Kapittel 7: Empiriske resultater
7.3 Reinnleggelser for utskrivningsklare pasienter
7.3.3 Datasettet uten observasjonene med høyest populasjon
“O que não nos deixa parar de mexer com o futebol amador é a paixão porque
nós todos jogamos aqui. Desde menino, todos jogavam pelada, depois jogamos no Ferroviário, e ai né... já veio do meu pai, ai vem a paixão que a gente larga mulher em casa com menino e tudo.” (Evaldo Mansur, Presidente do Social Olímpico Ferroviário)
Uma das características fundamentais dos clubes de futebol amador e, por conseguinte, do futebol amador como um todo diz respeito ao papel de destaque desempenhado por alguns indivíduos no interior destes clubes. Estes indivíduos geralmente ostentam a posição de presidentes dos clubes, porém isso não impede que acumulem diversas funções na administração e gestão dos clubes (Damo: 2005). As atividades de um clube de futebol amador dependem em larga medida da atuação destes indivíduos, os quais são responsáveis por marcar os jogos, definir os adversários, conseguir jogadores, inscrever e representar os clubes em campeonatos ou torneios, enfim são responsáveis diretos pela organização e funcionamento dos clubes de futebol amador. Pode-se observar que, diferentemente do futebol profissional, não há no futebol
amador uma distinção mais contundente, uma especialização das funções destes atores sociais nos clubes de futebol amador, pois, como afirma o mandatário do Ferroviário:
“Futebol amador a gente é tudo, você é presidente, você é diretor, você é representante, você é técnico, você é massagista. Você faz todas as funções. Você conta com um ou com outro, mas tem sempre um te deixando na mão e os abnegados, que somos nós, que mexemos com isso, vai carregando o piano. Uma hora que sair ai só Deus sabe.” (Evaldo Mansur, Presidente do Social Olímpico Ferroviário)
Em alguns casos, como no Pompéia, a partir do momento em que estes indivíduos deixam de atuar no clube – por este ou aquele motivo - a decadência é iminente e o processo de extinção do clube praticamente irreversível. Este exemplo fornece uma real noção acerca da relevância deste tipo de ator social para os clubes de futebol amador. Devido à importância destas figuras para os clubes amadores, torna-se imprescindível a este trabalho apresentar, caracterizar e refletir acerca dos indivíduos que desempenham este papel no Social Olímpico Ferroviário.
A relação da família Mansur com o Social Olímpico Ferroviário se inicia quando o patriarca da família, Gutenberg Mansur, cuja residência se localizava bem ao lado do campo, é contratado pela antiga rede ferroviária (estatal que era responsável pela manutenção e administração da rede ferroviária e do clube), assim como grande parte dos moradores da comunidade que rodeava o campo. O Social Olímpico Ferroviário era um clube vinculado à rede ferroviária e quem dele fazia parte eram, justamente, as pessoas que trabalhavam para a rede. Desta forma, o velho Mansur se engajou ao time
desempenhando papel administrativo, já que quem “mandava”, quem tomava as
decisões eram os engenheiros da rede. Com o processo de privatização da rede ferroviária em meados da década de 1980, as portas se abriram para que os membros da comunidade, do bairro ao redor da rede – como o velho Mansur e outros que já participavam da administração do clube – se apropriassem de vez da administração do clube. Este processo de transferência de poder da rede ferroviária para a comunidade,
personificada na figura de Gutemberg Mansur, se deu sem maiores atritos devido ao prestígio alcançado por ele diante da comunidade (era aplicador de injeção e por isso conhecia grande parte das pessoas do lugar) e também devido ao fato de que, como afirmado acima, já havia uma participação ativa deste senhor na administração do clube.
O velho Mansur faleceu há cerca de 19 anos, contudo seu legado fora perpetuado pela atuação de seus filhos na administração do clube. São 11 irmãos, muitos dos quais não se dão muito bem, nem sequer conversam. Atualmente, três de seus filhos estão à frente do clube: Evaldo é o presidente, Gilmar o vice presidente e Mauro não ocupa nenhum cargo formal, mas está sempre no clube. Embora haja muitos conflitos entre os três, eles ainda conseguem manter uma relação civilizada. A relação deles com os outros irmãos não pode ser considerada como harmoniosa, segundo informações dos freqüentadores do clube; já houve, inclusive, desavenças na família devido à disputa pelo poder no clube.
Para quem acompanha as atividades do Ferroviário, é impossível imaginar que o clube mantenha suas portas abertas sem a presença de algum dos três irmãos. Como não poderia ser diferente, os irmãos Mansur estão sempre no clube, mesmo que eles não vivam daquilo, ou seja, mesmo que eles não possam se dedicar em tempo integral às atividades do clube, já que se trata de futebol amador e como tal não há rendimentos dali advindos, eles não vivem daquilo, tem trabalho, outras profissões. É verdade que dentre os três aqueles que mais marcam presença no clube são Gilmar e Mauro. Eles abrem as portas do clube todos os dias: durante as manhãs e tardes para o treinamento das categorias de base e durante a noite quando o trailer (que funciona basicamente como um boteco), que está bem à frente da entrada do clube, recebe alguns clientes. O trabalho de engenheiro impede que o presidente Evaldo passe mais tempo no clube, porém, sempre quando possível – nos finais de semana principalmente – ele é presença marcante. Mesmo estando menos tempo no clube, os irmãos não discutem a autoridade de Evaldo, que, apesar de ser o irmão mais jovem dentre os três, é aquele que realmente manda. Certa vez, um treinador da categoria de base queria promover um treinamento sem a autorização do presidente. Este treinador chegou a discutir com Gilmar, garantindo que daria o treino, independentemente da autorização da presidência. O
quem manda aqui sou eu! Não vai haver treinamento!”. Esta situação contribui para uma melhor compreensão acerca do papel dos irmãos Mansur no Social Olímpico Ferroviário. As decisões que são tomadas em relação a qualquer assunto, dos mais banais aos mais sérios, partem sempre de Mauro, em menor medida, de Gilmar e com o
imprescindível consentimento de Evaldo. Estes são os verdadeiros “donos do time” no
sentido atribuído por Alana Gonçalves em sua dissertação de mestrado sobre o futebol amador em Juazeiro do Norte (Gonçalves: 2002).
A autoridade dos Mansur no clube é algo inquestionável. Durante as observações em campo não houve um momento sequer que algum freqüentador do clube colocasse em cheque esta autoridade. Toda e qualquer decisão é referendada por algum dos irmãos – de preferência Evaldo. Como se viu esta autoridade fora herdada do velho Mansur constituindo-se enquanto uma espécie de autoridade tradicional no sentido weberiano do termo. Entretanto a manutenção desta autoridade não pode ser conferida apenas ao patriarca, à tradição; os próprios irmãos criaram estratégias para se manter no poder, garantindo à família o controle do clube. Dentre estas estratégias, a mais evidente remete ao revezamento dos irmãos na presidência do clube. Esta estrutura familiar é vista como algo positivo e apontada pelos mandatários do clube como um dos fatores pelos quais o clube consegue manter-se em funcionamento, ao contrário de vários outros que não o conseguiram:
“O diferencial do Ferroviário em relação aos outros clubes do amador? É tudo por causa do administrativo, o Ferroviário manteve uma família no poder. E a família não deixou (...) não deixou pessoas ruins entrar no clube.” (Evaldo Mansur, Presidente do Social Olímpico Ferroviário)
Além disso, pode-se inferir que o reconhecimento da autoridade dos irmãos Mansur por parte dos freqüentadores do clube se deve ao fato de que as relações que ali se estabelecem entre os atores sociais que participam do clube são extremamente pessoais. Ora, a tarefa de manter a autoridade, sendo reconhecido como o mandatário do clube, é facilitada quando se é membro da comunidade que faz uso do campo. Em
outras palavras, como os irmãos Mansur foram, como disseram, “nascidos e criados” às margens do campo do clube, como alguns deles chegaram a vestir e defender as cores do Ferroviário, como eles viveram diretamente nos bastidores do clube e, ainda, como a maior parte dos freqüentadores do clube são pessoas do bairro, conhecidos e amigos, não poderia ser diferente.