Uma das teses apresentadas por Vigotsky foi a que defende que as FNS do cérebro humano têm uma organização sistémica. Como acontece com outros sistemas funcionais do corpo humano, as FNS têm uma organização sistémica.
A proposta de que as funções psicológicas não se localizam em áreas cerebrais estanques e estritas, mas atuam como uma rede, envolvendo a contribuição de diversas áreas cerebrais de forma sistémica, foi proposta por Vigotsky e desenvolvida por Luria.
De acordo com Shuare (1990), Luria teve destaque por desenvolver a sua pesquisa a partir da perspetiva histórico-cultural de Vigotsky. Dentro desta perspetiva, considerava os processos psíquicos como sociais na sua origem. Luria desenvolveu um tipo de pesquisa que o destacou, uma vez que é enfatizado o carácter sistémico e histórico do que é investigado. O próprio desenvolvimento de ferramentas metodológicas para estudar a condição humana, que vai além da descrição de dados diagnósticos, que chamava de ciência romântica, uma vez que Luria olhava para a pessoa lesionada, enquanto sujeito individual, com características individuais, e não apenas para os efeitos da lesão (Oliveira & Rego, 2010).
A noção de FNS delineada por Vigotsky (1978), e que por ele foi introduzida na psicologia e na neuropsicologia, foi desenvolvida posteriormente por Luria (1963, 1973, 1977). As FNS são entendidas como formas complexas da atividade psíquica consciente, realizadas com base nos motivos correspondentes, reguladas pelos objetivos e programas correspondentes e submetidas às leis da atividade psíquica.
De acordo com Luria (1977), as FNS possuem três características essenciais: a) vão-se formando progressivamente ao longo da vida, sob a influência dos fatores sociais, b) pela sua estrutura psicológica elas são mediadas e c) pelo seu modo de realização elas são arbitrárias.
Neste sentido, Vigotsky (1978), apresenta uma alternativa à questão da localização cerebral. Distingue a função que diz respeito ao funcionamento de um tecido particular e a função como sistema funcional complexo. Realça, nomeadamente, que todos os processos que incluem sensação, perceção, linguagem, pensamento e memória não podem ser considerados simples faculdades localizadas em áreas particulares do cérebro, mas como sistemas funcionais complexos.
Quando falamos de digestão ou respiração, não falamos de uma função de um tecido particular. A digestão, por exemplo, requer o transporte de comida da boca (bolo alimentar) ao estômago, o processo dos alimentos sob a influência do suco gástrico, a participação das secreções do fígado e do pâncreas nesse processamento, o ato de contração das paredes do estômago e do intestino, a propulsão do material a ser assimilado ao longo do trato digestivo e, finalmente, a absorção dos componentes processados dos alimentos pelas paredes dos intestinos.
Todo o processo descrito, que acontece com vários sistemas do nosso organismo, é realizado como um sistema funcional complexo, que alia vários componentes que pertencem a diferentes níveis dos aparelhos secretor, motor e nervoso.
Um sistema funcional (Anokhin, 1968, 1982) não se caracteriza apenas pela complexidade da sua estrutura, mas também pela ação conjunta dos seus elementos. A tarefa desempenhada pelo sistema funcional é constante e leva a um resultado constante, contudo, os mecanismos empregues para isso são variáveis. Isto significa que a tarefa inicial e o resultado final da atividade permanecem inalterados, isto é, invariáveis. No entanto, a forma como a tarefa é desempenhada pode variar consideravelmente. A presença de uma tarefa constante (invariável), desempenhada por mecanismos diversos (variáveis) que levam o processo a um resultado constante (invariável), é um dos aspetos básicos que caracterizam a operação de qualquer sistema funcional. Outro aspeto característico é a composição complexa do sistema funcional que inclui uma série de impulsos aferentes e eferentes.
Função, enquanto sistema funcional, é diferente de função de um tecido particular. Os processos autónomos e somáticos mais complexos estão organizados como sistemas funcionais deste tipo, no entanto, este conceito pode ser aplicado às funções complexas do comportamento. Como referido, a digestão é um sistema funcional complexo que
etc.), tal como as FNS (fala, memória lógica, perceção, etc.) que dependem de um sistema funcional complexo e operam de forma orquestrada, recrutando o processamento de diferentes regiões cerebrais.
Quando se fala de função, por exemplo para a fala, introduzem-se erros quando se tenta localizar essa função, uma vez que no cérebro estão localizados os componentes dos sistemas funcionais e não as funções que existem como categorias enquanto matéria de estudo (Quintino-Aires, 2010).
Pode-se então concluir que cada produto cerebral é o resultado do funcionamento sistémico de várias regiões cerebrais e cada uma dessas regiões contribui para um determinado componente que concorre para esse produto.
O funcionamento sistémico é facilmente explicado quando pacientes com lesões em áreas diferentes apresentam a mesma alteração comportamental. Os pacientes não conseguem realizar um determinado comportamento, um porque não dispõe de um componente, outro porque não dispõe de outro componente, sendo ambos necessários para o sucesso da execução do comportamento.
Constata-se então que o que está localizado no cérebro não são as funções nem os componentes da função mas sim o reflexo de conexão nervosa que realiza o trabalho que está associado aos componentes da função (Quintino-Aires, 2010).
As FNS, como sistemas funcionais complexos, não podem estar localizadas em zonas específicas do córtex cerebral ou em grupos celulares isolados, uma vez que estão assentes em complexos sistemas de áreas de trabalho conjunto, situadas em diversos setores, que podem, por vezes ser distantes uns dos outros, mas que trazem a sua contribuição para a realização dos processos psíquicos (Luria, 1977).
Neste sentido, qualquer função específica exige a participação de várias zonas ou áreas. No entanto, para a execução de diferentes funções podem existir diferentes classes de relação entre elas. Um sistema de formas corticais altamente diferenciadas tem a capacidade de desenvolver um trabalho conjunto, realizando novas tarefas e estabelecendo novas conexões, umas vez que o sistema se caracteriza pela sua plasticidade e capacidade de alteração.
Acusa-se a existência de dois factos que distinguem a forma de funcionamento do cérebro humano das formas mais elementares de operação do cérebro animal. Essas são as características essenciais do conceito sistémico da localização de processos mentais no córtex. As formas superiores da atividade consciente são baseadas em mecanismos externos. Torna-se então claro que esses apoios historicamente gerados são elementos essenciais no estabelecimento de conexões funcionais entre partes individuais do cérebro e que, através da sua colaboração, áreas que anteriormente eram independentes tornam-se em componentes de um sistema funcional único.
Medidas que são historicamente geradas para a organização do comportamento humano determinam novos vínculos na atividade do cérebro humano, isto é, a presença dos vínculos funcionais ou novos órgãos funcionais (Leontiev, 1991) que distinguem a organização funcional do cérebro humano em confronto com o animal. A este princípio de construção de sistemas funcionais do cérebro humano, Vigotsky (1978) classificou como princípio da organização extracortical das funções mentais complexas, demonstrando que todos os tipos de atividade humana consciente são sempre formados com o apoio de ajudas ou instrumentos auxiliares externos.