2. Theoretical framework
2.4 Motivation
Analisando o conceito de educação do campo apresentado pelas lideranças, percebe-se a ideia de que é necessário o envolvimento da família. Isso é primordial na construção da educação do campo, como explicou uma das lideranças: “Educação do
campo seria o envolvimento de toda família na educação” (Divan Rodrigues, Secretária Geral da FETAG).
Outras lideranças apontam questões de conteúdo para definir o que esperam de uma educação do campo, e que pode ser depreendida do depoimento que segue:
Hoje realmente aqui em Campos Novos, Cabo Frio, a educação do meio rural e do meio urbano não está muito diferente uma da outra. Uma que a gente pode citar, com uma diferença que é visível, é a Nilo Batista, porque é uma escola que os alunos estão tendo aula prática. É a única escola que tem uma educação diferenciada, que os alunos têm aula de português, matemática; tem aula de zootecnia; de agricultura; tem aula de agroindústria, que pega os produtos dali mesmo da zona rural e transforma os alimentos dali, como um doce, beneficiando o próprio produto. Ao invés de jogar a casca da banana fora, eles pegam ali mesmo e faz o doce da casca de banana. Então já estão aprendendo uma coisa a mais, pondo em prática. Ali a gente vê uma educação do campo, uma educação diferenciada. Nas outras, eu sei que têm alguns professores de outras escolas que são da zona rural, moram lá mesmo, que sai da zona rural e vão pra zona urbana fazer faculdade pra poder voltar a trabalhar ali mesmo. Hoje, nós temos uma escola que trabalha o ensino com o rural no meio, que é a Nilo Batista com uma educação diferente pros alunos dali, eles estão lidando totalmente com educação no campo, então, é uma que poderia servir de exemplo pras outras escolas que estão ao redor dela. A gente chegou até a fazer um trabalho de estágio com alunos, montando horta nas escolas da rede municipal. Fizemos algumas aqui, no meio rural, mas não foi pra frente. A única escola que tem uma horta e os alunos se alimentam daquela hortaliça, do que é produzido ali mesmo, é a Nilo Batista, que o aluno planta; o aluno cuida; o aluno colhe e se alimenta do próprio produto, o que as outras escolas deveria também fazer. Eu acharia que a escola no meio rural, [deveria ter] pelo menos, uma aula de agricultura no meio de cada aula por semana e hoje a educação do campo a gente pode falar a partir da Nilo Batista. As outras eu não posso falar, também porque eu não conheço (Wagner Lan, liderança jovem da FETAG).
Essa liderança jovem faz uma crítica às escolas rurais da cidade de Cabo Frio, afirmando que não há uma diferenciação entre elas e as urbanas. Ele aponta como exemplo de escola do campo uma escola de ensino agrícola não como historicamente foi definido na parte de revisão desta dissertação. Não se trata de uma escola para “órfãos ou desvalidos da sorte”, como definiam as oligarquias do século XIX, e nem uma “escola para meninos problema”, como diziam as elites agrárias dos anos 40 do século passado, essas duas definições de objetivos da escola tinham em vista adestramento de mão-de obra para o latifúndio. Aqui se vê uma escola dos cidadãos do campo, de sujeitos conscientes da necessidade de luta por seu reconhecimento como membros importantes na sociedade, pois são os trabalhadores (as) rurais os verdadeiros produtores dos alimentos para o abastecimento que toda a sociedade necessita. A escola é vista como espaço estratégico para uma vida digna no espaço rural, um meio da aquisição de conhecimentos necessários à melhoria de sua renda e valorização de seu
esforço de trabalho pela construção partilhada com os professores de saber dotado de sentido.
Esse envolvimento dos agentes do movimento nos debates implica aproximações de significados. O diálogo evidencia como, depois de tantos anos de escola rural, os pais pouco eram envolvidos no cotidiano escolar:
Agora, a educação do campo seria o envolvimento da família e principalmente dos jovens, para que os jovens tivessem interesse. Uma educação do campo, onde a gente pudesse tá levando o interesse do jovem pela terra, o trabalho na terra, porque quando eu vejo um adolescente dizendo: ah eu vou pra cidade, poxa! tem que levantar 5 horas da manhã para ir trabalhar num hotel ou em um restaurante e ele poderia trabalhar sempre junto com a mãe. Porque a mãe trabalha sozinha. Isso é uma referência que eu tenho, e falo poxa! Se ele fosse trabalhar com a mãe, ela também acorda 5 horas da manhã, mas porque ela não tem quem ajude ela. Aí, ali ela vai tratar dos porcos, das galinhas. Se fossem duas pessoas, ela poderia acordar mais tarde e tratariam desses bichos. Ela faz artesanato, poderia ele, o jovem ajudá-la a fazer a colheita da taboa. Fez isso, ou ele vai aprender a fazer o artesanato junto com ela, ou estaria liberado, mas ali é uma renda familiar. Todos ganhariam, e ganharia muito mais do que um salário mínimo que ele estaria ganhando, porque o salário mínimo que ele ganharia, para trabalhar em um hotel ou restaurante, na verdade não é um salário mínimo, porque têm as passagens, quando chega no final do mês que ele fizer as contas, ele pagou para trabalhar e junto com a sua mãe poderia está trabalhando (Divan Rodrigues, secretária geral da FETAG).
O conceito de educação e trabalho muda no discurso da professora, por causa do contexto de seu trabalho e de sua trajetória de vida, mas há uma similaridade entre esses discursos. Ambos falam do trabalho e do significado colado com a vida, com o conhecimento local e de que o trabalho na sala de aula deve ser proveniente da realidade local, ou seja, do espaço social dos sujeitos escolares.
Quando vou trabalhar.... receita, não adianta trabalhar receita de estrogonofe e lasanha, posso até mostrar para eles. Preciso mostrar o prato típico da região, qual a matéria prima que encontra na região. Fazemos brigadeiro de aipim, pão de queijo de aipim pode fazer várias coisas como o bolinho de aipim. A mandioquinha pode estar trabalhando isto, o pessoal aqui só vende aipim in natura, mas pode vender congelado, cozido os produtos do aipim e tem vários outros. O Jamelão aqui estraga muito. Jamelão pode usar para fazer licor de jamelão e geléia de jamelão (Beatriz, professora de Agroindústria da Escola Agrícola Nilo Batista).
Num debate sobre o que seria e para que serviria a educação do campo, as lideranças esclarecem que:
Eu vejo a educação no campo, é o seguinte: é conceito do meio rural, é a valorização da pessoa que vive na área rural e tentar desmistificar essa questão que o rural é atraso, é o
feio, é o Jeca Tatu. È a gente tentar mostrar pras pessoas, e mais uma coisa, mostrar pra ela, que ta no nosso projeto das três instâncias CONTAG, FETAG e Sindicato, que o rural, a educação do campo ta buscando um conceito que é o seguinte, que é qualidade de vida, o rural é qualidade de vida. O que ele não tem na área urbana, se ele buscar na área rural ele vai conseguir, que é uma qualidade de vida melhor pra ele. E aí, a partir daí, a gente que é da FETAG tentar passar isso pra essa pessoa, pra ele ter um outro conceito, não ter aquela ótica que o rural é feio, que o rural é o atraso (Otto, Liderança da FETAG).
É, por exemplo, o que eu faço com meu neto. É dizer pra eles a importância da terra, o que é a terra pra mim. Não tem como ensinar pro meu neto se ele tem que aprender sobre agricultura, os valores da agricultura, se não cultivar a terra (Elicia Ramos, Liderança da FETAG).
O que a gente já prioriza na educação do campo é a gente tá preparando nosso povo pra não tá fugindo. Esse é o primeiro ponto, porque, como eu já falei pra você, uma grande população já é uma população de gente idosa, que a juventude está saindo, então a educação do campo é a gente preparar os nossos jovens, as nossas crianças pra tá se qualificando lá dentro e lá dentro mesmo morando e vivendo (Eliane Barbosa, Secretária de Mulheres da FETAG).
Por esses últimos depoimentos, pode-se dizer que a presença do movimento de trabalhadores rurais no debate de um processo de educação voltada para a valorização do campo significa trabalhar na formação ampla que tem como base o valor do trabalho no campo, o respeito a essa forma de vida e local de moradia.