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Partindo do pressuposto que os processos psicológicos estão interligados a sistemas funcionais que podem ser desempenhados por mecanismos variáveis, é-se conduzido à necessidade da revisão do conceito de localização. O exame da estrutura de sistemas funcionais em geral, e das FNS em particular, encaminhou uma visão completamente nova das ideias clássicas de localização das funções mentais no córtex cerebral humano.

Enquanto as funções elementares de um tecido podem, por definição, ter uma localização precisa em determinados agrupamentos celulares específicos, o mesmo não se coloca em relação à localização de sistemas funcionais complexos em áreas limitadas nem circunscritas do cérebro. De forma distinta às funções mentais inferiores, as formas superiores do funcionamento humano não estão limitadas nem circunscritas a áreas específicas do cérebro. A estrutura dos processos é construída durante a ontogénese, sendo inicialmente baseada em ações posteriores e transformando-se posteriormente em ações mentais (Vigotsky, 1996b).

A mudança de ações motoras para ações mentais exige a mediação da cultura, através de auxiliares externos como a linguagem ou o sistema de contagem de dedos, desenvolvidos dentro de um processo histórico-cultural. São mediadas por eles e não podem ser concebidas sem a participação dos mediadores (Vigotsky, 1978). Este

funcionamento do cérebro tem o seu início quando áreas independentes iniciam as suas conexões. Estas conexões entre áreas aparentemente independentes, embora iniciadas antes da aquisição da linguagem, adquirem o seu significado no momento em que a criança é inserida no mundo da cultura. Assim, as ferramentas assumem um papel muito importante de destaque como apoios externos e elementos fulcrais ao estabelecimento das conexões, passando a integrar um único sistema funcional (Luria, 1981).

O funcionamento humano é reflexo do mundo externo, conjugado com a atividade do mundo interior. Interno e externo não são considerados como individuais porque, dessa forma, os seus conceitos perdem os seus significados.

As formas superiores dos processos mentais estão sempre relacionadas com o reflexo do mundo exterior e o seu conceito perde todo o significado se estiver à parte desta realidade. Assim, é possível entender porque é que as funções mentais, como sistemas funcionais complexos, não podem ser localizadas em zonas específicas do córtex, mas devem ser organizadas em sistemas de zonas funcionando em concerto. Cada uma das zonas desempenha o seu papel dentro de um sistema funcional complexo e, cada um desses territórios pode estar localizado em áreas do cérebro completamente diferentes e até distantes uma da outra.

Existem dois factos que distinguem com clareza este modo de funcionamento do cérebro humano, das formas mais elementares de operação do cérebro animal. Os factos são as características mais essenciais do conceito sistémico da localização de processos mentais no córtex. As formas superiores de atividade consciente são sempre baseadas em certos mecanismos externos, tornando-se evidente que esses apoios externos e historicamente gerados são elementos essenciais no estabelecimento de conexões funcionais entre parcelas individuais do cérebro. Através delas, as áreas do cérebro que eram previamente independentes tornam-se componentes e constituintes de um sistema funcional único. Medidas que são historicamente concebidas para a organização do comportamento humano determinam novos vínculos na atividade do cérebro humano. A presença desses vínculos funcionais ou novos órgãos funcionais (Leontiev, 1991) marca a clara diferença entre a organização funcional do cérebro humano em comparação com o cérebro animal. Vigotsky (1978) designou o princípio de construção de sistemas funcionais do cérebro humano como o princípio da organização extracortical das funções mentais complexas. Com este termo, Vigotsky quis referir que todos os tipos de

atividade humana consciente são sempre formados com o apoio de instrumentos auxiliares externos.

A segunda característica da localização de processos mentais superiores no córtex humano e que a torna distinta é que ela não é estática ou constante, existe uma deslocação destas ao longo do desenvolvimento infantil, tornando-as como resultado da aprendizagem ou de mecanismos de reorganização pós-lesão. O desenvolvimento de qualquer tipo de atividade consciente é, numa fase inicial de natureza expandida e necessita vários auxílios externos para o seu desempenho. Só mais tarde é que se torna condensado e convertido numa capacidade motora automática.

Por exemplo, nas etapas iniciais da ação de escrever, esta depende da memorização da forma gráfica de cada uma das letras. Acontece por meio de uma cadeia de impulsos motores isolados, sendo cada uma responsável pela realização de apenas um elemento da estrutura gráfica. À medida que vai praticando e com a experiência, esta estrutura é radicalmente alterada e a ação de escrever é convertida numa melodia cinética deixando de precisar de recorrer à memorização da forma visual de cada letra isolada ou impulsos motores individuais para a leitura de cada traço (Luria, 1981).

A mesma situação acontece com a escrita de um engrama altamente automatizado, este deixa de depender da análise do complexo acústico da palavra ou da forma visual das letras individuais e começa a ser desempenhado como uma melodia cinética única, à semelhança do que acontece com a escrita. Contudo, para além das alterações descritas em relação ao processo de escrita, estas alterações também se aplicam ao desenvolvimento de outras FNS (Luria, 1981).

Ao longo do desenvolvimento é alterada a estrutura funcional do processo e, naturalmente, a sua organização cerebral. A participação das áreas auditivas e visuais do córtex, importantes e essenciais nas primeiras etapas da formação da atividade, deixam de ser necessárias nas fases mais avançadas, uma vez que a atividade começa a depender de um sistema diferente de zonas que operam em concerto (Luria & Tubylevich, 1970).

O desenvolvimento das FNS ao longo da ontogénese tem ainda uma outra característica de grande importância para a sua organização funcional no córtex

cerebral. Vigotsky (1978) mostrou que durante o processo de ontogénese existem outras mudanças que vão para além da mudança da estrutura das FNS. A organização interfuncional é também alterada. Nas fases iniciais de desenvolvimento de uma atividade mental complexa esta incide sobre uma base mais elementar e depende de uma função basal, no entanto, nas fases seguintes ela adquire uma estrutura mais complexa e começa a ser desempenhada em conjunto com formas de atividade estruturalmente superiores. Por exemplo, a criança pequena pensa em termos de formas visuais de perceção e memória, ou seja, pensa recorrendo à recordação. No entanto, nas fases posteriores da adolescência ou na vida adulta, o pensamento abstrato com o apoio das funções de abstração e generalização torna-se de tal forma desenvolvido que processos relativamente simples, como perceção e memória, são convertidos em formas complexas de análise e síntese lógicas e a pessoas começa a recordar com recurso à reflexão.

A modificação descrita na relação entre os processos psicológicos fundamentais produz alterações na relação entre os sistemas fundamentais do córtex que formam a base para execução dos referidos processos. Assim, enquanto na criança pequena uma lesão de uma zona cortical responsável por uma forma relativamente elementar de atividade mental acarreta sempre, como efeito secundário ou sistémico, o desenvolvimento deficiente de estruturas superiores superpostas a essa atividade elementar. Contudo, de forma inversa, uma lesão nas áreas superiores no adulto origina a desintegração das funções mais elementares que adquiriram uma estrutura mais complexa e começaram a depender das formas mais organizadas de atividade.

A teoria da localização dinâmica das FNS tráz consigo uma proposição fundamental. Esta foi formulada por Vigotsky (1978) como uma regra segundo a qual a lesão de uma área específica do cérebro em etapas iniciais da infância tem um efeito sistémico sobre áreas corticais superiores sobrepostas à referida porção, enquanto uma lesão da mesma área na vida adulta afeta zonas inferiores do córtex, que agora começam a depender dela. A título de exemplo, uma lesão das áreas secundárias do córtex visual, durante a fase inicial da infância leva a um fraco desenvolvimento sistémico das zonas superiores responsáveis pelo pensamento visual, enquanto uma lesão das mesmas zonas numa pessoa desenvolvida pode causar simplesmente defeitos parciais de análise e síntese visuais, deixando intactas as formas mais complexas de pensamento, formadas

O córtex cerebral não consta de centros isolados e independentes, assim, as funções devem ser interpretadas como uma reorganização, com uma nova estrutura dinâmica, dispersa no córtex cerebral e nas formações subcorticais (Luria, 1966).

A ideia clássica do conceito de localização necessita ser revista depois de tudo o que foi descrito. Assim, a tarefa do psicólogo não passa por localizar processos psicológicos superiores em áreas limitadas do córtex, mas sim determinar, mediante uma análise cuidadosa, que zonas do cérebro, que operam de forma orquestrada, são responsáveis pela execução da atividade mental complexa, como contribui cada uma dessas zonas dentro do sistema funcional e, como é que a relação dessas partes do cérebro, que operam em concerto na execução da atividade mental complexa, se modificam nas várias fases do seu desenvolvimento.

Desta forma, a tentativa de determinar a base cerebral de um processo mental humano deve ser antecedida por um cuidadoso e atento estudo da estrutura do processo psicológico.