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Pattern Discovery

A professora Rapunzel, com ajuda da auxiliar, inicia sua aula explorando a expressão oral e corporal das crianças. No círculo, sentados ao chão, os alunos participam com entusiasmo cantando e fazendo gestos dentre outras formas que a

turma encontrava para expressar o interesse de participar da roda de música. Em seguida, é lembrado com base no quadro de ajudantes, os alunos do dia e as obrigações deles. É então feito a chamada, contação de crianças e o calendário. Todas essas ações são desenvolvidas com o auxílio dos ajudantes.

Ficamos curiosas para ver como se sairia os alunos com deficiência nessa função. Um dia, presenciamos o aluno com deficiência intelectual sendo o auxiliar da professora junto aos colegas e, pudemos perceber a sua satisfação em ajudar. Esses são momentos fundamentais para o desenvolvimento das crianças, pois dessa forma, estar contribuindo para o crescimento gradativo da sua autoconfiança e autonomia. Infelizmente, não tivemos oportunidade de ver o desempenho do aluno com deficiência auditiva na função de ajudante porque no dia dele não estávamos presente. Segundo a professora, quando e o dia de ajudante deste aluno ele sabe o que deve fazer e por imitação realiza tudo que é solicitado.

Logo após cantar músicas como: “Boa tarde coleguinhas”, “O sapo”, “Borboletinha” entre outras, a professora deu início a atividade sobre o tema do Projeto “Agua” que estava sendo pesquisado pela turma. Para explicar à atividade a professora utilizou a seguinte dinâmica:

A professora pede silêncio para que possam ouvi-la. Coloca “joão” próximo a ela. Começa a falar sobre a importância das frutas, e pergunta quem gosta de frutas? Qual fruta mais gostam? Qual dessas frutas vocês já comeram? Tem alguma fruta dessas que nunca tinham visto ou nunca tenham comido? Porque devemos comer frutas? Ela estimula a discussão. Em seguida pergunta: Quais as frutas que vocês trouxeram? A professora anota a quantidade e o nome das frutas que as crianças levaram . Todas as crianças participam na hora da escrita e da contagem. Ela procura interagir com “João através de gestos. “João” observa, e depois por não compreender se distancia e sai da roda. A professora percebe e através do olhar nos aponta indicando o que ele estava fazendo, desiste de “João” e volta para a atividade. Após o registro Rapunzel pergunta: qual o primeiro procedimento que deve ser feito para poder comer as frutas? As crianças gritam: lavar as frutas! E as mãos também! Por quê? As crianças explicam que se não lavar podem ficar doentes. Após o diálogo e a produção da atividade escrita, a professora indaga: quem já brincou de piquenique? As crianças agitadas começam a falar. A professora diz: Uma de cada vez pra gente entender. As crianças contam momentos vivenciados. A professora fala: vamos fazer um piquenique? O que precisamos para fazer um piquenique? As crianças respondem: comida! Rapunzel diz: já temos as frutas. Então vamos arrumar a sala. Enquanto as frutas foram lavadas e cortadas os ajudantes do dia ajudam a arrumar o

espaço para fazerem o piquenique. Nesse momento, “João” volta para o círculo.(nota de campo ).

Figura-10- Escrevendo o nome das frutas Figura11- Preparando o piquenique

Fonte: arquivo pessoal Fonte: arquivo pessoal

Com base nesse registro, percebemos que a professora se organizou didaticamente para a aula. No dia anterior falou para as crianças levar as frutas e anotou nas agendas. O seu planejamento estava estabelecido com as sequências didáticas que seriam necessárias para o bom andamento da aula.

Percebemos que a docente realizou a atividade todo momento em círculo. A distribuição dos alunos em roda faz parte da rotina das escolas de educação infantil com vistas ao trabalho para coletividade. Essa organização do espaço possibilita acolhimento, valorização das falas das crianças, facilita as trocas, diálogos e a interação entre os alunos e a professora. Essa é uma metodologia significativa para todos os educandos, pois permite verem-se uns aos outros fomentando o respeito mútuo e promovendo a aceitação das diferenças de opiniões, conhecimentos e informações.

A professora conseguiu envolver as crianças na discussão sobre a temática suscitando a participação dos alunos a partir de questionamentos que respeitava o nível de conhecimento das crianças e referente à sua experiência social. Ela como mediadora ajudou os alunos a articular os conhecimentos, valorizando as falas e possibilitando o desenvolvimento de aspectos relevantes na formação e no crescimento da criança, como: orientação acerca da higiene das mãos e das frutas para saúde, a importância das frutas para alimentação e da água para higienização dos alimentos. A professora, ainda utilizou como procedimentos didáticos a listagem dos nomes das frutas como forma de registrar a atividade e mostrar a função social da escrita.

Outro aspecto importante nessa aula foi à atividade lúdica proposta pela professora: a brincadeira do piquenique. Como já foi dito em outro capítulo, o faz de conta é um atividade importante para o desenvolvimento cognitivo e social da criança, uma vez que auxilia na imaginação, fantasia, criatividade além de obedecer a regras de acordo com a representação simbólica. Sobre isso Kishimoto (2001, p.43) afirma que “[...] ao prover uma situação imaginativa por meio da atividade livre, a criança desenvolve a iniciativa, expressa seus desejos e internaliza as regras sociais”.

Devemos destacar que Rapunzel conseguiu nesta aula trabalhar com objetivos das diferentes áreas do conhecimento (linguagem oral e escrita, matemática, conhecimento de mundo e formação social e pessoal). Essa atividade promoveu, a criatividade, a expressão oral, o raciocínio lógico e a oportunidade de construir noções de hábitos de higiene. Porém, como podemos verificar na nota de campo acima a professora não conseguiu provocar a interação, a participação e a aprendizagem do aluno “João”.

Um das implicações para a participação e aprendizagem efetiva desse aluno era a forma de comunicação estabelecida entre ele os colegas e a professora, através de gestos. Não se utilizava a língua de sinais na comunicação, nem no momento das atividades, porque a professora não tinha conhecimento desta língua e a escola não tinha uma sala de recurso para o atendimento especializado. De acordo com o documento Saberes e Práticas da Inclusão (2006, p.48) “O uso da LIBRAS em sala de aula [...] será de grande importância para o desenvolvimento das competências linguísticas dessa criança”. Infelizmente, esse aluno está sendo privado do contato com sua primeira língua e isso tem prejudicado a sua interação e participação na escola refletindo em seu desenvolvimento, pois muitas vezes a professora realiza atividades que se baseiam quase unicamente na língua oral impossibilitando uma aprendizagem mais efetiva por parte do aluno.

De acordo com Roman (2001, p.224),

[...] é inegável a criança o direito de acesso a língua de sinais como meio e fim de sua interação linguística, social e cultural. A escola tem o dever de garantir a imersão linguística desde a mais tenra idade para que seja assegurado o seu direito de adquirir sua língua de forma material e espontânea, bem como o direito de ter uma educação em língua de sinais.

Ao nosso ver, para que haja interação, envolvimento e aprendizado deste aluno, cabe a professora buscar se comunicar com este educando através de “pistas visuais” (língua de sinais, gestos, expressões faciais e corporais), tentar estimulá-lo a dar respostas e a se interessar pela proposta que esta sendo desenvolvida. As propostas de atividades que visam à construção de conceitos devem ser lúdicas, contextualizadas, utilizar recursos concretos e bastante estímulo visual.

Percebemos que a dinâmica desta professora já se baseia em atividades práticas utilizando material concreto e recursos visuais, mas falta mais interação e estímulo para com os alunos que têm deficiência.

Verificamos que não era apenas “João” que ficava muitas vezes alheio ao que

estava acontecendo e as atividades que estavam sendo realizadas, crianças consideradas com dificuldade de aprendizagem e com deficiência intelectual, por muitas vezes parecia um “boneco” na sala de aula sem demonstrar nenhum sinal de participação.

Por vezes, a auxiliar e a professora desconsideravam a presença destes alunos e ao nosso ver “João” percebia esse tratamento e, por isso, procurava chamar atenção batendo nos colegas, “quebrando” algumas regras ou desrespeitando as educadoras. Podemos inferir que os problemas de comportamento e as relações sociais apresentadas por este aluno não tem nada haver com a deficiência auditiva, mas com a pouca interação e comunicação que era dispensada ao ele.

Analisando outras notas de campo percebemos que a professora Rapunzel sempre procurava desenvolver atividades sobre o Projeto “Água”, proporcionando significações da realidade e através de experiências coletivas, como o momento do piquenique citado acima e outros episódios observado por nós: receita de dindin, banho de piscina, apresentação da música “Terra Planeta Água”.

A atividade sobre a receita de dindin foi muito esperada pelas crianças. Elas contavam os dias e criavam expectativas a respeito desse momento. Percebendo isso, a professora quando precisava repreender a turma pelas conversas ou falta de atenção em alguns momentos da aula as ameaçava dizendo que não teria mais a aula da receita ou que a criança não participaria se continuasse com tal comportamento. Esse mecanismo dava certo e as crianças passavam a se comportar com medo de perderem as atividades a serem desenvolvidas neste dia. Com relação a essa atitude da professora é notório que esta utilizou mecanismos de

condicionamento operante (abordagem comportamentalista), pois ela conseguia um comportamento adequado dos alunos com base em algo desejado por eles. Esse método utilizado pela professora apresenta teoria da aprendizagem contrária à proposta pedagógica dessa rede de ensino. Talvez uma forma para resolver esses conflitos, sem ir contra a teoria interacionista, seria suscitar reflexões na turma sobre comportamento inadequados que prejudicam a aula e por isso poderia atrasar a produção da receita do dindin.

No dia dessa aula tão esperada, a professora e a auxiliar realizaram a rotina em círculo, e conversaram com as crianças questionando: o que é uma receita? Como sabemos que o texto é de uma receita? Para produzir uma receita de dindin o que precisamos? Após as crianças participarem dando sua opiniões a professora levo-os para o refeitório para produzirem a receita. As crianças ficaram atentas a cada passo realizado pela professora. “João” se destacou por ficar todo o tempo observando e prestando a atenção. Como essa aula se deu de forma experimental, inferimos que “João” conseguiu compreender o que estava sendo produzido. Após a professora mostrar como colocar o suco dentro do saquinho permitiu que cada criança fizesse o seu. Podemos ver esse momento nas imagens 12 e 13 abaixo.

Figura12- Fazendo o dindin Figura13- Saboreando o dindin

Fonte: arquivo pessoal Fonte: arquivo pessoal

Através da utilização de recursos lúdicos a professora Rapunzel constrói seu fazer pedagógico. Como podemos constatar na aula acima analisada e, também, com base na atividade abaixo apresentada a educadora utiliza material concreto como forma de facilitar a compreensão dos alunos.

O material concreto é um recurso auxiliar que favorece a construção de significados e auxilia o ensino-aprendizagem na formação de conceitos,

competências e habilidades das diversas áreas do conhecimento. Esses recursos tornam a aula mais dinâmica, criativa, interativa e por isso, incentiva o interesse, a curiosidade e a busca por respostas nos alunos. Para Oliveira (2002, p.235) a utilização de materiais concretos possibilita ao aluno “[...] indagar, criar relações e entender a natureza cognitiva, estética, política e ética de seu ambiente, atribuindo significados”.

Utilizar material concreto na aula é importante para facilitar a compreensão dos alunos, principalmente quando se tem um educando com deficiência auditiva porque este precisará de recursos visuais que o faça utilizar os outros sentidos que possuem e assim construir conhecimento a respeito do que está sendo tratado. “A utilização, em sala de aula, de recursos visuais adequados facilita sobremaneira a compreensão e a aprendizagem significativa deste aluno” (BRASIL 2006, p. 49).

Para possibilitar o contato com a matemática Rapunzel utilizou como recurso tampinhas de diversas cores de garrafa (Figuras 14 e 15) o objetivo dos alunos construírem as noções ou conceitos matemáticos de quantificação, representação e classificação. Para tanto, a docente fez brincadeiras pedindo para que os alunos separassem as tampinhas por cores, proporcionando a eles o reforço da noção de cores. Aproveitou e trabalhou também agrupamento, no qual os alunos fizeram vários conjuntos de acordo com a cor e em seguida foi trabalhado as noções de quantidade quando a educadora contou juntamente com as crianças a quantidade de tampinhas em cada grupo de cores e anotou em cada conjunto para saberem onde tinha mais e menos tampinha.

Nessa atividade percebemos que o aluno com deficiência auditiva e o aluno com deficiência intelectual participaram ativamente da proposta lançada pela professora. Eles perceberam o que as outras crianças estavam fazendo e começaram a fazer o mesmo. Portanto, a atividade coletiva e o recurso utilizado facilitou a interpretação e a compreensão da atividade. Porém, acreditamos que a professora poderia ter ampliado a atividade se tivesse trabalhado os números também através da língua de sinais. Sabemos que a professora não fez curso de Libras, mas esse não é um impedimento para que ela venha a ter conhecimento sobre esta língua e repassar para seus alunos. Basta um acesso à internet para se encontrar vídeos que podem ajudar com cursos básicos sobre LIBRAS.

Figura 14- Trabalhando noções Figura 15- Trabalhando noções matemáticas matemáticas com tampinhas de garrafa(A). com tampinhas de garrafa(B)

Fonte: arquivo pessoal Fonte: arquivo pessoal

Ao nosso ver, a metodologia de trabalho utilizada pela professora Rapunzel de um modo geral contribui para aprendizagem e participação dos alunos. Com seu fazer pedagógico rico e significativo que rompe com a rigidez do espaço escolar tem possibilitado experiências coletivas de significações e aprendizado para vida. Ela busca explorar os assuntos pertinentes ao nível de desenvolvimento, de conhecimentos e de experiências da turma, possibilitando a construção de conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades e competências. Porém, essa dinâmica desenvolvida por ela não tem dado conta das especificidades de todos os seus alunos. Na verdade, tem atingido alguns, mas outros como o aluno “João” tem ficado de fora da gama de aprendizagens que poderia ter caso houvesse um planejamento baseado nas especificidades de cada um.

Rapunzel se esforçava para estimular o aluno com deficiência auditiva, mas em algumas situações como no momento da roda de música, na contação de história e na atividade escrita quando a professora utilizava apenas a exposição oral ele se desconcentrava e a mesma desistia de estimulá-lo. Não podemos deixar de considerar que em muitas dessas situações a educadora não pensou nas especificidades desse aluno e numa estratégia que o possibilitasse compreender o que estava sendo ensinado.

Sabemos que o aluno com deficiência auditiva precisa ser estimulado através dos outros sentidos (tato, paladar, visão, olfato), sendo assim é preciso que a professora no seu planejamento pense em formas que facilite a aprendizagem do

conteúdo ensinado e a participação nas atividades propostas. Para tanto, a escola precisa ter o apoio do atendimento educacional especializado que de um suporte e auxilie a professora na melhor maneira de trabalhar com os alunos que tem deficiência.

Portanto, no nosso ponto de vista os fatores que provavelmente tem prejudicado a aprendizagem e a participação do aluno “João”, em particular, estar na dificuldade que a educadora tem em se comunicar com ele e em planejar estratégias que atendam as suas necessidades. Nesse sentido, a presença da coordenadora pedagógica junto as professora é essencial para acompanhar o trabalho das educadoras acolhendo as suas dificuldades, fazendo críticas construtivas, comprometendo-se com a busca de melhores condições de trabalho na escola e promovendo ações que viabilizem a formação das professoras.

Outro aspecto que nos chamou atenção na prática desta professora diz respeito à relação estabelecida por ela com as crianças, que de um modo geral era baseado no ensino, havendo pouca demonstração de carinho e afago com os pequenos. Um aspecto muito importante no trabalho com as crianças menores é o contato físico, a demonstração de carinho e afeto e, isso quase não foi visto entre a professora e os alunos. A esse respeito, o documento Saberes e Práticas para Inclusão afirma que (2006, p. 47)

A afeição, a emoção, o carinho, a amizade entre professor e criança com surdez são componentes essenciais e fundamentais nas atividades de conversação e diálogo, isto é, na interação.

De acordo com esses relatos verificamos que a professora Rapunzel contribui para parte do sucesso da inclusão, mas por falta de formação, informação, interação com os outros agentes da escola e até mesmo disposição para desenvolver sua prática de forma a alcançar a participação e aprendizagem de todos, ainda não é realizado uma prática realmente inclusiva.