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5. Analyse og tolkning av funn

5.2. Foreløpig kontekstforståelse og samhandlingen på forumet

Carl Von Clausewitz foi um general prussiano do século XIX que não fez grandes feitos nos campos de batalha. Nas guerras em que participou, destacou-se por uma negociação bem sucedida da rendição da armada prussiana e por lutar pelo exército russo para combater os próprios prussianos, que na época estavam sob o comando de Napoleão. Clausewitz tornou-se mais conhecido por ser um grande teórico da guerra. Foi diretor da Escola de Guerra de Berlim nos últimos anos de sua vida, entre 1818-1830, período em que escreveu seu famoso livro Da Guerra (Clausewitz, 1832/1996), publicado postumamente.

Apesar de não citar esse autor em A direção do tratamento, muito

25 Há nesse ponto um debate entre Anna Freud e Reich. O último dizia que as interpretações

deveriam visar desde o início às defesas da neurose de caráter. Loewenstein toma aqui a posição de Anna Freud.

provavelmente é em Da Guerra que Lacan se apoia para tratar da política, estratégia e tática na direção da cura. Mas se ele não o cita nesse momento, como podemos inferir que a obra de Clausewitz serviu como fundamento para Lacan? Bem, em primeiro lugar Lacan chega a citá-lo em outras circunstâncias – (1954/1998) e (1967-1968). Numa dessas citações é possível notar a importância dada por Lacan ao escrito de Clausewitz:

Logo, se vocês levarem para aí [análise da resistência] a guerra, conheçam pelo menos seus princípios, e saibam que seus limites são desconhecidos quando ela não é compreendida, seguindo um Clausewitz, como um caso particular do comércio humano. (1954/1998, p. 376)

Vejamos então os princípios da guerra delimitados por Clausewitz para entender e justificar por que podemos afirmar que tais princípios servem como fundamento para Lacan tratar da direção da cura. Com Clausewitz, a guerra enquanto objeto de estudo ganha um estatuto universal. Ele não procura analisar as especificidades históricas de cada guerra, mas aquilo que está presente em toda e qualquer guerra. Trata-se praticamente de um estudo estrutural. E quais são os elementos da “estrutura” da guerra apontados por ele? A política, a estratégia e a tática.

É na articulação estabelecida entre a guerra e a política que encontramos a afirmação mais conhecida de Clausewitz: a guerra é a política continuada por outros meios (1832/1996), a guerra é uma extensão da política. Lacan também conhecia bem essa afirmação, como podemos ver na sequência da citação destacada acima: “sabemos que foi ao reconhecer, sob o nome de guerra total, sua dialética interna, que este veio a formular que ela exige ser considerada como prolongamento dos meios da política”. (1954/1998, p. 376). Nota-se aí, como bem observou Glucksmann (1967) – autor também citado por Lacan ao se referir a Clausewitz no seminário sobre o ato psicanalítico – uma hierarquização entre guerra e política: “a fórmula tem uma acepção restritiva, a guerra é o meio, a política fixa o fim, a guerra não é senão a continuação da política, é um instrumento subordinado” (p. 36).

As estratégias e táticas, por serem instrumentos fundamentais da guerra, também estão subordinas à política. E entre estratégia e tática há

também uma hierarquia. A tática consiste numa ordenação e direção dos recontros, isto é, das situações de combate, do campo de batalha; já a estratégia é uma coordenação dos distintos recontros, “é o emprego das batalhas para obter o fim da guerra”. (Clausewitz, 1832/1996, p. 93). Complementando com as palavras do próprio autor, a tática é “a teoria relativa à utilização das forças armadas no recontro. A estratégia é a teoria relativa à utilização dos recontros a serviço da guerra” (op. Cit., loc. Cit.). As táticas, portanto, estão subordinadas à estratégia da guerra.

Essa hierarquia entre tática, estratégia e política é utilizada por Lacan: “o analista é menos livre em sua estratégia do que em sua tática. ... O analista é ainda menos livre naquilo que domina a estratégia e a tática, ou seja, em sua política” (1958/1998, pp. 595-596). Portanto, partindo do conhecimento de que Lacan era conhecedor de Da Guerra e da observação dessa similaridade entre a hierarquia estabelecida por Clausewitz e a que foi empregada por Lacan, podemos inferir que foi nessa obra que Lacan se apoiou para se referir à política, estratégia e tática na direção da cura.

Resta-nos agora, entretanto, um complicado problema a resolver: a passagem de uma noção de política ancorada na guerra para uma política da falta-a-ser permanece, no mínimo, bastante obscura. Ao passar da arte de dirigir uma guerra para a de dirigir o tratamento, continuamos no terreno da política? Como usar termos extraídos de uma filosofia da guerra para tratar de um mecanismo de poder que tem como primeiro princípio a recusa do exercício do poder soberano?

Aqui precisamos recorrer a outro autor para entender melhor essa passagem de modo mais rigoroso, caso contrário a elaboração lacaniana poderia ser considerada como uma simples e fraca metáfora. Apesar de criticar a psicanálise e de não dialogar com Lacan sobre os mecanismos do poder na clínica psicanalítica, é nos estudos genealógicos de Foucault que encontramos referências para compreender a subversão de Lacan para o uso de política, estratégia e tática. Vale esclarecer, antes, que Lacan não se refere a Foucault sobre esse assunto. Trata-se de uma proposta nossa fazer uma análise do uso lacaniano dos termos política, estratégia e tática a partir dos estudos genealógicos de Foucault.

5.4.3. ... e Foucault

Esse recurso encontrado na obra foucaultiana deve-se tanto à subversão da noção de poder – ao localizá-lo, por exemplo, em práticas discursivas – quanto ao método utilizado para estudá-lo. Na conferência A filosofia analítica da política (1978a/2006) – na qual Foucault tece críticas aos estudos filosóficos acerca do poder e da política e indica as diretrizes de suas pesquisas – destaca-se outra precaução de método, imprescindível para entendermos o uso de Lacan dos termos citados. Diz Foucault (op. Cit.): “seria preciso estudar os jogos de poder em termos de tática e de estratégia, de norma e de acaso, de aposta e de objetivo” (p.45). Foi exatamente o que ele fez pormenorizadamente, dois anos antes, em seu curso Em defesa da sociedade (1975-1976/2005), retomando a filosofia de Clausewitz para ponderar a validade das noções de tática, estratégia e de relações de força para se analisar o funcionamento do poder.

Uma das principais proposições de Clausewitz é a de que a guerra é uma extensão da política, a guerra “é a política continuada por outros meios”. Foucault subverte o aforismo de Clausewitz, invertendo-o: a guerra não é uma continuidade da política por outros meios, mas, ao contrário, a política é a continuação da guerra por outros meios. Essa inversão tem, segundo Foucault (op. Cit.), três significados: (1) de que “a política é a sanção e a recondução do desequilíbrio das forças manifestado na guerra” (1975-1976/2005, p. 23), na medida em que, nesse caso, o poder político tem como função “reinserir perpetuamente essa relação de força [estabelecida historicamente na guerra e pela guerra], mediante uma espécie de guerra silenciosa, e de reinseri-la nas instituições, nas desigualdades econômicas, na linguagem, até nos corpos de uns e de outros”; (2) de que as lutas políticas existentes no estado de paz civil (entendido como a ausência do estado de guerra declarada), devem ser interpretadas “apenas como as continuações da guerra”. A luta pelo poder nas relações interpessoais e institucionais é, portanto, uma continuação silenciosa do estado de guerra; (3) de que somente a guerra “suspenderia o exercício do poder como guerra continuada” (p.23).

Mas Foucault também revela que essa inversão do aforismo de Clausewitz é na verdade uma re-inversão. Já nos séculos XVII e XVIII havia a tese de que a política é a guerra continuada por outros meios, o que revela uma espécie de paradoxo histórico, uma vez que a consagrada tese de Clausewitz também é do século XVIII. Para explicar esse paradoxo, Foucault demonstra que, por um lado, em função do advento do Estado, o discurso dos historiadores tendeu a tratar da história do Estado e, com isso, a ratificar o poder soberano. Isso porque o discurso histórico a respeito dos soberanos foi responsável pela construção de um saber sobre a guerra que se tornou um instrumento de luta pelo poder. Hobbes, filósofo político do século XVII, é apontado por Foucault como um dos autores responsáveis por fazer prevalecer esse tipo de discurso histórico, por enunciar que o constante estado de guerra de todos contra todos seria eliminado a partir do estabelecimento do contrato social, no qual cada indivíduo se submeteria ao poder absoluto e centralizado do soberano (nesse caso, a guerra passaria a ocorrer somente no âmbito do Estado). Por outro lado, Foucault também demonstra, baseando-se em Boulainvillier26, que na mesma época circulava um discurso que tratava mais da história dos povos do que da dos soberanos, um discurso que, além de pensar a guerra fora do campo de batalha, enfatizava o tema do enfrentamento entre as raças, que surgiu a partir do colonialismo. Esse discurso, no entanto, foi abarcado pelo discurso da história do Estado e transformado no discurso da soberania de uma raça, eliminando a guerra como analisador das relações políticas.

É por haver esse domínio do discurso da soberania que se pode afirmar que Clausewitz, com seu aforismo, inverteu um discurso corrente na época e que Foucault, por sua vez, re-inverteu esse aforismo para resgatar algumas características desse discurso que foi obliterado. A primeira característica é a de que esse discurso trata de um sujeito que não é universal, não é o sujeito totalizador ou neutro da filosofia, mas um sujeito que fala de sua perspectiva e que tem sua própria verdade “que só se pode manifestar a partir de sua

26 Autor, presente na virada do século XVII para o XVIII, caro a Foucault, não só por analisar a

guerra como uma relação de força existente no interior da sociedade, mas também por definir o caráter relacional do poder. Boulainvillier já dizia que o poder “não é uma propriedade, não é uma potência; o poder sempre é apenas uma relação que só se pode, e só se deve, estudar de acordo com os termos entre os quais atua essa relação” (Foucault, 1975-1976/2005, p. 200).

posição de combate, a partir da vitória buscada, de certo modo no limite da própria sobrevivência do sujeito que está falando” (Foucault, 1975-1976/2005, p. 61). Ademais, essa verdade remete o sujeito a uma posição descentralizada, na medida em que “o sujeito que está falando é um sujeito guerreador” (op. Cit., p.63) e sua luta não se restringe somente ao poder centralizador do soberano, mas ao “entrecruzamento de corpos”:

Um entrecruzamento de corpos, de paixões e de acasos: é isso que, nesse discurso, vai constituir a trama permanente da história e das sociedades. E é simplesmente acima dessa trama de corpos, de acasos e de paixões, (...), que se vai construir algo de frágil e de superficial, uma racionalidade crescente, a dos cálculos, das estratégias, das astúcias; a dos procedimentos técnicos para manter a vitória, para fazer calar, aparentemente, a guerra, para conservar ou inverter as relações de força. (op. Cit., p.64)

Explicada, assim, a re-inversão do aforismo de Clausewitz, é possível compreender a importância de todas essas considerações para o entendimento do estatuto dos termos política, estratégia e tática no que se refere à direção da cura na clínica psicanalítica. Se o campo da política, no sentido apontado por Foucault, não é remetido somente ao Estado, mas à guerra continuada por outros meios, de modo silencioso, nas instituições e nas relações interpessoais, podemos considerar a sessão analítica como um espaço no qual também se atualiza certas relações de força e de poder.

Essa atualização, contudo, a meu ver não deve ser considerado ao modo como foi descrito por Foucault, isto é, como uma adequação e reconstituição do poder médico. Para Foucault (1973-1974/2006, pp. 449-450), o poder do psicanalista seria da mesma categoria do poder do psiquiatra, um poder de domínio sobre a vida do analisante, com a diferença de que seria ainda mais astucioso por estar escondido no silêncio e na invisibilidade.

Tal descrição não deixaria de ser pertinente se fosse referida à psicanálise norte-americana fundada na Psicologia do Eu. Mas a proposição de política da direção da cura de Lacan também é crítica quanto ao abuso de poder na sessão analítica. Nesse espaço, cabe ao psicanalista exercer a função de não reproduzir as relações de poder, tal como denunciadas por Foucault, e de fazer valer a política do tratamento da falta-a-ser, tal como

postulada por Lacan, o que significa, em palavras do vocabulário militar, em fazer-se de morto no campo de batalha das relações imaginárias. Lacan (1954/1998) é bastante claro quanto a esse ponto quando se refere a Clausewitz para criticar os praticantes da psicologia do eu:

O humor obsidional que se deixa trair na morosidade da análise das defesas daria, portanto, com certeza furtos mais encorajadores para os que nela se fiam, se ao menos eles a pusessem na escola da luta real mínima, que lhes ensinaria que a resposta mais eficaz a uma defesa não é fazer-lhe uma demonstração de força. (p. 377)

Desta forma, no entrecruzamento dos corpos, paixões e acasos (para usar as palavras de Foucault) do analisando e do analista em uma sessão de análise, o último deve, em primeiro lugar, evitar o embate imaginário para fazer aparecer no dizer do sujeito que fala (o analisando) a verdade que se manifesta a partir de sua posição de combate, no caso, em relação à posição do sujeito em relação aos seus desejos e fantasias inconscientes. Vimos, com Freud, que a clínica psicanalítica surgiu justamente a partir do abandono de um poder soberano exercido via sugestão. Ao dizer que o psicanalista faria melhor situando-se em sua falta-a-ser, Lacan recupera a subversão clínica operada por Freud. Por isso o primeiro princípio de poder apontado por Lacan em A direção do tratamento (1958/1998) é o de que o psicanalista “não deve de modo algum dirigir o paciente”, embora ele dirija o tratamento (p. 592).

Já as estratégias do tratamento, submetidas a essa política – se tomadas (usando as palavras de Clausewitz) como uma “coordenação dos distintos recontros” entre psicanalista e analisando –, referem-se mais especificamente à transferência e seu manejo. A transferência, diz Lacan apoiando-se em Freud27, “é o terreno em que se decide o combate” (1958/1998, p.602), pois é pela via da transferência que o psicanalista pode “fazer o sujeito aplicar a regra analítica” (op. Cit., p.592).

Nota-se assim que o poder do analista na direção do tratamento depende sempre da estratégia transferencial que é dada pelo analisando, uma vez que é este que atribui àquele a imago parental atualizada. Percebe-se

27

Relembrando: “é nesse campo que deve ser conquistada a vitória, cuja expressão é a permanente cura da neurose” (Freud, 1912a/2010, p. 146).

novamente que o estatuto de poder aqui tem uma semelhança ao elaborado por Foucault. O poder é múltiplo e heterogêneo (sua forma e sua força dependerá sempre do analisando) e não é uma propriedade do analista; ele é estabelecido a partir de uma relação assimétrica apoiada num princípio da linguagem e na política da falta-a-ser. Ademais, esse poder circula: ao mesmo tempo em que é o motor da análise, é também a resistência mais poderosa ao tratamento (Freud, 1912/1996).

Tendo em vista o estatuto desse poder da transferência e retomando as considerações de Lacan sobre os graus de liberdade entre política, estratégia e tática, pode-se afirmar também que até a transferência estar bem consolidada, o psicanalista permanece com pouca liberdade tática. Ele é livre em suas táticas de intervenção desde que estas não impliquem o aparecimento dos sentimentos do psicanalista – como muitos faziam ao incluir a contratransferência em suas interpretações – e não firam o princípio fundamental, isto é, desde que não atuem com seu ser.

Considerando a tática, no sentido definido por Clausewitz, a ordenação e direção de cada recontro, de cada situação de combate no campo de batalha, diria então que sem a estratégia do manejo transferencial, construída com base na hipótese diagnóstica, vamos para o combate como cegos no meio de um tiroteio. A interpretação, o corte da sessão (escansão), a passagem ao divã, o pagamento ou mesmo as modalizações da voz, elementos que dão uma direção à sessão e ao tratamento (pertencendo, assim, mais ao campo da tática), devem estar subordinados à estratégia transferencial. A liberdade tática depende disso. Vale observar também que todos esses elementos da tática situam-se do lado do analista, enquanto a estratégia provém inicialmente do lado do analisando. Isso indica que o poder de intervenção do analista depende da estratégia do analisando por estar submetida à transferência.