3: Metode
4.5 Del 3: Psykologiske kontrakter
4.5.4 Informasjon og kommunikasjon
Quando os militares assumem o poder em , eles se deparam com o seguinte cenário: fragmentação da administração pública, diversidade de procedimentos e ausência de canais formais de comunicação entre os órgãos do Estado e os atores sociais. Este ambiente administrativo aliado à centralização decisória e ao enfraquecimento da instância político‐partidária promove a estruturação de mecanismos informais para reger as relações entre o Estado e a sociedade, configurando o que Cardoso denominou de aneis burocráticos , e se referem a um modelo informal de organização dos grupos da sociedade civil por meio do qual estes interagem com a administração pública, fazendo valer seus interesses.
Diniz explica, por sua vez, que no regime militar acentua‐se também o padrão insulado e fragmentado de negociação entre as elites empresariais e estatais. Assim, ao lado das práticas informais de negociação , o modelo corporativo bipartite é acentuado, enquanto são ampliadas as formas de repressão sobre sindicatos e demais representações populares DINIZ, , p. .
É no bojo desse movimento que são criados os conselhos técnicos com representação empresarial, tais como o Conselho Monetário Nacional CMN , o Conselho Interministerial de Preços CIP , o Conselho de Desenvolvimento Industrial CDI e o Conselho de Desenvolvimento Econômico CDE . Como será visto no capítulo , o Conselho de Desenvolvimento Econômico CDE foi o principal centro de decisão do Proálcool.
A estratégia de descentralização, intensificada com JK, também foi ampliada e manteve seu posto de destaque durante o regime militar. O modelo de desenvolvimento conduzido pelos militares ampliou a intervenção estatal em setores econômicos favoráveis ao aprofundamento da industrialização nacional. Assim, assistiu‐se à expansão do aparato estatal, por meio da criação de fundações, autarquias e empresas estatais, que deveriam atuar em setores da economia considerados estratégicos para a realização do ímpeto desenvolvimentista REZENDE, , p. .
Contudo, o processo de expansão não ocorreu ao lado da criação de mecanismos de controle das ações da administração indireta. Ampliou‐se, assim, a fragmentação da administração pública, a descentralização do processo decisório e aumentou‐se o poder das burocracias setoriais que se encontravam insuladas REZENDE, , p. ‐ . Esse cenário criou os alicerces para a consolidação de um mecanismo informal de intermediação de interesses que Cardoso denominou aneis burocráticos :
... pelo qual se define que a administração pública é supletiva aos interesses privados e esses fluem, nas suas relações com o Estado, através de teias de cumplicidade pessoais ... . A teia de cumplicidades era mais difusa, mais orientada para relações e lealdades pessoais que tornavam cúmplices desde o vereador, o deputado, o funcionário de uma repartição pública, o industrial, o comerciante ou o banqueiro ou até o ministro, quando não o próprio presidente. A partir desse sistema as decisões eram tomadas e implementadas CARDOSO, , pp. ‐
Em seu livro Autoritarismo e Democratização , Cardoso desenvolve a tese que o padrão de relações Estado‐sociedade do período do regime militar está pautada na aliança do Estado com o empresariado– classe média , formada pelos representantes da empresa privada, da empresa pública e da indústria internacional. Ou seja, tratava‐se de uma aliança entre o Estado e os representantes do capitalismo moderno .
Essa aliança justificava‐se pelos interesses do projeto político do governo militar, qual seja, o crescimento econômico, principalmente pelo aprofundamento do processo de substituição de importações. Com efeito, ter os representantes do capital nacional e internacional como aliados era coerente com os ímpetos do governo, assentado no desenvolvimento econômico, não havendo, portanto, lugar para a representação da classe trabalhadora: ... no geral o estado atual garante a dominação do empresariado sobre a de outras classes e assegura a reconstituição e o funcionamento dos mecanismos de acumulação CARDOSO, , p. . As Forças Armadas, que ascendem ao poder com o Golpe de atuavam, por meio de sua burocracia técnica, como o eixo central que regia estas relações entre o Estado e sociedade.
De fato, no novo regime instaurado – tal qual já vinha ocorrendo no governo de JK – a tecnocracia teve o seu poder fortalecido, de modo que as decisões de Estado eram sempre imbuídas do discurso da racionalidade , da neutralidade e da busca constante pelo desenvolvimento e crescimento econômico. Logo, com o propósito de tomar as decisões mais técnicas possíveis, acima de interesses particularistas CARDOSO, , p. , há a ascensão do governo dos técnicos, formada por renomados economistas responsáveis pelas decisões estratégicas no âmbito econômico, cujas ações não estavam sujeitas aos controles sociais e institucionais pesos e contrapesos . Como a questão econômica tornou‐se a questão central do governo militar, o tecnocrata assumiu, assim, importante papel na arena política: o regime se caracterizou por uma espécie de delegação da política para a economia e, nesta, pela emergência do tecnocrata como personagem político CARDOSO, , p. .
Em sua análise, o sistema político e as decisões de governo são regidos por esses aneis , informais e ligados a distintos interesses sociais, que cortam as estruturas das relações de modo que parte da burocracia pública formada pelos dirigentes das empresas públicas e pelos tecnocratas dos ministérios e demais órgãos públicos é cooptada
pelos interesses dos representantes das burocracias privadas, composta pelos funcionários das empresas nacionais e multinacionais. Assim, os órgãos do Estado emergem como aparato político por meio dos quais parcela restrita da sociedade alcança a esfera de poder, ou seja, tem acesso à arena de decisão CARDOSO, , p. . Neste modelo de intermediação de interesses não há espaço, portanto, para a representação político partidária, nem para a introdução de espaços institucionais e formais de contestação e participação. Portanto, o sistema de partidos e demais formas de pressão e organização da classe média ficaram à margem da dinâmica de decisão, passando a depender, para fazer valer seus interesses, de alianças e contatos com os tecnocratas e grupos militares que estavam no poder CARDOSO, , p. .
É nesta linha de argumentação que Cardoso distancia o modelo dos aneis burocráticos das práticas de lobby. Os lobbies, para o autor, são práticas de pressão por meio das quais grupos organizados de poder, cujos interesses e objetivos são bem claros e definidos, influenciam a dinâmica das decisões de Estado que, por sua vez, conta com uma burocracia moderna e também bem organizada , p. . No caso dos lobbies, os canais de influência são formais e institucionalizados, já nos aneis burocráticos a dinâmica das relações é informal, instável e regida pela cumplicidade das relações pessoais. Ademais, na dinâmica dos aneis nem sempre há a participação de grupos de representação de interesses coesos e bem organizados: os interesse sociais que se fazem representar nos aneis burocráticos são heterogêneos, perenes, e podem se referir a um interesse específico, que pode unir, momentaneamente ou, em todo caso, não permanentemente, um círculo de interessados na solução de um problema CARDOSO,
, p. .
Em síntese, a tese central do autor é que no governo militar houve a formação de um novo arranjo político, informal e pautado em lealdades pessoais , por meio do qual parte dos representantes da sociedade civil era capaz de cooptar e influenciar as decisões de Estado e, vale lembrar, desde que estas caminhassem ao encontro do projeto do governo voltado ao crescimento econômico. Com este novo arranjo, não há espaço para a manutenção das práticas de participação democrática, cerceadas com o Golpe de
Este modelo de intermediação de interesses, que limita os alcances da participação no processo decisório a um grupo limitado da sociedade civil e que justifica todas as decisões como técnicas, desqualificando, portanto, o debate político e eliminado os pesos e contrapesos que fiscalizam as decisões tomadas, caracteriza o que Cardoso denomina de autoritarismo burocrático CARDOSO, , p. . Em sua análise, o maior risco derivado das decisões tomadas neste contexto do autoritarismo burocrático é que seus resultados sejam favoráveis apenas aos atores que participaram da dinâmica do processo decisório, isto é, aos tecnocratas e aos empresários, por estas não estarem abertas ao escrutínio público.
Essa análise do autoritarismo burocrático aproxima‐se da abordagem desenvolvida por O Donnell em seus estudos sobre os regimes autoritários introduzidos na América Latina a partir da década de no Brasil e na Argentina na década de , e no Uruguai e Chile na década seguinte , aos quais denominou Estados Burocráticos Autoritários .
Com o propósito de diferenciar essas novas formas autoritárias que emergiam na América Latina das manifestações de outros estados autoritários, como o fascismo e o populismo, O Donnell propõe‐se a analisar suas especificidades econômicas e sociais e as características das alianças políticas por eles promovidas.
Entre as principais características identificadas, O Donnell verifica que no Estado Burocrático Autoritário as posições de comando e decisão são ocupadas por indivíduos cujas carreiras foram bem sucedidas em organizações altamente burocratizadas – seja nas Forças Armadas, seja em grandes empresas e corporações. Assim, por ser um governo cuja cúpula é ocupada por profissionais bem sucedidos e altamente técnicos, assiste‐se à ascensão da tecnocracia às esferas de poder. Com isso, as decisões são imbuídas do discurso da escolha técnica . Ademais, são sistemas de exclusão política, uma vez que os canais de acesso ao Estado estão fechados à participação popular, seja por meio da repressão, seja pelo controle por parte do Estado das ações dos sindicatos. No Estado Burocrático Autoritário busca‐se promover o desenvolvimento capitalista, por meio do acirramento do processo de industrialização. Com este propósito em primeiro plano, trata‐se também de um sistema de exclusão econômica, pois são
transferidas para um futuro incerto as aspirações de participação econômica da população O DONNELL, , p. .
Em outro artigo, O Donnell desenvolve o estudo dos estados burocráticos autoritários da América Latina a partir da análise de sua vertente corporativista e verifica que as características do corporativismo que se manifestam nestes países os diferenciam do corporativismo desenvolvido no período dos governos populistas e fascistas.
Fato a ser destacado é que, apesar de haver uma grande aproximação entre a descrição do Estado Burocrático Autoritário desenvolvida por O Donnell com as características do Estado Autoritário brasileiro do pós analisadas por Cardoso , este não identifica nas relações Estado‐sociedade do Brasil práticas corporativistas. Diniz , tal qual O Donnell, também considera que o modelo corporativista, em sua vertente bipartite, se fez presente durante os anos do governo militar DINIZ, , p. .
A estrutura corproativista distancia‐se da prática dos aneis burocráticos descrita por Cardoso . No corporativismo, sob o controle do Estado, as classes se organizam e são devidamente representadas nos canais institucionais de participação. No caso dos aneis burocráticos, que não são um instrumento formal de pressão da sociedade sobre o Estado CARDOSO, , p. , as classes, mesmo as dominantes, não se organizam como uma forma social. Os membros das classes que participam da arena política a ela se integram quae personae e não como representantes de suas corporações de classe CARDOSO, , p. . O canal de pressão e articulação não é institucional, mas sim vinculado a indivíduos e a interesses circunstanciais: com isto assegura‐se a cooptação e não representação limitada da sociedade civil e sua extrema debilidade como força política autônoma CARDOSO, , p. . Com efeito, quando há a remoção de algum funcionário de um determinado anel , provoca‐se uma grande desarticulação das arenas de influência, afetando, diretamente, o processo decisório.
Resumidamente, pode‐se afirmar que há duas visões centrais que analisam a dinâmica do processo decisório no período militar. Autores como Diniz e O Donnell consideram que houve o predomínio de práticas corporativas. Trata‐se de um modelo no qual, sob o comando do Estado, as classes empresariais organizadas influenciam o
processo decisório, e as classes sociais são excluídas. Por tal razão, é denominado, por Diniz, corporativismo bipartite, e por O Donnell, bifronte. Por sua vez, para Cardoso , houve o predomínio de práticas de influências informais, pautadas não em interesses organizados de classe, mas sim em interesses circunstanciais. A formação de teias pessoais de cumplicidades dá a base para esse sistema, e não a institucionalização da representação, como ocorre no corporativismo.
2.4 A Constituição de 1988: a celebração do Estado Democrático de Direito e a