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Kapittel  7:   Empiriske  resultater

7.2   Liggedager  for  utskrivningsklare  pasienter

O termo futebol não pode ser utilizado indiscriminadamente devido ao fato de que tal termo é amplo e abrange toda uma variedade de diferentes formas, de diferentes valores e de diferentes significados atribuídos ao jogo. Qualquer estudo que pretenda apreender, analisar este esporte deve definir com maior rigor qual tipo de futebol será abordado, para qual tipo de futebol o pesquisador estará lançando seu olhar. As ideias de Arlei Damo podem contribuir demasiadamente para esta empreitada, já que este autor desenvolve uma tipologização do futebol, a partir da qual este esporte é dividido em quatro tipos, cada um dos quais compreendido por uma forma, por um espaço, por valores e significados distintos. Nesse sentido, torna-se importante tratar de cada um

deles na medida em que este estudo não pretende capturar o futebol em toda sua gama de possibilidades. Quando se trata especificamente de futebol amador, há um tipo especifico de futebol que é capaz de comportar esta forma de se praticar o esporte, a qual é muito diferente daquela verificada no futebol profissional. Há de se ressaltar, ainda, que esta tipologização contribui na medida em que oferece parâmetros comparativos – predominantemente entre o futebol comunitário (amador ou de várzea) e profissional - a partir dos quais cada um dos diferentes futebóis pode ser analisado.

De acordo com Damo (2005) os pesquisadores que tem no futebol seu objeto de estudo devem ser muito cautelosos ao usar o termo futebol. Isso se deve, sobretudo, ao fato de que há um monopólio deste esporte e este monopólio está nas mãos de poderosas instituições que regulamentam, normatizam e organizam as atividades neste esporte, definindo, assim, a matriz espetacularizada. Estas instituições podem ser percebidas em âmbito regional, nacional e mundial, mas todas são centralizadas e balizadas pela FIFA (Fédération Internationale de Football Association, criada em 1904) e pela IB (International Board, instituição centenária associada à FIFA), tendo nas federações e nas confederações de futebol suas filiais regionais e nacionais. A modalidade esportiva que foi disseminada no mundo inteiro e que ficou conhecida como futebol é justamente a que se convém chamar de football association. Desta forma, o controle sobre as regras do football association compete à IB, enquanto o gerenciamento direto e indireto das competições futebolísticas mais importantes em termos econômicos cabe à FIFA. Isso significa dizer que qualquer mudança nas regras do football association “tendem a desencadear mudanças na dinâmica do jogo (...) [tais mudanças] são debatidas e só então autorizadas por este comitê (IB) que, por assim dizer, presta auxilio à FIFA” (Damo: 2005, p. 34).

Todavia, este monopólio da FIFA-IB não impede a existência de práticas do association para além de seu controle, já que estas instituições não possuem mecanismos para garantir este controle, ou seja, existem outros futebóis para além desta versão monopolizada, o qual é praticado e apreciado em forma de espetáculo, como bem simbólico com valor econômico. As palavras a seguir dão uma noção exata do que esta sendo tratado:

“Além das modalidades agenciadas pela FIFA - o association, segmentado em masculino e feminino, o futsal e, recentemente, o beach soccer - e de outras que não o são, incluindo-se a diversidade das formas improvisadas, o que pressupõe um espectro heterodoxo de usos do corpo e de codificações ad hoc, assistir, ouvir, ler e fazer anedotas com e a partir dos futebóis. Em certos casos há vestimentas, comportamentos e uso de expressões na linguagem ordinária forjadas nos espaços futebolísticos. À diversidade de práticas futebolísticas corresponde, portanto, uma multiplicidade de sentidos, razão pela qual dever-se- ia ter muito cuidado no momento de escrever sobre o tema. Afinal, quando se usa o termo futebol, a qual modalidade se está referindo?” (Damo: 2005, p. 35)

Nesse sentido, quando se fala de futebol é preciso considerar o fato de que o futebol, enquanto esporte e jogo, abarca vários futebóis, os quais se diferem entre si. Ora, a partir destas ideias, fica clara a necessidade de diferenciar estes vários tipos de futebóis para, no fim das contas, se ter uma noção mais clara para qual (is) futebol (ois) o pesquisador lançará seu olhar e, assim, delinear melhor o objeto e os objetivos deste estudo.

O reconhecimento do termo futebóis – que a principio pode parecer estranho - implica em se assumir a diversidade social das práticas do jogo, as quais podem ser evidenciadas a partir de própria linguagem. Há uma infinidade de referências explícitas relativas a esta diversidade, tais como futebol amador (várzea), futsal, futebol de botão, futevôlei, futebol de praia, futebol-soçaite e etc. Vale ressaltar que muitas destas modalidades, a exemplo do association, são também agenciadas e controladas por entidades – nenhuma com poderio comparável ao da FIFA-IB - que vigiam as regras e organizam competições. Notam-se outros inúmeros termos para designar a prática

destes futebóis não agenciados, como por exemplo, “baba”, “babinha”, “goleirinho”, “fut”, “dois toques”, “pelada”, sendo que o mais comumente utilizado é esse último.

Cada um destes diferentes futebóis organiza seus símbolos, seus espaços, seus valores e seus significados de forma demasiado distinta: se um é percebido nas ruas e vielas, o outro se dá nas escolas e quadras de aluguel; se para um tipo são construídos estádios grandiosos, monumentais em que os craques desfilam suas habilidades, no outro os campos de terra com balizas sem rede fazem-se presentes; se por um lado jogadores

profissionais ganham fortunas por cada entrada em campo, por outro milhões de pessoas pagam para praticar este esporte. Damo insiste:

“Se os futebóis tais quais eles existem pudessem ser tomados, dada a diversidade de formas e significados, por analogia a uma floresta, diria que é dado o momento de retornar às árvores, aos animais, às trilhas, aos córregos, às pessoas que habitam-na, às aparições fantasmagóricas, às lendas e à infinidade de heteróclitos que precisam ser postos em relação com posições bem demarcadas, a fim de ilustrar uma ideia mais precisa do que vem a ser a floresta. Muito do que se escreveu até o presente, peca pela pretensão de ir direto à floresta, ignorando ou simplificando demasiadamente a complexidade das relações que devem ser estabelecidas não apenas entre os fatos futebolísticos e esportivos, senão que destes em relação a outros fatos sociais para além do campo esportivo” (Damo: 2005, p. 36)

O futebol deve ser concebido a partir de sua riqueza, de sua diversidade, de seus múltiplos significados - e não apenas enquanto um fenômeno uniformador e uniformizante. Apenas desta maneira o futebol (ou como se viu, os futebóis) será melhor compreendido em relação à sociedade, à cultura em que se manifesta. A seguir serão apresentados os quatro tipos de futebóis para que se defina sobre qual este estudo está a tratar. Antes, porém pode-se dizer que todas elas apresentam alguns elementos comuns, caracterizando certa “unidade futebolística” (Damo, 2005, p. 38), são eles:

a) duas equipes (princípio da coletividade);

b) perseguindo objetivos idênticos, porém assimétricos (princípio do conflito);

c) sendo a disputa mediada por um objeto (princípio da evitação, mas não da interdição do corpo-a-corpo);

d) um conjunto de regras (circunscrevendo o espaço, o tempo e o ilícito, dentre o qual se destaca o uso das mãos, salvo exceções, sendo esta uma modalidade de marca diacrítica em relação a outros esportes).

A tipologia de Arlei Damo comporta os inúmeros futebóis em quatro grandes matrizes, a saber, matriz espetacularizada, escolar, bricolada e comunitária. As matrizes bricolada e comunitária constituem-se, pois – de acordo com o que se pretende neste estudo - de forma a orientar o olhar do sociólogo.

A matriz bricolada é a matriz que abarca maior número de variações a partir da referida unidade futebolística. Pelo fato de não haver qualquer ausência ou entidade que controla sua prática, há limites mais alargados no que diz respeito às adequações de códigos situacionais e às invenções. Nesse sentido, esta matriz destaca-se como distorção do football association. Um jogo bricolado não é incompleto ou sem sentido se participam apenas dois jogadores em cada time, ou se na ausência da baliza dois chinelos são utilizados para demarcar o local em que os pontos são marcados ou, ainda,

se os jogadores não estão adequadamente equipados. Ao contrário, “é essa bricolagem

que caracteriza as peladas: joga-se com o que se dispõe, adequando-se as regras e os

recursos materiais” (Damo, 2005, p. 37). O tempo das partidas depende diretamente do

animo dos praticantes, das condições climáticas e das limitações de tempo impostas pela locação dos espaços. Esta flexibilização das regras é, talvez, a principal característica da matriz bricolada:

“Além da relativização da performance, da ausência de espectadores, da distorção do football association, das dramatizações de gênero, a bricolagem torna-se um dos espaços privilegiados onde são socializados os fundamentos do jogo, ao menos no Brasil. A bricolagem é praticada em ruas, praças, parques, terrenos baldios e outros tantos espaços à margem das instituições formais, sobretudo da Escola. Há quem acredite que o futebol-arte ou o estilo brasileiro de jogar, exibido por muitos profissionais que atuam nos principais mercados futebolísticos, seja produto da socialização primária em configurações de bricolagem” (Damo: 2005, p. 38)

Este tipo de futebol é, como visto acima, praticado em qualquer tipo de espaço inclusive nos campos de futebol presentes nos pedaços da metrópole, os quais recebem,

além de jogos de futebol amador, de clubes de várzea, “peladeiros” que reinventam o

jogo imputando-no novas regras e significados, adequando o jogo às necessidades específicas de uma turma de amigos do bairro ou de colegas de trabalho. Esta matriz

configura-se, assim, como tipo de futebol importante para a socialização e sociabilidade dos sujeitos seja no bairro, no trabalho ou na escola.

Entre a matriz espetacularizada e a bricolada há um tipo modalidade de futebol, estreitamente ligado ao tempo de lazer dos seus praticantes, realizada em espaços mais bem delineados do que a matriz bricolada, mas sem a ortodoxia do football association, cuja organização cabe à FIFA-IB, como visto acima. Talvez o que melhor caracterize o futebol intermediário - em grande parte do Brasil é chamado de "futebol de várzea" ou

“futebol amador”- é a presença de quase todos os componentes do espetáculo, porém

diferindo em termos de escala. A divisão social do trabalho fora de campo não é nula, mas precária. Os times de futebol de amador possuem dirigentes, treinadores e massagistas, diferentemente da bricolagem. Contudo, os técnicos de futebol de várzea não recebem para exercer esta função e, tampouco, treinam as equipes durante os dias que antecedem os jogos. Nos jogos, os papéis são, a princípio, especializados e, relativamente, bem definidos, mas não é de se espantar se o centroavante, a certa altura da partida, for jogar de goleiro; ou, ainda, se um atleta que atuava como meio campo, e fora substituído antes do intervalo, surgir como zagueiro nos minutos finais da partida.

“O circuito comunitário não exige dos atletas o mesmo capital corporal do

profissionalismo, mas as fronteiras não são, de qualquer modo, tão porosas quanto nas configurações bricoladas” (Damo, 2005, p.42). O futebol comunitário pode ser verificado, principalmente, nos interstícios da metrópole, isto é, nos bairros, vilas e favelas, nas periferias das grandes cidades, caracterizando-se como objeto deste estudo. O caso da cidade de Porto Alegre pode ser elucidativo na medida em que se pode ter se uma noção mais aprofundada acerca da dimensão, da capacidade e da potencialidade do futebol comunitário em mobilizar as pessoas nas periferias das grandes cidades:

“Em Porto Alegre, cidade com aproximadamente 1,4 milhão de habitantes, existiam, em 2002, 32 ligas de futebol comunitário - também chamado de amador ou de várzea. Como cada liga contava, em média, com a participação de 9 clubes/times, apenas na categoria "adulto" - em várias ligas haviam campeonatos para as categorias "veterano", "feminino" e "sub-21" -, existiam em torno de 290 clubes/times de futebol comunitário na cidade, cada vila ou bairro tendo uma, por vezes mais agremiações, algumas delas com mais de duas décadas de existência.”(Damo: 2005, p. 41)

O futebol de tipo comunitário, com seus clubes de futebol de várzea está

presente em cada “vila ou bairro” da cidade. O que chama a atenção é exatamente o fato

de que para seja possível a ocorrência deste tipo de futebol faz-se imprescindível a presença dos campos de futebol abertos à comunidade, aos quais os clubes amadores ou de várzea se enraízam, isto é, criam vínculos com adeptos (pessoas dos bairros ou vilas que se simpatizam ao clube ou até mesmo familiares dos jogadores que os apóiam durante as partidas), com o campo e, no limite, com o próprio bairro.

Times de bairros, campeonatos de várzea, rivalidades afloradas dentro de campo cuja importância para a formação de uma identidade em relação ao bairro, à cidade, ao estado, ao país em que o individuo reside é inequívoca, identidade clubística, são alguns dos elementos relacionados ao campo de futebol e ao futebol amador\comunitário. O futebol amador e o campo de futebol são responsáveis por mobilizar vários indivíduos em torno de um jogo, de um clube, de uma camisa e, no limite, em torno da própria comunidade.

Estes dois tipos de futebol, tanto o bricolado quanto o comunitário, estão associados diretamente a formas de lazer dos bairros periféricos das grandes cidades, isto é, a esfera do lazer se destaca como marcante em se tratando destes dois tipos de futebol, já que eles são concebidos como alternativas de divertimento e entretenimento das pessoas.