Passamos, agora, a um outro fenômeno fonológico cujo entendimento se fará importante na verificação dos dados produzidos pelos aprendizes: a palatalização de /t/ e /d/ antes de [i] nas cidades de Porto Alegre e Pelotas/RS.
Em termos fonéticos, a palatalização pode ser definida como “a produção de uma realização secundária em que a parte frontal da língua é levantada em direção ao palato duro” (LADEFOGED, 2004, p. 295). A literatura referente aos estudos fonológicos do português indica que, em nossa língua, /t/ e /d/ podem ser palatalizados, quando antecedendo a vogal alta [i], em palavras como ‘tia’ e ‘dia’. Os fonemas /t/ e /d/ podem ser produzidos como segmentos plosivos palatalizados ([tJA] e [dJA]) ou como segmentos africados ([tSiA] e [dZiA]). É, portanto, um caso típico de assimilação de aspectos fonéticos da vogal alta frontal [i].
O fenômeno de palatalização das plosivas alveolares, no português, já foi analisado fonologicamente sob mais de um modelo teórico. Lopez (1979), a partir de uma análise ancorada na Fonologia Gerativa Clássica, analisou dados do dialeto carioca, formalizando a regra de palatalização com base no Sound Pattern of English (CHOMSKY & HALLE, 1968), de acordo com a qual consoantes alveolares tornam-se africadas. A análise da palatalização, entretanto, ganha robustez a partir de trabalhos desenvolvidos sob a Geometria de Traços, como no estudo realizado por Oliveira (1990). Através do alto poder de representação que caracteriza esses modelos não-lineares, o autor formalizou a palatalização como um espraiamento do traço coronal do nó de Ponto de V da vogal para a consoante que a precede, que, por desligamento de traços, perde o seu traço [+anterior] e adquire o traço [-anterior] da vogal. Trata-se, em termos autossegmentais, da mudança de uma consoante simples em complexa (OLIVEIRA, 1990; MONARETO, QUEDNAU & DA HORA, 2005), uma vez que se apresenta com duas articulações. Temos como resultado, desse modo, uma consoante palatalizada.
É importante salientarmos ainda que, sob a perspectiva acima descrita, o processo de palatalização pode envolver dois estágios. A descrição acima feita diz respeito ao que Oliveira (1990) e Monaretto, Quednau e da Hora (2005) consideram como o primeiro desses estágios,
caracterizado pela formação de uma consoante complexa em termos representacionais, e, em termos fonéticos, uma consoante palatalizada [tJ, dJ]. A produção de segmentos africados, por sua vez, constitui o que os autores definem como o segundo estágio da palatalização. Nesse sentido, a realização de uma africada, tida como um segmento de contorno, implica, à luz da Geometria de Traços, a bifurcação do segmento complexo em duas raízes.
Após essa breve descrição do fenômeno de palatalização em duas diferentes perspectivas de análise fonológica, devemos discutir, a partir de agora, o caráter variável da palatalização no português brasileiro. O fenômeno de palatalização não se caracteriza como categórico em nosso país, tampouco em nosso estado. Esse fato abre espaço para diversos estudos variacionistas que visam a investigar a ocorrência do fenômeno em uma dada comunidade de fala. No que diz respeito à fala do Rio Grande do Sul, podemos chamar a atenção para os estudos, desenvolvidos em nível de mestrado, de Almeida (2000), referente à palatalização na comunidade de Flores da Cunha, de Kamianecky (2002), que verificou a palatalização em Porto Alegre e Florianópolis, e de Pires (2004), que investigou a palatalização na cidade de São Borja.
O estudo de Kamianecky (2002) merece destaque especial, por ter tratado com dados de Porto Alegre, cidade-natal e de residência da maior parte dos informantes desta Tese. Em sua análise variacionista, a pesquisadora constata que, em Porto Alegre, a aplicação da regra é geral. Esta afirmação vai ao encontro da verificação previamente realizada por Bisol (1991), que já apontava um índice de 90% (peso relativo 0,88) de palatalização nesta cidade. Nos dados de Kamianecky (2002), a palatalização foi produzida em 99% dos casos (peso relativo 0,98), não deixando dúvidas de seu status de fenômeno categórico na capital gaúcha. Temos, com o trabalho de Kamianecky, evidências de que os sujeitos de nosso estudo nascidos e residentes na capital palatalizam antes de [i].
Não temos, entretanto, estudos variacionistas sobre a palatalização na cidade de Pelotas, que venham a sustentar nossa constatação de falante nativo do município de que, dentre os moradores nascidos nessa cidade, a produção de [tS] e [dZ] antes de [i] é, também, categórica. Ainda que não tenha sido desenvolvido um estudo empírico variacionista acerca do fenômeno, encontramos, no estudo de Matzenauer (2002), uma confirmação de caráter teórico sobre a produção categórica de segmentos africados neste município. No trabalho em questão, a autora volta-se para um comparação teórica entre a variação encontrada na aquisição de segmentos africados, referentes à produção variável de [t] ~ [tS] e [d] ~ [dZ] antes de [i] por parte de crianças das cidades de Porto Alegre e Pelotas, e a variação na produção de plosivas alveolares e palato-alveolares características do falar adulto das cidades de Florianópolis e Curitiba, verificados através dos dados do Projeto VARSUL. A autora discute que, dentre as crianças pelotenses, o alvo da aquisição é a plosiva palato-alveolar. Ainda que haja variações características do processo de aquisição do sistema fonológico da L1, o sistema lingüístico da criança dirige-se à produção categórica de [tS] e [dZ] antes de [i], o que não é o caso dos falantes adultos das duas capitais. Temos, assim, considerações que sugerem que os segmentos [tS] e [dZ] são produzidos categoricamente antes da vogal frontal alta por falantes nascidos e residentes na cidade de Pelotas.
Descrito o processo de palatalização na L1, é preciso refletirmos acerca de tal processo na aquisição das plosivas finais do inglês. Nesse sentido, devemos mencionar o trabalho de Bettoni-Techio (2005). A autora pesquisou aprendizes de inglês nativos do estado de Santa Catarina, estado esse em que a palatalização não é categórica entre os sujeitos. Por esse motivo, Bettoni-Techio precisou investigar, também, a produção em L1 dos informantes, de modo a separar aprendizes que palatalizavam daqueles que não realizavam tal processo.
A organização dos sujeitos nesses dois grupos permitiu à pesquisadora investigar o papel da palatalização na L1 sobre a produção da plosiva alveolar final da L2. A verificação e
análise dos dados levantados por Bettoni-Techio (2005) apontou, de fato, que aprendizes que não palatalizavam na L1 também não o faziam, ou faziam-no muito pouco, na L2. Os dados, nesse sentido, sugerem que a ausência da palatalização no dialeto da L1 pode ser indicadora de sua ausência na interfonologia português-inglês.
Ao considerarmos os resultados de Bettoni-Techio (2005), e a consideração teórica, feita nos parágrafos anteriores, de que a palatalização se dá de forma categórica entre os sujeitos deste estudo, concluímos que produções tais como [tS] e [dZ] para os alvos /t/ e /d/ em posição final não se caracterizam como surpreendentes. Ainda que tais produções de interlíngua não acarretem a formação de uma nova sílaba na língua do aprendiz (de modo que tal padrão de output não constitua objeto de investigação em nossa análise a ser desenvolvida via Teoria da Otimidade), tais formas caracterizam-se, sim, como diferentes da forma-alvo, uma vez que, no inglês, os sons [t] e [tS] possuem caráter distintivo, como em cat [kHQt] e
catch [kHQtS]. O Capítulo 5, referente à Descrição e Discussão dos Dados, apontará os índices
de produção indevida de [tS] em posição final em cada um dos níveis de proficiência dos aprendizes, bem como discutirá o caráter inapropriado dessas produções.