Chapter 1 ‒ Introduction
1.3 Motivation
A unidade educacional na qual se processou a coleta de dados para esta pesquisa localiza-se, como já citado, na Zona Norte do Município de São Paulo, Bairro da Freguesia do Ó. Trata-se de uma Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) que atende alunos dos Ciclos I (1º ao 4º anos) e II (5º ao 8º anos) em três turnos diurnos. Não possui salas ociosas.
Nos turnos diurnos, a clientela atendida compõe-se majoritariamente por crianças moradoras da região. Não há favelas na redondeza. O local é urbanizado e de fácil acesso. A escola divide a demanda por vagas com outras duas unidades educacionais bastante próximas, uma municipal e outra estadual.
A coleta de dados foi realizada durante os dois primeiros turnos, nos quais funcionam 22 turmas de Ensino Fundamental – Ciclo I, além das turmas da Sala de Apoio Pedagógico (SAP) e da Sala de Apoio e Acompanhamento à Inclusão (SAAI).
A SAP e a SAAI começaram a funcionar na escola em 2004 e ocupam o mesmo espaço físico, atendendo em horários diferentes. Destinam-se, de acordo com os regulamentos vigentes (São Paulo/SME, 1994a, 1994b), a atendimentos distintos, sendo a primeira voltada ao apoio pedagógico a alunos com dificuldades de aprendizagem, notadamente no processo de alfabetização; e, a segunda, responsável pelo apoio pedagógico especializado a alunos com necessidades educacionais especiais.
Como já relatado anteriormente, as professoras da SAP e SAAI não tiveram seus depoimentos submetidos à análise de conteúdo, entretanto, suas falas foram bastante elucidativas em alguns aspectos que contribuem à caracterização da escola. Dentre eles, destaca-se que:
• as perspectivas de trabalho das duas salas de apoio são bastante semelhantes, centradas em atividades lúdicas que trabalhem dimensões sócio-afetivas dos alunos ao mesmo tempo em que atuem como reforço escolar;
• há carência de orientação e acompanhamento das instâncias superiores da Secretaria Municipal de Educação em relação ao desenvolvimento das ações de apoio pedagógico, especializado ou não, notadamente na articulação com atendimentos da área da saúde;
• há dificuldades no desenvolvimento de trabalhos coletivos que as envolvam com os demais professores em processos de planejamento e avaliação;
• os encaminhamentos para o apoio pedagógico são geralmente acompanhados por queixas dos professores em relação ao comportamento, sem uma fundamentação baseada em avaliação pedagógica do aluno;
• as professoras da sala de apoio e da sala comum não compartilham registros de avaliação dos alunos atendidos;
• o projeto pedagógico da escola é preterido pelas orientações trazidas por um programa da Secretaria Municipal de Educação denominado “Ler e Escrever – Prioridade na Escola Municipal”, que compreende um conjunto de ações voltadas à alfabetização dos alunos nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Segundo informações obtidas no início da coleta de dados, as classes do Ciclo I do Ensino Fundamental, com base em um conjunto de materiais impressos – que não foram disponibilizados para consulta, desenvolvem atividades de resgate de valores, hábitos e atitudes de solidariedade, cooperação, respeito, amizade, auto-estima, união e liberdade de expressão. Para realização dessas atividades, a escola se
fundamenta na apostila Brahma Kumaris7. Ainda que o projeto
pedagógico da escola não tenha sido analisado, supõe-se que a referida apostila permeie grande parte de seu conteúdo.
Para o registro oficial do rendimento escolar dos alunos, a escola adota, por norma da rede municipal, a atribuição dos símbolos conceituais NS (não satisfatório), S (satisfatório) e P (plenamente satisfatório).
Há, na escola, 2 turmas de 4º ano que recebem a denominação de PIC8. As turmas de PIC foram organizadas com os alunos retidos no
final do Ciclo I em 2005 e diferenciam-se das demais salas de 4º ano, uma vez que utilizam material impresso apostilado e possuem professoras acompanhadas por estagiárias, ambas recebendo formação específica para o trabalho com essas turmas. Ação semelhante acontece nas salas de 1º ano, onde as professoras, além de contarem com a presença de uma estagiária, recebem também uma formação diferenciada denominada pela sigla TOF9.
Na rede municipal de ensino de São Paulo, as reuniões de trabalho coletivo recebem a denominação geral de JEI (que, na verdade, corresponde à sigla de Jornada Especial Integral, opção de jornada de trabalho na qual as professoras dedicam 18, das 40 horas-aula semanais, para o trabalho coletivo). Essas reuniões aconteceram em horários distintos para 2 grupos de professores durante o período em que se processou a coleta de dados. Apenas um grupo, do qual
7 Brahma Kumaris – ONG internacional, hoje presente em 90 países, possui status
consultivo geral no Conselho Econômico e Social das Nações Unidas e junto ao UNICEF. Também filiada ao Departamento de Informações Públicas, desenvolveu em parceria com a Unesco e o Comitê Nacional da Espanha do UNICEF o material Vivendo Valores – um Programa Educacional. Sua missão é capacitar as pessoas a desenvolverem atitudes e comportamentos positivos, fundamentados em valores essenciais e na visão de um mundo onde as pessoas vivam em harmonia.
8 O Projeto Intensivo no Ciclo I (PIC) foi implantado pela primeira vez em 2006. Trata-
se de uma ação proposta às escolas que se insere no Programa “Ler e Escrever – Prioridade na Escola Municipal”. (São Paulo/SME, 2006a)
9 A sigla TOF refere-se ao Projeto Toda Força ao 1º Ano que, assim como o PIC, foi
implantado pela primeira vez em 2006 dentro do Programa “Ler e Escrever – Prioridade na Escola Municipal”. (São Paulo/SME, 2006b)
participavam as professoras entrevistadas, foi acompanhado durante a pesquisa. Nesse grupo não havia professoras das turmas de PIC.
Um resumo dos dados relativos às professoras entrevistadas pode ser observado no quadro abaixo:
Quadro II – Dados sobre as professoras entrevistadas
PROFESSORA TURMA TEMPO DE DOCÊNCIA
Amarílis 1º Ano 19 anos
Lis 1º Ano 15 anos
Camélia 3º Ano 10 anos
Íris 3º Ano 17 anos
Hortência 4º Ano 6 anos
Margarida 4º Ano 19 anos
Petúnia 4º Ano 10 anos
Rosa 4º Ano 15 anos
Acácia* SAP 18 anos
Dália* SAAI 15 anos
* Professoras designadas da Sala de Apoio Pedagógico (SAP) e da Sala de Apoio e Acompanha-mento à Inclusão (SAAI), cujas entrevistas não foram submetidas à análise de conteúdo