As preferências efetivas se determinam na relação entre o espaço das possibilidades e das impossibilidades oferecidas e o sistema das disposições [...] (BOURDIEU, 2009, nota 29, p. 84).
Os agentes se determinam em relações aos índices concretos do acessível e do inacessível, do “é para nós” e do “não é para nós”, divisão fundamental e tão fundamentalmente reconhecida quanto a que separa o sagrado do profano (BOURDIEU, idem, p. 106).
A definição adotada por Bourdieu acerca do foi pensada como um expediente para escapar ao paradigma objetivista do estruturalismo sem recair na filosofia do sujeito e da consciência, características do existencialismo sartriano. Aproxima-se da noção de Heidegger do “modo-de-ser no mundo”, mas tem características próprias. O 0 seria, assim, um sistema de disposições, modos de perceber, de sentir, de fazer, de pensar, que nos levam a agir de determinada forma em uma circunstância dada. As disposições não são nem mecânicas, nem determinísticas. São plásticas, flexíveis. Podem ser fortes ou fracas. Refletem o exercício da faculdade de ser condicionável, bem como, a capacidade natural de adquirir capacidades não- naturais, arbitrárias (BOURDIEU, 2001, p. 189).
Sendo adquiridas pela interiorização das estruturas sociais, tais disposições são de tal forma internalizadas que chegamos a ignorar que existem. São as rotinas corporais e mentais inconscientes, que nos permitem agir sem pensar. O produto de uma aprendizagem, de um processo do qual já não temos mais consciência e que se expressa por uma atitude “natural” de nos conduzirmos em um determinado meio. É composto pelo , os valores em estado prático, não-conscientes, que regem a moral cotidiana (diferente da ética, a forma teórica, argumentada, explicitada e codificada da moral, o ethos é um conjunto sistemático de disposições morais, de princípios práticos); pela ,& , os princípios interiorizados pelo corpo: posturas, expressões corporais, uma aptidão corporal que não é dada pela natureza, mas adquirida (Aristóteles) (BOURDIEU, 1984, p. 133); e pelo , um modo de pensar específico, apreensão intelectual da realidade (Platão, Aristóteles), que é princípio de uma construção da realidade fundada em uma crença pré-reflexiva no valor indiscutível nos instrumentos de construção e nos objetos construídos (BOURDIEU, 2001, p. 185).
89
Segundo Thiry-Cherques (2006) o é relativamente autônomo, encontra-se entre o inconsciente-condicionado e o intencional-calculado.
Não é destino: preserva uma margem de liberdade ao agente, não, certamente, a liberdade do sujeito sartriano, mas a liberdade conferida pelas regras dominantes no campo em que se insere. Ele contém as potencialidades objetivas, associadas à trajetória da existência social dos indivíduos, que tendem a se atualizar, isto é, são reversíveis e podem ser aprendidas (THIRY-CHERQUES, 2006, p. 34).
Reveste-se, pois, dos condicionamentos determinados pelo conjunto de experiências que formam a trajetória pessoal de um indivíduo. Não sendo destino, explicaria a aparência do acaso que se expressa na atração física, por exemplo, ou sentimental entre duas pessoas. Isto porque, sendo um sistema de disposições duradouras e transponíveis que, integrado a experiências passadas, funciona a todo momento como uma matriz de percepções, apreciações e ações capazes de moldar semelhantemente gostos e representações.
Esse “assemelhamento” deita suas raízes no processo em que se dá a construção do sujeito social e que, segundo Miceli (2007), deriva de “um conjunto de esquemas implantados desde a primeira educação familiar, e constantemente repostos e reatualizados ao longo da trajetória social restante” [...] (p. XLII). Baseado nisto Bourdieu demonstra que todas as práticas culturais (freqüência dos museus, concertos, exposições, leituras, etc.) e as preferências em matéria de literatura, pintura ou musica, estão estreitamente associadas ao nível de instrução (avaliado pelo diploma escolar ou pelo número de anos de estudo) e, secundariamente, à origem social (BOURDIEU, 2008 p. 9).
O resumo desses preceitos parece achar-se naquele conceito de Azevedo de que “acertam melhor no casamento as pessoas de idéias diferentes do que de ‘educação’ diferente” (1986, p. 54). Educação, nesse contexto, significa o domínio de hábitos, de gostos, de linguagem, de estilos de comportamento e de etiquetas próprios de cada classe. A questão das preferências e inclinações afetivas e da sensibilidade para os sentimentos, os modos de julgar, os prazeres é posta em destaque quando se assinala que duas pessoas se gostam quando possuem gostos semelhantes. As semelhanças que são caracterizadas como pertinentes ao casal seriam, portanto, produtos de uma experiência de exposição aos mesmos valores e representações de uma classe (ou grupo de classe) definida, o que dá origem à definição de presente na análise de Bourdieu31.
As estruturas sociais incorporadas por esse , reveladas, conforme descrevem Almeida, Sobral e Ferrão (1997), no modo como se fala e do que se fala, veste, anda, come, nos
31
Segundo Bourdieu o de classe é determinado pela forma incorporada da condição de classe e dos condicionamentos que ela impõe (2008, p. 97).
90
gostos, funcionam como as matrizes das atrações possíveis ou mesmo princípios de afinidade, ao mesmo tempo que recordam a cada um os limites sociais do seu desejo. Se, como analisa Woortmann (2002a), o de classe reflete um sistema de disposições internalizadas e naturalizadas, embora históricas, em relação dialética com determinadas práticas do grupo, a união de duas pessoas, com base nesses princípios de afinidade, é a presença operante de todo passado do qual ambos são o produto. Logo,
Se o sistema [leia-se casamento] pode funcionar na maior parte dos casos tendo como base critérios menos pertinentes do ponto de vista dos princípios reais de seu funcionamento, é primeiramente porque a educação familial tende a garantir uma correlação bastante estreita entre os critérios fundamentais do ponto de vista do sistema e as características primordiais aos olhos dos agentes (BOURDIEU, 2009, p. 264).
De modo que, produzindo práticas, individuais e coletivas, portanto, históricas, conforme os esquemas engendrados por um grupo determinado, o garante a presença ativa das experiências passadas que, “depositadas em cada organismo sob a forma de esquemas de percepção, de pensamento e de ação, tendem, de forma mais segura que todas as normas explícitas, a garantir a conformidade das práticas e sua constância ao longo do tempo.” (BOURDIEU, 2009, p. 90).
Ora, a hipótese é de que a inclinação para a semelhança social na escolha do cônjuge seja reflexo da tendência para a distinção entre as classes sociais, e que esta se assentou gradualmente através da incorporação dos mecanismos de seleção do parceiro no quadro do processo civilizacional que, segundo Norbert Elias (1990), caracteriza os países ocidentais desde a desintegração da sociedade feudal na Europa, definindo-se, entre outros aspectos, pela transformação simultânea das estruturas sociais e das estruturas psíquicas – ou – dos indivíduo. Logo, para Elias
São precisamente os medos [...] que se referem à perda de prestígio distintivo [...] que mais se prestam à interiorização [...] que, através da maneira como cada um dos membros desses estratos [sociais] é educado, nele se enraízam e convertem em medos interiores, os quais o mantêm automaticamente coagido sob pressão de um forte superego, independentemente de qualquer controlo de outras pessoas (1990, p. 262).
Associados a condicionamentos de uma classe particular de condições de existências, essas características, que se definem pelo (e definem) ,
atuam como princípios geradores e organizadores de práticas e de representações que podem ser objetivamente adaptadas ao seu objetivo sem supor a intenção consciente de fins e o domínio expresso das operações necessárias para alcançá-los, objetivamente “reguladas” e “regulares” sem em nada ser o produto da obediência a algumas regras e, sendo tudo isso, coletivamente orquestradas sem ser o produto da ação organizadora de um maestro (BOURDIEU, 2009, p. 87).
91
Neste sentido, o sistema de disposições incutida pelas condições materiais de existência e de educação familiar, as quais constituiriam, segundo Bourdieu, o princípio gerador e unificador das práticas modernas, é o produto das estruturas que estas práticas tendem a reproduzir de modo que os agentes possam apenas reproduzir, ou seja, imitar conscientemente ou reinventar inconscientemente, adequando a si ou de forma mais conveniente ou simplesmente mais cômoda, estratégias já comprovadas, uma vez que estas encontram-se orientadas de acordo com a lógica de um campo de ação próprio. Em todo caso, como a matriz que dá conta da série de estruturações e reestruturações por que passam as diversas modalidades de experiências diacronicamente determinadas dos agentes, o seria o dispositivo que regularia a conjuntura de eventos sobredeterminados, cuja “ausência de mastro” torna possível a idéia de destino para quem está apaixonado e sonha em casar.
Prova disto está no fato de que os casamentos estudados por Bourdieu no Beárn em Cabila são considerados parte das estratégias que garantem a continuidade da linhagem e a reprodução da força de trabalho, enquanto asseguram a transmissão do patrimônio e mantêm as famílias em sua hierarquia econômica e social. Estratégias que, incorporadas pelo , inscrevem-se no corpo, no indivíduo biológico, permitindo produzir a infinidade de atos de jogo que estão inscritos no jogo em estados de possibilidades e de exigências objetivas. As coações e as exigências desse jogo, como já assinalei em relação à teoria de Needham, ainda que não estejam reunidas num código de regras, impor-se-iam àqueles e somente àqueles que, por entenderem como se joga o jogo, isto é, o seu funcionamento, estão preparados para percebê-las e realizá-las.
Percebe-se então que não se deve colocar o problema em termos de espontaneidade e coação, liberdade e necessidade, indivíduo e social. O como sentido do jogo é jogo social incorporado, transformado em natureza. Nada, portanto, seria simultaneamente mais livre e mais coagido do que a ação do bom jogador (BOURDIEU, 2004, p. 82).
Dessa forma, as estratégias matrimoniais que Bourdieu estuda são o produto não da obediência à regra, mas do sentido do jogo que leva a “escolher” o melhor partido possível considerando o jogo que se tem para “jogar”, isto é,
[...] os trunfos e as cartas ruins (as moças particularmente), e a arte de jogar que se possui; é a regra explicita do jogo – por exemplo, os interditos e as preferências em matéria de parentesco ou as leis sucessórias – que define o valor das cartas (rapazes e moças, primogênitos e caçulas). E as regularidades que se podem observar, graças à estatística, são o produto agregado de ações individuais orientadas pelas mesma coações objetivas (as necessidades inscritas na estrutura do jogo ou parcialmente objetivas em regras) ou incorporadas(o sentido do jogo, ele próprio distribuído de modo desigual, por que em toda parte, em todos os grupos, existem graus de excelência) (2004, p. 82).
92
Bourdieu sugere, portanto, que toda família tem como objetivo único a manutenção ou a expansão de seu capital material e simbólico. No entanto, o casamento de cada um dos filhos de cada família representa um problema específico que necessita de diferentes estratégias para assegurar o fim desejado (BOURDIEU, 1990, p. 147). Como em um jogo de cartas, onde diferentes opções de jogada se colocam conforme o valor da carta, das outras cartas na mão e das regras do jogo, o casamento de cada indivíduo apresenta diferentes alternativas para maximizar os ganhos com a transação matrimonial.
Em seu estudo sobre as transações matrimoniais em Serro Verde, no interior de Minas Gerais, Piscitelli (1990) analisa que as opções de jogada em curso nas tramas matrimoniais de duas famílias locais dependeram da estrutura e das oportunidades que os casamentos ofereceram à reprodução dos seus membros. Baseada na idéia de que a escolha do cônjuge entre as famílias Morais e Pinheiro Leitão esteve durante todo o século XIX influenciada ao mesmo tempo pela tradição do nome e pela interferência do complexo do amor romântico, intimamente ligada à filosofia individualista, Piscitelli demonstra que as relações matrimoniais, ao longo das sucessivas gerações, se viu confinada à díade norma-afeto. Ou seja, mesmo as famílias operando como doadoras de posição social para sua descendência, onde o casamento entre iguais torna-se um elemento crucial na reprodução das hierarquias sociais, o convívio com a escolha livre implicou em uma forma de organização que ampliou o leque de alternativas a sua manutenção. Partindo da pergunta “Como se resolve o aparente paradoxo entre o amor- idéia individualista – e a manutenção dos limites eletivos?” a autora elege como fonte para sua investigação um estudo sobre a genealogia dos grupos. Por definição trata a família Morais como a proprietária de terra, enquanto a família Pinheiro Leitão como a que descendia dos antigos sitiantes do local, cuja trajetória política permitiu-lhes ascensão social.
Em ambas as famílias ocorreriam estratégias familiares implementadas, num e noutro caso, como meio de manutenção e aumento dos patrimônios. Segundo Piscitelli, em Serro Verde haviam sido criados
[...] critérios para a imposição, aceitação ou recusa de parceiro/a nas distintas gerações. Os critérios de seleção de cônjuge inter-relacionaram-se com o contexto político-econômico, com os aspectos demográficos, com a composição da estrutura familiar e com a etapa vivida pelos grupos de parentesco (1990, p. 54).
Exemplo disso é que, para as filhas da família Morais, as opções matrimoniais estavam em casamentos com filhos de agricultores, comerciantes e políticos, além da alternativa de se casar com os recém-chegados “oriundos de cidades consideradas mais sofisticadas, com educação superior e modos refinados”. A questão, todavia, impôs limites a partir do momento em que esta família dispunha de poucas filhas casadoiras ao longo de duas gerações sucessivas.
93
Segundo Piscitelli, a continuidade da fortuna da família Morais dependia, neste caso “exclusivamente das alianças realizadas pela descendência feminina” (1990, p. 61). Sua pesquisa sugere ainda que, em razão desse fator,
[...] em distintas gerações, as primeiras filhas que casaram estiveram mais expostas a uniões forçadas. Como as famílias conseguiram efetivar as alianças adequadas, parece que puderam ser mais flexíveis posteriormente. Casamentos que teriam sido conflitivos para a primogênita ou para a única filha mulher dentro da faixa etária habitual, puderam realizar-se com uma oposição infinitamente mais branda quando se tratou de irmãs menores ou de mulheres que, tendo superado a faixa dos 30 anos, tinham a certeza de não casar mais. Da mesma forma, a partir das primeiras décadas deste século, as jovens que casaram depois da morte paterna, gozaram de uma liberdade mais ampla para escolher o cônjuge (PISCITELLI, 1990, p. 75).
Como se vê, à medida que a estrutura do grupo viu habilitarem-se novas alternativas de arranjo, o casamento por livre iniciativa transformou-se num fenômeno que compunha sua própria organização. Além disso, os casamentos que Piscitelli considera “rebeldes”, transmitiram às gerações seguintes uma nova fórmula de operar as relações entre as famílias, advertindo que casamentos exclusivamente endogâmicos colocavam em risco sua própria continuidade biológica. Nesses envolvimentos entre “rebeldes”, o amor e o sistema matrimonial adquiriam sentido no espaço ocupado pelas mulheres no universo simbólico das famílias da cidade, e, particularmente, do papel que desempenharam no desenvolvimento das estratégias familiares de reprodução, o que era um risco ainda maior, haja vista a hierarquia entre os gêneros nas decisões familiares.
Na tentativa de evitar que esses fenômenos prejudicassem o grupo, preferiu-se, muitas vezes, realizar casamentos entre pessoas inferiores na hierarquia familiar com candidatos/as de fora da família, alternativa que oferecia como benefício um novo modo de operar os relacionamentos familiares, uma vez que favorecia os laços de solidariedade dentro dos grupos de parentesco, particularmente os masculinos. Esses laços, que a autora considera “verticais”, isto é, “entre uma geração e a seguinte”, também eram importantes neste cenário. Na visão de Piscitelli “Através [deles] se estabeleciam ocupações e uma série de créditos e proteções por parte dos parentes mais poderosos em relação aos mais fracos em termos políticos e econômicos; estes, em contrapartida ofereciam trabalho e, sobretudo, absoluta lealdade política.” (1990, p. 108-9)
Com o advento do século XX essas trocas matrimoniais foram influenciadas por uma série de novidades relativas às escolhas de cônjuges e à transmissão de propriedade. Segundo os relatos e narrativas colhidos por Piscitelli “pertencer aos grupos de parentesco adquire significados distintos na medida em que vão se consolidando as hierarquias internas das parentelas”. Segundo ela,
94
“[...] os relatos sugerem que este processo de diferenciação desenvolveu-se conjuntamente com uma mudança de ênfase nas redes de solidariedade. Os laços de solidariedade econômica, que continuaram acontecendo entre os homens do grupo, passaram a ser predominantemente horizontais. Em outras palavras, empréstimos e diversos tipos de alianças estabeleceram-se entre os homens da mesma geração e, preferentemente, de posição econômica equivalente. Estas transformações começam a ocorrer nos anos posteriores ao casamento de Frederico Pinheiro Leitão.
“Os laços de solidariedade verticais, por sua vez, passam a ocorrer no universo feminino do grupo, expressando-se através de auxílios e favores concedidos entre as mulheres das parentelas. As mulheres mais ricas protegeram sobrinhos e sobrinhas pobres – geralmente afilhados e afilhadas – oferecendo aos primeiros oportunidades de trabalho e estudo e promovendo alianças vantajosas para as segundas. Apenas excepcionalmente as irmãs consideradas mais ricas ajudaram as mais pobres, incentivando a atuação dos maridos em casos de empréstimos para situações de emergência. Creio que esta mudança no direcionamento das redes de reciprocidade familiar relaciona-se com a drástica redução de casamentos consangüíneos que se observa nos dois grupos a partir das alianças da quarta geração.
“Nas últimas gerações – quarta e quinta – a presença de solteiros parece ter tido, ao menos entre as famílias das camadas altas, um sentido estratégico que deve ser associado a uma nova tendência nos casamentos femininos e na transmissão de propriedade. As jovens deveriam casar agora com iguais ou realizar casamentos hipergamicos. Dentro dos grupos de siblings tanto os homens solteiros quanto suas irmãs casadas e solteiras deixaram a administração de suas terras em mãos de algum irmão. Este, a partir da acumulação das rendas das terras familiares, teria mais fácil acesso a construção da riqueza pessoal, à compra das terras de seus siblings depois da morte dos pais e ao casamento com uma mulher rica” (PISCITELLI, 1990, p. 109-11).
Neste sentido, as famílias optavam por garantir a manutenção do patrimônio econômico familiar por via masculina e permitiam que os filhos casassem com moças pobres. Simultaneamente, exigiam que as filhas, que seriam menos favorecidas economicamente, realizassem casamentos com jovens que recebessem o mesmo tratamento que seus irmãos, ou que gozassem de posição econômica superior. Logo, ao mesmo tempo que acolhiam carinhosamente suas noras consideradas pobres, as famílias reprimiam as relações amorosas de suas filhas com rapazes do mesmo nível das noras.
Outro detalhe importante dentro desse processo está no fato de que, em termos de escolhas conjugais, a família Pinheiro Leitão, segundo Pisicelli - mais flexível em seus arranjos – , delimitou, a partir da quarta geração, um universo mais amplo de cônjuges possíveis. Os Morais, por sua vez, presos a um , recusavam-se a casar com forasteiros. Os Pinheiro Leitão, para quem as restrições ao casamento pareciam estar diretamente ligadas ao capital econômico possuído, contraíram matrimônio com italianos considerados ricos.
Num nível mais profundo, os processos de escolha do cônjuge ocorridos entre as duas famílias estudadas por Piscitelli ajustam-se ao intento de transformar a estrutura sem romper com normas homogâmicas. O , portanto, enquanto conjunto de disposições que funcionam como estruturas estruturadas, mas também como estruturas estruturantes, estariam, neste caso, dotados da suficiente flexibilidade para possibilitar a recriação das práticas do passado em função de novas situações.
95
Bourdieu indica que isso ocorre porque o possibilita a improvisação de práticas eficazes em uma infinidade de situações específicas e o ajustamento constante do comportamento na interação com os outros, sem escolhas deliberadas, que muitas vezes só complicariam a realização de resultados apreciados (BOURDIEU e WACQUANT, 1992).
Sendo flexível conforme a conjuntura das situações o exige, o torna-se um princípio adaptativo das revoltas ou resignações. Isto é, mesmo quando pensam nas suas escolhas, os indivíduos, por meio do e do conhecimento prático, vêem moldadas a definição do problema, limitadas as ações pensáveis e definidas as estratégias para resolvê-lo. Não sendo coordenado por princípios de natureza consciente, reveste-se, portanto, de espontaneidade para tornar admissível uma reestruturação do sistema, tornando, por exemplo, os amores rebeldes mais que rupturas, porque nestes há princípios de transformação que buscam