IV: DEN HEGEMONISKE FORDRING? LØGSTRUP LEST MED FOUCAULT
11.3 Etikk
Se a gente não tem uma estratégia, a gente está na estratégia de alguém! (R2148)
A partir do estudo de campo, principalmente em decorrência das entrevistas, identificou- se que o processo de consolidação de consciência dos participantes do FRVS ocorre em diversas situações, com destaque para as relacionadas às restrições econômicas vivenciadas por eles e à exploração percebida no mundo do trabalho, em cujo sistema vigora, também, a estratégia de colocar trabalhador contra trabalhador:
Quando eu comecei a participar dos grupos de novena, grupos de jovens e aí entra o [estudante de teologia] também né, e eles estavam fazendo trabalho de conscientização daí comecei a despertar, a ver que o patrão não era tão bonzinho e comecei a me dar por conta e me lembro até hoje ainda existe lá a casa, tem a fábrica, a Casa Velha que a gente passa às vezes por lá que aí na esquina tinha uma casa que era uma loja que a gente fazia os sapatos para exportação e o sapato falhado ficava naquela loja ali, os que tinham defeito, e os bonitos, que tiravam o couro da gente, e isso era exportado né e eu nunca tinha dinheiro para comprar um e aí comecei a
despertar, né... o bom eu não consigo eu não tinha dinheiro para comprar um bom para mim. E
aí a disputa dentro né, quando começa a conscientizar assim...e isso me deu o “tcham”
assim de não poder comprar o calçado que eu fabricava, só aqueles lá falhado. E
outra coisa assim, de não ir no banheiro, por exemplo, porque era produção e aí tinha fila de gente
né, se tu não quer outros querem, né...sabe que eu cheguei até a pensar assim, minha colega
que era minha amiga trabalhando ali, tomara que tenha uma dor de barriga uma coisa porque eles amedrontavam a gente, se tu não quer tem um monte de gente. Tomara que ela precise ir, porque aí eles mandam, porque eles ameaçavam a gente né! Então que ela tenha uma dor de barriga uma coisa que vai ela embora e que eu fique com o emprego... E quando eu comecei a me dar por conta disso... (A5).
Nesse trecho de entrevista, é apresentada a visão sobre a exploração na relação entre patrão e empregado; além desses, outros aspectos são mencionados, como os que envolvem a ameaça constante de ser mandado embora. Tal situação provoca nos trabalhadores insegurança tão significativa que os faz esquecer preceitos éticos e morais a ponto de desejar o mal dos colegas a fim de que sua situação – ainda que seja pautada na exploração - seja preservada.
Ainda em relação à exploração, também se destaca nas entrevistas o papel dos grupos de jovens promovidos por uma parte da igreja católica, por meio da teologia da libertação e pastoral da terra, em defesa de uma lógica de inclusão dos pobres:
O que me despertou foi a participação no grupo de jovens, as questões de justiça,
de desigualdade social... essa situação que eu vivia dentro da empresa, dava pra
ver. Também tinha as questões de não poder estudar. Então essas situações de ser injustiçado, ver
que a divisão do bolo era muito desparelha. Tive também várias influências da região do
vale dos sinos na época, a própria constituição do partido dos trabalhadores, tinha uma ligação direta através da CUT. (R4).
Nesse sentido, destacam-se alguns pontos como a percepção de exploração por parte dos trabalhadores da indústria coureiro-calçadista, os quais, por essa razão, passaram a fazer parte dos sindicatos e de outras organizações políticas na época. Esse primeiro cenário de que “tinha alguma coisa que não batia, mas que não sabia compreender” (A2) foi sendo amadurecido nesses espaços de formação, como sindicatos, partidos, espaços vinculados à igreja como as comunidades eclesiais de base, etc. Essas experiências foram importantes para que os recicladores tivessem tido acesso à formações políticas durante seu percurso de trabalho formal.
No momento, tava entediado com a situação, eu trabalhava de sol a sol e o que eu ganhava não tinha como eu ter uma estrutura pra me desenvolver como adulto, eu queria ser adulto, queria ter roupa daquela época, queria ter um tênis daquela época, que era o Adidas Marathon, nossa, eu chorava! Trabalhava e não tinha dinheiro pra comprar um, era como se fosse um Nike hoje, sabe. Aí eu ficava loco porque trabalhava e não tinha e tem gente que os pais dão, eu ficava pirado, aí fui me entediando com isso. (R3).
Esse contexto, atrelado ao cenário de desemprego no Vale dos Sinos a partir da década de 1990, fez com que muitos dos atuais recicladores, que haviam tido participação ativa nos sindicatos e na fundação de partidos políticos vinculados à esquerda, junto com o apoio de entidades de apoio, percebessem o cooperativismo como uma estratégia, pois vislumbravam não apenas ganhos econômicos e a estabilidade no trabalho, mas, também, a possibilidade de exercerem a autogestão.
Além dessas questões um entrevistado lembra que:
A organização de catadores ou outros profissionais em associações ou cooperativas em diversos casos no Vale do Sinos e possivelmente em muitas outras situações Brasil afora aconteceu por indução das prefeituras tanto em casos de fechamento de lixões ou a proibição de catação em cima de aterros. Os catadores proibidos de catarem em lixões foram obrigados a formalizar uma organização para poderem passar a triar em centros de triagem (Ex. Cooperativa Mãos Dadas de Canoas; RENASCER; Cooperesíduos de São Leopoldo...). Em algumas cidades, grupos de profissionais desempregados se organizaram para assumir centros de triagem: Ex. Campo Bom, Nova Hartz,
Dois Irmãos, Sapiranga... Algumas Usinas de reciclagem no Vale do Sinos já foram operadas no início por funcionários concursados das Prefeituras como Esteio e São Leopoldo. Em São Leopoldo teve um período que a Usina foi operada por presidiários. (A4149).
Importante considerar que essas outras razões pelas quais as cooperativas foram se consolidando, ilustram a heterogeneidade das experiências, reforçando a necessidade do uso de visões de mundo no plural. No entanto, a realidade dos recicladores entrevistados neste estudo é mais voltada para a participação política, a partir de outras experiências formais de trabalho, conforme explicitado no perfil dos entrevistados, no capítulo anterior.
Identifica-se como de fundamental importância o papel das entidades de apoio nesses processos de organização dos recicladores, as quais uniram esforços para a realização do estudo na região, o que deu origem ao “Projeto Desenvolvimento Regional Alternativo do Vale dos Sinos” (PDRA-VS). A possibilidade de articulação dos setores reunidos pelo PDRA fez que os recicladores do Vale dos Sinos se aproximassem e, desde lá, em 2002, se mantivessem unidos. As formações propostas nesse período assim como a contribuição na leitura de análise de conjuntura foram de grande ensinamento para os recicladores.
Na transição do trabalho assalariado para o trabalho cooperado, foram identificados diversos fatores que contribuíram para a consolidação das cooperativas de reciclagem no Vale dos Sinos. Nessa perspectiva, a própria ideia de grupo que se materializava em perspectivas de mudança foi sendo alicerçada a partir das experiências nas cooperativas, que, por si só, se constituem muito distintas das experiências vividas nas empresas privadas, principalmente pelos aspectos da autogestão, dinâmicas de reuniões, tomadas de decisões coletivas e possibilidade de contribuir na elaboração das regras do trabalho. Por certo, essas possibilidades não são percebidas ou aproveitadas por todos, mas, para aqueles que delas participam - o que é o caso dos entrevistados desta pesquisa - é importante salvaguardar o funcionamento das cooperativas segundo as regras prescritas.
Foi enfatizado em diversos depoimentos o papel acolhedor da cooperativa, principalmente para aqueles que possivelmente teriam mais dificuldade de encontrar um trabalho formal pela sua idade, condição física ou escolaridade. Destacam-se os relatos de algumas situações de cooperados com problemas com o uso abusivo de álcool e outras drogas, os quais consideram que se trabalhassem numa empresa convencional não teriam tido as chances de recuperação que tiveram na cooperativa e que, por isso, conseguiram sair da situação.
Já a ideia de grupo, que se constitui a partir da participação no Fórum, há outros sentidos presentes, desde a percepção do que “se pode fazer lá” até a compreensão de que a luta
nesse tipo de formação coletiva é maior do que a da cooperativa, pois existem muitos trabalhadores na mesma condição, ou em situação pior do que a de quem participa; além disso, há o sentido de aprendizado estabelecido não somente pela repetição, mas também pelo que não é dito - mas percebido.
Portanto, o papel do Fórum é identificado como bastante distinto do da rotina da cooperativa: “essa forma de trabalho do Fórum, isso eu nunca imaginei que existisse e nem imaginei que eu ia participar” (R1), pois, na cooperativa, os desafios acabam por si mesmos; já os vivenciados no Fórum possibilitam amplitude de conhecimentos a partir da realidade de outras experiências.
Quando questionados sobre o que havia mudado em sua vida a partir da participação no FRVS, as respostas foram: “mudar mudou muito... mudou a minha mente, a minha forma de ver as coisas mudou muito, consegui fazer mais enfrentamento, né” (R1), e associam essas mudanças à sua participação no Fórum:
Sim, tem a ver com o Fórum isso. Voltando lá nas discussões de contrato eu aprendi muito no
Fórum que a gente tem que enfrentar, que não é eles que trazem um modelo de contrato
para gente... é nós que sabemos como tem que ser, qual é a nossa dificuldade, é nós é que temos que apresentar esse modelo de contrato. Quantas vezes o Pedro disse no Fórum, né: "não é esmola, é
o pagamento de um trabalho que é feito pro município" né... então eu aprendi isso
no Fórum e chegar na cooperativa e dizer gente, não! Como assim? Vamos negociar! É um negócio, não vamos bater martelo... também não vamos brigar, eles vão dar um preço, nós vamos discutir outro preço e isso é normal numa negociação. No começo, quando a gente discutia, aí um dizia: "então pede 42 mil aí”, aí eu dizia: pera aí, mas a gente está com 52 porque que vamos baixar? Vamos negociar, vamos subir mais pra poder baixar depois, né? se tiver que baixar... e isso tudo
foi no Fórum que a gente leva pro grupo... [grifo nosso] (R1).
Os relatos sobre as dinâmicas do Fórum contribuem no sentido de ampliação de horizontes, a partir do aprendizado com a postura de representantes de outras cooperativas e, também, da forma como outros grupos procedem ao encaminhamento da resolução de seus problemas. Assim, existe reconhecimento pelas trocas realizadas; por isso, o tempo de apresentação inicial dos encontros - que acaba sendo ocupado com a exposição de um panorama a respeito da situação de cada cooperativa participante - é maior na reunião, pois ali não acontecem apenas relatos: essa parte inicial funciona como forma de troca de experiências e aprendizado entre aqueles que dela participam, o que é avaliado por alguns como um aspecto positivo150.
150 Dos 10 recicladores entrevistados, nenhum afirmou não ver sentido na luta coletiva e nas reuniões, mas apontam as falas dos colegas que não participam e não entendem como importante o Fórum. Dos três entrevistados que supostamente seriam opositores ao Fórum, dois são militantes de outros Fóruns e do MNCR, apenas uma afirma não participar porque não tem tempo.
É evidente que nem todos enxergam dessa forma: no relato de uma das recicladoras que possui visão de rejeição em relação ao Fórum, ela considera que, no “fórum, se fala muito e se faz pouco” (R10). Outro relato pontua que: “eu já tive vários enfrentamentos na cooperativa sobre o Fórum, das pessoas dizer que aquilo lá não funciona, para que perde uma manhã inteira indo lá? Que que tu aprendeu lá? As pessoas querem que tu volte “expert”, que tu volte ‘a pessoa’ né...risos” (R1), a entrevistada reforça que e essas falas “partem de pessoas que não participam de nada na cooperativa, mas criticam os outros que participam” (R1).
Nesse sentido, percebe-se que a permanência nesses espaços e a capacidade de enxergar sentido neles passam por aprendizado por meio da experiência e da compreensão de que as coisas precisam de tempo para acontecer, não são instantâneas, exigem persistência. “Sempre o pessoal gosta de receber uma opinião mais formada, mais resolvida já. Isso tudo eu busquei no Fórum, aprendi no Fórum, sem contar na minha vida pessoal que com certeza mudou muita coisa... a forma de eu me posicionar dentro de casa com as crianças, mudou” (R1). O que se aprende no Fórum estende-se para as relações pessoais, em outros papéis da vida.
São enfatizados os ensinamentos práticos que são aprendidos a partir da participação no FRVS, o papel de influência das lideranças, que, no Fórum, também se expressam de forma distinta das que são desempenhadas na cooperativa:
É que nem no ano passado que a gente estava com essa questão dos contratos, aí a gente vai
conhecendo o Fórum e vai vendo como funciona, né! Até ali eu pensei que não podia
falar no contrato nada porque eu vi que o (coordenador) não falava, daí precisou o (outro coordenador) ir lá e cutucar e aí a gente começou a falar disso e a partir dali que a gente
começou todo aquele movimento... a gente se reuniu quando lançou o Fórum de Novo
Hamburgo, quando a gente fez aquele seminário, quando a gente começou a enfrentar a
Prefeitura ali, foi a partir daquela reunião que foi falado da situação de Novo Hamburgo dos
atrasos nos pagamentos. (R1).
É bastante interessante perceber nos relatos dos participantes o caráter educativo do Fórum. Muitos afirmam aprender observando o comportamento dos outros participantes; metodologia significativa para eles, aspecto que também influencia no sucesso da realização dos intercâmbios, comprovando a ênfase dada nos processos de aprendizagem pela observação e pela ação151.
Quando questionados sobre o tempo de participação no Fórum, seis dos 15 entrevistados revelaram participar desde o seu início. As razões pelas quais se mantêm participando ganham
151 No que se refere ao aprendizado pela ação, um caso emblemático foi o de uma recicladora que precisava usar óculos, mas se considerava feia com eles, então se negava a usar. Em uma das formações realizadas pela Apoena Socioambiental, cujo coletivo que todas as componentes usam óculos, após alguns encontros essa recicladora chega com os óculos e relata essa história para uma das ministrantes da formação, que também foi entrevistada nessa pesquisa (A3).
conotações distintas nas entrevistas. Para alguns, o Fórum representa a força coletiva na região, e estar nele traz ganhos pessoais para a sua cooperativa e para a sua “categoria profissional” (R2), porque este carrega a marca de ser regional – consideram que participar dele é diferente de estar isolado na sua cooperativa.
São relatados sentimentos de gratidão pelo Fórum e a permanência nele significa ajudar a estender para outras cooperativas os benefícios que a sua encontrou: “hoje nós temos obrigação de ajudar o Fórum e participar do Fórum por causa que eu sempre digo que nós chegamos até aqui graças a ele. E ninguém chega sozinho a lugar nenhum” (R5). As falas oriundas de integrantes das cooperativas mais antigas, que são as mais bem estruturadas, vieram carregadas de gratidão pelo Fórum, pelo reconhecimento de que, se não fosse a sua existência, a trajetória de cada uma das cooperativas teria sido mais difícil.
No entanto, quando os entrevistados foram instigados a refletir sobre as razões de participação, ou não, de outras cooperativas, além das respostas acima, dizem que, para alguns deles, as motivações vão ao encontro de benefícios pessoais, consolidação de espaço de poder e, para outros ainda, “só aparecem quando precisam” (R5), principalmente em momento em que o Fórum possui recursos de projetos. Quando os demais cooperados eram questionados sobre o porquê de as cooperativas mais bem estruturadas manterem-se participando do Fórum, algumas respostas vieram no sentido de manutenção de poder, ou espaço de destaque de alguns e, quando os cooperados mais antigos foram questionados diretamente, a resposta veio no sentido de gratidão:
Se vai olhar os equipamento que nós ganhamos. O aprendizado que a gente tem. É porque a
gente buscou e teve um Fórum que apoiou. Porque tinha projeto. Fomos conhecer
outros lugares. Um monte de coisas que a gente aprendeu graças ao Fórum. Porque, se não tivesse o Fórum como é que tu ia ter? Ia poder conhecer outros lugares? Não! Assim, aí o Fórum facilitou pra gente. Eu sempre digo, sempre que eu tiver que defender o Fórum, eu vou defender. Porque hoje, graças os equipamentos que a gente tem aqui, que a gente conseguiu, é por causa do Fórum. [grifo nosso] (R5).
Algumas reflexões emergiram a partir das contradições surgidas nesses depoimentos: por um lado, o Fórum se constitui em uma força coletiva e pode haver interesse pessoal para estar à frente dele, representando-o; mas, por outro, o fato de ver um grupo avançando pode causar incômodo, a ponto de serem feitos comentários duvidosos a seu respeito, na perspectiva de quem olha de fora. A situação gera um sentimento, um incômodo que provoca um questionamento entre os participantes: “se são tão bons por que estão aqui?”; e as possíveis respostas também surgem: “talvez nem sejam tão bons assim, podem parecer que executam
alguns processos reconhecidos como modelo” e, ou, respostas que vão ao sentido de o interesse de dominação ser mais forte, por isso não “abriam espaço”, mesmo que estivessem bem.
Esses olhares apontam que, no FRVS, existem problemas semelhantes aos que ocorrem em outras organizações. Talvez o desafio esteja em não deixar que isso consuma as energias dos participantes para que estes consigam focá-las no fortalecimento daqueles que, em situações semelhantes, necessitam encontrar soluções para causas comuns. Buscando discernir como isso gera um movimento comum, considera-se que exista um aprendizado nesse processo.
Entre os desafios detectados está o de compreender que as cooperativas que progridem podem lançar um olhar de gratidão sobre o processo que contribuiu para alçá-las em situações que almejaram e hoje desfrutam. Então, uma das funções desta pesquisa também se torna a de registrar outras visões dos recicladores, tornando-as pública.
De fato, tanto a consolidação histórica abordada no capítulo anterior, quanto a trazida nessa seção - voltada para a formação das visões de mundo - ajudam a compreender que o reciclador que passa a participar do Fórum, instância de segundo grau de organização política, já chega ao Fórum com olhar diferenciado, assim como nele aprende e ensina. Portanto, o movimento é dialético e possui avanços e retrocessos e o FRVS se constitui como um dos espaços de referência para as reflexões da classe.