Kapittel 4. Teoretisk grunnlag
4.1 Incentivteori
4.1.4 Modellen skissert
Os estudos sobre o processo de profissionalização do futebol em Minas Gerais – sobretudo em Belo Horizonte e cidades próximas – e no Brasil, durante o início da década de 1930, revela que foi um momento de controvérsias e contradições. A legislação da época definia o futebol como esporte amador, ou seja, era proibido viver de futebol, ter no futebol um emprego, concebê-lo enquanto trabalho: o futebol deveria ser apenas um passatempo das pessoas, praticado nos momentos de lazer, nos momentos para além da esfera do trabalho. Nota-se a tentativa clara das elites em manter sob seu julgo este esporte - cuja popularidade já era nas décadas de 1910/20 evidente - preservando os valores e significados construídos a partir de uma lógica
elitista de se conceber o jogo: jogo elegante e sofisticado que exprimia a tenacidade e a
intenção “do Brasil e dos brasileiros” em considerar-se modernos. O profissionalismo
ecoava com assombro nos membros da elite abastada, a este respeito diz Mario Filho:
“O jogador branco, de boa família, não tinha medo só de se tornar profissional, tinha vergonha também. O medo era de perder aquela vida gostosa de amador. O jogador mandando no clube, jogando a pedido, todo mundo atrás dele, jogue, jogue, e ele se fazendo de rogado. Acabava entrando em campo se sacrificando mais uma vez” (Filho: 2003, p. 196)
Há de se ressaltar que havia traços de profissionalismo no futebol desde os anos
de 1920, porém era algo velado. O chamado “profissionalismo marrom” era prática
comum em inúmeros clubes do Brasil e era o que garantia aos clubes a manutenção de seus atletas, sendo que naquele tempo o assédio de clubes brasileiros e estrangeiros já era algo que fazia parte da realidade dos clubes. É importante observar que nesse
período do “profissionalismo marrom” os clubes davam um emprego de fachada para os
jogadores, que tinham todas as regalias, e, muitas vezes, não trabalhavam e só se dedicavam ao futebol, é o que aconteceu, principalmente, no Rio de Janeiro e em São Paulo. No entanto, por aqui, a conservadora sociedade mineira relutava em aceitar os primeiros ventos do profissionalismo. Uma análise mais criteriosa de uma matéria do
jornal Minas Geraes de 5 de março de 1933 intitulada “O profissionalismo no foot-ball”
da conta exatamente disso:
“Como o nosso meridiano esportivo passa pelo Rio, tudo o que lá se esboça ou se realiza, reflete-se em Belo-Horizonte. Alguns jornais daqui já têm também martelado a questão do profissionalismo. Sem resultado, está claro. O profissionalismo no football é uma planta que medra atualmente no ambiente das nossas montanhas. Quando muito, flor de estufa, que, se apresenta algum colorido atraente, é por efeito de artifício. Deixam-na ao relento, vivendo á custa do seu próprio poder de nutrição, e morrerá. Vocações manifestas para o profissionalismo não faltam. Um prazer assoldadado é prazer maior. Isso ninguém o nega. Mas, a moda do profissionalismo é o ouro. E este – a despeito da nossa vizinhança com Morro Velho - está escasso nos meios esportivos da Capital. Francamente, os nossos grandes clubs não suportam outras despesas a
mais das que os sobrecarregam no momento. Profissionalizar os seus atuais amadores é lavrar o seu atestado de óbito. Não. Não há dúvida. O profissionalismo em Minas é uma planta exótica”.
(Nota in “A Profissionalização do football em Belo Horizonte nas décadas de 1920 e 1930”. Anais do XVI Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte e III Congresso Internacional de Ciências do Esporte - Salvador – Bahia – Brasil 20 a 25 de setembro de 2009)
O profissionalismo configurava-se como uma opção dos clubes que ansiavam em manter alguns jogadores no plantel, garantindo legalmente o vínculo dos atletas com os clubes. Em matérias jornalísticas encontradas até o presente momento, percebe-se que não foram poucos os casos em que clubes de Belo Horizonte, durante a década de 1930, perdiam os seus jogadores para os grandes centros, pois havia uma concorrência
desigual entre os clubes “de fora” e os clubes da capital mineira (como de certa forma
ainda é atualmente), os quais não tinham como pagar os mesmos valores para os atletas. Ora, os jogadores valorizavam-se através da qualidade técnica demonstrada em campo, despertando o interesse dos clubes mais abastados economicamente. Esta transferência de jogadores evidencia o fato de que o futebol é ressignificado, sendo a ele imputados novos valores, os quais refletem a entrada em cena de novos grupos sociais a partir do momento em que as classes baixas passam a praticá-lo.
O esporte, além de ser uma forma de lazer, se torna inequívoco meio de ascensão social dos mais pobres. A resistência de alguns setores da sociedade deixa claro as tensões percebidas neste processo. Uns era favoráveis e outros contrários à profissionalização do futebol. O que se sabe é que o profissionalismo foi adotado como modelo administrativo para os clubes de futebol em todo o território nacional, tanto que
os clubes que atualmente são considerados como os “grandes” clubes brasileiros foram
os que em meados dos anos de 1930 aderiram à onda de profissionalização. Por outro lado, a profissionalização é reflexo da entrada em cena de outros atores sociais que, ao adotar o futebol em suas vidas cotidianas, criam novas formas de vivenciá-lo, de praticá-lo, de significá-lo. Estes novos atores sociais – negros, mulatos, pobres – são amparados pelo profissionalismo, já que podem a partir deste momento dedicar-se exclusivamente à prática do esporte, aprimorando suas técnicas e habilidades gradativamente. Esse momento foi, desta forma, decisivo para a popularização do
futebol na medida em que foi um momento marcado pela entrada destes grupos sociais desprivilegiados, que se encontravam alijados do futebol e cujas formas de praticar, significar e imputar valores ao jogo, incorporando elementos como a capoeira, o samba, a ginga, a malandragem, o improviso, a espontaneidade e etc. são essenciais para a
construção e síntese da chamada “escola brasileira” de futebol.
Foi apenas a partir deste momento – meados da década de 1930 - que podemos identificar no futebol um esporte popular, um esporte que rompe as barreiras de classe social e se alastra por todo país, ou seja, um esporte que fora abraçado por grande parte dos brasileiros, por uma massa de pobres que passou a encontrar nele sua principal atividade de lazer e entretenimento.
O campo de futebol - enquanto equipamento de uso coletivo instituído – e o futebol amador devem ser concebidos, entendidos e compreendidos como resultado direto deste processo. Vale ressaltar que esta profissionalização não significou de forma alguma o sepultamento das formas não profissionais de se praticar o futebol. Ao contrário, esta mesma profissionalização que teve como resultado direto a popularização\democratização, cria apenas mais um tipo de futebol – futebol esse que pode ser considerado o germe da matriz espetacularizada atual – isto é, os inúmeros futebóis, passam a compor o cotidiano das pessoas, as quais não se satisfazem em apenas ir ao estádio acompanhar uma partida de seu clube do coração; elas buscam trazer o esporte para suas vivências diárias, para suas interações com amigos do bairro ou colegas do trabalho. Nesse sentido, o futebol integra a vida ordinária das pessoas, sobretudo, enquanto práticas de lazer, enquanto jogo no sentido huizingiano, na medida em que a grande maioria dos indivíduos não trabalha com o futebol, não retiram seu sustento do esporte, mas somente se deixam encantar e se envolver com este esporte - o qual de fato é encantador – dedicando assim grande parte de seu tempo livre ao futebol, seja jogando uma pelada na rua, seja jogando um jogo válido por algum campeonato de várzea, seja nas arquibancadas do Mineirão ou do Beira Rio, seja acompanhando as notícias diárias dos clubes europeus pela TV ou internet.
A importância da apreciação acerca do processo de
popularização\democratização do futebol – compreendido, como se nota acima, entre os anos de 1910\1930 – reside exatamente em se desvelar os modos pelos quais o futebol
deixa de ser um passatempo das elites e se transforma em passatempo da grande massa de pobres deste país, sendo ainda mais que um passatempo, sendo modo de vida, sendo ressignificado, revalorizado, recriado e reinventado por estes atores sociais que enriquecem o jogo trazendo novos elementos, novas técnicas, novas táticas, novos tipos de espaço para a prática, novas formas de interação com o futebol , seja como esporte ou como jogo. Além disso, entende-se com maior clareza a distinção entre futebol amador e futebol profissional, distinção essa que é imprescindível para estudos que lidem com qualquer das duas categorias do esporte. Pôde-se perceber, na mesma medida, que os modos pelos quais o futebol organizara-se nas primeiras décadas do século XX, ou seja, enquanto futebol amador ainda são utilizados pelos clubes amadores que tentam sobreviver nos dias de hoje. Em outros termos, pode-se afirmar que a forma como se organizava o Clube Atlético Mineiro, por exemplo, antes do processo de profissionalização do futebol em 1933, não era muito diferente do modo como se organiza um clube de futebol amador na atualidade.