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Retomando que o conceito de inacabamento de pesquisa inerente a todo discurso científico é compreendido como um elo na cadeia enunciativa, o conceito tem por princípio epistemológico instalar as inferências construídas dialogicamente na corrente do conhecimento para captar os velhos significados e introduzir os novos sentidos. Em meio aos embates entre os sujeitos, o discurso científico como narrativa de uma experiência é singular, considerando que o seu autor tem um ponto de vista único – ao seu modo de contar, sua versão. Para Amorim (2000), o saber narrativo comporta em si o Mythos, onde a verdade não se contrapõe à falsidade, mas sim ao esquecimento. Dessa forma, o mito do conto é encarado como o conjunto de versões infinitas, sobre o que é narrado, quando aquele que conta se posiciona no lugar do outro, do

Tu.

Em virtude da exotopia necessária, o Tu (e não o Ele dissonante) é aquele que se posiciona axiologicamente diante do acontecimento, no entendimento tácito da cumplicidade, seja na discórdia ou concordância, e o que é contado entra na corrente enunciativa do discurso conforme os significados que se realizam. A fim de significar, a narrativa precisa se constituir a partir das vozes sociais circulantes que se confrontam e se complementam. É na arena do embate e do desconforto que se pode extrair o que chamamos de sentidos que venham contribuir como repostas não definitivas às questões de pesquisa.

A partir dos estudos de Bakhtin (2000), foi possível confirmar que a consciência do autor criador engloba a consciência do herói e do seu mundo, diante da premissa de que o autor sabe mais do que herói. Com essa afirmativa, é possível acrescentar que o olhar exotópico do autor define-se frente ao fato de que só o outro pode dar o acabamento. Cada ser, a partir do ponto em que se encontra, tem apenas um horizonte, estando, apenas, na fronteira do mundo em que vive. Portanto, somente o outro, a partir do princípio da alteridade, pode oferecer complementação.

É na consciência que se constata o excedente de saber necessário para que ocorra a construção dialógica do conhecimento, o que confirma que toda investigação de natureza dialógica pressupõe a análise do objeto a partir do olhar exotópico da pesquisadora, numa visão de mundo cuja intervenção analítica do evento promove consequências teóricas que se somam. O autor aponta para o olhar exotópico como questão ética existencial que, também, envolve pesquisa afirmando que:

[...], no universo bakhtiniano, nenhuma voz, jamais, fala sozinha. E não fala sozinha não porque estamos, vamos dizer, mecanicamente influenciados pelos outros, eles lá, nós aqui, instâncias isoladas e isoláveis, mas porque a natureza da linguagem é inelutavelmente dupla. O que, em princípio, parece apenas uma classificação teórica aplicável à literatura ou à linguística, um instrumento neutro, na verdade é uma visão de mundo: a natureza dupla da linguagem tem consequências filosóficas que se desdobram até mesmo, acho que não será exagero dizer, até mesmo à fundação de uma ética (TEZZA, 2001).16

Sendo assim, para responder às perguntas que organizam a pesquisa sobre o blog escolar, partimos da perspectiva de que o conceito de linguagem abrange toda a atividade da cultura humana, ou melhor, um evento sociocultural aberto à vida. O posicionamento exterior voltado às análises, mesmo que com o olhar mais distante, não possibilita a total isenção da pesquisadora na pesquisa, em virtude do seu envolvimento com o processo de criação e manutenção do Ieceblog, com os alunos, em geral, e com a gestão escolar. Mesmo assim, é importante esclarecer que o envolvimento pedagógico da pesquisadora com o Ieceblog se estendeu às ações de ensino e aprendizagem da língua materna no uso das novas tecnologias. No entendimento de que a pesquisadora se torna uma peça fundamental para que a pesquisa venha ocorrer, “sua compreensão se constrói a partir do lugar sociocultural em que se situa e depende das relações intersubjetivas com os sujeitos com quem pesquisa” (RAMOS; SCHAPPER, 2010; p. 78).

Nesse sentido, o capítulo dos procedimentos metodológicos pode ser dividido em duas situações, originando quatro etapas específicas que envolveram a pesquisadora, em sua pesquisa, como sujeito participante dos processos. As três primeiras etapas que serão narradas ocorreram em campo, envolvendo a pesquisadora como sujeito didático e pedagógico, integrante do grupo e participante do processo de criação e manutenção do blog. A última etapa

16 Citação disponível em <http://www.cristovaotezza.com.br/textos/palestras/p_vozesromance.htm>. Esse texto,

na íntegra, foi apresentado em mesa redonda no Colóquio Internacional “Dialogismo: Cem Anos de Bakhtin”, em

novembro de 1995, no Departamento de Linguística da FFLCH/USP e publicado em Bakhtin, dialogismo e

conduziu a pesquisadora à situação de afastamento, como observadora e investigadora. Nessa construção, temos:

 1ª etapa – contextualização da escola pesquisada, de seus participantes, direcionada ao trabalho que se realiza nas práticas de letramentos.

 2ª etapa – levantamento do histórico da formação dos grupos de trabalhos com alunos do Ensino Fundamental II, os Grupos de Responsabilidade, considerando, em especial, a dinâmica de produção do blog escolar.

 3ª etapa – recorte do Ieceblog para análise e interpretação como produto de linguagem dialógica.

Diante da compreensão de que o trabalho com os alunos em forma de grupos, denominados Grupos de Responsabilidade17 ou GR, é um modo interessante de favorecer a formação do sujeito crítico posicionado no mundo, a pesquisa deverá conter, em sua construção, o registro sobre esse trabalho que envolve multiletramentos na esfera escolar. Visto isso, a investigação agencia um planejamento mais flexível e sujeito a alterações, já que se realiza com o grupo de alunos do Ensino Fundamental II, com idades diferentes, de forma não seriada, que ocorre de maneira bem peculiar. Na proporção em que as postagens realizadas promovem ou não comentários, há espaços para decisões conjuntas e cooperativas sempre em busca de uma adequação da linguagem ao meio digital e de um interlocutor que comente. Nessa expectativa, que pode ser frustrada, é preciso levar em consideração os imprevistos e o inesperado, pois o inusitado pode ocorrer, tem que ser percebido e deve ser relatado para fins de análise e produção de conhecimento.

Para Moita Lopes (2004), uma abordagem teórica e metodológica transgressora, híbrida ou mestiça não seria, apenas, privilégio da LA. O autor considera outras áreas em que os pesquisadores contemplam a complexidade, a discursividade e o sociointeracionismo. A principal condição dessa abordagem está focada na multiplicidade de paradigmas epistemológicos constituintes do universo científico contemporâneo, voltado para uma participação mais expressiva da LA, o que se revela nas.diversas teorias de interpretação, produzidas em diferentes áreas, incluindo os estudos aplicados sobre leitura/escrita e discurso.

17 GR – Grupo de Responsabilidade – uma forma de organizar os alunos, voltada para o trabalho de

multiletramento em que os estudantes promovem ações a serviço da comunidade escolar. Esse trabalho será melhor explicitado no capítulo Historicizando o Ieceblog.

Segundo Mazzotti e Gewandsznadjer (1998), a observação deve ser tratada no contexto espaço-temporal de pesquisa, sugerindo os critérios de uma investigação na abordagem qualitativa, quando o registro detalhado se implica na interpretação do corpus. Nessa costura de procedimentos que se soma ao olhar analítico sobre a linguagem, considera-se a ambientação, a importância e especificidade dos participantes, as peculiaridades da instituição e o tipo de envolvimento que a pesquisadora ocupa na instituição pesquisada. Foi salientado que, como investigadora, ela se torna o principal instrumento de pesquisa e, à medida que isso ocorre, ela tem espaço para atuar tanto como sujeito participante como sujeito analítico. Portanto, após o levantamento acerca dos elementos que compõem os sujeitos e o entorno do objeto a ser analisado, parte-se para um detalhamento sobre os procedimentos de análise dos dados a serem escolhidos.