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2.3 Tècniques de segmentació

3.1.2 Algorisme

O ato de escolher é como o oxigênio em nosso corpo: um elemento indispensável à ação. Uma vez que se expressa através das alternativas a que se é exposto cotidianamente, escolher indica que cada indivíduo deve agir.

Se acordarmos indispostos e sem vontade de levantarmos da cama é muito provável que continuemos deitados. Se estivermos doentes é tácito considerar que escolher continuar deitado nos auxiliará em nossa reabilitação. Caso contrário, avaliar-se-ão as conseqüências desse ato: dormir indeterminadamente até o momento que se é assolado pela fome; ressentir-se das penalidades pela falta ao trabalho ou à aula; ser considerado preguiçoso. Caso se esteja querendo bater algum recorde de horas deitadas na cama, a fama pode ser uma alternativa – a se verificar

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pelas bizarrices contidas no Guiness Book. Enfim, há muitas opções para quem acorda e tem que decidir se levanta ou não, o que nos leva a concluir que escolher é um fato inalienável, pois até mesmo recusar uma alternativa é também fazer uma escolha.

Estar diante de alternativas leva-nos, portanto, a considerar que o ato de escolher exige uma avaliação de possibilidades. Neste sentido, a escolha de um cônjuge, por exemplo, seria um processo de avaliação do que se espera obter com o casamento.

O casamento ocupa um lugar no imaginário social que leva as pessoas a avaliarem seu significado e a necessidade de contraí-lo. Em se tratando de uma instituição que tem como objetivo a união de indivíduos para formar uma família, as trajetórias sociais são uma importante referência nesta avaliação, pois orientam os indivíduos a considerar o encontro e as aparências dele provenientes o resultado das experiências familiares e/ou sociais do grupo ao qual o indivíduo pertence. Assim, minha perspectiva é de que o casamento, vivido como valor na sociedade moderna, leva os indivíduos a se interessarem por uma relação conjugal em razão das avaliações que fazem um do outro. Neste sentido, o contexto em que se produz tal avaliação, que num primeiro momento é de caráter objetivo (em função de derivar da curiosidade por se conhecer o outro) e depois experiencial (fruto do convívio e da avaliação dos significados atribuídos a quem se quer como esposo/a), é importante para se saber quem é o par ideal. Logo, para que duas pessoas se interessem uma pela outra e decidam que ambas devem se casar é necessário compreender como o discurso do casamento é incorporado na experiência social a fim de se avaliar qual indivíduo é o cônjuge ideal.

A personalidade de cada um é um fator determinante nesse processo, pois sinaliza as características que tornam acessível o contato e a exposição sensorial entre as pessoas. Todavia, não basta que as pessoas tenham personalidades semelhantes (o “algo em comum” ou a “afinidade espontânea”, como diria Bourdieu [2008]) para que elas se interessem umas pelas outras e venham a casar, é necessário que haja condições objetivas para isso.

A primeira delas é, obrigatoriamente, que elas se encontrem, se conheçam e saibam da existência uma da outra. Logo em seguida, que haja a oportunidade de elas se comunicarem. A cada uma dessas condições nós podemos denominar “eventos”, pois cada um desses fragmentos do processo de relacionamento entre duas pessoas faz parte de uma cadeia, na qual vários outros eventos permitem aos parceiros interagir e conviver, afim de que mutuamente avaliem a possibilidade de continuarem juntos e de poderem se casar.

Mas tudo isso está assentado em interpretações, o que significa dizer que cada um, ao avaliar o que é interessante no outro, atribui sentido às práticas, ações e comportamentos num

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contexto de interações. O contexto seria, neste sentido, o fator explicativo para determinadas ações individuais, quer seja um olhar ou simples passar de mão nos cabelos.

Um olhar pode exprimir raiva, desejo, representar um flerte ou, em companhia de um “beiço” 6, apontar para alguma coisa, pessoa ou lugar. Mexer nos cabelos tanto pode ser o reflexo de um incômodo (o vento colocando-o sobre a face; um parasita em ação), como também sinalizar a alguém que se quer ser cortejada. Por ser qualquer coisa, flertar ou balançar o cabelo são aspectos da expressão corporal humana, mas que adquirem significados que lhes são particulares, e que, às vezes, dão a oportunidade para o contato, a conversa e (quem sabe) uma paquera que levará duas pessoas ao casamento.

Se duas pessoas se encontram e tomam esses como acaso ou destino de seu relacionamento – conforme tenham a crença de que isso se manifesta enquanto princípio da relação entre os dois –, o que podemos pensar então sobre o meio em que se operou tal relação? Não podemos esquecer que o que ocorre com um pessoa, do ponto de vista social, está intimamente ligado a uma cadeia de eventos, que se reflete nos outros, dado estarmos todos num campo de múltiplas interações, – uma rede, diria Bott (1976) – onde tudo o que se faz (caso se queira expressar) é sempre uma demonstração do que se é ou o que se quer ser perante alguém.

Assim, o meio onde ocorre a troca de experiências e o aprendizado que formam os gostos, os valores e as visões de mundo dos indivíduos não está isento de interferir no assemelhamento entre as pessoas. Isto por que, em razão da necessidade de se socializarem, elas elaboram roteiros de vida com itinerários provavelmente muito semelhantes, tornando possível que a cada evento social crie condições para que elas se cruzem e considerem semelhantes suas preferências e interesses. Dessa maneira, tudo que é considerado coincidência no início de um relacionamento – freqüentar os mesmo lugares, escutar a mesma música, possuir os mesmos objetivos – faz parte de uma rede que agrupa pessoas que resolvem seguir o mesmo caminho.

O fato é que o meio em que se atam e se desatam os nós dessa rede forma o que chamamos de estrutura social; e as escolhas decorrentes dos inúmeros eventos que colocam as pessoas em contato contribui para a reprodução das relações existentes nesta estrutura social.

Marshall Sahlins (2008), pesquisando sobre o sistema de significados sobre o qual se baseava a sociedade havaiana à época do contato com a tripulação do Capitão Cook, considera que a reprodução das relações entre as pessoas é o que leva à existência da cultura. Pensada

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Refiro-me a uma expressão facial utilizada pelas pessoas que habitam a cidade de Belém para indicar um lugar específico. É geralmente utilizada por pessoas idosas ou oriundas do meio rural e ribeirinho, mas de tão comum é recorrente entre jovens (de forma jocosa) e no meio familiar. Usar o “beiço” significa informar o lugar a quem está interessado e, neste sentido, se manifesta por meio da contração da musculatura entorno da boca (lábios) do informante, em que se forma um bico, seguida de um movimento com o pescoço (prolongamento) indicando a direção que se deve seguir.

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como um recurso utilizado para compreender os padrões de uma sociedade, a reprodução das relações sociais, neste sentido, serviria como referência para a elaboração de um imaginário sobre as práticas das pessoas que formam uma sociedade. Inseridas num contexto e sob determinadas circunstâncias esse imaginário produz classificações. Logo, se a estrutura social de determinado grupo envolve uma rede de relações, é certo que a cultura classifica e distingue os indivíduos, por meio dessas relações.

A existência da rede como estrutura social implica, pois, a idéia de que a cultura é conjuntura, na medida em que estabelece parâmetros de significação do sujeito e exerce sobre ele o poder de determinar suas práticas. Segundo Sahlins,

[...] a conjuntura possui uma estrutura, e esta se constitui de relações sociais mediadas por signos com valores distintos em função do seu papel no esquema simbólico coletivo e na prática das pessoas (2008, p. 14)

Portanto, se para entendermos a história de um indivíduo precisamos recorrer a sua trajetória pessoal, o meio social do qual ele faz parte e que forma sua cultura representa o da produção de sentidos para suas ações. O que significa dizer que o conjunto de eventos que marcam a trajetória de uma dada pessoa, considerando os dispositivos que ela utiliza para se ajustar a uma determinada prática social – escolher alguém para casar, estudar para passar num exame, planejar uma viagem – se adapta a uma conjuntura na qual suas práticas encontram-se ajustadas a práticas de outras pessoas, muito embora estejamos habituados a crer que a afinidade entre as pessoas seja o resultado de coincidências, acasos ou destinos pré-determinados.

É importante ressaltar que essa formulação teórica parte do pressuposto de que, num dado contexto, os indivíduos envolvidos em uma certa relação traduzem o que aprenderam, vendo, ouvindo e sentindo, segundo o significado atribuído as suas experiências e de acordo com as variáveis em jogo. Neste sentido, o fato de no casamento haver um imaginário do sentimento de felicidade e da realização pessoal, onde as pessoas sentem-se obrigadas a seguir padrões como fidelidade, lealdade e companheirismo, fazem de cada um o juiz de si, avaliando seus próprios comportamentos, a fim de que sejam aceitas pelos seus possíveis pretendentes.

Como se verá adiante, a conjuntura que ainda leva a maioria das pessoas a crer nesse modelo de casamento estrutura-se sobre um " 5 (o amor romântico) que os envolve numa cadeia de representações sobre normas econômicas, filosóficas, morais, educacionais, demográficas e todo um conjunto de justificativas que é-lhes apresentada para explicar o porquê de ser “normal” na sociedade moderna a união com fim exclusivo de realização pessoal. Isso ocorre porque a prática, antes de qualquer coisa,

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[...] possui sua própria dinâmica – um “estrutura da conjuntura” – que, significativamente, define as pessoas e os objetos que dela tomam parte. E esses valores contextuais, quando diferentes das definições culturalmente pressupostas, têm então a capacidade de atuar sobre os valores convencionais. Acarretando relações sem precedentes entre os sujeitos atuantes, mutuamente e em relação a objetos, a prática acarreta objetificações sem precedentes de categorias (SAHLINS, 2008, p. 72).

Chegamos assim, ao ponto central do problema: se as escolhas emergem num contexto de possibilidades (casar/ficar solteiro, estudar /trabalhar, casar com fulano/sicrano/beltrano), que papel desempenhamos nesse processo – que é o de avaliar as possibilidades? Escolhemos ou somos escolhidos? Arbitramos segundo o julgamento do que nos é conveniente ou estamos submetidos a uma estrutura de acontecimentos (eventos) que arbitram por nós, fazendo-nos julgar conveniente o que a própria estrutura toma como coerente para si?7

Ora, se fazemos escolhas, temos de considerar que o nosso papel é o de avaliar o leque de possibilidades que se nos apresenta como possibilidades efetivas de realização. Logo, escolher não é só arbitrar sobre algo, mas avaliar o papel que se desempenha neste processo. Nessas escolhas, onde o que está em jogo é o futuro, construímos modelos de ação que nos servem como referência para eleger, dentre alternativas disponíveis, aquelas que mais se adéquam à conjuntura da qual se participa.

Assim, e dentro dos limites da informação disponível, as pessoas tenderiam, portanto, a escolher a linha de conduta mais eficaz para conseguir realizar seus objetivos num dado contexto. Significa então, que as pessoas possuem aspirações e agem na intenção de realizá-las, mesmo que não avaliem as alternativas antes de “escolher” um rumo de ação. Todo pesquisador, mesmo baseado numa seqüência de evidências inter-relacionadas, teria, então, de levar em conta que, na maioria das vezes, as pessoas seguem alguma estratégia já conhecida, que funcionou para outro problema parecido ou observam como outras pessoas solucionam problemas parecidos, o que implica um viés conservador a favor de conhecimentos e procedimentos já comuns no ambiente do ator. Portanto, para entender a estratégia observada, é necessário que se leve em consideração a história e a cultura particular do grupo no contexto específico em que se estuda um dado sistema de escolha8.

Uma vez avaliada, a discriminação sobre a natureza e o sentido da escolha efetuada ocuparia a função de atender às demandas do meio social (sistema) em que a mesma se realizou, o que corresponde, neste caso – a se avaliar se um cônjuge é ou não útil, em se tratando de

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Aqui não estou falando de um Deus ou “maestro” (cf. BOURDIEU, 2009, p. 87), ao qual estamos submetidos como marionetes num teatro de bonecos, mas de uma rede de relação sociais que arbitram sobre nós, levando-nos a seguir trajetórias de vida pré-determinadas.

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Monsma (2000) chega a afirmar que “Para evitar o objetivismo e o universalismo da escolha [...], é essencial reconhecer que os atores não existem fora do contexto social, que as formas da racionalidade variam com a natureza das disposições e dos esquemas de percepção internalizados em contextos específicos” (MONSMA, 2000, p. 86).

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casamento – à conveniência de enfrentar os riscos provenientes dela, que se dá em dois níveis: o pessoal e o familiar, ambos mensuráveis conforme o prestígio ou a satisfação proporcionada pela escolha realizada.

Como cada escolha oferece condições diferentes de avaliação do contexto em que a mesma se produziu, suas conseqüências, em termos de prestígio e satisfação, só podem ser consideradas relevantes se analisado o espaço de tempo em que ela se deu. Logo, escolhas consideradas rápidas de um ponto de vista cronológico em relação àquelas que levam mais tempo e são frutos do que se considera uma reflexão mais acertada, determinam tipos diferentes de avaliação sobre a mentalidade de uma pessoa ou grupo social. Não seria por outra razão, portanto, que as escolhas entre pessoas que moram na cidade em relação as que moram no campo, ou as de gerações anteriores em relação a nossa, diferem em sentido e função, pois uma e outras são regidas por processos distintos, que se expressam segundo a evolução dos meios de comunicação, da ampliação e distribuição de renda, do melhoramento genético, do aumento demográfico, do crescimento urbano, da melhoria da qualidade de vida, entre outros fatores que contribuem para uma elevada quantidade de eventos e probabilidades de satisfação e realização pessoais9.