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Tendo em vista os objetivos e a população de estudo, assim como aspectos relacionados com a viabilidade da coleta dos dados, optou-se pelo questionário anônimo, auto-aplicado, como instrumento de coleta. Ao se construírem as questões, houve preocupação quanto à linguagem empregada, atentando-se para uma comunicação fácil e rápida com as respondentes. As questões obedecem a uma ordem seqüencial, agrupadas de acordo com as variáveis dependentes sob estudo.

O questionário é composto por perguntas de múltipla escolha e perguntas de respostas abertas. As questões abrangem dados demográficos, conhecimento sobre os mecanismos de transmissão do HIV, uso de drogas, medidas preventivas quanto a doenças sexualmente transmissíveis, comportamento sexual, percepção de risco em relação à aids, uso de preservativos, bem como exposição a materiais educativos, programas e atividades sobre aids. As perguntas abertas foram necessárias, uma vez que não contávamos com parâmetros culturalmente estabelecidos para essas questões, o que dificultou a construção de opções de respostas fechadas plausíveis e culturalmente apropriadas. Um exemplar do questionário constitui o anexo 2.

4.2.3.1 Pré-Teste

O instrumento foi pré-testado em uma turma de 35 estudantes universitários da mesma universidade. Isso foi necessário para determinar sua clareza e a sensibilidade cultural do instrumento, além de gerar críticas e sugestões para o seu aprimoramento. Após a análise do pré-teste, com avaliação das críticas e sugestões, algumas perguntas tiveram sua formulação alterada e outras questões foram acrescentadas. Após essas alterações, foi elaborado o questionário definitivo.

4.2.3.2 Aplicação dos Questionários:

Os questionários foram administrados durante os meses de agosto a outubro de 1995. Após uma breve explanação sobre a pesquisa (deixando claro que essa pesquisa fazia parte de uma tese de doutorado, que era conduzida por profissionais de saúde e que tinha como um dos seus objetivos sugerir possíveis caminhos para estratégias de prevenção), e explicações sobre a importância de respostas individuais as mais sinceras possíveis, os questionários eram distribuídos. Os professores se ausentavam e o pesquisador se mantinha no local, para o caso de haver qualquer dúvida. Todos foram informados sobre a

aleatoriedade na seleção dos cursos e do anonimato das respostas, visando à preservação da confidencialidade.

Observou-se receptividade, cooperação e interesse por parte dos estudantes no preenchimento dos questionários. Na maioria das turmas a necessidade de troca de informações sobre o assunto fez com que após a aplicação do questionário, fossem agendados outros encontros para uma maior discussão sobre as questões em pauta.

4.2.3.3 Validação do Questionário

Um certo número de medidas foram adotadas com a intenção de aumentar a taxa de aceitação e a qualidade das respostas, dois aspectos claramente relacionados entre si.

O primeiro passo dado nessa direção foi garantir aos participantes que o questionário fosse completamente anônimo e confidencial. O segundo cuidado foi relativo à introdução ao questionário padronizada e onde se definiam claramente quais as finalidades do mesmo. Segundo Spira (1994), os objetivos do estudo e a maneira como ele é apresentado aos participantes têm um papel fundamental para a validade do estudo.

Todas as perguntas de múltipla escolha tinham sempre uma resposta única. Isso evitava que alguém pudesse entender a “não marcação” como uma resposta. Como exemplo temos as questões sobre freqüência do uso do preservativo: Sempre - Freqüentemente - Algumas vezes - Raramente - Nunca - Não se aplica.

Pensando na possível dificuldade de recordar certos fatos, procurou- se relacionar as perguntas a um passado não muito distante. As respostas que exploram as práticas preventivas estão relacionadas às cinco últimas relações sexuais ou aos últimos 30 dias.

A qualidade das respostas pode ser avaliada pela ausência de contradições grosseiras nas respostas dos participantes aos diferentes segmentos do questionário que diziam respeito ao mesmo assunto. As perguntas sobre uso e aceitação dos preservativos é um bom exemplo.

A taxa de respostas4 em um estudo é convencionalmente usada como uma medida padrão de precisão das estimativas deste estudo (Blumstein et al., 1990). A proporção de “não-resposta” por questão pode indicar a qualidade das respostas. Entretanto, do mesmo modo que uma baixa taxa de não-resposta não indica necessariamente que a questão foi bem aceita ou entendida, uma alta taxa de não-resposta pode expressar uma compreensão restrita da pergunta ou simplesmente uma recusa em responder. As perguntas sobre renda individual e familiar podem se enquadrar nesse caso pois foram das raras questões com uma alta proporção de não-respostas.

De acordo com Blumstein e colaboradores (1990) existem 3 modalidades de participação seletiva que, de alguma maneira, têm efeitos diferentes sobre as estimativas acerca do comportamento sexual. 1) Participação seletiva com relação a características que são independentes do comportamento sexual. 2) Participação seletiva com respeito a atributos (por exemplo - situação conjugal) que podem estar relacionados com o comportamento sexual. 3) Participação seletiva diretamente vinculada ao comportamento sexual.

A primeira modalidade pode ser ignorada em termos de construção de estimativas, porque não-respostas dessa natureza não estão relacionada ao comportamento sexual. A segunda pode resultar em estimativas com vícios, mas que podem ser remediados se a distribuição da variável sob análise for sabidamente igual para o grupo de respondentes e não respondentes. A terceira modalidade é a mais problemática e raramente dará resultados livres de vícios.

Às estudantes que não quiseram participar foi perguntado o motivo da não aceitação. Esses motivos podem ser agrupados em 2: 1) necessidade de utilizar o tempo livre para estudar (aproximadamente 30% das estudantes que não quiseram participar); 2) sair mais cedo por motivos de transporte (aproximadamente 70%). Como a não aceitação em participar foi anterior a explanação sobre o objeto da pesquisa, poderíamos classificar os não respondentes no primeiro grupo, como fruto de seleção independente da participação na pesquisa.

Erros de medidas dão lugar a vícios (vieses) nas estimativas da prevalência dos comportamentos sexuais de “alto risco”, levando a identificações erradas das populações sob risco. Além disso, dificultam as estratégias preventivas. As implicações dessas dificuldades para a utilização dos resultados desses estudos nos desenhos de programas de prevenção são óbvias.

Segundo Catania et al (1990) os erros de medidas associados com comportamentos referidos em questionários podem ocorrer de diversas maneiras: a)-Os entrevistados podem se recusar a responder as questões relacionadas a comportamentos sexuais; b)- Podem admitir comportamentos mas referi-los em menor escala; c)- Podem admitir comportamentos, e referi-los em escala maior do que a real; d)-Podem referir comportamentos que nunca aconteceram. Como não existe um “gold standard” para as respostas sobre comportamentos sexuais, é dificil detectar quando os respondentes estão referindo seus comportamentos sexuais em escala maior ou menor.

Medidas sobre comportamento sexual têm muito em comum com medidas de fenômenos subjetivos. Apesar do comportamento sexual poder, em tese, ser observado, existem apenas algumas circunstâncias especiais nas quais o testemunho de um observador pode ser usado para validar as respostas de um respondente. Fora essas circunstâncias especiais, não existem medidas independentes que permitam prover um acesso direto da extensão dos vícios presentes nas respostas de estudos sobre comportamentos sexuais (Blumstein et al., 1990).

Entretanto existem meios indiretos que podem ser usados nessas avaliações: a)-através do uso de taxas de doenças sexualmente transmissíveis (DST) na população e, b)-abordagem psicométrica.

A abordagem psicométrica de validação apresentada por Blumstein (1990), tem três pontos importantes: “Construct validity” (validade do constructo), “Criterion validity” (validade de critério) e “Content validity” (validade de conteúdo).

A validade de constructo, ou validade preditiva, é a mais efetiva e convincente estratégia mas, freqüentemente sua avaliação não é exeqüível. Por

validade preditiva entendem-se processos que viabilizem uma avaliação de o quanto as medidas do estudo são preditivas (capazes de prever os resultados). No presente estudo, essa avaliação seria possível desde que acompanhada de sorologia para o HIV e outras DST da amostra sob análise. Os custos financeiros e operacionais dessa proposta fugiriam em muito aos recursos disponíveis por esta pesquisa. Uma possível aproximação dessa forma de validação seria a comparação dos resultados da pesquisa com dados de incidência de DST no segmento de mulheres universitárias. A falta de dados de vigilância epidemiológica sobre essas doenças tornou impossível essa comparação.

A validade de critério é provavelmente a segunda melhor forma. É o grau no qual as medidas concordam com outras abordagens que medem a mesma característica. No presente estudo essa modalidade de avaliação pode ser feita uma vez que algumas perguntas tinham a possibilidade de avaliar a relação entre as respostas do questionário. Como exemplo temos as perguntas sobre relações anais. A primeira pergunta se refere ao costume de ter relações anais, com as opções SIM - NÃO - NÃO SE APLICA. A segunda pergunta é sobre a freqüência de relações anais, com as opções: SEMPRE - FREQÜENTEMENTE - ALGUMAS VEZES - RARAMENTE - NUNCA - NÃO SE APLICA. Confrontando o item 3 da primeira pergunta (Não se aplica) com outra opção que não o item 6 da segunda pergunta (Não se aplica) encontramos uma alta relação entre as respostas.

É oportuno lembrar que a validade de conteúdo é um julgamento subjetivo sobre se as medidas fazem sentido. Apesar de ser uma avaliação basicamente subjetiva, com um bom julgamento, essa modalidade de validação pode ser satisfatória (Hulley e Cummings, 1988).