III: MENNESKET OG MAKTENE. FOUCAULT
6.2 Anliggende og metoder
uma das categorias, foram alocadas subcategorias retiradas dos dados primários, principalmente das entrevistas. Seguindo tal organização, o quadro abaixo sintetiza a organização, que será explicada ao longo da seção:
Quadro 3 - Síntese das categorias e subcategorias.
CONSCIÊNCIA DE CLASSE
RELAÇÕES DE CLASSE VISÕES DE MUNDO
Exploração Contradições
Classes
Reprodução e superação das desigualdades Cadeia produtiva
Superação do trabalho individual
Exploração Ideia de Grupo
Prática Revoltas Processos/mudanças
Motivo de ingresso e permanência na luta Papel das formações
Garantia de adesão ao Fórum
Possibilidade de vivenciar o poder como verbo Papel exercido pelas lideranças
Esse quadro foi elaborado a partir do conhecimento teórico, de observações no campo - compreensão sobre a importância do impacto causado no momento em que os recicladores passaram a se organizar como atores coletivos e políticos - e também a partir das expressões surgidas nas entrevistas (subcategorias).
O objetivo deste estudo não é o de medir níveis de consciência, mas de compreender a forma como os recicladores que participam da articulação política que se constitui no FRVS constroem sua compreensão crítica de mundo. Para isso, busca-se investigar em que medida esse espaço contribui e como os recicladores percebem as diferenças entre a sua participação na cooperativa (organização de primeiro grau) e a sua participação do Fórum (organização de segundo grau), uma vez que, em ambas, subentende-se haver a ocorrência de relações sociais diferenciadas no âmbito de uma empresa convencional.
Reconhece-se o papel fundamental que o conceito de lutas de classe exerce na teoria marxista. No entanto, tendo em vista que se refere, principalmente, a um debate binário como luta entre burguesia e proletariado, no modo de produção capitalista, optou-se por utilizar o conceito de relações sociais a partir de Wright (2015b). Nessa perspectiva, compreende-se que nas questões relacionadas aos catadores organizados em cooperativas, que não possuem patrão, os aspectos de exploração identificados se referem às suas relações com o estado e com os compradores, o que torna mais complexo o contexto estudado. Portanto, uma das categorias adotadas neste estudo para a compreensão da consciência de classe será denominada de relações de classe.
Partindo-se do pressuposto de que as classes sociais expressam a forma como as desigualdades se estruturam na sociedade capitalista, entende-se que é fundamental reconhecer o antagonismo dos interesses materiais que estão ligados às relações de classe em virtude da apropriação do esforço do trabalho, apropriação que pode ser chamada de exploração. Nas entrevistas, as palavras ou expressões que foram identificadas com o sentido de relações de classe (subcategorias) foram: Exploração, Contradições, Classes, Reprodução e superação das desigualdades, Cadeia produtiva, Superação do trabalho individual.
Entre essas palavras, a exploração define um padrão de interações permanente e estruturado por um conjunto de relações sociais. Para Wright (2015b), a exploração é uma das condições necessárias para a apropriação do excedente em uma sociedade capitalista e se constitui num conceito central para entender a natureza dos interesses gerados pelas relações de classe.
Compreende-se, a partir de Wright (2015b), que nos contextos em que os direitos e poderes das pessoas em relação aos recursos produtivos são distribuídos de forma desigual, algumas pessoas possuem mais direitos e poderes que outras sobre determinados recursos
produtivos e apropriação do resultado do uso desses recursos, o que se constitui nas relações desiguais de classe.
A outra categoria que compõe a consciência de classe é a visão de mundo. Para Marx (2003), o homem distingue-se de outras espécies em virtude de possuir consciência sobre a própria atividade. É a essa consciência que ele se refere quando cita a comparação entre o arquiteto que cria um edifício e a abelha que constrói a colmeia. A condição de possibilidade de existência dessa consciência não se estabelece senão a partir da ação, e só há ação porque há condições de existência. Nesse sentido, destaca-se a importância das questões materiais de reprodução da vida na teoria marxista.
A visão de mundo está associada a uma classe e não é fruto somente do empírico, mas se constitui a partir de concepções de trabalho (Lukács, 1967 e 2003). A trajetória familiar, de vida e de trabalho dos recicladores, apreendida nas entrevistas, aponta como foram se consolidando suas visões de mundo.
Nas entrevistas, os principais depoimentos referentes a visão de mundo (subcategorias) estão fortemente relacionados com suas condições de vida a partir da restrição econômica e percepção de exploração no mundo do trabalho e podem ser vinculados aos termos: exploração, ideia de grupo, prática, revoltas, processos/mudanças, motivo de ingresso e permanência na luta, papel das formações, garantia de adesão ao Fórum, possibilidade de vivenciar o poder como verbo e papel exercido pelas lideranças.
Assim, parte-se do pressuposto de que a organização coletiva dos recicladores seja um fato determinante no que diz respeito ao aumento das chances de melhoria das condições materiais dos envolvidos, o que pode representar o surgimento das condições necessárias para envolvimento maior em prol de outras pautas, como a política. Dessa forma, após a garantia quanto ao suprimento de suas necessidades básicas de existência, abre-se, para esses recicladores, a possibilidade de entendimento de que a práxis (a prática refletida) exerce papel fundamental na concepção e função do FRVS, o que efetivamente será abordado nos capítulos seguintes desta dissertação.
Os atores envolvidos nessa relação são os recicladores (catadores), os compradores (e grandes empresas que processam os materiais reciclados) e o estado (que prioriza o contrato de grandes empresas). Ainda que os recicladores executem o trabalho mais penoso da cadeia produtiva da reciclagem - pois, conforme o CEMPRE (2016), são os responsáveis por 90% de todo material reciclado no País - são os que menos ganham, portanto, os mais explorados.
Todos os recicladores entrevistados tiveram experiência profissional na indústria calçadista, espaço onde as contradições se acirraram: por um lado, estes mencionavam que aquele
era o seu “ganha pão”; por outro, percebiam que, por mais que trabalhassem, sua baixa remuneração não possibilitava, por exemplo, comprar os melhores sapatos que confeccionavam84.
Os depoimentos apontavam desde o descontentamento diante das restrições impostas quanto ao uso do banheiro, até a insegurança quanto à manutenção de seu emprego: alguns revelaram que chegaram a torcer para que os colegas ficassem doentes – o que provocaria a demissão destes em seu lugar. Tais questões apontadas como situações de revolta na vida, motivaram o ingresso deles em coletivos como sindicados, partidos, movimentos comunitários ou cooperativas de trabalho; lugares em que seus desconfortos pudessem ser socializados e enfrentados a partir do grupo.
Nesse sentido, a visão de mundo é um conjunto de ideias e aspirações de um grupo que pode ser entendido como uma classe social, que compõe a sua consciência coletiva de classe e se opõe a outros grupos (Minayo, 1995). A visão de mundo é um dos aspectos da constituição da consciência individual, que, para Lukács (1967), se dá a partir da consciência coletiva (de classe). Esse processo ocorre a partir da integração desse pensamento individual ao conjunto da vida social. Em outras palavras, a visão de mundo é o conjunto de ideias de uma classe social, que forma sua consciência coletiva e se opõe a outras (Lukács, 1967 e 2003).
É importante considerar que “a consciência de classe não pode ser compreendida sem apreendermos como as classes estão se manifestando concretamente, pois nenhuma classe é portadora metafísica de uma missão histórica” (Iasi, 2012, p. 26). Nesse sentido, nesta pesquisa, a consciência de classe não será medida e nem se considerará a existência de um patamar revolucionário no campo investigado, mas esta será aferida a partir da visão de mundo que os recicladores consolidam, também, dentro do Fórum e também dos aspectos das relações de classe, identificados nos conflitos relacionados à cadeia produtiva da reciclagem. Assim, ao realizar a escolha da categoria consciência de classe, buscou-se maior compreensão acerca dos processos que ocorrem dentro do Fórum, pois, visão de mundo e relações de classes são componentes da consciência e de ações específicas, avançadas.
A condição em que os recicladores se encontravam na década de 1990, a partir da crise da indústria calçadista85, impulsionou a “fusão do grupo”, que é um dos conceitos de Sartre (1963, vol. I). Segundo o autor, o processo de consciência é constituído por avanços e retrocessos, saindo de uma perspectiva maniqueísta já ultrapassada e de difícil apreensão. Sartre propõe o processo do círculo, o que Iasi (2012) atualiza ao propor o da espiral, corroborando a ideia de que, embora os processos de tomada de consciência sejam inconstantes – e mudem sempre - o pressuposto quanto à existência do grupo, quanto a sua totalidade, é mantida.
84 Conseguiam adquirir apenas os sapatos modestos. Maiores detalhes serão abordados no próximo capítulo 85 Contexto que será detalhado no capítulo 4.
A consciência de classe só se realiza sob a forma de mediações práticas, de mediações contingentes; por isso, como já procuramos argumentar, partiu-se de um estudo sob a perspectiva de duas categorias conceituais concretas (relações de classes e visão de mundo), que se expressam a partir de inúmeras subcategorias apreendidas no campo.
Buscou-se, a partir do campo de estudo, analisar as práticas que se constituem no Fórum para o desenvolvimento, ou não, da consciência de classe. De acordo com Iasi (2012), no interior desse processo, tornar-se consciente equivale a assumir papel militante em algum ponto do movimento. Portanto, não necessariamente espera-se uma revolução, pois parte-se do pressuposto de que a consciência é movimento (Sartre 1963, vol. I; Iasi, 2012). Na descrição do processo de consciência, ao mesmo tempo em que a segunda fase, consciência em si, pode acabar em revolta mesmo, não se busca compreender se um viés dessa articulação política possa ser revolucionário ou reformista (Luxemburgo, 2015), buscando, ao contrário disso, compreender como se dá o processo.
Por tudo isso, entendemos que o marxismo é uma das formas de enxergar a realidade, que busca apreender o real a partir de suas contradições e relações entre singularidade, particularidade e universalidade. Nesse sentido, para Marx (2007), o materialismo histórico não se constitui em um conjunto de regras formais que se aplicam - é a estrutura e a dinâmica do objeto que comandam os procedimentos do pesquisador.
Nos capítulos seguintes, serão confrontados os dados empíricos com os teóricos, a partir das categorias e subcategorias apresentadas. No capítulo 4, será apresentada a análise temporal que contribui para o entendimento das relações de classe. O capítulo 5, abordará as questões relacionadas à visão de mundo.
CAPÍTULO 4 - A TRAJETÓRIA DE FORMAÇÃO DA CLASSE DOS