• No results found

A advocacy realizada pelos movimentos sociais liga-se a um longo processo de empoderamento político e de conscientização social. Uma parte essencial da advocacy é fazer o público entender o valor de um argumento diferenciado. A estratégia para a elaboração desse argumento social é um processo longo – muito além da retórica. Os governos descobriram que, para a opinião pública ser sensibilizada para um determinado tema, as organizações que trabalham com a advocacy tanto podem colaborar para que a política seja realizada pelo governo, quanto criar uma séria oposição a ela, caso a estratégia não seja bem feita.

Zeppelini (2008, p. 01) explica que a advocacy pode se configurar como “o lobby do bem”, porque é o engajamento a determinadas causas que irá beneficiar alguém ou a um grupo. A missão das instituições que trabalham com a advocacy é lutar para que um problema seja resolvido ou os direitos de uma entidade ou grupo sejam defendidos e respeitados. Mesmo que a palavra lobby tenha ganhado uma carga consideravelmente negativa na história brasileira, Zeppelini (2008) reforça que o seu significado pode ser importante e nobre:

Advocacy é, basicamente, um lobby realizado entre setores (ou personagens) influentes na sociedade. É na realização de processos de comunicação, reuniões entre os interessados e os pedidos entre essas influências que se dá o verdadeiro advocacy, que pode ter várias vertentes, como social, ambiental ou cultural (ZEPPELINI, 2008, p. 01).

Para ilustrar o funcionamento da advocacy, Zeppelini (2008) cita alguns exemplos de possíveis atuações de uma determinada organização não-governamental na defesa de um direito do seu público-alvo. Uma ONG, por exemplo, que queira implementar um projeto ambiental em uma comunidade de pescadores, poderá atuar na formação de uma comissão permanente que estabeleça contato com órgãos públicos, colaborando para o projeto ambiental. O setor de comunicação e assessoria dessa ONG poderá atuar no diálogo e promoção de campanhas de conscientização nessa comunidade e junto ao governo com a finalidade de mostrar que o projeto ambiental é bom e deve ser levado em frente.

O desenvolvimento da advocacy no mundo apresenta diferentes graus de desenvolvimento. Enquanto em países ricos, como os Estados Unidos, a discussão sobre advocacy é ensinada desde a escola, fomentando o relacionamento entre comunidades e ONGs, no Brasil este processo ainda é realizado lentamente. Mesmo com o desenvolvimento considerável nos últimos anos, boa parte das ações de advocacy vem de empresas privadas. Zeppelini (2008) reforça que as ONGs brasileiras ainda precisam desenvolver articulações melhores – ações que só poderão ser realizadas com sucesso a partir da disseminação de informações sobre advocacy.

Em 2009, a Rede Mulher de Educação produziu uma publicação especial intitulada “Fazendo lobby: guia de participação de delegadas/os no processo de negociação e incidência na 1ª Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM)”. O guia tinha por finalidade “alicerçar o árduo e complexo processo de lobby a ser enfrentado pelas lideranças efetivas e potenciais, do Movimento de Mulheres e Movimento Feminista” (MELO, Jacira; IRACI, Nilza; VIEIRA, Vera, 2009, p. 7), com fins de preparação para a CONFECOM, que foi

realizada em Brasília, entre os dias 14 e 17 de dezembro de 2009. O evento foi apontado como histórico por ter ocorrido pela primeira vez no país.

Em um capítulo inteiro, a publicação da Rede Mulher dedica-se a explicar o que é lobby e quais as principais ações a serem realizadas pelas lideranças antes, durante e depois da Conferência. Para a Rede Mulher, o trabalho deveria consistir de três passos:

Destacar toda a informação no processo de discussão já iniciado em outras conferências, nacionais e/ou internacionais, cujo tema da Comunicação tenha sido debatido; identificar quais são as forças sociais que têm prioridades parecidas ou poderiam apoiar as nossas, e identificar o que fazem para implementar essas prioridades; e identificar pessoas sensíveis ou aliadas para que apóiem nossa agenda e possam fazer recomendações ou influir no processo de negociação da Conferência (MELO, Jacira; IRACI, Nilza; VIEIRA, Vera, 2009, p. 26).

Para influenciar o processo de decisões no âmbito da Conferência, a Rede Mulher apontou na publicação uma série de pré-condições:

Um objetivo político claro: é necessário saber o que queremos, ter uma agenda política clara traduzida em uma linguagem apropriada (positiva, propositiva, utilizando a terminologia adequada); um conhecimento da “linguagem consagrada” que sirva a nossos propósitos. É sempre mais fácil avançar sobre o que já foi aprovado em outras Declarações ou Planos de Ação do que aprovar novos conceitos ou novas linguagens; um conhecimento dos atores e suas agendas, inclusive a do setor não- governamental (ONGs) que participa da Conferência. O fato de ser ONG não significa que sempre se está em uma posição que consideramos correta. É importante saber quem tem e quem não tem posições que não são negociáveis, como se movem os blocos, como se fazem e se desfazem alianças, quais são os eixos através dos quais podem ser feitas alianças. Tudo isso requer um exercício permanente de planejamento estratégico em uma dinâmica que muda diariamente; conhecer, de antemão, os nomes das personalidades governamentais que participarão na Conferência e fazer o lobby correspondente. O mesmo deve ser feito com os nomes dos/as representantes de ONGs que integram a delegação oficial; ter sempre presentes as prioridades originais, com objetividade nas recomendações a serem priorizadas nos diversos contextos nacionais; divulgar a informação sobre a Conferência nos meios de comunicação, focando as prioridades das mulheres e das organizações de mulheres da sociedade civil, considerando o enfoque de gênero, raça, etnia, orientação sexual, geração; participar dos eventos preparatórios da Conferência tratando de identificar possíveis aliados e pontos de consenso para formular estratégias comuns. Se possível, especialmente, nas Conferências preparatórias de outras regiões (MELO, Jacira; IRACI, Nilza; VIEIRA, Vera, 2009, p. 26-27).

Conforme o CFEMEA (2010b), foi o trabalho de advocacy junto ao Poder Legislativo o que fez a ONG se tornar mais conhecida entre os atores políticos e os movimentos sociais. As ações de advocacy realizadas pelo CFEMA possuem uma sinergia com a articulação e a comunicação política. Para o CFEMEA, o tipo de advocacy desenvolvido no âmbito da Lei Maria da Penha é o propositivo, ou seja, aquele que amplia ou cria direitos para as mulheres.