3. Teoretisk rammeverk
3.4. Modeller for lege-pasient relasjoner
O tema da transferência é bastante presente na obra de Lacan e dá material para um amplo estudo. A transferência foi pensada em articulação com diversos outros termos: sugestão, amor, repetição, demanda, desejo do analista, sujeito suposto saber, objeto a e ato psicanalítico. Retenhamos aqui o que ele falou sobre os quatro primeiros, seguindo o método proposto incialmente: acompanhar historicamente a construção dos conceitos sempre enfatizando as implicações na política da direção da cura.
No final da década de 1950, Lacan (1957-1958/1999, p. 347) passa a considerar essencial para a condução da análise a distinção entre desejo e demanda. A transferência é situada na dialética da demanda e do desejo e, a partir desse posicionamento, Lacan procura resolver o antigo e sério problema da distinção entre transferência e sugestão. Lembremos que Freud, inicialmente, abandonou a sugestão em prol da técnica da associação livre e em seguida percebeu o fenômeno da transferência. O manejo da transferência, considerado no início como radicalmente diferente da sugestão, passou a ser o principal meio de intervenção, o que provoca a cura permanente. No entanto, em 1916, Freud percebe que a distinção entre transferência e sugestão era na verdade muito tênue. A solução por ele encontrada foi a de mostrar que o tratamento psicanalítico se diferencia do tratamento sugestivo porque no primeiro se analisa a própria transferência. A sugestão seria apenas um meio para que sua intervenção tivesse efeito sobre o analisante. Lacan logo aponta o problema dessa solução. Ela acaba por remeter o problema ao infinito, pois seguindo a ideia da sugestão como meio, ela também seria utilizada para a análise da transferência. Sigamos o que Lacan (op. Cit.) diz a esse respeito:
A ideia que se costuma ter é que a transferência é aquilo graças ao qual a sugestão funciona. O próprio Freud escreve que, se convém deixar que se estabeleça a transferência, é por ser legítimo utilizar o poder de quê? – de sugestão, que a transferência confere. A transferência é concebida aí como a
tomada do poder do analista sobre o sujeito, como o vínculo afetivo que faz o
sujeito depender dele, e do qual é legítimo nos servirmos para que uma interpretação seja aceita. Que quer dizer isso, se não enunciar de maneira mais clara que nos servimos da sugestão? Para dar nome às coisas, é pelo fato de o
paciente chegar a gostar de nós que nossas interpretações são deglutidas.
Estamos no plano da sugestão. Ora, é claro que Freud não pretende limitar-se a
isso. (p. 440)
É aí que Lacan marca uma posição, a meu ver, diferente da do próprio Freud, ao dizer que “a transferência é diferente de um uso do poder” (1957- 1958/1999, p. 440). Para entender, então, o estatuto do poder na transferência, é preciso saber por que a oferta da associação livre faz aparecer a transferência. O que há no ato da fala e na estrutura da língua para provocar o fenômeno da transferência? Creio que a partir daí é possível demarcar a posição do psicanalista perante a transferência.
Como vimos, a fala coloca em jogo simultaneamente a demanda e o desejo. Embora possam se confundir em virtude dessa simultaneidade, demanda e desejo são situados em níveis diferentes. Lacan utiliza o grafo do desejo para apontar que a demanda situa-se na linha do nível mais abaixo, que vai do significante à voz, enquanto o desejo se situa no nível acima. Pois bem, Lacan recorre o mesmo esquema, conforme a figura abaixo, para dizer que a sugestão se situa no nível da demanda, enquanto a transferência está no nível do desejo.
Figura 2 - grafo do desejo simplificado (Lacan, 1957-1958/1999, p. 435).
Da mesma forma que há uma relação entre a demanda e o desejo, há, portanto, relação entre transferência e sugestão: “a transferência é uma sugestão, porém uma sugestão que só se exerce a partir da demanda de amor” (Lacan, 1958/1998, p. 641). Nesse sentido, a transferência é a instituição do Um pela via do amor. No entanto, a transferência começa a se instalar a partir
dessa demanda de amor, mas não se reduz a esta. Na verdade, a demanda, por visar um objeto que a satisfaça, somente “abre a sequência da transferência” (op. Cit., p.642), considerada aqui em sua dimensão de repetição: “por intermédio da demanda, todo o passado se entreabre, até os recônditos da primeira infância. Demandar: o sujeito nunca fez senão outra coisa, só pôde viver por isso, e nós entramos na sequência” (op. Cit., p.623).
A transferência é, digamos assim, uma resposta a algo que provoca um impasse ao desejo, isto é, a fixação do sujeito à demanda. Nesse sentido, a transferência é também a possibilidade de uma articulação significante que a diferencia da demanda: “a transferência em si já é análise da sugestão, na medida em que coloca o sujeito, com respeito à sua demanda, numa posição que ele deriva unicamente de seu desejo” (op. Cit., loc. Cit.).
A questão que se deriva dessa distinção entre sugestão e transferência é: como fazer para mantê-las distintas, para que a análise não caia naquilo contra a qual ela luta? Já vimos que essa questão é antiga e aparece na obra freudiana como uma grande preocupação. Vimos também que o debate se intensificou em 1919 com a técnica ativa de Ferenczi e a resposta freudiana do princípio de abstinência e se estendeu ainda entre os pós-freudianos. Lacan entra nessa contenda resgatando a importância do princípio de abstinência postulado por Freud, mas ao mesmo tempo sem recusar a tentação de dar algumas prescrições técnicas que ele mesmo critica. Talvez a mais incisiva delas – ao menos é uma das que mais se repetem – seja a de que o psicanalista não deve responder à demanda: “nossa operação é abstinente ou abstencionista. Consiste em nunca ratificar a demanda como tal” (Lacan, 1957- 1958/1999, p. 442).
Entretanto, essa abstenção, segundo Lacan, embora seja essencial, não é suficiente. O psicanalista não responde à demanda, mas ele também não pode se isentar de responder alguma coisa. Portanto, “à medida que se desenvolve uma análise, o analista lida alternadamente com todas as articulações da demanda do sujeito. Mas só deve, (...), responder aí a partir da transferência” (Lacan, 1958/1998, p. 625). Com essa última frase percebe-se como o poder e a liberdade do psicanalista são restringidos pela transferência. Sua fala, sua intervenção, depende da fala do analisante. Além disso, ao condicionar a resposta do analista à transferência, a prescrição técnica se torna
mais complexa, pois não se trata apenas de uma proibição dada ao psicanalista. Como responder a partir da transferência?
A própria recusa à demanda traz as pistas necessárias, pois seu efeito é o aparecimento dos significantes retidos no circuito da demanda: “o analista é aquele que sustenta a demanda não, como se costuma dizer, para frustrar o sujeito, mas para que reapareçam os significantes em que sua frustração está retida” (op. Cit., p. 624). É a partir desses significantes que o psicanalista pode, então, encontrar uma posição para intervir.
Mas há ainda mais um ponto ao qual o psicanalista deve prestar atenção. Sua própria posição de escuta favorece a confusão entre a transferência e a demanda, pois o psicanalista fica no lugar do Outro a quem se dirige a demanda, “o que significa que, por nossa presença, e na medida em que escutamos o analisante, tendemos a fazer com que se confunda a linha da transferência com a linha da demanda. Somos, portanto, a princípio nocivos” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 442). Por esse motivo que Lacan diz também que a principal resistência na análise é a do psicanalista. A resistência do analisante é, na verdade, resistência à sugestão feita pelo psicanalista, é uma tentativa de preservar o campo de seu desejo: “a resistência do sujeito, quando se opõe à sugestão, é apenas desejo de manter seu desejo” (Lacan, 1958/1998, p. 642). Com isso, Lacan ainda derruba a classificação da transferência como positiva ou negativa, pois a resistência do analisante não tem nada de negativo – como dizia o próprio Freud e os pós-freudianos –, uma vez que busca preservar seu desejo.
Assim, se o psicanalista recusa responder no nível da demanda, abre-se a possibilidade, para o analisante, de se deparar com o próprio desejo, que, segundo Lacan, é o cerne da experiência psicanalítica. Trata-se “de ver quando e como o desejo do sujeito, alienado na demanda, profundamente transformado pelo fato de ter de passar pela demanda, pode e deve reintroduzir-se” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 370).