Não há consenso sobre os relatos históricos que explicam o nome do atual Rio dos Sinos: algumas fontes apontam que esse nome teria sido escolhido devido à forma sinuosa do rio, outras, que o nome seria de origem indígena denominada “Cururuá”, que significa ratão do banhado, e esse nome se daria pelos sons que os animais faziam nas pedras no entorno do rio (COMITESINOS, 2017). Outra fonte aponta que o primeiro nome dado ao Rio dos Sinos foi Itapuí, nome dado pelos indígenas que habitavam a região. O nome Itapuí significa o som do campanário, som que vem da torre (Soethe et al, 2001)25.
25 Esse documento será explicado mais à frente, mas, desde já, destaca-se a sua relevância por ter sido construído entre as instituições que atuavam na região juntamente com a sociedade civil, o que resultou no relatório do Programa de Desenvolvimento Regional Alternativo do Vale dos Sinos (PDRA-VS).
Independentemente da origem do nome, o fato é que o Rio dos Sinos é um dos principais rios do Estado do Rio Grande do Sul e que ele “não permaneceu com sua designação indígena original, porque foi o vale que mais rapidamente eliminou o povo indígena com toda a sua tradição” (Soethe et. al, p. 6, 2001). Simultaneamente a esses fatos, em seu entorno, foram se consolidando latifúndios, fruto das demarcações estabelecidas pelo Tratado de Tordesilhas. Toda a área era pertencente à Coroa Espanhola; mesmo assim, o governo português nomeou algumas famílias para se estabelecer na região, demarcando vastas extensões de terra, que passaram a servir para o plantio e também para a criação de gado (Soethe et al, 2001; COMITESINOS, 2017). Constata-se, portanto, que inicialmente a região era constituída por poucas famílias que possuíam muitas terras26.
Inicialmente, o trabalho na região era realizado por trabalhadores escravos e também por uma pequena população de indígenas Caingangues, os quais moravam de favor nas terras que haviam passado a ter novos donos com o Tratado de Tordesilhas. No entanto, a partir de 1824, houve a implementação do cultivo de pequenas propriedades, prática fortemente influenciado pelo contexto europeu, principalmente pela Revolução Francesa27.
Nesse contexto, iniciou-se, então, a migração para o Vale, principalmente com colonos alemães, mas também com italianos, que se estabeleciam em pequenos lotes chamados de colônias. Com isso, mudava-se a concepção de cultivo da terra, que passava de latifúndios (com mão de obra de escravos), para pequenas propriedades (com mão de obra de imigrantes). A terra começava a ser cultivada pelos brancos, o que refletiu na expulsão e marginalização da comunidade negra que morava de favor nos latifúndios.
A consolidação das “picadas” 28, um modelo coletivo autossustentável e solidário a partir da junção de famílias, é um fato significativo de influência de como se constitui a concepção de trabalho e solidariedade para o Vale dos Sinos. Nas colônias, desenvolviam-se também inúmeras profissões já que muitos dos imigrantes haviam exercido outros tipos de trabalhos em seus países de origem. Assim, alfaiates, artesãos, funileiros, ferreiros, marceneiros - entre outros – passaram a diversificar os tipos de profissão conhecidos nessas colônias (Soethe et al. 2001).
26 Um dos casos mais emblemáticos é o da família Tristão Mendeiro, cujas terras se estendiam ao longo da região onde hoje ficam os municípios de Taquara, Santa Cristina, Três Coroas, Igrejinha e um pedaço de Gramado (Soethe et al, 2001).
27 O início dessa experiência de pequenas propriedades, possivelmente influenciada também pela imigração alemã, ocorreu na parte pertencente à coroa brasileira, antes coroa portuguesa, a qual foi denominada de “real feitoria do linho cânhamo”, estendendo-se as terras que hoje pertencem a São Leopoldo, Campo Bom, Novo Hamburgo, Estância Velha e Portão, (Soethe et al. 2001).
28 Quando os imigrantes alemães desembarcaram no Rio Grande do Sul, adentraram nas matas a procura de terra fértil para ser cultivada. “Picadas” foi o nome dado aos caminhos abertos nas matas. Depois de instalados, os grupos de sete ou oito famílias formava uma vizinhança coesa e solidária entre si.
Com o passar do tempo, surge o comércio a partir da produção excedente e Porto Alegre torna-se o principal destino de escoamento. Portanto, ocorre uma mudança no formato de produção, que passa da agricultura para a manufatura e, no final do século XIX, para a indústria. No que se refere ao posicionamento do governo do Estado, “ele vai se aliar em torno de objetivos comuns ao grupo ‘médio’, que pode ser chamado de burguesia” (Soethe et al., 2001, p. 7).
O fato central é que o Brasil apostou na imigração interessado na força de trabalho, e não nos trabalhadores, o que refletiu na exclusão de participação política dos imigrantes. Essa exclusão envolveu, desde aspectos religiosos até questões relacionadas ao não reconhecimento dos casamentos - e também dos filhos - desses imigrantes. Tais situações elucidavam o real motivo da vinda desses imigrantes ao Brasil: estes haviam sido trazidos para trabalhar e não participar da vida política. Esse cenário levou cerca de 60 anos para ir sendo amenizado, o que demandou grande esforço por parte dos imigrantes.
No final do século XIX, boa parte dos alemães conseguiu adquirir condição financeira melhor e puderam, assim, investir na educação de seus filhos, buscando também se diferenciar dos colonos, passando, então, a residir nas cidades. Em decorrência, “os citadinos participam de um processo de aburguesamento da sociedade e visavam identificar-se com o grupo social dominante da mesma” (Soethe et al. 2001, p. 8).
O destino de quem era expulso do campo foi tanto migrar para grandes cidades como ser absorvido pela indústria que se constituía, principalmente no setor coureiro-calçadista e no da construção civil. Havia incentivos para a industrialização, o que acabou com pequenas indústrias familiares, as quais, ou foram compradas, ou faliram. Com isso, consolidaram-se grandes conglomerados.
Importante frisar a mudança de perfil populacional que foi se constituindo na região. Por meio da consolidação da indústria calçadista a partir da década de 1970 muitos trabalhadores migraram do interior do Estado do Rio Grande do Sul em busca de trabalho. Dentro desse contexto, a partir da década de 1990, as indústrias calçadistas e metalúrgicas começaram a enfrentar crises significativas: o resultado foi o desemprego em massa, o que deixou milhares de trabalhadores desempregados. Aspectos que serão aprofundados no capítulo 4.
A partir da análise histórica da região, considera-se que uma violência endêmica foi presente no Vale dos Sinos que vai desde a sua consolidação com a dizimação da comunidade indígena e posteriormente negra, passando tanto pela forma que ocorreu o êxodo rural29 até
29 Os entrevistados deste estudo relatam que as pessoas eram incentivada a virem do interior do Estado do Rio Grande do Sul para trabalhar nas fábricas, muitas vezes chegavam no domingo, com a família e todos seus pertences, para começar a trabalhar na segunda-feira, sem nem ao menos terem onde morar.
atingir o modelo econômico excludente dos países periféricos em relação à economia global. A violência referida manifesta-se a partir da degradação das condições de vida a que essa população estava exposta, envolvendo aspectos como emprego, saúde, educação, habitação, etc. O problema fica mais evidente quando se compara o Produto Interno Bruto (PIB) da região com as condições de vida da maioria da população, elucidando assim uma significativa concentração de renda.
Nesse sentido, para De Bem e Giacomini (2012), de todos os 28 Conselhos Regionais de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul (COREDES/RS), o do Vale dos Sinos é o que apresenta o maior PIB, ainda que, a partir da década de 1990, a região tenha se modificado:
[...] houve uma mudança significativa de composição, entre elas o deslocamento do emprego do setor industrial para o setor de serviços, devido à consequente redução da participação da indústria coureiro calçadista, frente ao mercado internacional e toda a sua cadeia produtiva. (De Bem e Giacomini, 2012, p. 158).
Assim, o setor de serviços ampliou sua atuação no Vale dos Sinos, passando de 39% para 69%, e um dos principais fatores responsável por essa mudança teria sido o da diminuição ou abandono da atividade calçadista a partir de causas externas à economia nacional, como a invasão de artigos chineses no mercado brasileiro. Em decorrência disso, os trabalhadores desempregados buscaram ocupação no setor de serviços, abrindo seus próprios negócios ou exercendo atividades terceirizadas.
O perfil dos catadores do Vale dos Sinos é heterogêneo, em sua maioria, são descendentes de imigrantes alemães e italianos. Grande parte provém de setores ligados ao meio rural e de indústrias de calçados. Os que já tiveram outro trabalho formal anterior baseiam-se nessa experiência para se manterem cooperados, e outra parte é composta por catadores históricos que trabalhavam nos lixões dos municípios do Vale dos Sinos que foram sendo fechados e automaticamente foi sendo imposta a necessidade de organização dos trabalhadores para que pudessem ter algum vínculo com o poder público (Caminho das Águas, 2013).
De forma geral, podemos dizer que as percepções de desenvolvimento, de democracia e desejos de uma vida melhor estão mais associadas à reação das pessoas e dos grupos frente às atuais crises de perda de estabilidade, garantia de segurança, do que à perspectiva de projetos de transformação mais amplo e estratégico. Nesse sentido, o "desenvolvimento alternativo" se apresenta menos como "alternativo" enquanto concepção e aparece mais como o caminho para viabilizar as promessas não cumpridas pelos processos modernizadores até hoje. (Soethe et al. 2001, p. 26).
Nesse sentido, o que atualmente se chama de alternativo pode não ser tão alternativo assim, mas constituir-se como uma abertura para o reconhecimento de formas criativas de a sociedade resgatar mecanismos possíveis de sobrevivência diante do enfrentamento das restrições colocadas pelas questões sociais, políticas e econômicas. Em 2001, o relatório do “Programa de Desenvolvimento Regional Alternativo Vale dos Sinos” (PDRA-VS), que será abordado na próxima seção, já apontava que entrava em pauta a consolidação de um modelo de desenvolvimento regional que pudesse pensar para além de aspectos econômicos, buscando reconstituir e resgatar uma sociedade civil cidadã que pudesse ser capaz de participar da construção de um projeto político autônomo (Soethe et al. 2001).