelo corporativista estatal inaugurado por Vargas privilegiou a participação das elites industriais em detrimento da menor participação dos trabalhadores nos acordos corporativos. Diniz explica que os canais corporativos serviram essencialmente como novos espaços políticos para a classe empresarial, institucionalizando‐se a prática de negociação bipartite, envolvendo os grupos econômicos e o Estado. Assim, no âmbito do Executivo foi institucionalizada uma arena privilegiada para o encaminhamento das demandas empresariais DINIZ, , p. , uma vez que este locus de negociação era protegido das ingerências externas. De fato, as negociações ocorriam em um ambiente no qual participavam apenas os grupos de
interesse diretamente envolvidos na questão, sem que houvesse a ampliação da participação para outros atores, entre eles, os trabalhadores.
O corporativismo, como a principal instância de representação de interesses, é reforçado no governo Vargas quando, com o golpe de Estado de , os partidos são eliminados. Nunes explica que o corporativismo surge em como uma forma de promover relações pacíficas entre as classes sociais, evitando‐se a divisão e os conflitos promovidos pelos partidos políticos. Com efeito, a estrutura político‐partidária não favorecia o intento de Vargas de promover a paz social e conquistar o controle político por ele tão almejado. É diante desse contexto que os partidos são excluídos, a estrutura corporativa é montada e os operários urbanos e empresários assumem o papel de atores políticos. E, vale destacar, esse papel ocorre sob a égide do Estado.
Na análise de Campello de Souza , p. , o movimento de enfraquecimento da instância parlamentar partidária, além de privilegiar o canal corporativo, fortaleceu e reforçou um padrão de relação entre Estado e sociedade já presente no Brasil, o clientelismo que, ao lado do insulamento burocrático, regerão as relações Estado‐ sociedade no Brasil ao longo da experiência democrática de ‐ .
2.2 A experiência democrática de 1946 a 1964: o clientelismo e o insulamento